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Companhia das Letras
COLÓQUIO MORTAL
Lev Raphael



PRÓLOGO


Na primeira vez em que ouvi um figurão do Movimento Macho dizer que os homens precisavam desesperadamente entrar em contato com o seu "guerreiro interior", eu achei graça porque estava resfriado, não conseguindo ouvir lá muito bem, e achei que ele tinha dito "berreiro interior".
Ora, eu não precisava de nenhum xamã de programa de calouros batucando numa bateria do Kmart para me indicar a rota desse tipo de viagem. Até dormindo eu conhecia o caminho.
Stefan sempre me acusou de catastrofismo. Para mim, tratava-se apenas de planejamento prévio. Mas nem mesmo eu pude antever os crimes Edith Wharton.
Meus problemas começaram no primeiro dia do semestre de outono, quando se convocou uma reunião "de emergência" com todo o Departamento de Inglês, Estudos Americanos e Retórica (IAR) na sala em frente à secretaria do edifício Parker. Era uma velha sala de aula reformada no fim dos anos 50 ou no começo dos 60, quando muito se construiu no campus de Michiganapolis da Universidade Estadual de Michigan. Podia ser que tivesse sido bonita antigamente, mas hoje ninguém mais podia dizer o mesmo. No teto rebaixado e forrado de placas de gesso caiado, granuloso, projetavam-se montes de lâmpadas de neon que piscavam, chiavam e que estariam mais bem situadas em uma sala de cirurgia ou em um necrotério. Feias venezianas beges sombreavam as janelas, pendendo em dobras poeirentas e desconjuntadas. O revestimento das paredes fora repintado muitas e muitas vezes, e o quadro-negro com bordas de metal tinha superfície verde-clara.
O pior eram os assentos, ou melhor, as horríveis cadeiras de pedestal com finos braços curvos que se alargavam para transformá-las em miniescrivaninhas verdoengas, acinzentadas, quase impraticáveis. Os assentos eram duríssimos, e as cinqüenta unidades apinhadas num cômodo com capacidade de no máximo trinta só exacerbavam a sensação de desconforto. Além de muito apertadas, as cadeiras eram chumbadas no chão - para o caso de haver um terremoto, imagino -, de modo que quem tentasse se virar arriscava ficar eviscerado. A autoritária disposição da sala obrigava os alunos a olharem para a frente, vetando qualquer possibilidade de interação. Era fácil imaginar cada carteira ligada a um sistema eletrônico que punisse e disciplinasse com choques aplicados por controle remoto.
Os membros do corpo docente parecíamos estranhamente deslocados naquela congestionada e estreita combinação de carteiras em que os estudantes sofriam rotineiramente. A atmosfera de crise se adensava com os assentos extras acumulados no fundo da sala.
Meu companheiro Stefan, escritor residente do departamento, não compareceu, pois sempre se dava ao luxo de faltar às reuniões. Era um privilégio inaudito de seu cargo, privilégio que eu invejava, principalmente porque o IAR estava dividido em campos rivais.
O departamento de quase oitenta membros tinha um núcleo de vinte docentes que haviam outrora constituído o independente Departamento de Retórica, que quinze anos antes, quando de um corte de verbas, fora obrigado a se fundir com o de Inglês e Estudos Americanos. Um transplante que jamais ocorreu na prática. Os professores de retórica - pretensiosos, ranhetas e pouco qualificados - eram sistematicamente maltratados no IAR: escritórios menores, horários menos convenientes, queixas desdenhadas.
Todos eles se comportavam como prisioneiros reduzidos à escravidão pelos exércitos de um império brutal que, depois de lhes arrasar a capital, havia salgado a terra para que nela nada voltasse a brotar. Não tinham esperança, não tinham sonhos, não tinham saudade sequer. Ocasionalmente, porém, entregavam-se a esquisitas tiradas auto-imolantes nas reuniões de departamento, apresentando sugestões e reivindicações que mostravam que eles nada compreendiam da realidade da universidade.
Os outros professores os desprezavam, e o pessoal da retórica não ia muito com a minha cara. Embora também desse aula de redação, coisa que eles faziam havia anos, eu era uma anomalia, pois gostava do trabalho. Mas também era um especialista em Edith Wharton, e provavelmente iria em breve dar um seminário sobre ela, além das outras aulas, ao passo que eles sistematicamente repetiam o mesmo curso semestre após semestre, ano após ano.
De pé na frente da sala, Coral Greathouse, a nova chefe do IAR, anunciou o início da reunião à sua maneira hesitante e desencarnada. Magra, loira, de olhos esbugalhados por trás dos enormes óculos de aro vermelho que realçavam o seu terninho azul-marinho de freira à paisana, era pálida, séria, intensa - tinha a serena convicção de uma bibliotecária de cidadezinha do interior que sabia perfeitamente onde ficava cada livro. O chefe precedente era um sujeito agressivo e atabalhoado, de modo que não surpreendia o departamento ter preferido uma mulher que não passava de uma nulidade. Coral parecia desprovida de sentimento; raramente mudava de expressão, e quando falava quase não movia a boquinha redonda. Era uma forte ou uma fraca? As pessoas lhe davam atenção por respeito ou por acharem que ela não tinha a menor importância? Ainda era cedo para saber.
"Olhe só a pose dessa mulher", cochichou Serena Fisch na carteira à minha direita enquanto esperávamos que a chefe começasse a falar. Serena contrastava em tudo com Coral - extravagante nos gestos, na fala e na aparência. No departamento, era a pessoa mais firmemente ancorada no passado, especificamente na década de 1940. Eu gostava de imaginá-la uma das Andrews Sisters. Naquele dia, seu cabelo preto e lustroso estava mais preto e lustroso que de hábito, como se ela o tivesse untado com selador de poliuretano. Exageradamente maquiada com camadas de branco e vermelho, mais parecia uma espécie de kabuki à go-go. Calçava escarpins pretos, meias com costura e um vestido igualmente preto, bem cinturado, com botões na frente e enchimento nos ombros. Um pente cravejado de falsos brilhantes prendia-lhe o rabo-de-cavalo meio de lado, muito embora um simples elástico bastasse para fazer o serviço.
Coral começou sem rodeios: "Vocês sabem que os professores da universidade dizem que UEM significa Universidade Estadual dos Machos, todos se queixam de que o corpo docente conta com muito poucas mulheres, de que quase não contratamos assistentes mulheres, de que não levamos a questão feminina a sério. Alguns deputados acolheram essas reclamações, e agora o governador interferiu".
Ouviu-se um rumor eivado de ironia, e muita gente ergueu os olhos para o teto. Por mais que o Legislativo fizesse questão de deixar claro, todo ano, que tinha o poder de cortar as verbas da UEM, e quase sempre o fazia, os professores suspiravam com irritação quando se mencionava o tema deputados estaduais, como patrões às voltas com um chato pedindo emprego. Como se viver uma suposta vida intelectual os tornasse superiores em tudo. Era esquisito, arbitrário e contraproducente. Mas isso nunca mudava.
Coral chegou a esboçar um sorriso animador, aparentemente percebendo que a sua própria presença era a prova da burrice dos parlamentares instalados no capitólio, a poucos quilômetros dali. Mas logo voltou a fechar a cara. "Como o IAR vai reagir?"
Bem, naquele exato momento, o IAR reagiu com um alvoroço de rosnados, denúncias e reivindicações. Todos tinham o que dizer e começaram a fazê-lo simultaneamente. Eu achei melhor me fechar em copas, pois sabia que ia demorar um pouco para conter aquela balbúrdia. Imaginei-me assistindo a um programa de televisão com o som abaixado e me limitei a observar os colegas espalhados pela sala. A maioria se encaixava numa categoria bem nítida. Os professores mais velhos pareciam tão desprovidos de vitalidade e energia quanto um animal atropelado que tivesse passado uma semana jogado na pista. Excessivos trabalhos para corrigir? Excessivas reuniões de departamento? Excessivas mentiras da administração?
Cerca da metade dos docentes do IAR, quarenta ao todo e na maioria homens, costumava usar decrépitos paletós de tweed e surradíssimas calças de cotelê, o que, em minha opinião, era uma espécie de deliberada autoparódia. Mas semelhante enxoval os havia desconstruído além da conta. Calvos ou com o cabelo mal cortado, seria uma gentileza chamá-los de desmazelados. Seu desleixo era de tal modo opressivo e inescapável que os professores mais jovens e mais bem vestidos acabavam parecendo exibidos e inadequados - como se tivessem tomado um banho de perfume para ir a um velório.
Olhando para o grupo ruidoso e clamoroso, Coral arreganhou uma controlada careta de aborrecimento. Foi como se estivesse trocando uma fralda particularmente imunda, e eu comecei a rir. Serena fez o mesmo, e Coral nos endereçou um aceno agradecido quando o pessoal se calou, tentando descobrir qual era a graça.
"Um de cada vez", murmurou. "Por favor."
A idéia de incluir mais escritoras mulheres nos cursos foi rejeitada por um membro da comissão de currículo, que disse que nós já tínhamos feito o suficiente nesse sentido.
Les Peterman, o grande falocrata do departamento, disse: "E se a gente contratar alguns datilógrafos homens para mostrar que ninguém aqui é sexista?". Foi vaiado e aplaudido. O seu campo de especialidade eram os anos 60, e, sabe-se lá por qual razão, ele sempre fazia piada acerca da igualdade de direitos entre homens e mulheres.
Um novato perguntou: "Que tal organizar uma discussão sobre gênero?".
Fez-se um silêncio hesitante, as pessoas olhando para os lados, umas tentando avaliar a reação das outras. "Gênero" - assim como "politicamente correto" - era um termo capaz de desencadear uma verdadeira e duradoura histeria no campus.
Serena falou devagar. "Legal, aí a gente paga uns convidados para falarem sobre suas partes íntimas."
Coral conteve a erupção de gargalhadas simplesmente sacudindo a cabeça. "Uma discussão", repetiu. "Por que não fazer uma discussão? Não digo que seja sobre gênero, mas sobre" - ela hesitou - "uma escritora. Uma escritora americana. Os alunos gostariam, nós poderíamos solicitar o co-patrocínio do Estudos Femininos..."
A proposta era tão pertinente que foi como se todos estivessem sob efeito de Valium time-release, no ritmo de Coral. Fizemos que sim em câmera lenta, calados agora, tentando achar um nome para sugerir.
"Anaïs Nin", arriscou Serena.
"Ora, tenha a santa paciência!" Era Larry Rich, o molambento ex-hippie de calça de veludo manchada e suéter larguíssimo. Dava aula de teatro e poesia renascentistas. "Ela é tão ultrapassada."
Martin Wardell, o especialista em período vitoriano que sempre se atrasava na devolução dos trabalhos dos alunos, concordou. "Muito gemido, muito suspiro, muito esforço para conseguir efeito."
"Ela não tem nada de ultrapassado: transava até com o pai", alegou sensatamente Priscilla Davidoff, do outro lado, junto à porta. Priscilla dava aula de ficção de gênero. "As memórias de incesto estão na moda hoje em dia."
Muita gente estremeceu como se ela acabasse de propor que o departamento inteiro aparecesse num programa sensacionalista vespertino. Ficou óbvio que Nin estava excluída.
A sala predominantemente masculina também demoliu Gertrude Stein, porque era lésbica e, portanto, demasiado controversa e, além disso, "os italianos a apreciam mais do que nós" - argumento cujo significado ninguém entendeu. Flannery O'Connor e Carson McCullers foram rejeitadas por serem "muito esquisitas". Willa Cather estava fora de cogitação porque no ano seguinte seria matéria daquela "outra escola", em Ann Arbor. Toni Morrison chegou a despertar certo interesse, mas não tardou a ser refugada - embora ninguém o tivesse dito em voz alta - porque não havia nenhuma docente preta no departamento. Cynthia Ozick também ficou de fora, já que a UEM carecia de um programa de estudos judaicos; não convinha o IAR chamar a atenção para as deficiências da universidade. Além disso, ela iria ao campus na série de Aulas do Decano daquele inverno.
Sentindo um frio na nuca, desconfiei que estavam olhando para mim, sei lá por quê. E tinha razão. Alguém perto da porta gritou: "Que tal Edith Wharton?".
Eu me virei e dei de frente com Carter Savery, o membro mais apagado do departamento. Professor do ex-Retórica, um sujeito esquisitão, careca, atarracado, cinzento, de semblante totalmente desprovido de emoção. O tipo do homem cujos vizinhos a gente vê dizerem na televisão depois de um assassinato em massa: "Mas ele foi sempre tão calmo...".
Coral comprimiu os lábios como se estivesse encantada com a idéia. Acaso havia premeditado aquilo? "Comentários?", perguntou, com os lábios apertados e o sorriso doce. Eu senti um arrepio ao ver os meus colegas evidentemente dispostos a atender o seu pedido.
Em tom indiferente, Carter disse, "Ethan Frome", como se esse título explicasse alguma coisa.
Os presentes concordaram num vago reconhecimento, talvez evocando o tempo em que os martirizavam com Ethan Frome no colégio.
"E não esqueçam os filmes que andam fazendo com os livros dela!", disse outra pessoa, como se o distante glamour de Hollywood fosse se refletir em todos nós.
"Esperem..., isso é loucura!"
Silêncio. Todos nós olhamos para Iris Bell, uma mulherzinha miúda, ruiva, de voz fina e metálica, cujos comentários eram carregados de tão turbulenta emoção que a gente chegava a pensar que ela ia prorromper em lágrimas ao dar bom-dia. Recurvadas para baixo, as comissuras da sua boca denotavam uma perpétua mágoa, como se ela fosse a própria máscara da tragédia. Naturalmente, também era ex-professora do Departamento de Retórica.
"Isso é uma fraude!" Levantou-se de um salto, a paixão já estampada na castigada cara de elfo, as mãos entrelaçadas e os braços estendidos como a implorar que usássemos a razão. "Nós temos de ir imediatamente ao gabinete do decano protestar contra esse embuste. Temos de exigir uma ação real, uma atenção real às questões femininas neste campus!"
No silêncio que acolheu tais observações, quase deu para ouvir o pensamento dos professores que nunca tinham sido do Retórica. "Sim, está bem." E alguém murmurou: "Por que eles não calam a boca?".
Coral Greathouse sugeriu com brandura: "Vamos pôr o nome em votação?". E Iris tornou a se sentar, os ombrinhos caídos, o pálido semblante mortificado pela derrota.
Tal como o momento em Levada da breca em que Cary Grant descobre que o dinossauro vai desmoronar, percebi que haveria inevitavelmente um ciclo de conferências sobre Edith Wharton na UEM - e o responsável seria eu, quisesse ou não. Procedeu-se à votação antes que me ocorresse um meio de impedi-la ou de protestar. Nada vinha mais a calhar. Wharton era uma escritora popular, mas agradável e incontroversa.
"E o melhor", sintetizou Coral Greathouse com um entusiasmo pouco usual, "é que nós temos um especialista em Wharton no departamento."
"Eu sou apenas e tão-somente bibliógrafo dela", apressei-me a corrigir.
A chefe repeliu o meu argumento com um gesto de desdém: "Nós nos orgulhamos tanto de você".
Na pressa de encerrar a reunião, adiou-se a discussão sobre as datas e o planejamento do ciclo de conferências. Ao sair, as pessoas vieram me dar tapinhas no ombro ou apertar minha mão, como se eu acabasse de ganhar um prêmio ou o departamento me tivesse feito uma grande honra.
"Oh, meu Deus", murmurei quando a sala ficou vazia.
Coral Greathouse se aproximou de mão estendida. Ti-ve de me levantar para apertá-la, sentindo-me como se estivesse posando para uma fotografia pública, com os fotógrafos e a imprensa ávidos por captar o sentimento espelhado em meu rosto.
"Eu fiquei muito contente", disse ela com voz entrecortada. "Muito mesmo. Foi a escolha certa. Sei que Bullerschmidt vai aprovar e nos dar todo apoio. E é claro que você tem os contatos na comunidade Wharton."
"Esse é o problema. Não existe nenhuma comunidade Wharton."
Inclinando a cabeça, ela me olhou feito um papagaio intrigado tentando aprender uma difícil palavra nova. "O quê?"
Tentei achar um modo sucinto de explicar uma situação complicadíssima. "Há duas sociedades Wharton rivais - e elas se detestam. Publicam jornais separados, quem freqüenta a palestra de uma não vai à da outra. Se a gente trabalhar com uma, a outra ficará ofendida."
Coral pensou um pouco. "Se há duas sociedades, a gente convida as duas." E saiu, evidentemente animada com a possibilidade de inscrições em massa.
Então eu entendi que estava num mato sem cachorro.
Serena Fisch sacudiu a cabeça, endereçando-me um sorriso torto. "Coral quer marcar um tento com esse número."
"Você acha?"
Serena se retorceu toda para sair da carteira, cruzou as pernas compridas. "Tenho certeza. Se a coisa for bem, ela ficará com todo o crédito."
"Que ótimo."
"Boa sorte, querido. Espero que você sobreviva aos milhares de telefonemas de gente reclamando que o nome saiu errado no programa - quer dizer, se os palestrantes mais importantes não ficarem presos em algum lugar por causa de uma greve das companhias aéreas. Depois, é claro que sempre há uma tentativa de estupro no coquetel de abertura. As conferências são assim, divertidíssimas."
"Você já organizou alguma?"
"Já", respondeu ela, muito séria. "E antes que terminasse peguei uma bronquite e uma pneumonia galopante."
"Carter fez isso de propósito!", disse eu entre dentes. E corei, arrependido. Serena Fisch era ex-chefe do Departamento de Retórica e, embora se comportasse como uma rainha deposta (e assanhada), eu não sabia ao certo o que ela sentia pelos antigos subordinados.
Serena sacudiu a cabeça. "Duvido, Nick. Carter só estava querendo ajudar."
"Que desastre", cochichei para que só ela ouvisse, muito embora estivéssemos sozinhos na sala.
"Eu sei." Serena balançou a cabeça em cumplicidade. "Eu sei. Todos vão querer que você faça o trabalho enquanto eles faturam os créditos ou ficam transando." Ergueu as sobrancelhas. "Ou as duas coisas", disse, pensativa.
"Mas você não entende como isso é terrível. É impossível organizar um ciclo de conferências sobre Wharton - é impossível organizar até mesmo uma pequena palestra sobre Wharton - com os dois grupos. Um tem ódio do outro."
"Questão de princípios gerais? Ou há uma história por trás?"
Desanimado, eu dei de ombros. A situação era terrível demais para entrar numa discussão naquele momento.
Serena passou o dedo na sobrancelha, como que parindo uma idéia. "Por que você não tenta reconciliá-los?"
"Nem a madre Teresa se atreveria. É como - é como matéria e antimatéria. Não - imagine o televangélico Pat Robertson namorando Madonna."
"Legal. Era o que faltava na universidade: uma rixa acadêmica."
Eu me limitei a sacudir a cabeça.
"É melhor você ir para casa", aconselhou ela, "ponha uma compressa de água fria na testa e fique repousando no escuro, bem tranqüilo."
Naquele exato momento, Coral Greathouse irrompeu na sala novamente. "Nick, fique sabendo que a pressão da administração, principalmente do decano Bullerschmidt, é muito forte. Nós precisamos começar já. O ciclo de conferências tem de ser realizado nesta primavera."
"Isso é impossível! Não dá para organizar uma coisa complicada assim em seis ou sete meses!"
Ela fez uma careta. "Mas você tem os contatos. É o que importa. E não esqueça que isso vai ser muito bom para a sua efetivação daqui a alguns anos, não é mesmo?" E tornou a sair.
Serena me encarou e encolheu os ombros.
"Foi uma ameaça", eu disse.
Ela concordou com um gesto. "Você está com cara de 'Guernica'."
"Como assim?"
"Destroçado."


No breve trajeto para casa, após a reunião que selou o meu destino, eu estava como num desses sonhos em que, de repente, a gente tem de entrar no palco, mas não se lembra do texto, não se lembra sequer do papel, nem sabia que ia representar um papel. As luzes se acendem, o público está ávido, ameaçador, pronto para atacar.
Senti um ligeiro alívio ao parar diante de casa, coisa que sempre me animava. Construído na década de 1930, aquele sobrado colonial de alvenaria parecia oferecer tanta estabilidade, desde os pilares que flanqueavam a porta da rua até os cômodos espaçosos, arejados, com a nossa confortável mobília.
Stefan, que tinha ido a Ann Arbor visitar o pai e a madrasta, estava de volta, e eu adorei vê-lo. Abraçando-o, dei-lhe a péssima notícia, sabendo que só quando estivesse disposto ele ia contar como tinha sido o encontro com o pai, do qual passara muito tempo afastado.
Stefan se surpreendeu. "Eles querem que você organize o ciclo?"
Eu confirmei com um gesto taciturno.
"Não estou entendendo." Ele enrugou a testa. "É para sabotar o evento? Então eles não sabem como você é dispersivo?"
Eu comecei a rir. Por que chega a ser engraçado e até carinhoso quando o ser amado fala francamente dos defeitos da gente? Stefan sabia que eu era uma das pessoas mais desorganizadas do mundo, mas ouvi-lo dizer isso com todas as letras não me magoava.
Fomos para a cozinha, onde ele estava preparando o jantar: pasta puttanesca. Uma garrafa de pinot grigio já se achava na mesa, "respirando", assim como os pratos fundos de macarrão e, num recipiente de vidro, um parmesão romano recém-ralado.
"Pense bem", disse Stefan, misturando dentes de alho, azeite e anchovas na panela. "Você vai acabar perdendo todas as fichas de inscrição." Eu comecei a me sentir melhor. "Ou pode se atrapalhar e convidar especialistas em Eudora Welty - as iniciais são as mesmas, não? EW."
Tornei a perder o ânimo. "Pena que a gente não mora perto de um vulcão. Aí as pessoas pensariam duas vezes antes de vir para cá."
Ele acrescentou alcaparras, azeitonas pretas picadas e tomates oblongos sem sementes na panela borbulhante e mexeu a mistura. "Que ilusão, Nick! Você sabe muito bem como são os acadêmicos. Não abrem mão de uma isenção de imposto e de uma temporada longe da sala de aula."
"E os especialistas em Wharton são os piores agora que ela está na moda. Acham que isso vai acabar."
Stefan fez que sim, vigiando a panela. O cheiro já estava delicioso. Ele abaixou o fogo. "Penne com manjerona e tomate ou linguine de espinafre?", perguntou, pondo um caldeirão de água para ferver.
Existe coisa melhor do que uma boa refeição preparada por um chef encantador?
"Linguine. O espinafre só funcionava para Popeye."
"É bom a gente sentar depois do jantar", propôs Stefan delicadamente, "e começar a planejar esse encontro."
"Não é melhor chamar o doutor Kevorkian para me tirar deste aperto enquanto é tempo?"


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