Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. No trajeto, o leitor revisitará episódios bíblicos conhecidos, mas sob uma perspectiva inteiramente diferente.
Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.
A volta aos temas religiosos serve, também, para destacar o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: aqui, a capacidade de tornar nova uma história que conhecemos de cabo a rabo, revelando com mordacidade o que se esconde nas frestas dessas antigas lendas. Munido de ferina veia humorística, Saramago narra uma estranha guerra entre o homem e o senhor. Mais que isso, investiga a fundo as possibilidades narrativas da Bíblia, demonstrando novamente que, ao recontar o mito e confrontar a tradição, o bom autor volta à superfície com uma história tão atual e relevante quanto se pode ser.
Opinião do leitor
A leitura de Caim soa como música aos ouvidos, um verdadeiro deleite. Em um mundo ainda dominado pelas mais injustificáveis crenças, superstições e pensamentos mágicos, tudo institucionalizado pela igreja, Saramago, aos 86 anos (quando do lançamento do livro), nos com a sua razão raciocinante através desta obra excepcional. Nosso herói da língua portuguesa oferece ao mundo, através do romance Caim, tudo o que ele mais precisa: lucidez.
Marcelo Henrique, Macau/RN, 05/12/2009
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Como todos os livros do Saramago, este é indescritivelmente magnífico! Desde sua dedicatória à Pilar... como gostaria de sê-la por um dia apenas, para poder desfrutar de tamanha delicadeza e sabedoria, que somente Saramago consegue traduzir em seus livros. É uma pena que, por vezes, às pessoas não conseguem ler uma obra desta e separar o que é fé, a instituição igreja católica e toda e qualquer religião.
Adriane Valéria Silva, Medianeira/PR, 22/11/2009
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Como todos os livros do Saramago, este é indescritivelmente magnífico! Desdesua dedicatória à Pilar... como gostaria de sê-la por um dia apenas, para poder desfrutar de tamanha delicadeza e sabedoria, que somente Saramago consegue traduzir em seus livros. É uma pena que, por vezes, às pessoas não conseguem ler uma obra desta e separar o que é fé, a instituição igreja católica e toda e qualquer religião.
Adriane Valéria Silva, Medianeira/PR, 22/11/2009
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Um livro que meche com a forma de pensar de qualquer leitor. Recomendo, para leitores que estejam livres de dogmas religiosos... Ótimo livro
Diego Farias, Santa Cruz-RN, 21/11/2009
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No mesmo ritmo de O Evangelho segundo Jesus Cristo e A Viagem do Elefante, Caim só pode nos encantar e admirar a genialidade de Saramago, o maior escritor da atualidade.