Numa manhã de votação que parecia como todas as outras, na capital de um país imaginário, os funcionários de uma das seções eleitorais se deparam com uma situação insólita, que mais tarde, durante as apurações, se confirmaria de maneira espantosa.
Aquele não seria um pleito como tantos outros, com a tradicional divisão dos votos entre os partidos "da direita", "do centro" e "da esquerda"; o que se verifica é uma opção radical pelo voto em branco. Usando o símbolo máximo da democracia - o voto -, os eleitores parecem questionar profundamente o sistema de sucessão governamental em seu país.
É desse "corte de energia cívica" que fala Ensaio sobre a lucidez (2004). Não apenas no título José Saramago remete ao seu Ensaio sobre a cegueira (1995): também na trama ele retoma personagens e situações, revisitando algumas das questões éticas e políticas abordadas naquele romance.
Ao narrar as providências de governo, polícia e imprensa para entender as razões da "epidemia branca" - ações estas que levam rapidamente a um devaneio autoritário -, o autor faz uma alegoria da fragilidade dos rituais democráticos, do sistema político e das instituições que nos governam.
O que se propõe não é a substituição da democracia por um sistema alternativo, mas o seu permanente questionamento. É pela via da ficção que José Saramago entrevê uma saída para esse impasse - pois é a potência simbólica da literatura (território em que reflexão, humor, arte e política se entrosam) que se revela capaz de vencer a mediocridade, a ignorância e o medo.
Opinião do leitor
...podemos imaginar o que existe por trás da política, dos políticos no poder, como desperta e nós a indignação e revolta, manipulação, injustiça, é isso mesmo em qualquer lugar!
Carlos, 04/05/2007
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Continuação de "Ensaio sobre a Cegueira"? Não exatamente. Saramago parte do mesmo princípio para denunciar a venda posta nos olhos da humanidade, que retira a lucidez. Trata-se de um libelo em favor da liberdade, não uma defesa desvelada ao voto em branco. Parábola sobre o processo democrático de escolha de representantes políticos, quando nuitos mostram-se indignos de representar o povo. Reflexão política, cuja apreensão do conteúdo é melhor se for lida após "Ensaio sobre a Cegueira".
Elson Teixeira Cardoso, Bauru, 10/12/2006
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É uma grande obra, muito embora inferior ao melhor de Saramago. Um texto atual, forte e assustador. Faz parte de um rol de literatura com forte conteúdo poltico, relatando o quanto um Governo pode ser autoritário em nome do "fortalecimento democrático" ...
Francisco Miguel, São Paulo, 15/05/2005
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O "Ensaio sobre a cegueira" nos causa comoção, "Ensaio sobre a lucidez" nos causa revolta diante dos métodos aplicados em busca de uma "verdade" pré estipulada! Maravilhoso como somente Saramago pode ser! Atual e obrigatório!!