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Companhia das Letras
PACIENTE 67
Dennis Lehane



1

O pai de Teddy Daniels fora pescador. Perdera o barco para o banco em 1931, quando Teddy tinha onze anos, e passou o resto da vida prestando serviço em barcos alheios, quando havia trabalho neles, e trabalhando como estivador, quando as atividades nos barcos escasseavam; ao voltar para casa, aí pelas dez da manhã, passava longas horas sentado numa poltrona, fitando as próprias mãos, falando consigo mesmo de vez em quando, de olhos arregalados, o olhar sombrio.
Levara Teddy para as ilhas quando este ainda era menino, pequeno demais para ajudar no trabalho do barco. Só o que conseguia fazer era desembaraçar as linhas e desenganchar os anzóis. Chegou a se cortar algumas vezes, e o sangue salpicou-lhe os dedos e sujou-lhe as mãos.
Partiram antes do amanhecer. Quando o sol apareceu - uma luz fria cor de marfim erguendo-se na linha do horizonte -, as ilhas foram surgindo em meio à escuridão que se dissipava, pegadas umas às outras como se tivessem sido surpreendidas cometendo alguma falta.
Alinhadas na praia de uma delas, Teddy vislumbrou pequenas cabanas em tons pastel; em outra, uma propriedade rural em ruínas. Seu pai apontou a prisão na ilha Deer e o majestoso forte na ilha Georges. Na Thompson, as árvores imponentes, cheias de pássaros - e o canto destes lhe soou como lufadas de granizo ou de estilhaços de vidro.
Para além de todas as outras, via-se aquela que era chamada de Shutter. Parecia alguma coisa jogada no mar por marinheiros de algum galeão espanhol. Naquela época, na primavera de 1928, a ilha estava entregue à própria sorte, invadida pelo caos de sua própria vegetação; o forte que avultava no ponto mais alto sufocava sob o mato, totalmente coberto por vastas extensões de musgo.
"Por que é chamada de Shutter?", perguntou Teddy.
O pai deu de ombros. "Você e essas suas perguntas. Sempre perguntas."
"Sim, mas por quê?"
"Tem lugares que são assim, inventam um nome, e ele pega. Com certeza, dado por piratas."
"Piratas?", perguntou Teddy, a quem a palavra soara agradavelmente. Ele podia imaginá-los - todos fortes, com tapa-olhos, botas grandes e espadas brilhantes.
"Era ali que se escondiam nos velhos tempos", disse o pai, "e que escondiam o ouro."
Teddy imaginava baús cheios de ouro, com moedas derramando-se pelas bordas.
Mais tarde o garoto se sentiu mal, vomitou várias vezes, violentamente, debruçado à borda do barco do pai, lançando jorros escuros no mar.
O pai ficou surpreso, pois Teddy só começou a vomitar horas depois de iniciada a viagem, quando as águas do oceano estavam tranqüilas e brilhantes. O pai disse: "Tudo bem. É a primeira vez que você vem. Não precisa se envergonhar".
Teddy balançou a cabeça, limpou a boca com o pano que o pai lhe passou.
O pai disse: "Às vezes o barco joga, e você só sente o balanço quando ele começa a embrulhar seu estômago".
Teddy balançou a cabeça novamente, incapaz de dizer ao pai que não fora o balanço que lhe embrulhara o estômago.
Fora toda aquela água. Estendendo-se em toda a volta, como se não restasse mais nada no mundo. Como se pudesse engolir o céu, pensou Teddy. Até aquele momento, não se tinha dado conta de que estavam tão isolados.
Ele levantou os olhos vermelhos e lacrimejantes para o pai, que lhe disse: "Isso logo passa". Teddy tentou sorrir.
Seu pai partiu num baleeiro de Boston no verão de 1938 e nunca mais voltou. Na primavera seguinte, destroços do navio apareceram na praia Nantasket, na aldeia de Hull, onde Teddy crescera. Um pedaço da quilha, um fogareiro com o nome do capitão gravado na base, latas de sopa de batata e de tomate, e, estragadas e amassadas, algumas armadilhas para apanhar lagostas.
As cerimônias fúnebres dos quatro pescadores tiveram lugar na igreja de Santa Tereza, cujos fundos davam para aquele mesmo mar que devorara tantos de seus paroquianos. De pé ao lado da mãe, Teddy ouviu as homenagens prestadas ao capitão, ao segundo e ao terceiro homem da tripulação, um velho lobo-do-mar chamado Gil Restak, que se tornara o terror dos bares de Hull desde que voltara da Grande Guerra com um pé quebrado e a cabeça cheia de imagens horrendas. Com a morte, porém, disse um dos donos de bar agredido por ele, tudo é perdoado.
O dono do barco, Nikos Costa, confessou que não conhecia muito bem o pai de Teddy e que o tinha contratado de última hora, porque um membro da tripulação quebrara a perna ao cair de um caminhão. De qualquer modo, o capitão do navio tinha falado muito bem dele, dizendo que era conhecido de todos e fazia bem o trabalho. E que maior elogio se poderia fazer a uma pessoa?
Ali na igreja, Teddy lembrou-se daquela expedição no barco do pai, porque ela nunca mais se repetira. O pai vivia dizendo que iria levá-lo novamente, mas Teddy percebeu que ele dizia isso só para ajudar o filho a manter um pouco do orgulho. O pai nunca comentou nada do que se passara na ocasião, mas naquele dia, no mar, trocaram um olhar esquisito, quando já voltavam para casa, no momento em que atravessavam a fileira de ilhas, com ilha Shutter atrás deles, a Thompson ainda à frente, a silhueta da cidade tão nítida e próxima deles que se tinha a impressão de poder levantar um dos edifícios segurando-o pela parte de cima.
"É o mar", dissera o pai afagando as costas de Teddy, os dois recostados na popa do barco. "Tem homens que o dominam e homens que são dominados por ele." E olhara para Teddy de uma forma que o garoto entendera o tipo de homem que certamente viria a ser.


Ao irem para lá em 1954, tomaram o ferryboat da cidade e passaram por uma série de pequenas ilhas esquecidas - Thompson e Spectacle, Grape e Bumpkin, Rainford e Long -, que se mantinham à superfície em tufos rijos, constituídos de areia, árvores nodosas e formações rochosas brancas como osso. Excetuando as viagens com suprimentos feitas às terças-feiras e aos sábados, o ferryboat não tinha horários regulares, e sua despensa estava desprovida de tudo; ali só havia a folha de metal que cobria o piso e os dois bancos de metal fixados sob a janela. Os bancos eram aparafusados, em ambas as extremidades, ao piso e a dois grossos postes, dos quais pendiam grilhões, que jaziam no chão, amontoados feito espaguete.
Naquele dia, porém, o ferryboat não estava transportando pacientes para o asilo, apenas Teddy e seu novo parceiro, Chuck Aule, alguns sacos de lona com correspondência e caixas de medicamentos.
Teddy começou a viagem ajoelhado junto ao vaso sanitário, enquanto o motor do barco bufava e estalejava; e suas narinas se enchiam do odor oleoso da gasolina e do mar no final do verão. Nada saía do corpo dele, exceto fiozinhos de água, mas ainda assim a garganta parecia apertada, o estômago pressionava a base do esôfago, e o ar à sua frente constelava-se de partículas que piscavam como olhos.
O último espasmo liberou uma bolha de oxigênio que, ao irromper na boca, parecia trazer consigo uma parte do peito. Teddy sentou-se no chão de metal, limpou o rosto com o lenço, pensando que aquela não era uma boa maneira de começar uma parceria.
Imaginava Chuck, de volta a casa, contando à esposa - se é que era casado, Teddy pouco sabia dele - sobre seu primeiro encontro com o lendário Teddy Daniels. "Querida, o cara gostou tanto de mim que vomitou."
Desde a viagem que fizera quando menino, Teddy não gostava de se aventurar na água, não sentia o menor prazer em ficar longe da terra firme, nem em perder de vista a terra ou as coisas que se pode alcançar e pegar sem que as mãos nelas se abismem. Por mais que se diga que não há problema - pois é isso o que é necessário dizer quando se precisa atravessar certa extensão de água -, a verdade é que há sim. Mesmo na guerra, ele temia menos tomar as praias de assalto que atravessar os poucos metros entre o barco e a costa, com as pernas arrastando-se penosamente nas profundezas, criaturas estranhas serpenteando por cima das botas.
Apesar de tudo, preferia permanecer no convés, afrontando o oceano ao ar livre, a ficar ali embaixo com ânsias de vômito, com essa sensação de calor nauseante.
Ao ter certeza de que a indisposição passara, de que o estômago se aquietara e de que a cabeça parara de girar, lavou as mãos e o rosto, examinou a própria aparência num espelhinho fixado acima da pia, cujo estanho fora praticamente todo corroído pelo sal marinho, restando do espelho apenas uma pequena nuvem no centro, na qual Teddy mal conseguia ver sua imagem, a imagem de um homem relativamente jovem, de cabelo cortado à escovinha. O rosto, porém, trazia a marca da guerra e dos anos subseqüentes, e nos olhos - que um dia Dolores dissera que exprimiam uma "tristeza canina" - podia-se ler a dupla fascinação que a perseguição e a violência exerciam sobre esse homem.
Sou jovem demais para ter uma expressão tão dura, pensou Teddy.
Ajustou o cinturão de forma que a arma se apoiasse no quadril, tirou o chapéu de cima da caixa de descarga, colocou-o na cabeça, ajeitou a aba de forma a pender levemente para a direita e apertou o nó da gravata. Era uma daquelas gravatas floridas, de cores vivas, já fora de moda havia um ano, mas ele ainda a usava porque fora presente dela. No dia do seu aniversário, ele estava sentado na sala, quando ela deslizara a gravata na frente dos olhos dele. E apertara os lábios contra seu pomo-de-adão. Uma mão cálida no seu rosto. O cheiro de laranja na língua. Ela sentando no seu colo, tirando-lhe a gravata. Ele de olhos fechados, só para sentir o cheiro dela. Para imaginá-la. Para recriá-la na mente e conservá-la ali.
Teddy ainda conseguia fazer isso - fechar os olhos e vê-la. Mas ultimamente algumas manchas brancas embaçavam partes da imagem - o lobo de uma orelha, os cílios, os contornos da cabeleira. Ainda não dava para obscurecer a imagem por completo, mas Teddy temia que o tempo a fosse tomando dele, que triturasse pouco a pouco as imagens em sua mente, terminando por aniquilar todas.
"Sinto falta de você", ele disse e atravessou a despensa, dirigindo-se para a coberta da proa.
Lá fora o tempo continuava quente, o céu estava limpo, mas a água tinha manchas escuras cor de ferrugem sobre um fundo cinza-claro uniforme, dando a impressão de que, nas suas profundezas, escondia uma massa cada vez mais sombria e ameaçadora.
Chuck tomou um gole da sua garrafinha, apontou o gargalo na direção de Teddy, erguendo uma sobrancelha. Teddy balançou a cabeça, e Chuck recolocou-a no bolso do paletó, ajeitou as abas do sobretudo em volta dos quadris e contemplou o mar.
"Você está bem?", perguntou Chuck. "Está pálido."
Teddy deu de ombros em sinal de indiferença. "Estou ótimo."
"Mesmo?"
Teddy fez que sim com a cabeça. "Estou só me adaptando ao balanço do mar."
Ficaram em silêncio por um instante, o mar ondulando à volta deles, marchetado de bolsões negros e lustrosos como veludo.
"Você sabia que aquilo já foi um campo para prisioneiros de guerra?", disse Teddy.
"A ilha?", perguntou Chuck.
Teddy confirmou com um gesto de cabeça. "Na época da Guerra de Secessão, construíram lá um forte e um quartel."
"E para que serve o forte hoje em dia?"
Teddy deu de ombros. "Não sei dizer. Há muitos fortes por essas ilhas. Durante a guerra, a maioria servia de alvo para exercícios de artilharia. Poucos ficaram de pé."
"E o hospital?"
"Pelo que sei, foi instalado em antigos alojamentos militares."
Chuck disse: "Vai ser como se voltássemos ao serviço militar, não?".
"Espero que não", disse Teddy virando para a amurada. "Então, conte alguma coisa, Chuck."
Chuck sorriu. Era um pouco mais troncudo e baixo que Teddy - teria mais ou menos um metro e setenta e cinco de altura -, de cabelos encaracolados pretos, curtos, pele azeitonada, mãos delicadas que pareciam não combinar muito com o seu tipo físico, como se as tivesse tomado de empréstimo enquanto as suas não voltavam do conserto. A face esquerda tinha uma pequena cicatriz em forma de foice, na qual muitas vezes Chuck batia de leve com o polegar.
"Sempre começo pela cicatriz", ele disse. "Mais cedo ou mais tarde as pessoas terminam por perguntar sobre ela."
"O.k."
"Não se trata de ferimento de guerra", disse Chuck. "Minha namorada acha que eu deveria dizer que é um ferimento de guerra sim, para encerrar o assunto, mas..." Deu de ombros. "Mas isso aconteceu quando eu estava brincando de guerra. Ainda era criança. Eu e outro garoto brincávamos de estilingue, atirávamos um contra o outro. A pedra dele não me acertou. Felizmente, não é?" Ele balançou a cabeça. "Mas a pedra bateu numa árvore, e um pedaço da casca voou e acertou o meu rosto. Daí a cicatriz."
"Quando brincava de guerra."
"Sim, brincando de guerra."
"Você veio transferido do Oregon?"
"De Seattle. Cheguei na semana passada."
Teddy esperou, mas Chuck não deu maiores explicações.
Teddy falou: "Por quanto tempo você foi xerife lá?".
"Quatro anos."
"Então você sabe como o nosso mundo é pequeno."
"Claro. Você quer saber o porquê da transferência." Chuck balançou a cabeça, como se acabasse de tomar uma decisão. "E se eu dissesse que estava cansado de tanta chuva?"
Teddy, que tinha as mãos apoiadas na amurada, virou as palmas para cima. "Se você diz..."
"Mas este é um mundo pequeno, como você disse. Todo mundo conhece todo mundo no serviço. E, sendo assim, sempre aparece um... como é mesmo que eles chamam? Bochicho."
"Esse é o termo certo."
"Foi você quem prendeu Breck, não foi?"
Teddy confirmou com um gesto de cabeça.
"Como soube para onde ele iria? Cinqüenta caras foram procurá-lo em Cleveland. Você foi para o Maine."
"Certa vez ele passou o verão lá com a família, quando era criança. O que ele fazia com as vítimas é o que se faz com cavalos. Conversei com uma tia dele. Ela me disse que a única vez que o vira feliz foi quando estava num haras próximo ao chalé que sua família alugara no Maine. Então fui para lá."
"Você deu cinco tiros nele", disse Chuck olhando a espuma lá embaixo.
"E teria dado mais cinco", disse Teddy. "Mas os cinco primeiros bastaram."
Chuck balançou a cabeça e cuspiu por sobre a amurada. "Minha namorada é japonesa. Bem, nasceu aqui, mas sabe como é... Cresceu num campo para nipo-americanos. Ainda há muita tensão por aquelas bandas - Portland, Seattle, Tacoma. Ninguém gosta de me ver com ela."
"Por isso o transferiram."
Chuck fez que sim, cuspiu novamente, acompanhou a queda da saliva nas espumas buliçosas da proa.
"Falam que vai ser das grandes", ele disse.
Teddy tirou os cotovelos da amurada e endireitou o corpo. O rosto dele estava úmido, os lábios salgados. Surpreendeu-se com o fato de o mar tê-lo alcançado, pois não se lembrava de ter sentido borrifos no rosto.
Bateu as mãos nos bolsos do sobretudo, procurando seus Chesterfields. "Quem fala isso? Das grandes o quê?"
"Eles, os jornais", disse Chuck. "A tempestade. Uma grande tempestade, é o que dizem. Tremenda." Levantou o braço para o céu claro, claro como as espumas da proa. Mas ao longe, na direção sul, uma fina faixa de nuvens violetas, semelhantes a flocos de algodão, expandia-se pouco a pouco como manchas de tinta.
Teddy farejou o ar. "Você se lembra da guerra, não se lembra, Chuck?"
Pela forma como Chuck riu, Teddy começou a achar que já estavam entrando em sintonia, aprendendo a trocar alfinetadas amigáveis.
"Um pouquinho", disse Chuck. "Principalmente dos escombros. Montes de escombros. As pessoas desprezam os escombros, mas afirmo que têm a sua importância. Têm uma beleza. No fundo, tudo está nos olhos de quem observa."
"Você fala como uma personagem de romance barato", disse Teddy. "Já lhe disseram isso?"
"Já aconteceu", disse Chuck com um de seus pequenos sorrisos, dessa vez fitando o mar; ele se espreguiçou.
Teddy bateu as mãos nos bolsos da calça, vasculhou os bolsos internos do paletó. "Você se lembra do quanto as manobras dependiam dos boletins meteorológicos?"
Chuck passou as costas da mão na barba nascente do queixo. "Lembro."
"Você se lembra da porcentagem de acerto das previsões?"
Chuck franziu o cenho, dando a entender a Teddy que estava dispensando a devida consideração ao assunto. Então estalou os lábios e disse: "Eu diria que acertavam em uns trinta por cento dos casos".
"Na melhor das hipóteses."
Chuck concordou com um gesto de cabeça. "Na melhor das hipóteses."
"E cá estamos nós de volta ao mundo..."
"Não apenas de volta", disse Chuck, "mas refestelados, eu diria."
Teddy reprimiu um riso, começando a gostar muito daquele cara. Refestelados. Meu Deus.
"Pois é, refestelados", concordou Teddy. "Por que deveríamos acreditar mais nos boletins meteorológicos agora do que naquela época?"
"Bem", disse Chuck no momento em que a ponta rombuda de um pequeno triângulo se elevava acima da linha do horizonte, "não sei bem se posso medir minha confiança em termos de mais ou menos. Quer um cigarro?"
Teddy parou no meio de uma segunda rodada de apalpadelas nos bolsos, levantou os olhos e surpreendeu Chuck observando-o, com um sorriso irônico distendendo-lhe o rosto, logo abaixo da cicatriz.
"Eu tinha cigarros quando embarquei", disse Teddy.
Chuck olhou para trás por sobre o ombro. "Funcionários públicos... roubam sem que a gente note." Chuck sacudiu seu maço de Lucky Strike para tirar um cigarro, passou-o a Teddy, acendeu-o para o colega com seu Zippo de cobre, e por um instante o cheiro do combustível dominou o do ar marinho e chegou ao fundo da garganta de Teddy. Chuck fechou o isqueiro, abriu-o em seguida com um rápido movimento de punho e acendeu o seu.
Teddy soprou a fumaça e a ponta do triângulo da ilha desapareceu por um instante na nuvem de fumaça.
"Na Europa", disse Chuck, "quando um boletim meteorológico definia se você iria saltar de pára-quedas ou se iria para a cabeça-de-ponte, havia muito mais em jogo, não é?"
"É verdade."
"Mas, de volta ao lar, que mal pode haver em uma crença um tanto arbitrária? Foi só isso o que quis dizer, chefe."
A ilha agora lhes mostrava mais que uma simples ponta triangular, exibindo pouco a pouco as seções inferiores acima da superfície plana do mar; ao mesmo tempo, surgiam as cores, como por obra da mão de um pintor - um verde-claro onde a vegetação crescia intocada, uma língua de terra marrom do litoral, o ocre desbotado da prumada de um rochedo no extremo norte. E, na parte mais alta, à medida que o barco avançava cortando as águas, começaram a divisar os contornos retangulares dos edifícios.
"É uma pena", disse Chuck.
"O quê?"
"O preço do progresso." Colocando um pé sobre o cabo de reboque, apoiou o corpo contra a amurada ao lado de Teddy; e os dois ficaram vendo a ilha materializar-se diante deles. "Com os avanços - e sempre há avanços, não se engane, todos os dias - alcançados nos tratamentos da saúde mental, não vão existir mais espaços como este. Daqui a uns vinte anos vão classificá-lo como bárbaro. Um desastroso subproduto da velha influência vitoriana. O que então, felizmente, será coisa do passado. Integração, eles dirão. Integração será a palavra de ordem. Sejam bem-vindos ao seio de nossa comunidade. Vamos confortá-lo. Vamos reconstruí-lo. Somos verdadeiros generais Marshall. Somos uma nova sociedade, e não há lugar para exclusão. Não haverá ilhas de Elba."
Os edifícios tinham desaparecido novamente por trás das árvores, mas Teddy conseguia divisar a forma imprecisa de uma torre cônica, e depois os ângulos nítidos, salientes, que supôs serem do antigo forte.
"Mas abrimos mão de nosso passado para garantir o futuro?", disse Chuck atirando, com um piparote, o cigarro na espuma. "Eis a questão. O que você perde quando varre o chão, Teddy? Migalhas que de outro modo atrairiam formigas. Mas o que dizer do brinco que ela perdeu? Também foi parar no lixo?"
Teddy disse: "Quem é ela? De onde você a tirou, Chuck?".
"Há sempre uma ela, não é?"
Teddy percebeu uma variação no ruído do motor atrás deles, sentiu um leve sacudir sob os pés. Agora que o barco dava a volta para abordar a ilha pelo lado oeste, podia ver melhor o forte no alto das falésias do lado oeste. Já não havia mais canhões, mas as torres eram bem visíveis. Por trás do forte as colinas ondulavam, e Teddy disse para si mesmo que os muros, ainda que fosse impossível observá-los do lugar em que se encontrava, provavelmente se erguiam em algum ponto naquela direção, e que o hospital Ashecliffe se localizava para além das escarpas rochosas, a cavaleiro da costa ocidental.
"Você tem uma garota, Teddy? É casado?", disse Chuck.
"Era", disse Teddy, lembrando-se de Dolores, de um olhar que ela lhe dera certa vez durante a lua-de-mel, voltando a cabeça, o queixo quase tocando o ombro nu, os músculos movendo-se sob a pele próximo à coluna vertebral. "Ela morreu."
Chuck afastou-se da amurada, o pescoço avermelhando-se. "Meu Deus."
"Tudo bem", disse Teddy.
"Não, não." Chuck levantou a mão na altura do peito de Teddy. "É... acho que já me disseram isso. Não sei como pude esquecer. Há alguns anos, não foi?"
Teddy confirmou com um gesto de cabeça.
"Meu Deus, Teddy. Estou me sentindo um idiota. Desculpe-me."
Mais uma vez Teddy a viu, de costas para ele, andando no corredor do apartamento em direção à cozinha, usando uma velha blusa de uniforme, cantarolando - e sentiu-se invadido por uma lassidão bastante familiar. Teria preferido fazer qualquer outra coisa - até mesmo nadar naquelas águas - a falar de Dolores, do fato de ela ter vivido nesta terra por trinta e um anos, deixando de repente de existir. Simplesmente isso. Estava lá quando ele saíra para o trabalho. E desaparecera durante a tarde.
Mas pareceu-lhe que essa história era como a cicatriz de Chuck. O tipo de mistério que devia ser esclarecido logo de cara, para se poder ir em frente, do contrário ficaria sempre pairando entre eles. Como. Onde. Por quê.
Dolores morrera havia dois anos, mas revivia à noite, nos sonhos dele. E às vezes, no alvorecer, Teddy passava minutos a fio pensando que ela estava na cozinha ou tomando café na sacada do apartamento em Buttonwood. Era uma cruel ilusão armada por sua mente, claro, mas havia muito tempo que Teddy se conformara com a lógica desse acontecimento - afinal de contas, acordar era como nascer. A gente emerge sem história. Depois, entre um piscar de olhos e um bocejo, reorganiza o passado, dispondo os fragmentos em ordem cronológica, reunindo forças para enfrentar o presente.
O mais cruel, porém, era a maneira como todo o tipo de coisa disparatada, sem relação aparente com o drama, tinha a capacidade de despertar lembranças de sua mulher, as quais se incrustavam no cérebro como fósforos acesos. Teddy não conseguia prever o que haveria de ser - um saleiro, o andar de uma desconhecida numa rua cheia de gente, uma garrafa de Coca-Cola, uma mancha de batom num espelho, uma pequena almofada.
Mas, de todos os elementos capazes de desencadear o processo, nada era menos lógico, em termos de associação, ou mais pungente em seus efeitos, que a água: jorrando da torneira, caindo do céu, empoçada nas calçadas ou, como agora, estendendo-se por quilômetros e quilômetros, em todas as direções.
Disse a Chuck: "Houve um incêndio em nosso prédio. Eu estava no trabalho. Morreram quatro pessoas. Ela era uma das quatro. Foi morta pela fumaça, Chuck, não pelo fogo. Não sentiu dores. Será que sentiu medo? Talvez. Mas dor, não. Isso é importante".
Chuck tomou outro gole da garrafinha e a ofereceu novamente a Teddy.
Teddy balançou a cabeça. "Parei de beber. Depois do incêndio. Ela se preocupava com isso, sabe? Dizia que nós, soldados e policiais, bebemos demais. Então..." Ao perceber que Chuck, ao seu lado, estava cada vez mais embaraçado, disse: "A gente aprende a segurar uma barra como essa, Chuck. Não há alternativa. Como toda aquela merda que você viu na guerra, lembra?".
Chuck balançou a cabeça, apertando os olhos por um momento; subitamente pareceu distante, por força das recordações.
"É preciso aprender", disse Teddy com voz branda.
"Claro", disse Chuck por fim, com o rosto ainda afogueado.
Como por ilusão de ótica, o desembarcadouro surgiu de repente à frente, partindo da areia e avançando mar adentro, parecendo, àquela distância, um tablete de goma de mascar, imaterial e cinzento.
Teddy sentia-se desidratado, por ter expelido aquele líquido no toalete, e um pouco cansado pelos últimos minutos de conversa; por mais que tivesse aprendido a suportar o fardo da lembrança, vez por outra fraquejava um pouco. Sentiu dor no lado esquerdo da cabeça, bem atrás do olho, como se este sofresse a pressão de um cabo de colher. Ainda era cedo para dizer se se tratava de mero efeito da desidratação, o início de uma dor de cabeça comum, ou se era o primeiro sinal de algo pior - as enxaquecas que o atormentavam desde a adolescência, muitas vezes tão fortes que lhe tiravam a visão de um olho temporariamente, transformando a luz numa saraivada de pregos quentes. Graças a Deus, a dor só o paralisara uma vez, durante um dia e meio. As enxaquecas, pelo menos as suas, nunca apareciam em períodos de grande pressão ou de sobrecarga de trabalho, só depois que as coisas se acalmavam, depois que as granadas paravam de cair, depois de cessado o ataque. E era então nos campos de treinamento, na caserna ou, a partir do final da guerra, em quartos de hotel à beira das rodovias, ou enquanto dirigia em auto-estradas pelo interior do país, que elas atacavam de forma mais dolorosa. O truque para evitá-las, ele bem havia descoberto, era se manter ocupado e concentrado. Elas não o atingiam enquanto ele se mantivesse em ação.
Teddy disse a Chuck: "Ouviu muitos comentários sobre este lugar?".
"Trata-se de um hospital psiquiátrico, é só o que sei."
"Para alienados criminosos", disse Teddy.
"Bem, não estaríamos aqui se não o fossem", respondeu Chuck.
Teddy surpreendeu-o novamente esboçando aquele risinho seco. "Nunca se sabe, Chuck. Você não me parece uma pessoa cem por cento estável."
"Bem, se é assim, quem sabe seja conveniente eu pagar um adiantamento e fazer uma reserva, pelo menos garanto um bom lugar para mim."
"Não é má idéia", disse Teddy.
Com os motores desligados por um instante, o barco virava a estibordo, levado pela corrente. Novamente acionaram os motores, e Teddy e Chuck logo se viram face ao mar aberto, enquanto o barco recuava em direção ao embarcadouro.
"Até onde sei", disse Teddy, "eles se especializaram em tratamentos radicais."
"Tratamentos de emergência?", disse Chuck.
"Não", disse Teddy. "Tratamentos radicais. Há uma diferença."
"Difícil de perceber, nos dias de hoje."
"Às vezes é mesmo", concordou Teddy.
"E a mulher que fugiu?"
Teddy disse: "Pouco sei sobre o caso. Ela escapou na noite passada. Tenho seu nome em meu bloco de anotações. Acho que vão nos dar todos os pormenores do caso quando chegarmos".
Chuck contemplou a imensa extensão de água à sua volta. "Para onde será que ela vai? Será que vai para casa a nado?"
Teddy deu de ombros. "Ao que parece, os pacientes do hospital estão sujeitos a todo tipo de alucinações."
"São esquizofrênicos?"
"Acho que sim. De qualquer modo, não vamos encontrar aqui os mongolóides que costumamos cruzar na rua. Ou algum sujeito que tenha medo das rachaduras das calçadas, ou que durma demais. Pelo que pude concluir do relatório, todos os que estão aqui são malucos mesmo."
Chuck disse: "Mas quantos você acha que estão fingindo? Sempre me perguntei isso. Você se lembra de todos aqueles caras da Oitava Seção, desmobilizados ou reformados, considerados inaptos para o trabalho ou para o combate? Quantos acha que estavam realmente doidos?"
"Servi com um sujeito nas Ardenas..."
"Você esteve lá?"
Teddy confirmou com um gesto de cabeça. "O sujeito um dia acordou falando de trás pra frente."
"As palavras ou as frases?"
"As frases", disse Teddy. "Ele dizia: 'Sargento, aqui por demais sangue tem hoje'. Certa vez, no final da tarde, nós o encontramos numa trincheira, batendo com uma pedra na própria cabeça. Só isso. Batendo sem parar. Ficamos tão chocados que levamos algum tempo até percebermos que ele arrancara os próprios olhos."
"Você está brincando..."
Teddy fez que não com a cabeça. "Ouvi falar de um sujeito que alguns anos depois cruzou com um cego num hospital de veteranos em San Diego. Provavelmente era ele; continuava falando de trás pra frente e sofria de uma paralisia cuja causa nenhum médico conseguia descobrir; passava o dia numa cadeira de rodas perto da janela, falando o tempo todo de colheitas: ele precisava fazer a colheita. O problema é que o cara cresceu no Brooklyn."
"Bem, se um sujeito do Brooklyn pensa que é agricultor, só pode ser um caso para a Oitava Seção."
"De fato, é bastante sintomático."


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