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Companhia das Letras
RADICAL CHIQUE E O NOVO JORNALISMO
Tom Wolfe



Prefácio

Quando E. W. Johnson me procurou com a idéia de organizar uma antologia de Novo Jornalismo, nossa fantasia era que bastava reunir uns vinte e tantos exemplos do gênero, escrever uma introdução de cinco ou seis páginas, e pronto. Achamos que poderia ser útil como livro de estudo. Então sentei uma noite para escrever as cinco ou seis páginas - logo, porém, topei com uma questão que, dava para perceber, iria me levar numa viagem muito mais longa.
Precisamente o que, de fato - em termos de técnica -, tornou o Novo Jornalismo tão "absorvente" e "fascinante" quanto o romance e o conto, às vezes até mais? Isso acabou levando a duas descobertas que considero cruciais para qualquer pessoa interessada em escrever. Primeira: existem quatro recursos específicos, todos realistas, subjacentes à qualidade de envolvimento emocional dos mais potentes textos em prosa, sejam eles de ficção ou não-ficção. Segunda: o realismo não é meramente outra postura ou atitude literária. A introdução do realismo detalhado na literatura inglesa do século XVIII foi igual à introdução da eletricidade na tecnologia das máquinas. Elevou o nível da arte a uma grandeza inteiramente nova. E qualquer um que tente, na ficção ou na não-ficção, melhorar a técnica literária abandonando o realismo social será como um engenheiro que tenta melhorar a tecnologia das máquinas abandonando a eletricidade. A analogia funciona, sim, porque cada um desses elementos se limita a um princípio básico do seu campo.
Não espero que nenhum grupo de escritores de ficção hoje leve realmente a sério o que acabo de dizer. De certo modo, acho que até conto com a tacanhice deles. Atualmente, os escritores de ficção estão ocupados correndo para trás, pulando e gritando por um canteiro de begônias que chamo de Neofabulismo. Num apêndice, faço uma análise bastante detalhada disso. Devo confessar que o estado retrógrado da ficção contemporânea facilitou muito a formulação da questão principal deste livro: que a literatura mais importante escrita hoje na América é de não-ficção, com a forma que foi, embora sem elegância, rotulada de Novo Jornalismo.


O jogo das reportagens especiais

Duvido que a maioria dos craques que vou exaltar neste texto tenham entrado para o jornalismo com a mais remota idéia de criar um "novo" jornalismo, um jornalismo "superior", ou mesmo uma variedade ligeiramente melhorada. Sei que eles nunca sonharam que nada que fossem escrever para jornais e revistas provocasse tamanho torvelinho no mundo literário... causando pânico, tirando do romance o trono de gênero literário número um, inaugurando a primeira novidade da literatura americana em meio século... No entanto, foi isso que aconteceu. Bellow, Barth, Updike - até o melhor da turma, Philip Roth -, os romancistas todos aí estão agora revirando a história literária, resistindo, tentando entender a posição que ocupam. Que droga, Saul, os hunos chegaram...
Deus sabe que eu não tinha em mente nada de novo, muito menos algo literário, quando arranjei meu primeiro trabalho em jornal. Eu tinha uma fome voraz e nada natural de outra coisa inteiramente diferente. Chicago, 1928, uma coisa assim... Repórteres bêbados na marquise do News fazendo xixi no rio Chicago ao amanhecer... Noites em claro no saloon ouvindo "Back of the yards" [No fundo dos quintais] cantada por uma voz de barítono que era apenas uma sapatona cega e solitária com bolotas de vidro leitoso no lugar dos olhos... Noites em claro num escritório de detetive - era sempre noite nos meus sonhos de vida jornalística. Repórteres não trabalhavam durante o dia. Eu queria o filme inteiro, sem deixar nada de fora...
Tinha plena consciência do que havia me reduzido a esse estado de pieguice estudantil. Mesmo assim, não tinha como evitar. Acabara de passar cinco anos na pós-graduação, coisa que pode não significar nada para gente que não viveu uma experiência dessas e, entretanto, explica tudo. Não sei se sou capaz de dar sequer uma remota idéia do que é um curso de pós-graduação. Ninguém é. Milhões de americanos agora fazem pós-graduação, mas basta pronunciar a palavra - pós-graduação -, e qual é a imagem que vem à mente? Imagem nenhuma, nem ao menos um borrão. Metade das pessoas que conheci na pós-graduação iam escrever um romance a respeito dela. Eu mesmo pensei nisso. Ninguém jamais escreveu esse livro, que eu saiba. Todo mundo farejava o ar. Que mórbido! Que venenoso! Nada era igual àquilo no mundo! Mas esse assunto sempre derrotou a todos. Sempre resistiu ao desenvolvimento literário. Um romance desses seria um estudo sobre frustração, mas uma forma de frustração tão especial, tão inefável, que ninguém consegue descrever. Tente imaginar a pior parte do pior filme de Antonioni que você já viu, ou ler O planeta do sr. Sammler de uma sentada, ou mesmo apenas ler esse livro, ou ficar trancado dentro de uma cabine de trem da Seaboard Railroad, a 25 quilômetros de Gainesville, Flórida, indo em direção norte pelo Miami-Nova York, sem água, com o aquecedor ficando vermelho de tão loucamente superaquecido e George McGovern sentado a seu lado, falando de sua filosofia de governo. É por aí.
De qualquer modo, no momento em que recebi meu doutorado em estudos americanos, em 1957, eu me encontrava nas garras tortuosas de uma doença do nosso tempo que leva o sofredor a sentir uma esmagadora necessidade de fazer parte do "mundo real". Então, comecei a trabalhar para jornais. Em 1962, depois de uma xícara de café aqui e ali, cheguei ao New York Herald Tribune... Aqui é o meu lugar!... Olhava a editoria de Cidade do Herald Tribune, cem míseros metros ao sul da Times Square, com uma sensação de perplexa felicidade boêmia... Ou isto aqui é o mundo real, Tom, ou não existe mundo real... O lugar parecia o latão de doações da Legião da Boa Vontade... um monte promíscuo de lixo... Destroços e cansaço por toda parte... Se alguém como o editor de Cidade tinha uma cadeira giratória, a junta central estava quebrada, de forma que toda vez que ele se levantava, o assento virava, como se tivesse sido atingido por um golpe lateral. Todo o intestino do edifício ficava à mostra nas alças e linhas de uma diverticulite - conduítes elétricos, canos de água, canos de aquecimento a vapor, dutos de chuva, sistemas de sprinklers, tudo pendurado e gemendo no teto, nas paredes, nas colunas. A bagunça toda era pintada, de alto a baixo, com um lodo industrial, Cinza-Chumbo, Verde-Metrô, ou aquele inacreditável vermelho morto, aquela horrenda têmpera de pigmento e sujeira com que pintam o chão da sala de máquinas. No teto, havia escaldantes carreiras de luz fluorescente colorindo a atmosfera de azul-radiativo, queimando manchas de calvície na coroa dos revisores, que nunca se mexiam. Era uma grande fábrica de tortas... Um Sonho de Senhorio... Não havia paredes internas. A hierarquia corporativa não ficava dividida em espaços de escritório. O editor executivo trabalhava num espaço tão miserável e infecto quanto o do mais ínfimo repórter. A maioria dos jornais era assim. Esse cenário fora instituído décadas antes, por razões práticas. Mas era mantido vivo por um fato curioso. Nos jornais, pouquíssimos empregados editoriais lá de baixo - especificamente, os repórteres - tinham alguma ambição de subir, de se tornar editores locais, editores executivos, editores-chefes, ou qualquer outra coisa. Os editores não sentiam nenhuma ameaça vinda de baixo. Não precisavam de paredes. Os repórteres não queriam muito... simplesmente ser estrelas! e tão apagadinhas!
Essa é uma coisa sobre a qual nunca se escreveu em livros a respeito de jornalismo, nem naquelas memórias camaradas da década de 20, da sapatona cega, das botas apoiadas nos canos de latão, dos bares clandestinos onde se bebia muito, dos dias de jornal e dos filhos do século... precisamente, os pequenos arabescos da competição por status dentro dos jornais... Por exemplo, na mesa atrás da minha na editoria de Cidade do Herald Tribune sentava-se Charles Portis. Portis era o protótipo do exibicionista lacônico. Um dia, foi convidado a uma espécie de Encontro com a Imprensa de Malcolm X, e Malcolm X cometeu o erro de fazer um pequeno sermão aos repórteres antes de eles entrarem, dizendo que não queria que ninguém o chamasse de "Malcolm", porque ele não era garçom de vagão-restaurante - seu nome era "Malcolm X". Quando terminou a entrevista, Malcolm X estava furioso. Estava subindo pelas paredes de tijolos acústicos. O protótipo de exibicionista lacônico, Portis, tinha invariável e continuadamente se dirigido a ele como "mr. X"... "Agora, mr. X, poderia nos falar sobre..." Então, a mesa de Portis era atrás da minha. Num cubículo no extremo da sala ficava Jimmy Breslin. De um lado, sentava-se Dick Schaap. Estávamos todos envolvidos numa forma de competição jornalística que nunca vi ninguém sequer mencionar em público. Schaap, porém, havia se demitido do posto de editor de Cidade do New York Herald Tribune, um dos postos legendários do jornalismo - em outras palavras, descera na escala organizacional -, só para participar desse jogo secreto.
Todo mundo conhece uma forma de competição entre repórteres de jornal, a competição pelo furo jornalístico. Repórteres de furos competiam com suas contrapartidas em outros jornais, ou nas agências de notícias, para ver quem conseguia primeiro uma matéria e escrevia mais depressa; quanto mais importante a matéria - isto é, quanto mais ela tivesse a ver com o poder ou com catástrofes -, melhor. Em resumo, eles se ocupavam da questão principal do jornal. Mas havia também aquela outra turma de repórteres... Esses tendiam a ser conhecidos como "repórteres especiais". O que todos tinham em comum era que consideravam o jornal um motel onde você se hospedava para passar a noite a caminho do triunfo final. A idéia era conseguir emprego num jornal, conservar inteiros o corpo e a alma, pagar o aluguel, conhecer "o mundo", acumular "experiência", talvez eliminar um pouco da gordura do seu estilo - depois, em algum momento, demitir-se pura e simplesmente, dizer adeus ao jornalismo, mudar-se para uma cabana em algum lugar, trabalhar dia e noite durante seis meses, e iluminar o céu com o triunfo final. O triunfo final era conhecido como O Romance.
Isso era Algum Dia, entenda-se bem... Nesse meio-tempo, esses sonhadores lá estavam martelando, em todo lugar da América onde houvesse um jornal, competindo por uma minúscula coroa de que o resto do mundo nem tinha conhecimento: Melhor Repórter Especial da Cidade. "Reportagens especiais" era a expressão jornalística para uma matéria que escapava à categoria da notícia pura e simples. Abrangia tudo, desde pequenos fatos "divertidos", engraçados, geralmente do movimento policial... Tinha aquela do sujeito de fora da cidade que se registrou num hotel em San Francisco a noite passada, querendo se suicidar, e se atirou da janela do quinto andar - despencou três metros e torceu o tornozelo. O que ele não sabia era que o hotel ficava numa encosta íngreme!... até "matérias de interesse humano", relatos longos e quase sempre hediondamente sentimentais sobre almas até então desconhecidas colhidas pela tragédia ou sobre hobbies estranhos dentro da área de circulação da folha... Em todo caso, as reportagens especiais davam ao sujeito certo espaço para escrever.
Ao contrário do repórter de furos, o repórter especial não admitia abertamente a existência do concorrente, nem mesmo entre eles dois. Tampouco havia algum placar de contagem de pontos. E, no entanto, todo mundo no jogo sabia precisamente o que estava acontecendo, e passava pelos mais mortificantes ataques de inveja, até de ressentimento, ou por ataques de euforia, dependendo de como ia indo o jogo. Ninguém jamais admitia uma coisa dessas, e, no entanto, todo mundo sentia isso, quase todo dia. A arena do repórter especial era diferente da do repórter de furos também sob outro aspecto. Seu concorrente não trabalhava necessariamente para outra publicação. Podia-se muito bem competir com gente do próprio jornal, o que queria dizer que era ainda menos provável que se falasse a respeito.
Portanto, ali estava metade dos concorrentes da área de reportagens especiais de Nova York, bem ali, na mesma sala que eu, porque o Herald Tribune era como a principal arena de Tijuana para repórteres especiais... Portis, Breslin, Schaap... Schaap e Breslin tinham colunas, o que lhes dava maior liberdade, mas eu achei que conseguiria tirar as duas coisas deles. Era preciso ser valente. No Times, havia Gay Talese e Robert Lipsyte. No Daily News, Michael Mok. (Existiam outros concorrentes também, em todos os jornais, inclusive no Herald Tribune. Só menciono agora aqueles de que me lembro melhor.) Mok, eu já tinha enfrentado antes, quando trabalhava no Washington Post e ele no Washington Star. Mok era um concorrente duro, porque estava disposto a arriscar a pele por uma boa matéria com a mesma louca coragem que depois demonstrou cobrindo a Guerra do Vietnã e a guerra árabe-israelita para a Life. Mok fazia coisas... do além. Por exemplo, o News manda Mok e um fotógrafo fazer uma matéria sobre um gordo que tentava perder peso isolado num veleiro ancorado no estreito de Long Island ("Sou daquele tipo que passa em frente a uma doceira, respira fundo e engorda cinco quilos"). O barco a motor que eles alugaram quebra a pouco mais de um quilômetro do veleiro do gordo, faltando quatro ou cinco minutos para se esgotar o prazo. O mês é março, mas Mok mergulha e começa a nadar. A temperatura da água está em torno de cinco graus. Ele nada até ficar meio morto, e o gordo tem de pescá-lo com um remo. Então, Mok consegue a matéria. Cumpre o prazo. No News aparecem fotos de Mok nadando furiosamente no estreito de Long Island para obter a saga do regime desse grande bolha para 2 milhões de leitores. Se, em vez disso, ele tivesse se afogado, tivesse se acabado junto com as ostras naquele muco hepatítico do estreito, ninguém teria mandado gravar uma placa para ele. Os editores guardam suas lágrimas para os correspondentes de guerra. Quanto aos repórteres especiais - quanto menos se falar deles, melhor. (Outro dia mesmo vi um dos chefões do New York Times reagir com perplexidade aos elogios superlativos feitos a um dos escritores mais populares de seu jornal, Israel Shenker, da seguinte forma: "Mas ele é um repórter especial!".) Não, se Mok tivesse comprado uma fazenda de ostras naquela tarde, não teria merecido nem o prêmio mais discreto do jornalismo, que é o meio minuto de silêncio do jantar do Overseas Press Club. Ainda assim, ele mergulhou no estreito de Long Island em março! Chegava a esse ponto a furiosa competição dentro da nossa estranha e minúscula caverna!
Ao mesmo tempo, todo mundo que estava no jogo tinha terríveis momentos de escuridão durante os quais desanimava e dizia consigo mesmo: "Você está só se enganando, rapaz. Isso tudo é só mais um dos seus tortuosos recursos para protelar a decisão de falar abertamente sobre tudo... de ir para uma cabana... e escrever seu romance". Seu romance! Hoje em dia -em parte devido ao próprio Novo Jornalismo -é difícil explicar o que a idéia de escrever um romance significava nos anos 40, 50 e até no começo dos 60. O Romance não era uma mera forma literária. Era um fenômeno psicológico. Era uma febre cortical. Fazia parte do glossário da Introdução geral à psicanálise, em algum ponto entre narcisismo e neurose obsessiva. Em 1969, Seymour Krim escreveu para a Playboy uma estranha confissão que começava assim:

Literalmente, eu fui formado, moldado, afiado e encontrei um sentido no mundo por meio do romance realista americano de meados e final dos anos 30. Dos catorze aos dezessete anos, me entupi com as obras de Thomas Wolfe (a começar por Of time and the river [Sobre o tempo e o rio], passando por Angel [Anjo], sem perder contato até o incrível final do Grande Tom), Ernest Hemingway, William Faulkner, James T. Farrell, John Steinbeck, John O'Hara, James Cain, Richard Wright, John Dos Passos, Erskine Caldwell, Jerome Weidman e William Saroyan, e sabia, no fundo do coração, que queria ser um romancista assim.

O texto acabou sendo uma confissão, porque primeiro Krim admite que a idéia de ser romancista fora a paixão dominante de sua vida, seu chamado espiritual, de fato, o marca-passo que mantivera seu ego em movimento ao longo de todas as miseráveis humilhações de sua primeira juventude - e então ele encarou o fato de estar agora com quarenta anos e nunca ter escrito um romance, o qual muito provavelmente nunca escreveria. Fiquei fascinado pelo artigo, mas não entendia por que a Playboy havia publicado aquilo, a menos que fossem os 10 cc mensais de penicilina literária que a revista... para combater os gonococos e espiroquetas... Não podia imaginar que alguém além de escritores pudesse se interessar pelo Complexo de Krim. Porém, aí foi que eu errei.
Depois de pensar bem, concluí que os escritores constituem apenas uma parcela dos americanos que experimentaram a peculiar obsessão de Krim. Sou capaz de apostar que, há não muito tempo, metade das pessoas que ia trabalhar nas casas editoras o fazia acreditando que seu destino real era ser romancista. Entre as pessoas do que chamam de lado criativo da publicidade, aquelas que efetivamente sonham os anúncios, essa proporção deve chegar aos 90%. Em 1955, em The exurbanites [Os exurbanitas], o falecido A. C. Spectorsky pintou o gênio bem pago da propaganda da avenida Madison como um homem que não lia um romance sem conferir a sobrecapa e a fotografia do autor atrás... e se o filho-da-mãe de grande ego, com a camisa desabotoada e o vento soprando nos cabelos, fosse mais novo que ele, não toleraria abrir o maldito livro. Essa era a força do maldito Romance. Era a mesma coisa entre o pessoal de televisão, relações públicas, cinema, nos cursos de inglês das universidades e nas escolas secundárias, entre os funcionários das casas de moldura, os presidiários, os filhos solteiros que moram com a Mãe... um enxame de fantasistas fervendo, proliferando no húmus do ego da América...
O Romance parecia um dos últimos desses grandes golpes de sorte, como encontrar ouro ou achar petróleo, com que um americano podia, do dia para a noite, num relance, transformar inteiramente seu destino. Havia inúmeros exemplos para alimentar a fantasia. Nos anos 30, todos os romancistas pareciam pessoas que explodiram para o estrelato vindas da total obscuridade. Parecia ser essa a natureza da fera. As notas biográficas das sobrecapas dos romances eram incríveis. O autor, sem dúvida nenhuma, tinha antes trabalhado como servente de pedreiro (Steinbeck), expedidor de caminhões (Cain), mensageiro de hotel (Wright), carteiro (Saroyan), lavador de pratos num restaurante grego de Nova York (Faulkner), motorista de caminhão, carregador, apanhador de frutas, limpador de postes, piloto de avião de inseticida... A lista não tinha fim... Alguns romancistas possuíam uma série dessas credenciais... Era assim que se tinha certeza de comprar o produto autêntico...
Nos anos 50, O Romance passara a ser um torneio nacional. Havia a noção mágica de que o fim da Segunda Grande Guerra, em 1945, constituía o alvorecer de uma nova idade do ouro no romance americano, como a era Hemingway - Dos Passos - Fitzgerald depois da Primeira Guerra Mundial. Havia até uma espécie de clube olímpico onde os novos garotos dourados se encontravam cara a cara toda tarde de domingo em Nova York, que era a White Horse Tavern, na rua Hudson... Ah! O Jones vai lá! E o Mailer! O Styron! O Baldwin! O Willingham! Ao vivo - bem ali naquela sala! O local era estritamente voltado para romancistas, para pessoas que estavam escrevendo um romance, e pessoas que estavam cortejando O Romance. Não havia lugar para jornalistas, a menos que ali estivesse no papel de futuro romancista ou simples cortesão dos grandes. Não existia algo como um jornalista literário trabalhando para revistas ou jornais populares. Se um jornalista aspirava a status literário, o melhor era ter o bom senso e a coragem de abandonar a imprensa popular e tentar entrar para a grande liga.
Quanto à pequena liga dos repórteres especiais - dois dos concorrentes, Portis e Breslin, realmente partiram para realizar a fantasia. Escreveram seus romances. Portis o fez de um jeito tão idêntico ao que acontece em sonho que era inacreditável. Um dia, de repente, ele se demitiu do posto de correspondente do Herald Tribune em Londres. O lugar era considerado um emprego muito especial no meio jornalístico. Portis simplesmente se demitiu um dia; assim, sem aviso. Voltou aos Estados Unidos e se mudou para uma cabana de pesca no Arkansas. Em seis meses, escreveu um belo romance curto chamado Norwood. Depois, escreveu True girl [Menina de verdade], que foi um best-seller. As críticas foram incríveis... Ele vendeu os dois livros para o cinema... Ganhou uma fortuna... Uma cabana de pescador! No Arkansas! Era perfeito demais para ser verdade, mas era, sim. O que quer dizer que o velho sonho, O Romance, nunca morre.
E, no entanto, no começo dos anos 60, uma curiosa idéia nova, quente o bastante para inflamar o ego, começou a se insinuar nos estreitos limites da statusfera das reportagens especiais. Tinha um ar de descoberta. Essa descoberta, de início modesta, na verdade, reverencial, poderíamos dizer, era que talvez fosse possível escrever jornalismo para ser... lido como um romance. Como um romance, se é que me entendem. Era a mais sincera forma de homenagem a O Romance e àqueles grandes, os romancistas, claro. Nem mesmo os jornalistas pioneiros nessa direção duvidavam sequer por um momento de que o romancista era o artista literário dominante, agora e sempre. Tudo o que pediam era o privilégio de se vestir como ele... até o dia em que eles próprios chegassem à ousadia de ir para a cabana e tentar para valer... Eram sonhadores, claro, mas uma coisa eles nunca sonharam. Nunca sonharam com a ironia que vinha vindo. Nunca desconfiaram nem por um minuto que o trabalho que fariam ao longo dos dez anos seguintes, como jornalistas, roubaria do romance o lugar de principal acontecimento da literatura.


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