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Companhia das Letras
O LIVRO DOS INSULTOS
H. L. Mencken



1. Homo sapiens


A VIDA DO HOMEM

A velha noção antropomórfica de que a vida de todo o universo se centraliza no homem - de que a existência humana é a suprema expressão do processo cósmico - parece galopar alegremente para o balaio das ilusões perdidas. O fato é que a vida do homem, quanto mais estudada à luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que, no passado, deu a impressão de ser a principal preocupação e obra-prima dos deuses, a espécie humana começa agora a apresentar o aspecto de um subproduto acidental das maquinações vastas, inescrutáveis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
Um ferreiro fabricando uma ferradura produz também algo quase tão brilhante e misterioso - uma chuva de faísca. Mas seus olhos e pensamentos, como sabemos, não estão nas faíscas, e sim na ferradura. As faíscas, na verdade, constituem uma espécie de doença da ferradura; sua existência depende de um desperdício de seus tecidos. Da mesma maneira, talvez o homem seja uma doença localizada do cosmos - uma espécie de eczema ou uretrite pestífera. Existem, é claro, diferentes graus de eczemas, assim como há diferentes graus de homens. Sem dúvida, um cosmos afligido por uma infecção de Beethovens jamais precisaria de um médico. Mas um cosmos infestado por socialistas, escoceses ou corretores da Bolsa deve sofrer como o diabo. Não é surpresa que o sol seja tão quente e a lua tão diabeticamente verde.
- 1918



O LUGAR DO HOMEM NA NATUREZA

Como já disse, a teoria antropomórfica do mundo revelou-se absurda diante da moderna biologia - o que não quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria será abandonada pela grande maioria dos homens. Ao contrário, estes a abraçarão à medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropomórfica ainda é mais adotada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que o homem era um quase Deus foi no mínimo aperfeiçoada pela doutrina de que as mulheres eram inferiores. O que mais está por trás da caridade, da filantropia, do pacifismo, da "inspiração" e do resto dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas essas tolices são baseadas na noção de que o homem é um animal glorioso e indescritível, e que sua contínua existência no mundo deve ser facilitada e assegurada. Mas essa ideia é obviamente uma estupidez. No que se refere aos animais, mesmo num espaço tão limitado como o nosso mundo, o homem é tosco e ridículo. Poucos bichos são tão estúpidos ou covardes quanto o homem.
O mais vira-lata dos cães tem sentidos mais agudos e é infinitamente mais corajoso, para não dizer mais honesto e confiável. As formigas e abelhas são, de várias formas, mais inteligentes e engenhosas; tocam para a frente seus sistemas de governo com muito menos arranca-rabos, desperdícios e imbecilidades. O leão é mais bonito, digno e majestoso. O antílope é infinitamente mais rápido e gracioso. Qualquer gato doméstico comum é mais limpo. O cavalo, mesmo suado do trabalho, cheira melhor. O gorila é mais gentil com seus filhotes e mais fiel à companheira. O boi e o asno são mais produtivos e serenos. Mas, acima de tudo, o homem é deficiente em coragem, talvez a mais nobre de todas as qualidades. Seu pavor mortal não se limita a todos os animais do seu próprio peso ou mesmo da metade do seu peso - exceto uns poucos que ele degradou por cruzamentos artificiais -, seu pavor mortal é também daqueles da sua própria espécie - e não apenas de seus punhos e pés, mas até de suas risotas.
Nenhum outro animal é tão incompetente para se adaptar ao seu próprio ambiente. A criança, quando vem ao mundo, é tão frágil que, se for deixada sozinha por aí durante dias, infalivelmente morrerá, e essa enfermidade congênita, embora mais ou menos disfarçada depois, continuará até a morte. O homem adoece mais do que qualquer outro animal, tanto em seu estado selvagem quanto abrigado pela civilização. Sofre de uma variedade maior de doenças e com mais frequência. Cansa-se ou fere-se com mais facilidade. Finalmente, morre de forma horrível e em geral mais cedo. Praticamente todos os outros vertebrados superiores, pelo menos em seu ambiente selvagem, vivem e retêm suas faculdades por muito mais tempo. Mesmo os macacos antropoides estão bem à frente de seus primos humanos. Um orangotango casa-se aos sete ou oito anos de idade, constrói uma família de setenta ou oitenta filhos, e continua tão vigoroso e sadio aos oitenta anos quanto um europeu de 45.
Todos os erros e incompetências do Criador chegaram ao seu clímax no homem. Como peça de um mecanismo, o homem é o pior de todos; comparados com ele, até um salmão ou um estafilococo são máquinas sólidas e eficientes. O homem transporta os piores rins conhecidos da zoologia comparativa, os piores pulmões e o pior coração. Seus olhos, considerando-se o trabalho que são obrigados a desempenhar, são menos eficientes do que o olho de uma minhoca; o Criador de tal aparato óptico, capaz de fabricar um instrumento tão cambeta, deveria ser surrado por seus fregueses. Ao contrário de todos os animais, terrestres, celestes ou marinhos, o homem é incapaz, por natureza, de deixar o mundo em que habita. Precisa vestir-se, proteger-se e armar-se para sobreviver. Está eternamente na posição de uma tartaruga que nasceu sem o casco, um cachorro sem pelos ou um peixe sem barbatanas. Sem sua pesada e desajeitada carapaça, torna-se indefeso até contra as moscas. E Deus não lhe concedeu nem um rabo para espantá-las.
Vou chegar agora a um ponto de inquestionável superioridade natural do homem: ele tem alma. É isso que o separa de todos os outros animais e o torna, de certa maneira, senhor deles. A exata natureza de tal alma vem sendo discutida há milhares de anos, mas é possível falar com autoridade a respeito de sua função. A qual seria a de fazer o homem entrar em contato direto com Deus, torná-lo consciente de Deus e, principalmente, torná-lo parecido com Deus. Bem, considere o colossal fracasso dessa tentativa. Se presumirmos que o homem realmente se parece com Deus, somos levados à inevitável conclusão de que Deus é um covarde, um idiota e um pilantra. E, se presumirmos que o homem, depois de todos esses anos, não se parece com Deus, então fica claro imediatamente que a alma é uma máquina tão ineficiente quanto o fígado ou as amígdalas, e que o homem poderia passar sem ela, assim como o chimpanzé, indubitavelmente, passa muito bem sem alma.
Pois é esse o caso. O único efeito prático de se ter uma alma é o de que ela infla o homem com vaidades antropomórficas e antropocêntricas - em suma, com superstições arrogantes e presunçosas. Ele se empertiga e se empluma só porque tem alma - e subestima o fato de que ela não funciona. Assim, ele é o supremo palhaço da criação, o reductio ad absurdum da natureza animada. Não passa de uma vaca que acredita dar um pulo à Lua e organiza toda a sua vida sobre essa teoria. É como um sapo que se gaba de combater contra leões, voar sobre o Matterhorn ou atravessar o Helesponto. No entanto, é essa pobre besta que somos obrigados a venerar como uma pedra preciosa na testa do cosmos. É o verme que somos convidados a defender como o favorito de Deus na Terra, com todos os seus milhões de quadrúpedes muito mais bravos, nobres e decentes - seus soberbos leões, seus ágeis e galantes leopardos, seus imperiais elefantes, seus fiéis cães, seus corajosos ratos. O homem é o inseto a que nos imploram, depois de infinitos problemas, trabalho e despesas, a reproduzir.
- 1919



MEDITAÇÃO SOBRE A MEDITAÇÃO

A capacidade do homem para o pensamento abstrato, que parece faltar à maioria dos outros mamíferos, sem dúvida conferiu-lhe seu atual domínio sobre a superfície da Terra - um domínio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insetos e organismos microscópicos. Esse pensamento abstrato é o responsável por sua sensação de superioridade e pelo fato de, sob essa sensação, existir uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que é frequentemente subestimado é que a capacidade de desempenhar um ato não é, de forma alguma, sinônima de seu exercício salubre. É fácil observar que a maior parte do pensamento do homem é estúpida, sem sentido e injuriosa a ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclusões apropriadas nas questões que afetam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a noções tão ocas de plausibilidade como, por exemplo, o swedenborgianismo, a homeopatia, a danação infantil ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de fato, nunca se dirige para o que é sólido e verdadeiro; prefere tudo que é especioso e falso. Se uma grande nação moderna se confrontar com dois problemas conflitantes - um deles baseado em argumentos prováveis e racionais, o outro disparando em direção ao erro mais óbvio -, ela, quase invariavelmente, adotará este último. Isso se aplica à política, que consiste inteiramente numa sucessão de asneiras, muitas das quais tão idiotas que existem apenas como palavras de ordem ou demagogia, não podendo ser reduzidas a nenhuma declaração lógica.
Acontece o mesmo na religião, que, como a poesia, não passa de uma partitura orquestrada para negar as mais óbvias realidades. E é assim em quase todos os campos do pensamento. As ideias que mais rapidamente conquistam a raça, levantam os mais vibrantes entusiasmos e são defendidas com a maior tenacidade, são justamente as mais insanas. Isso pode ser provado desde que o primeiro gorila "avançado" vestiu cuecas, franziu a testa e saiu por aí dando conferências. E será assim até que os poderes superiores, finalmente cansados dessa farsa, exterminem a raça com um gigantesco e definitivo coquetel de fogo, gases mortais e estreptococos.
Não surpreende que a imaginação do homem seja a culpada por essa singular fraqueza. Tal imaginação, eu diria, foi o que lhe permitiu dar o seu primeiro salto sobre seus colegas primatas. Permitiu-lhe visualizar uma condição de existência melhor do que a que ele vinha experimentando e, pouco a pouco, tornou-o capaz de retocar o quadro com certa realidade crua. E até hoje ele continua do mesmo jeito. Quer dizer, ele pensa em qualquer coisa que gostaria de ser ou ter, algo bem melhor do que ele já é ou já tem, e, então, por um processo custoso e difícil de erros e acertos, gradualmente chega ao que quer. Durante o processo, muitas vezes é severamente punido por seu descontentamento com as sagradas ordens de Deus. Rói as unhas, coça o queixo, tropeça e cai - e, finalmente, o prêmio que ele tanto buscava derrete em suas mãos. Mas, aos pouquinhos, ele segue em frente ou, na pior das hipóteses, passa o bastão a seus herdeiros ou sucessores. Pouco a pouco, ele asfalta o caminho para sua perna restante e conquista belos brinquedos para a mão que lhe resta, com os quais brinca, e permite a seu olho ou ouvido sobrevivente desfrutar aquela delícia.
Infelizmente, nunca se contenta com esse processo lento e sanguinário. Está sempre em busca de algo cada vez mais distante. Vive imaginando coisas além do arco-íris. Esse corpo de imagens constitui seu estoque de doces credulidades, fé e confiança - em suma, seu fardo de erros. E esse fardo de erros é o que distingue o homem, mesmo acima de sua capacidade de chorar, seu talento para mentir, sua excessiva hipocrisia e bazófia, de todas as outras ordens de mamíferos. O homem é o caipira par excellence, um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crônica e inevitavelmente tapeado, não apenas pelos outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo - por seu incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro.
A capacidade para discernir a verdade essencial, de fato, é tão rara nos homens quanto comum entre os corvos, sapos ou sardinhas. O homem capaz desse discernimento é de uma qualidade mais do que extraordinária - mesmo, talvez, que seja profundamente mórbido. Demonstre uma nova verdade lastreada em qualquer plausibilidade natural para uma multidão, e nem uma pessoa em 10 mil suspeitará de sua existência, e nem uma em 100 mil irá adotá-la sem feroz resistência. Todas as verdades duradouras que se impuseram ao mundo no decorrer da História foram mais combatidas do que a varíola, e todo indivíduo que as recebeu bem e lutou por elas foi, absolutamente sem exceção, denunciado e punido como um inimigo da espécie. Talvez o "absolutamente sem exceção" seja um exagero. Eu o substituiria por "cinco ou seis exceções". Mas quem seriam essas cinco ou seis exceções? Deixo a resposta a cargo de vocês; eu próprio não conheço nenhuma.
Mas, se a verdade é sempre mal recebida, o erro é recebido de braços abertos. Qualquer homem que invente uma nova imbecilidade recebe salvas de palmas e torna-se o dono da verdade; para as grandes massas, ele é o beau ideal da humanidade. Dê um giro pelos últimos mil anos da História e você descobrirá que 90% dos ídolos populares do mundo - não me refiro aos heróis de pequenas seitas, mas a ídolos mundialmente populares - não passaram de mascates baratos de nonsense. Tem sido assim em política, religião e em qualquer outro departamento do pensamento humano. Mesmo tal mascate já enfrentou alguma oposição, uma vez ou outra, de críticos que o denunciaram como charlatão e o refutaram assim que ele abriu a boca. Mas, ao lado de cada um deles, havia a titânica força da credulidade humana, e isso bastava para destruir seus inimigos e estabelecer sua imortalidade.
- 1920

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