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Companhia das Letras
MÃOS DE CAVALO
Daniel Galera



O CICLISTA URBANO

Não há terreno impossível para o Ciclista Urbano. Suas pernas possantes forçam alternadamente os pedais, direita, esquerda, direita, esquerda, medindo a inclinação da subida a partir da força exigida dos músculos da coxa e da panturrilha em cada volta completa da coroa dianteira. As solas dos pés e as palmas das mãos processam cada vibração transferida dos pneus para o guidom e para o quadro da bicicleta, fazendo microajustes de direção e equilíbrio numa velocidade mais rápida que a do pensamento. O trecho de subida que é preciso enfrentar ao sair de casa é curto e serve para azeitar as articulações e aquecer os músculos. Logo chega na rua do Canteiro. São duas faixas de calçamento de pedra, em declive, separadas por um canteiro central gramado. Cinco quarteirões até chegar na Faixa. Conhecer cada metro daquele trajeto de cor não torna o desafio menos perigoso para o Ciclista Urbano. De uma semana para outra, muita coisa pode mudar. Um morador da rua do Canteiro pode decidir construir uma nova rampa para estacionar com mais conforto seu carro dentro da garagem de casa, e para isso é possível que ele seja obrigado a depositar montanhas de areia, brita e cimento no meio da calçada, um exemplo de obstáculo mutante que o verdadeiro Ciclista Urbano precisa estar preparado para enfrentar. Há cães que disparam como foguetes de trás dos muros para tentar sentir o gostinho de seu prato favorito, a canela de um ciclista desavisado. Até as árvores, aparentemente um elemento pacato e inofensivo do mundo natural, de uma semana para outra expandem seus galhos e raízes e podem atravancar o caminho do Ciclista. O mato das calçadas cresce e oculta pedras, buracos e tijolos que podem surpreender e provocar acidentes seríssimos dos quais apenas um ciclista muito habilidoso e experiente sairá ileso.
O dia está propício a um passeio de alto risco e velocidade. O clima é frio, um vento gelado de média intensidade e céu limpo. Embora o vento cause um certo desconforto ao fustigar o rosto e dificultar a respiração do Ciclista, contribui para diminuir a transpiração, reduzindo assim a necessidade de secar o suor que ensopa os olhos e o risco da mão escorregar pelos manetes de plástico da bicicleta, acidente cujo preço não seria menor que alguns dentes e costelas quebrados.
Na rua do Canteiro, reduz a velocidade da bicicleta até quase parar e permanece alguns segundos observando a descida de cinco quarteirões que se estende à sua frente como a garganta de um imenso paquiderme. Permanecer assim imóvel sem tocar os pés no chão exige uma técnica muito apurada e uma sintonia irretocável entre ciclista e bicicleta, sintonia que o Ciclista Urbano sem dúvida nenhuma possui com sua antiquada porém feroz Caloi Cross aro 20 com freio de pé, branca com adesivos de enfeite azuis, com pneus-balão vermelhos de garras salientes no lugar dos pretos e finos originais de fábrica, pouco adequados à velocidade e ao terreno do ciclismo urbano de elite.
Após esses segundos iniciais de avaliação do percurso, que inclui checar a presença ou não de automóveis subindo ou descendo a rua, a presença ou não de transeuntes ou animais nas calçadas, a umidade ou não do terreno, a intensidade do vento e estimativa das possibilidades de chuva, entre outros itens a serem conferidos, e já certo, após uma checagem cuidadosa ainda na garagem de casa, de que a bicicleta se encontra em perfeitas condições de manutenção, o que inclui averiguar o alinhamento das rodas, regulagem dos raios, funcionamento do freio, pressão de ar nos pneus e lubrificação da correia, rolamentos e coroas (algumas gotas de óleo Singer sobre as principais peças articuladas são indispensáveis), o Ciclista Urbano se joga ladeira abaixo pedalando numa velocidade suicida que deixa perplexo qualquer observador.
Com um punhado de giros nos pedais, a velocidade cresce tanto que a trepidação das rodas contra as pedras da rua se torna quase insuportável. Mas o Ciclista conhece bem aquele trecho e sabe que precisa agüentar com os pulsos firmes por mais alguns instantes até que, numa manobra angulosa para a esquerda que pareceria loucura a um ciclista comum, ele salta sobre o canteiro central da rua do Canteiro aproveitando um ponto rebaixado do meio-fio, cruza a pista oposta, sobe na calçada em trajetória diagonal por uma rampa de garagem e maneja com destreza o guidom da bicicleta para fazer uma rápida correção da roda para a direita, bem a tempo de evitar o choque frontal com um muro de cimento sem reboco cuja superfície parece bastante aderente a pedaços de pele e carne humana. É o primeiro ponto delicado, de um total de cinco, no percurso que ele completará hoje, supondo, é claro, que não haja surpresas. Atravessa agora as calçadas de cinco casas em seqüência, sem grandes desníveis ou mudanças de terreno, de modo que o Ciclista se sente à vontade para relaxar por alguns segundos, reacomodar a palma das mãos nos manetes, afrouxar a tensão dos joelhos e cotovelos e apreciar rapidamente a vista até que o olhar trave na água do Guaíba lá longe, salpicada do branco das velas dos veleiros. À sua direita, agora, os quarteirões são ocupados por casas construídas há não mais de um ano, várias delas com a pintura e as telhas ainda imaculadas, separadas entre si por miniaturas de matas fechadas. À sua esquerda predomina um terreno árido coberto por longas faixas de areia dura, alaranjada e erodida que se estendem em declive até a base do morro e dão lugar a uma zona plana onde ruas rigorosamente retas delimitam quarteirões retangulares subdivididos em lotes à venda. O loteamento da zona sul de Porto Alegre é novo e pouca gente, até o momento, se motivou a estabelecer moradia por ali. O Ciclista é um pioneiro decidido a mapear com suas rodas destemidas cada metro desta zona inóspita. Um cruzamento. Os ouvidos fazem rápida sondagem em busca da ameaça potencial de veículos motorizados. Negativo. Apenas o canto repetitivo dos passarinhos. Um salto do meio-fio para a rua, trepidação. Empina a roda da frente, volta a subir na calçada, desvia do toco de uma árvore serrada que ainda borbulha resina e então chega ao segundo ponto delicado, uma seqüência de três entradas de garagem adjacentes, cada qual marcando um novo desnível na pista. O Ciclista gira os pedais para trás e aplica leve pressão no freio, entrando nos saltos consecutivos com a velocidade exata. Pula, pula, pula. O suor já escorre em gotas salgadas pelas têmporas, se acumulando no lábio superior. A calçada de arenito desaparece de repente e dá lugar a um mato rasteiro que oculta um emaranhado de raízes de árvores. É o terceiro ponto delicado, talvez o mais perigoso de todos, porque as raízes ficam ocultas no capim e por mais que ele passe por ali é impossível decorar a posição de todas elas. Aqui o Ciclista Urbano reconhece a impotência de seu planejamento. O terreno dá as cartas e decide se você vai cair ou não, tudo que se pode fazer é aplicar força extra nos punhos e tomar o cuidado de deixar as articulações dos braços e das pernas relaxadas para atuarem como amortecedores naturais, deixando uma folga maleável para que a bicicleta transmita o impacto aos músculos. O importante é que o equilíbrio do conjunto seja mantido enquanto se cruza o capim repleto de armadilhas de madeira viva que podem conter ainda o requinte de um caco de vidro, uma lata enferrujada ou um gambá morto. Quando chega no final da calçada, tudo ainda está sob controle. Desce mais um meio-fio mas não retorna para a calçada, pois sabe que mais adiante ela desembocará num longo trecho intransponível de mato fechado. Um Ciclista Urbano de elite precisa dominar antes de tudo a arte de manter sua atenção ao mesmo tempo na roda dianteira da bicicleta, nos poucos metros à sua frente e no que se anuncia mais adiante, a algumas dezenas de metros. Ignorar esse fundamento é uma negligência que pode custar caro quando se percorre um terreno tão selvagem e imprevisível a uma velocidade tão elevada. Graças a seus dons de observação ele já sabia há muito tempo que não subiria na calçada naquele ponto, mas seguiria em frente pelo meio da rua, suportando uma nova bateria de trepidação intensa contra as pedras da via até chegar ao fim da rua do Canteiro, ao quarto ponto delicado, ou seja, à Faixa.
A Faixa é uma avenida asfaltada. O percurso prevê somente uns cinqüenta metros sobre a via, até que se possa pegar a rua da Sombra à direita e seguir por ela até o objetivo final, a avenida Guaíba. Cinqüenta metros de asfalto lisinho e dócil seriam para um Ciclista Urbano como uma maçã raspada no prato, para comer de colherinha, com açúcar. Mas quando esse trecho de asfalto está sendo percorrido nos dois sentidos por carros, ônibus, caminhões e carroças, e você chega até ele por uma rua perpendicular com calçamento de pedra numa velocidade de mais ou menos quarenta quilômetros por hora, ou onze metros por segundo, isso transforma o tal trecho de asfalto no ponto delicado número quatro do percurso. A seu favor, o Ciclista Urbano deve ter uma bicicleta muito leve e despojada, como a Caloi aro 20 com freio de pedal, para lidar com situações como essa. Ele não usa capacete, luvas, pedaleiras nem bermudas de lycra coladas nos fundilhos. Isso é coisa de mulherzinha. O Ciclista Urbano usa tênis comuns, bermuda comum bem solta e arejada e uma camiseta de manga curta no verão e comprida no inverno. E só. Um boné pode ser admitido em dias de chuva ou nos horários de sol muito forte. Quanto ao freio de pedal, o Ciclista sabe que é desprezado pela maior parte dos ciclistas, que o consideram ultrapassado, inseguro e de difícil operação. De fato, o freio de pedal, ou freio de pé, exige muito treino para ser dominado. Mas uma vez que se alcança esse domínio pleno, jamais se deseja passar para um freio moderno, de alavanca no guidom. Confiando no seu freio de pé, o Ciclista Urbano trava o cubo da roda traseira com um giro rápido dos pedais para trás e começa a derrapar sobre o calçamento. A fina camada de areia e pedregulhos que cobre a pista nos metros finais da rua do Canteiro influencia o comportamento da bicicleta, reduzindo a aderência ao solo a um nível ínfimo. Isso, é claro, foi calculado pelo Ciclista, que elabora um diagnóstico visual do tráfego em ambos os sentidos da Faixa e decide que nem mesmo precisará brecar totalmente. Pelo contrário, ele passa com habilidade da derrapagem para a aceleração e cruza o asfalto da Faixa enquanto é observado por duas mulheres que aguardam o ônibus na parada, espantadas com sua audácia. Não há tempo para se exibir. A velocidade aumenta cada vez mais no asfalto, seis, sete, dez metros por segundo, e agora uma curva aberta para a direita, perfeita e segura. Na rua da Sombra, o calçamento é ainda mais irregular que na rua do Canteiro. Torna-se obrigatório seguir por um dos dois passeios públicos. O da direita proporciona o percurso mais emocionante. Mesmo compenetrado, o Ciclista Urbano saboreia seu segredo, a calçada das ruas residenciais das grandes cidades. Ninguém mais reconhece as calçadas como o terreno definitivo para o exercício do ciclismo radical de alto nível e periculosidade. Ele desenha um S, contornando duas árvores em seqüência, a primeira pela direita e a segunda pela esquerda. Em primeiro plano está o ruído do pneu contra os diferentes pisos da calçada, o vento nas orelhas, o gosto metálico da velocidade. Apenas ele conhece este prazer. Cruza mais uma rua, entra na calçada do quarteirão seguinte. A avenida Guaíba está à vista, às margens da grande extensão de água marrom. É a reta final.
A bicicleta flutua. Ele cometeu um erro. Esqueceu do quinto ponto delicado do percurso. As lajes de pedra cobertas de limo. Aquele trecho úmido de calçada, sob um teto de copas de árvores que justificam o nome "rua da Sombra", está sempre coberto de limo. Aderência praticamente nula. É um sabão. A bicicleta derrapa, ele pensa em se jogar no chão, mas não há tempo, porque a roda dianteira bate no murinho de tijolos que delimita um pequenino canteiro decorado com uma dúzia de amores-perfeitos e camélias e agora ele e a bicicleta estão voando, e agora estão rolando juntos pelos paralelepípedos da rua da Sombra, o pé do Ciclista preso no quadro da Caloi aro 20 de freio de pé, e rolam e se arrastam abraçados por um punhado de metros, deixando para trás um rastro de poeira.
O Ciclista Urbano permanece pelo menos uns dez segundos imóvel no meio da rua, a perna ainda enrolada na bicicleta, enquanto os cachorros das casas ao redor latem enlouquecidos. Quando seu cérebro volta a funcionar, a primeira idéia que surge é que sua cara deve estar deformada. Passa a palma da mão sobre o rosto. O dedão fica manchado com um pouco de sangue. A língua registra o gosto azedo e o que parece ser uma pelezinha solta no lábio inferior. Ele liberta a perna travada na bicicleta, a direita, e a examina. Há um pequeno círculo branco na parte inferior do joelho, que começa a se cobrir de minúsculos pontinhos vermelhos, os quais se transformam em gotas de sangue que se acumulam e passam a escorrer perna abaixo. Partes de seu corpo antes amortecidas começam a arder. Uma coceira no nariz, a garganta apertada, e ele não consegue segurar as lágrimas. Não são de dor, e nem tanto de medo, apesar dele estar, sim, com medo, medo de estar com o rosto deformado, de ter que levar pontos no pronto-socorro, medo de diversas coisas, mas chora sobretudo de frustração. Assim como as montanhas podem se enfurecer e receber os mais hábeis e respeitosos alpinistas com uma avalanche, a calçada desta vez o recebeu com um piso de pedra coberto de limo, e ele levou uma rasteira do oponente num instante de devaneio, um instante imbecil de devaneio. Ele caiu.
Ele não é mais o Ciclista Urbano. Agora é apenas um guri de dez anos. Mas a rua não tem movimento, não há carros nem pessoas passando. São quase três horas da tarde de uma quarta-feira e as pessoas estão todas ocupadas com alguma coisa nesse momento, ninguém passeia na rua, muito menos naquela via residencial remota da zona sul onde as pessoas não têm muitos motivos para sair de suas casas, a não ser trabalhar ou resolver as pendengas do dia-a-dia nos bairros mais próximos do centro. Ele decide se levantar e sair em busca de ajuda, quem sabe ligar para casa a cobrar, de um orelhão. Ficar em pé não é difícil. Limpa de novo o sangue da boca. Queria um espelho agora, mais do que qualquer coisa, um espelho. Caminha em direção à avenida Guaíba, onde há bares e um orelhão e pessoas fazendo cooper. A situação é mantida sob controle, até que olha para o joelho. Pelo ferimento, um furo de um centímetro de diâmetro e notável profundidade para uma superfície tão pouco carnuda como um joelho, o sangue agora vaza livremente e desce pela canela, ensopando as meias brancas de algodão. Algo não está bem. Suas pernas ficam moles e um suor ralo começa a molhar todo seu corpo, um suor bem diferente do que estava sendo arrancado antes pelo esforço físico.
Procura um apoio, mas não encontra. A tontura é demais. Cai no chão, sobre a calçada. E o que enxerga a seu lado, ali deitado, é um filhote de gato. Um gatinho cinza malhado que está amarrado com um cordão azul ao arame farpado de uma cerca. O comprimento da coleira improvisada que separa o gato do arame não é maior que quinze centímetros. O gatinho parece fraco, mas mia e mostra os dentes ao se sentir ameaçado. Quase sem sentidos, o Ciclista levanta a cabeça e vê uma velhinha fechando um portão de madeira e se aproximando. Talvez influenciado pelo gato, sua primeira reação é de medo, mas logo em seguida reconhece na velha a salvação, a ajuda. Ela se inclina e o consola.
"Que tombo, gurizinho. Não chora, não chora, deixa eu ver."
Sua voz é um pouco rouca, mas ao mesmo tempo terna e afetada como a de uma apresentadora de programa infantil. Seu cabelo é marrom-claro, as rugas da face são abundantes porém finas e rasas, o pescoço é inexistente. A cabeça parece ter sido atarraxada direto no corpo. Veste uma saia comprida, que deve ter sido vermelha mas agora é de um cor-de-rosa desbotado, e uma blusa de lã fina, bege.
"Deixa a vó ver. Não é nada."
Após a boa impressão inicial, começa a achar a velha um pouco ameaçadora e já não tem certeza se deve confiar nela. O gatinho está todo encolhido, encostado no arame farpado. A mulher se abaixa. Ele percebe que ela não tem dois dedos em uma das mãos. O dedo mínimo e seu adjacente. O mindinho e seu vizinho.
"Acho que tu mordeu a boca quando caiu, gurizinho. Isso sara rápido, viu? Não foi nada. Não precisa chorar."
Ser tratado como criança adiciona uma pitada de raiva a seu mau pressentimento. Ninguém nunca deveria ser tratado como criança, nem uma criança. E ele nem está mais chorando.
Ela vê então o joelho, e o sangue agora cobre a canela e pinga no chão. Observa o ferimento por um instante e parece indecisa sobre que atitude tomar. Ele quer que a velha vá embora. Que saia correndo para chamar alguém que possua um carro e possa levá-lo para casa. Que volte para o lugar de onde veio e lhe dê a chance de se levantar, mesmo tonto e ferido, para fugir correndo em qualquer direção. O gatinho mia repetidas vezes ali do lado, e só agora lhe ocorre que há algo de muito errado com um filhotinho de gato daquele tamanho amarrado de um jeito tão cruel a uma cerca de arame farpado. Do outro lado da cerca há apenas mato, mas foi dali, daquele terreno, que a velha surgiu. É possível discernir, entre as brechas do capim, partes do que parece ser uma casa de madeira remendada com lâminas de compensado.
Brinca, mas nem tanto, com a idéia de que a velha seja uma bruxa. Se for verdade, é uma boa atriz. Sua expressão fica benévola e maternal.
"Sabia que esse sangue aí, ó, isso aí é sangue ruim."
Arregala os olhos para ela, sem entender.
"Porque tem o sangue bom e o sangue ruim, sabia? O sangue ruim é esse sangue escuro que tá saindo aí, é sangue sujo, ele corre por fora, assim, perto da pele, entendeu?", diz, mostrando o próprio braço e passando a ponta do dedo indicador sobre sua pele parda e enrugada. "O sangue bom é diferente, é bem clarinho, quase rosa, e ele passa nas veias bem grossas, no fundo, por dentro da carne da gente, assim." O sotaque dela é interiorano, diz "carne" com o R bem saliente e o E final como um E, não como I. "Esse sangue ruim aí, esse é bom que saia. Tem que deixar sair pra fora, porque daí o corpo faz mais sangue bom, daquele limpinho que corre por dentro, pra botar no lugar do ruim, entendeu?"
A velha passa a mão no cabelo dele e sorri. Ele olha mais uma vez para o joelho e vê que o sangue é mesmo bem escuro. Imagina como seria a cor do sangue bom, que era quase rosa de tão limpo. Ele nunca tinha visto esse tipo de sangue, ou pelo menos não se lembrava. Talvez o sangue que saiu quando caíram os dentes de leite do fundo, teve uns que sangraram e quando ele cuspiu, o sangue parecia ser bem claro. Mas o que escorre agora é definitivamente o sangue ruim, cheio de impurezas, como que sujo de carvão, desenhando linhas sobre sua canela quase sem pêlos.
Quanto mais pensa nisso, menos intenso é seu mal-estar diante dos machucados. Em sua imaginação há uma imagem elaborada de todas as veias e artérias percorrendo seu interior como uma rede de encanamento, mas tudo feito de músculos, de uma carne mole sustentada e articulada por ossos. Passa o dedo no sangue da perna e depois une as pontas do indicador e do polegar, sentindo como colam uma na outra. O suor cessa, e já não se sente mais tonto. Pelo contrário, sua energia está restabelecida. As dores aumentam, mas há agora um certo prazer em suportá-las. Se levanta, espana a poeira do corpo e das roupas, encontra diversos arranhões sem importância nos cotovelos e nos ombros e vai checar o estado da bicicleta. A correia caiu, mas ele a acomoda adequadamente nas coroas, sujando os dedos com a massa escura formada pela mistura de óleo lubrificante e poeira, e dá uma ligeira meia-volta no pedal. Os elos encaixam nos dentes metálicos com um estalo. A velha lhe dirige algumas últimas palavras complacentes. Sem responder, se põe a pedalar o caminho de volta para casa. O verdadeiro Ciclista Urbano não pode se abalar diante de ferimentos e hemorragias, resultado dos acidentes que cedo ou tarde acontecem. O joelho continua a sangrar durante toda a subida da rua do Canteiro, vertendo sangue ruim. Um fio vermelho desce do lábio inferior pelo queixo e de tempos em tempos pinga entre suas pernas. É como se houvesse câmeras escondidas atrás dos postes registrando sua tenacidade física, sua recuperação vigorosa após uma queda espetacular. Cada gota vermelha é aguardada com expectativa.


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