Livro acessível
Títulos / Companhia das Letras / PÁGINAS DE SENSAÇÃO
Companhia das Letras
PÁGINAS DE SENSAÇÃO
Alessandra El Far



Introdução

I.

Nas últimas duas décadas do século XIX, inúmeros livros foram publicados com a finalidade de atingir uma parcela ainda pouco explorada pelo mercado editorial: "o povo". Com o tempo, as belas encadernações vindas da Europa e os textos assinados por intelectuais de rara erudição, tão apreciados pelas elites ilustradas brasileiras, foram cedendo espaço, nas prateleiras das livrarias, às brochuras baratas, que carregavam consigo tramas mirabolantes, narrativas audaciosas, de tirar o fôlego. "Nós, editores", dizia o literato Adolfo Caminha, reproduzindo a frase que todo escritor de talento escutava ao tentar publicar sua obra, "preferimos ao estilo, à arte um bom enredo, uma história de sangue cheia de mistérios, comovente, arrebatadora! É disso que o povo gosta, e nós, a respeito de gosto literário, só conhecemos o povo."
Publicar para uma ampla gama de leitores tornava-se, naquela época, um negócio promissor. Cientes das inovações tecnológicas de impressão, que barateavam o custo da produção em larga escala, os livreiros-editores passavam a lançar no mercado uma diversidade de obras capazes de agradar aos diferentes públicos em formação no espaço urbano. O desenvolvimento da capital federal, o contingente cada vez maior de homens livres, a vinda de imigrantes europeus, o aumento de profissionais liberais, o estabelecimento de uma população assalariada, dentre outros fatores, contribuíram para fazer do volume impresso um produto comercial lucrativo. Nessa nova lógica, o melhor livro já não era aquele que deixava transparecer um estilo refinado de escrita, mas o que mais vendia.
Quando um editor afirmava sua intenção de divulgar obras ao gosto do "povo", ele não estava se referindo às camadas pobres e de baixa renda. Seu desejo era, acima de tudo, extrapolar as fronteiras econômicas e sociais, que antes limitavam a compra de livros aos grupos endinheirados, a fim de expandir tal possibilidade a toda e qualquer pessoa livre das amarras do analfabetismo. Nesse sentido, as obras populares não eram aquelas direcionadas a um público específico, e sim as que recebiam um tratamento editorial interessado em baixar seu custo de produção e dinamizar seu consumo. Diante de um anúncio intitulado "livros para o povo" as pessoas sabiam tratar-se de volumes baratos, de leitura fácil e, em muitos casos, ilustrados com várias estampas. Por isso, em 1899, um conhecido livreiro fazia propaganda de um dos seus romances, dizendo: "A todas as classes desde a mais alta até a mais baixa, que gostarem de ler, que apreciarem um bom romance".
O índice de analfabetismo no Rio de Janeiro, naquele final de século, era o mais baixo do país. Enquanto 80% dos brasileiros não sabiam ler nem escrever, quase metade da população carioca aparecia, nos dados oficiais, liberta desse mal. Segundo o censo de 1890, a população da capital federal era de 522 mil habitantes, um número que praticamente havia dobrado em relação ao recenseamento de 1872. Desse meio milhão de moradores, 57,9% dos homens e 43,8% das mulheres foram registrados como alfabetizados, o que representava, em termos numéricos, cerca de 270 mil pessoas capazes de ler e escrever. Com o novo século, o índice populacional cresceu de modo acelerado. Em 1906, havia na cidade 811 443 almas, cujo montante de possíveis leitores ultrapassava os 400 mil.
Difícil saber se esses números correspondiam à realidade, mas, de certa forma, foram suficientes para fazer com que os livreiros saíssem da margem dos mil exemplares publicados por título e apostassem em cifras bem maiores. Como veremos, um romance de sucesso conseguia vender milhares de exemplares em poucas semanas. A compilação de histórias infantis chegava a atingir, por sua vez, tiragens surpreendentes, assim como determinados manuais de ajuda prática e alguns folhetos de enredos emocionantes. Fatos como esse, certamente, não apareciam como regra, mas iluminavam a potencialidade do mercado editorial carioca - que também enviava seus produtos a outras cidades e estados - numa época em que o livro popular nascia como um dos principais veículos de comunicação e entretenimento.
O romance foi um dos gêneros literários mais disseminados do período. O romance-folhetim, publicado nos rodapés dos jornais diários, desde o final da primeira metade do século XIX, havia conquistado um séquito considerável de leitores. A partir daí, um variado rol de histórias inusitadas, vertiginosas e dramáticas, vindas do além-mar, compuseram o acervo das livrarias. Além dos originais franceses e ingleses, um aluvião de traduções portuguesas, produzidas em Lisboa e no Porto, entrou no país para agradar àqueles que não sabiam ler no original. Visto que o aprendizado de línguas estrangeiras se delineava como um privilégio de poucos, os livreiros instalados no centro do Rio de Janeiro, que almejavam satisfazer os anseios de uma massa consumidora em constante expansão, começavam a valorizar o comércio das obras escritas no nosso idioma ou para ele vertidas.
Imersa nesse extenso e diversificado universo das publicações populares, irei analisar, em especial, duas categorias de romance, que tiveram enorme sucesso em finais do século XIX: os chamados "romances de sensação" e os "romances para homens". Muitas dessas narrativas foram lidas, relidas, apreciadas, comentadas, plagiadas, criticadas e reeditadas inúmeras vezes. Hoje em dia desconhecem-se tais enredos. Quem já ouviu falar na sensacional história de Elzira, a morta virgem, a rica menina do bairro de Botafogo que preferiu a morte a se casar com um homem que não amava? Ou na vida repleta de infortúnios de Maria, a desgraçada, uma moça ingênua do campo que foi seqüestrada, violentada e mantida em cativeiro às vésperas de seu matrimônio com um jovem bem-sucedido da cidade? Ou, quem sabe, na inconseqüente Maricota, sempre disposta a satisfazer os desejos da "carne", em O aborto, uma leitura indicada apenas ao público masculino, já acostumado às libidinosas aventuras de Os serões do convento e às endiabradas Memórias de frei Saturnino, o porteiro dos frades bentos. Tais livros, desconhecidos na atualidade, eram bastante familiares aos leitores daquela época, sendo anunciados de forma rotineira nas seções de "livros baratíssimos" da grande imprensa carioca.
O termo "sensação" era usado de modo recorrente naquele século. Na vida real, toda situação inesperada, assustadora, impetuosa, capaz de causar arrepios e surpresa recebia tal conotação. Na literatura, essa expressão servia para avisar o leitor do que estava por vir: dramas emocionantes, conflituosos, repletos de mortes violentas, crimes horripilantes e acontecimentos imprevisíveis. Em outras palavras, fatos surpreendentes que extrapolavam a ordem rotineira do cotidiano. Tanto o editor quanto o autor procuravam fisgar a curiosidade do leitor pela trama sensacional trazida no livro. Não estava em questão a análise psicológica minuciosa das personagens, nem mesmo ousados preâmbulos estilísticos. Fazia-se necessário, antes de mais nada, colocar em primeiro plano as fatalidades do destino, as ações imponderadas dos seres humanos e suas funestas conseqüências, que atropelavam o curso esperado da vida. Elzira, a morta virgem, como dizia o próprio título, constituía um caso exemplar.
Já os "romances para homens" foram assim denominados em razão de seus enredos recheados de cenas de sexo, luxúria e obscenidades não aconselháveis às mulheres, vistas como pessoas frágeis, suscetíveis e facilmente influenciáveis pelos encantos da narrativa. Os temas, dentre outros, giravam em torno de casos de adultério, incesto, homossexualismo e prostituição. Em graus e intensidades diferentes, lá estavam os padres transgredindo as regras de castidade, as mulheres casadas burlando suas promessas de fidelidade, os homens solteiros renegando os laços do casamento, as jovens meninas entregando-se à vida pública dos bordéis e das aventuras amorosas desmedidas. Diante dos desejos incontroláveis do corpo, rompia-se com as regras sociais de boa conduta em favor de uma existência distante do temor das futuras punições. As descrições detalhadas de cada encontro amoroso pegariam de surpresa, até mesmo nos dias de hoje, os mais desavisados. Por esse motivo, essas histórias encontravam-se à venda acompanhadas de uma frase que mais parecia um aviso: "leituras só para homens".
Vários dos "romances para homens" tiveram uma singular repercussão naquele final de século. Títulos como O aborto e A mulata venderam mais de 5 mil exemplares em poucos meses. Os serões do convento, um "clássico" do gênero, passaram de mão em mão durante décadas seguidas, inspirando outras publicações. Mesmo com a fala irada dos críticos literários e jornalistas, que reclamavam da proliferação desses livros "sujos" que "brotavam a cada dia como cogumelos", mal concebidos e escritos "sem qualquer imaginação", eram neles que os livreiros do Oitocentos concentravam as expectativas de sucessivas edições.
O uso dos termos "sensação" e "para homens" possuía largas fronteiras. Às vezes, um romance poderia aparecer em uma propaganda ou catálogo como sendo um enredo sensacional e, em outros, sem qualquer menção. Ainda havia o caso de uma mesma história aparecer ora com uma ora com outra denominação, dependendo do teor da narrativa e dos encontros apaixonados entre os protagonistas. Mais do que uma definição fechada, fixa, essas categorias narrativas possibilitavam uma margem razoável de manobra, ficando ao editor, responsável pela impressão e pelos reclames na imprensa, a palavra final. Em última medida, elas não deixavam de ser uma estratégia de publicidade. Para além do título e da fama do autor, um livro de "sensação" ou "para homens" significava, naquele tempo, o breve anúncio das emoções ou das cenas de sexo a serem reveladas durante o exercício da leitura.
Como veremos, muitos dos romances voltados ao "povo", escritos por autores brasileiros, foram inspirados nos enredos europeus de sucesso ou em escolas literárias em voga no Velho Mundo, mas nem por isso perderam sua originalidade. Apesar do estrangeirismo latente, as nossas narrativas e traduções ganharam particularidades locais. Tanto que as jovens protagonistas adquiriram, com os anos, feições próprias, em certas circunstâncias, uma pele um tanto amulatada, um temperamento específico, pronto para interagir com seu tempo e sua sociedade.
Assim, partindo do princípio de que havia, no Rio de Janeiro de finais do século XIX, um amplo comércio dessa literatura dita popular, irei, neste livro, recuperar e analisar os romances de maior sucesso, com o propósito de relacionar o significado inscrito em suas histórias com os dilemas e conflitos vividos na sociedade carioca e brasileira daquele tempo; pois, se os romances chamados de "sensação" e "para homens" atingiam milhares de leitores, numa época em que o mercado editorial desenvolvia-se a olhos vistos, isso se devia ao fato de que eles lidavam com valores culturais bastante arraigados, compartilhados e, certamente, questionados nas maneiras de pensar e agir de vários segmentos da população da corte, mais tarde capital federal.
O desafio aqui foi ler esses romances do Oitocentos sobre os ombros de seus autores, a fim de anotar o sentido da ação das personagens em relação ao contexto em que foram criados. Exatamente por trabalhar com edições antigas e velhos documentos de arquivos, levei ao pé da letra a maneira como Clifford Geertz definiu o trabalho etnográfico caro a todo antropólogo. "Fazer etnografia", diz ele, "é como tentar ler um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado." Assim sendo, a tarefa de desvendar o caráter sensacional ou pornográfico dessas narrativas, já perdidas no tempo, esteve pautada no intuito de efetuar uma leitura preocupada em decifrar os códigos públicos do passado, existentes em suas linhas e entrelinhas.
O historiador Robert Darnton, que tanto se apoiou na antropologia hermenêutica de Geertz para examinar a literatura libertina francesa do Antigo Regime, reforça a possibilidade de se efetuar um trabalho de campo em arquivos e bibliotecas, tendo em vista o rico acervo diante do qual o pesquisador se vê autorizado a "fazer perguntas novas ao material antigo". Os diálogos com os nativos e a observação de uma realidade empírica com todas as suas imagens, cheiros e ruídos apresentam, como lembra Darnton, desafios diferentes das informações lidas nos papéis desgastados pelo tempo. Porém, tanto um quanto o outro contêm suas "áreas de opacidade e de silêncio", já que as falas locais bem como as opiniões deixadas no decorrer da escrita expressam interpretações, visões de mundo, e não dados em si.
Numa história de tendência etnográfica ou em uma etnografia histórica, o interesse em resgatar e explorar a dimensão simbólica da narrativa composta décadas antes deve, então, levar em conta o fato de os romances não representarem uma escrita isolada ou algo nascido somente da imaginação criativa do autor. Como parte integrante de um quadro cultural bem mais amplo, esse conjunto de textos pode ser melhor compreendido diante do cenário de sua produção. Ao intercalar "texto" e "contexto", para usar as palavras de Darnton - ou então, as "observações específicas" com os "aspectos gerais", para lembrar os termos utilizados por Geertz a respeito dos tradicionais trabalhos de campo -, o que até então parecia estranho, exótico ou despropositado passa a exibir um conjunto viável de significados e explicações. Com isso, consegue-se discutir, com maior rigor, o sucesso de algumas obras em particular, assim como os usos das palavras "sensação" e pornografia no final do século XIX.
Nessa constante busca de sentidos, vê-se também que os "romances de sensação" e as "leituras só para homens", com todas as suas singularidades, elucidavam um modelo narrativo bastante parecido. Passados alguns capítulos, as personagens de ambos os estilos literários colocavam em xeque as regras e normas de uma sociabilidade vigente, instaurando em seu lugar, mesmo que de maneira momentânea, o caos e a completa desordem. Se nas histórias sensacionais os heróis e heroínas, vítimas de um destino cruel, viam-se de uma hora para outra à mercê de um futuro inglório, de uma morte prematura ou de um sofrimento injusto e sem fim - num cenário onde os bandidos e entes do mal viravam pelo avesso os fundamentos regentes da sociedade -, nos livros reservados somente ao público masculino, de modo semelhante, cada aventura sexual demarcava o desmoronar de preceitos sociais, familiares e matrimoniais tão caros àquela época. Aos olhos do leitor, acostumado a uma realidade mediada por rígidas convenções sociais e pelos severos laços de obediência, parecia ser extremamente atraente inteirar-se de histórias comprometidas em explorar as brechas e fragilidades da ordem cotidiana.
Esses livros, que até então foram ignorados por serem considerados um gênero menor, sem qualquer refinamento estético ou intelectual, revelam, nessa perspectiva, uma oportunidade ímpar de entrar num universo literário marcado por tantas diversidades e repetições. Seguindo esse caminho, espero entender o sucesso de suas sucessivas tiragens e os milhares de exemplares vendidos em um curto espaço de tempo.
[...]


Grupo Companhia das Letras

Editora Schwarcz S.A. - São Paulo
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 - São Paulo - SP
Telefone: 11 3707-3500
Fax: 11 3707-3501
Editora Schwarcz S.A. - Rio de Janeiro
Praça Floriano, 19, sala 3001
20031-050 - Rio de Janeiro - RJ
Telefone: 21 3993-7510
Todos os direitos reservados 2018