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Companhia das Letras
OS ANOS DO CONDOR
John Dinges



1. A primeira guerra ao terrorismo

Numa manhã clara de setembro de 1976, Orlando Letelier, influente ex-embaixador chileno em Washington, jazia morto e mutilado em Sheridan Circle na Embassy Row, em Washington, com o seu carro despedaçado por uma bomba acionada por controle remoto. Apenas alguns meses antes, os esquadrões da morte na Argentina tinham seqüestrado e executado um ex-presidente da Bolívia e dois dos líderes políticos mais preeminentes do Uruguai. Alguns líderes importantes da guerrilha do Chile e do Uruguai, que viviam clandestinamente na Argentina, também foram perseguidos e mortos. Os esquadrões de extermínio aterrissavam nas capitais européias com listas de exilados latino-americanos. Um congressista dos Estados Unidos era o alvo projetado de uma das tramas.
Durante um período curto de alguns anos, uma lista extraordinária de líderes militares e políticos dos países do sul da América do Sul perdeu a vida ou foi alvo de assassinato. As vítimas e os alvos tinham em comum o seguinte: opunham-se às ditaduras militares anticomunistas que controlavam grande parte da América Latina e estavam vivendo fora de seus países, no que pensavam ser um exílio seguro. Alguns recorreram eles próprios à violência; a maioria era do calibre e da preeminência que os qualificavam como alternativas democráticas aos homens fortes militares que procuravam derrubar do poder. Em todos os casos, os governos militares haviam chegado ao poder com o firme apoio dos Estados Unidos, e em todos os casos foram os líderes militares, com freqüência em estreita colaboração entre si, que organizaram as equipes de assassinato e as enviaram para cumprir suas missões terroristas.
Mas esses crimes internacionais eram apenas uma parte pequena dos milhares e milhares de assassinatos cometidos pelos governos militares na América do Sul contra seus cidadãos naqueles poucos anos - de 1973 a 1980 - aos quais dei o nome de "Anos do Condor". Os governos afirmavam que seus inimigos eram "terroristas". Embora alguns deles se ajustassem realmente à descrição, as vítimas mais conhecidas eram líderes civis e militares respeitados que tentavam preservar ou restaurar a democracia. A imensa maioria era composta de homens e mulheres jovens e educados envolvidos em movimentos que procuravam desafiar a injustiça econômica e social. A morte de cada um deles é efeito colateral, ainda não computado em nosso hemisfério, da guerra mundial para vencer a União Soviética e a perspectiva de uma revolução socialista.
A tragédia política dessa história é que os líderes militares responsáveis pelos homicídios e assassinatos em massa recorriam aos Estados Unidos em busca de assistência técnica e liderança estratégica. O governo norte-americano era o aliado dos regimes militares. A tragédia é que não se agia para promover e alimentar a democracia, mas para encorajar e justificar a sua derrubada. Ainda mais trágicos, e defensavelmente criminosos, eram os casos em que funcionários americanos estavam envolvidos diretamente em tramas e conexões com as pessoas empenhadas em homicídio político e assassinato em massa.
Essas acusações não podem ser feitas levianamente. A história não é simples ou unidimensional. Muitos funcionários dos Estados Unidos estavam descobrindo os direitos humanos como uma meta política durante aqueles anos, e há exemplos, documentados neste livro, de situações em que a CIA e outras agências tentaram impedir os assassinatos políticos internacionais. Mas os diplomatas, o pessoal do Serviço de Inteligência e os oficiais militares norte-americanos também estavam tão intimamente associados com as instituições militares responsáveis pela repressão que faziam pouco ou nada para desencorajar os numerosos crimes de direitos humanos que relatavam a Washington.
A evidência mostra que as mensagens em favor dos direitos humanos e da democracia eram abafadas em comparação com os toques de clarim para deter o comunismo a qualquer custo. Os sinais estavam misturados, na melhor das hipóteses. Eram cínicos e intencionalmente ambíguos, na pior delas. Os governantes militares parecem ter considerado as ações dos Estados Unidos e compreendido, de forma não de todo irracional, que os seus métodos não encontrariam oposição por parte daquele país. (Mesmo depois que a administração Carter tornou os direitos humanos uma prioridade vigorosa, em 1977, a matança em massa continuou na Argentina.) Este livro tenta contar algumas das histórias daqueles anos cheios de terror do ponto de vista dos atores ocultos - por dentro dos governos militares e seus aliados internacionais, inclusive os Estados Unidos, e por dentro dos grupos revolucionários radicais que eram seus adversários.


11 de setembro de 1973, Santiago, Chile, é um bom lugar para começar. Foi o dia em que o general Augusto Pinochet Ugarte bombardeou o palácio presidencial, símbolo da democracia mais longa e duradoura do continente. O golpe de Estado de Pinochet foi calorosamente apoiado pelo governo norte-americano. A história oficial, sustentada pela evidência disponível, é que os Estados Unidos não estavam diretamente envolvidos. Ainda assim, evidências oficiais mostram que foram eles que tomaram a iniciativa de organizar um levante militar apenas três anos antes. Esse esforço fracassou, mas resultou no assassinato do general René Schneider, líder das Forças Armadas chilenas. Tanto a tentativa apoiada pelos Estados Unidos em 1970 como o golpe de Estado levado a cabo por Pinochet em 1973 tinham o mesmo alvo: Salvador Allende, socialista eleito presidente em eleições democráticas impecáveis.
Onde o golpe organizado pela CIA fracassou, Pinochet teve sucesso. Uma força militar maciça esmagou rapidamente a popular mas vacilante revolução de Allende. O próprio Allende se suicidou em vez de se render a Pinochet, depois que seu palácio foi bombardeado.
É uma coincidência o fato de o dia 11 de setembro ganhar infâmia ainda maior com a derrubada do World Trade Center em 2001. No entanto, a coincidência não é insignificante. Após o primeiro 11 de setembro, tudo mudou na América Latina. O golpe de Estado de Pinochet não foi somente mais uma tomada de poder pelos militares, fato que já ocorrera às dúzias nas décadas anteriores. Foi o início de uma guerra total justificada como "guerra ao terrorismo", cujos alvos principais eram as forças políticas que, para Pinochet e seus aliados, estavam infectando seus países com o câncer estrangeiro da revolução comunista.
A vitória dentro do Chile era apenas o primeiro passo. A resistência ali teve vida curta. Milhares e milhares de partidários de Allende foram amontoados em campos de concentração improvisados, como o Estádio Nacional de Santiago. Mais de mil pessoas foram sumariamente executadas, entre elas dois americanos. Os militares de Pinochet empreenderam uma tática nova na América Latina: esconderam em sepulturas secretas o corpo dos prisioneiros executados, enquanto negavam às famílias que eles tivessem estado sob sua custódia.
A meta principal tornou-se rapidamente a erradicação de todos os vestígios de movimentos políticos afins ao de Allende - em toda a América Latina. Em alguns encontros, os representantes de Pinochet até falavam em erradicar seus inimigos ideológicos no mundo todo. Era uma guerra que requeria novas táticas, novas organizações e acordos secretos sem precedentes entre países no Cone Sul da América do Sul que apresentavam histórias longas de rivalidade e animosidade.
Teve início na América Latina, sob a liderança geopolítica de Pinochet, uma espécie de efeito dominó invertido. Os países cujo sistema democrático fornecera um ponto de apoio à ideologia esquerdista caíram sob o domínio militar e foram sujeitos a uma limpeza política impiedosa - país após país.
Como o inimigo tinha âmbito internacional, Pinochet traçou um plano internacional clandestino para derrotá-lo. Para esse fim, compôs uma aliança secreta com outros governos militares - Uruguai, Paraguai, Bolívia, Brasil e Argentina - que foi chamada de "Operação Condor", em referência ao majestoso comedor de carniça que é o pássaro nacional do Chile. A idéia era fazer com que os Serviços de Segurança reunissem forças para perseguir e capturar "terroristas" de todas as nacionalidades, onde quer que residissem.
Era compreensível que a aliança fosse atrás dos grupos de guerrilha militarizada que proliferavam na região nos anos 60 e no início dos 70. Os grupos estavam também organizando uma aliança clandestina internacional e preparando-se para travar a guerra de guerrilha contra os regimes militares. A estratégia do Condor foi alargada, entretanto, para abarcar a erradicação de todos os rivais, inclusive os líderes militares e os líderes políticos civis determinados a restaurar o governo constitucional.
Entre as táticas do Condor estava o assassinato internacional, e foi isso que ocasionou a tragédia em Washington, D. C.
As agências policiais estavam havia muito tempo organizadas na Interpol, que propiciava com freqüência uma troca efetiva de informação e ação para perseguir criminosos internacionais. A Operação Condor foi um passo muito maior do que a coordenação policial e a troca de informações anteriores. Se a Interpol dispunha de mandados de prisão e processos de extradição internacionais, a Operação Condor dispunha de bancos de dados e seqüestros além-fronteiras. O Condor era operacional, e na América Latina (e em outras regiões) as operações incluíam assassinato.
A princípio, as operações do Condor estavam limitadas aos países da América Latina. Cada país-membro permitia que as agências de Inteligência de outros países operassem dentro de suas fronteiras - capturando exilados, interrogando e torturando esses prisioneiros, e retornando com eles ao país de origem. As operações do Condor contra os alvos internacionais estavam entrelaçadas com a repressão maciça no interior desses países para derrotar os opositores domésticos de cada governo militar, e não raro era impossível distingui-las desse movimento. Quase invariavelmente, as vítimas do Condor desapareciam. Então, em meados de 1976 - coincidindo com o estabelecimento da ditadura militar na Argentina -, Pinochet e dois de seus aliados do Condor decidiram expandir as operações além das fronteiras da América Latina. O Chile, a Argentina e o Uruguai criaram equipes multinacionais, selecionaram alvos e começaram a realizar treinamentos operacionais especializados em instalações militares na Argentina.
O que os Estados Unidos sabiam - e faziam - sobre o Condor? Décadas depois desses acontecimentos, a plena extensão do conhecimento dos Estados Unidos sobre as operações do Condor, bem como os seus contatos com essa organização, mantêm-se como um segredo guardado com todo o cuidado. O pouco que inicialmente foi revelado está contido no meu livro anterior, Assassination on Embassy Row, publicado em 1980 com Saul Landau.
Agora muitos documentos secretos sobre o Chile foram desclassificados - mas não todos. Os relatos anteriores sobre as relações dos Estados Unidos com o Condor devem ser completamente revisados. Os novos documentos, mais as entrevistas com muitos dos funcionários diretamente envolvidos, demonstram que o Departamento de Estado dos Estados Unidos e as agências de Inteligência dispunham de detalhes surpreendentemente completos e íntimos sobre o funcionamento e o planejamento do Condor. Os documentos e as entrevistas mostram também que os funcionários emitiram informações errôneas, minimizando o seu conhecimento prévio sobre os planos de assassinato do Condor. A evidência sugere que agiram assim para desviar a atenção da possibilidade de poderem ter evitado o ato mais notório de terrorismo do Condor: o assassinato de Letelier em Washington, D. C.
Escrevo este texto enquanto a nação continua a discutir os Serviços de Inteligência avançada do FBI e da CIA nos ataques da Al Qaeda ao World Trade Center. Se tivessem ligado os pontos usando as informações abundantes que receberam, essas agências poderiam ter detectado, e talvez impedido, o pior ato de terrorismo já ocorrido em solo americano?
O mesmo padrão de abundância de informações e o fracasso em ligar os pontos estão presentes em ambos os casos, com resultados semelhantemente trágicos, embora a magnitude das tragédias seja bastante desproporcional. Há outra enorme diferença: no caso do terrorismo do Condor, o perpetrador era um aliado próximo dos Estados Unidos, e não um inimigo. E as informações sobre os ataques futuros eram obtidas de fontes nas agências de Inteligência amigas que estavam de fato planejando os ataques.
A evidência hoje disponível mostra que a CIA sabia da existência do Condor a um ou dois meses de sua criação. A CIA já havia fomentado algum tempo antes a idéia de uma coordenação mais ampla entre os militares da região, especialmente no que dizia respeito à Inteligência e às comunicações. Quando a nova organização foi discutida pela primeira vez no trânsito de cabogramas nos Estados Unidos, não era vista com alarme, e sim como reação lógica à coordenação internacional de grupos armados da esquerda. O Condor era considerado um aperfeiçoamento compreensível, até louvável, das capacidades do Serviço de Inteligência dos países.
Essa aprovação se estendia a todos os métodos do Condor, inclusive desaparecimentos, seqüestros além-fronteiras e assassinatos? Sem dúvida, conhecer tais métodos não significa aprová-los. Na verdade, não há nenhuma evidência sugerindo que alguma agência ou funcionário dos Estados Unidos tivesse conhecimento de um assassinato em território norte-americano ou o aprovasse. Tampouco, porém, há evidência de que as agências dos Estados Unidos, por meio de conexões com seus pares militares latino-americanos, tivessem manifestado clara oposição a essas táticas na luta contra o comunismo. Ao contrário, os líderes militares sabiam que a própria CIA os empregara. É certo que Pinochet e seus oficiais sabiam que a CIA fornecera armas aos conspiradores de direita responsáveis pelo assassinato do chefe das Forças Armadas chilenas em 1970 e que mais tarde, depois do fracasso do plano, pagara ao mesmo grupo 35 mil dólares para comprar seu silêncio.
O que minha investigação deixou bastante claro é que as agências de Inteligência dos Estados Unidos dispunham de excelentes fontes no interior da Operação Condor e monitoravam de perto os desenvolvimentos. Os relatórios iniciais incluíam o possível elo do Condor com o assassinato, na Argentina, de um ex-presidente boliviano e de dois preeminentes líderes políticos uruguaios. A primeira evidência de preocupação veio do bureau latino-americano do Departamento de Estado americano, que interrogou os embaixadores dos Estados Unidos na região sobre a evidência de uma coordenação de forças de Segurança.
No final de julho de 1976, novos relatórios transformaram essa preocupação num plano de ação. A CIA foi notificada de que o Condor estava levando suas operações para o exterior. Então informou aos principais funcionários latino-americanos do Departamento de Estado que o Condor estava planejando uma "ação executiva" - assassinatos - fora da América Latina. Os relatórios mencionavam Paris, depois Portugal e França, como os locais escolhidos para as operações. As equipes já estavam em treinamento na Argentina.
Capturar subversivos nos seus próprios países era uma coisa. Planejar assassinatos nas capitais européias era outra muito diferente. Os funcionários do Departamento de Estado reagiram com a espécie de franqueza sensata que a maioria das pessoas teria aplicado a uma situação dessas: algo tinha de ser feito para acabar com aquela loucura. Os funcionários redigiram um telegrama urgente e ultraconfidencial. Assinado pelo secretário de Estado Henry Kissinger, o texto instruía os embaixadores americanos no Chile, na Argentina e no Uruguai a entrar em contato com a hierarquia mais elevada possível daqueles governos para deixar claro que os Estados Unidos tinham conhecimento dos planos e se opunham a eles. A linguagem era diplomática, entremeada de afirmações tranqüilizadoras de que os Estados Unidos partilhavam a meta dos governos latino-americanos de derrotar o terrorismo e a subversão, mas a mensagem que os embaixadores deveriam comunicar era inequívoca: sabemos o que vocês estão planejando, não o façam. O telegrama de Kissinger, que enfatizava que os embaixadores deveriam agir com rapidez e urgência, continha a seguinte frase no primeiro parágrafo: "Assassinatos planejados e ordenados pelo governo dentro e fora do território dos membros do Condor têm implicações muito sérias que devemos enfrentar com firmeza e rapidez".
O que aconteceu na seqüência? Inexplicavelmente, surpreendentemente, nada aconteceu. As ordens de Kissinger não foram executadas. O Chile, a Argentina e o Uruguai continuaram com o planejamento do Condor. Passaram-se semanas, e nenhum dos embaixadores transmitiu o aviso.
Vinte e oito dias mais tarde, em 21 de setembro, uma bomba de controle remoto explodiu debaixo do banco do motorista de um carro que rodeava o Sheridan Circle de Washington, na Massachusetts Avenue, a apenas uns três metros da embaixada chilena. Orlando Letelier era o opositor mais notável e efetivo do general Pinochet nos Estados Unidos. Fora ministro das Relações Exteriores e ministro da Defesa no governo de Unidade Popular do presidente Allende. Servira como embaixador de Allende em Washington. Seus contatos e sua aceitação em Washington, bem como nas capitais européias para onde freqüentemente viajava, não tinham paralelo. Letelier participara em dois recentes golpes contra Pinochet - a aprovação, no Congresso dos Estados Unidos, de legislação que estabeleceu o respeito pelos direitos humanos como condição para que um país recebesse ajuda, e o cancelamento dos principais investimentos holandeses no Chile.
Com as pernas mutiladas pela explosão, Letelier morreu quase na hora. Uma americana de 25 anos, Ronni Moffitt, saiu cambaleando do carro, com ajuda do marido, Michael Moffitt, que estava sentado no banco traseiro. Os estilhaços de granada cortaram a artéria carótida dela, e Ronni se afogou no próprio sangue antes que a ambulância chegasse. O marido sobreviveu, aturdido e gritando que a Dina - Dirección de Inteligencia Nacional -, a polícia secreta de Pinochet, era responsável pelo ataque.
A investigação do FBI confirmou mais tarde que ele tinha razão. A investigação também revelou evidências documentais de que os agentes chilenos que executaram o assassinato usaram o aparelho do Condor para obter passaportes e vistos que seriam usados na trama.
Caso o embaixador dos Estados Unidos tivesse lhe informado que os Estados Unidos tinham descoberto o Condor e seus planos de assassinatos internacionais, Pinochet teria cancelado o assassinato planejado em Washington? Um funcionário do Departamento de Estado americano, Hewson Ryan, ficou perturbado com essa questão e expressou sua preocupação sobre o conhecimento americano do Condor, numa entrevista concedida pouco antes de sua morte, em 1991:

Se houve ou não uma relação direta, não sei. Se poderíamos ter impedido o desastre, caso tivéssemos interferido, não sei. Mas não interferimos. Fomos extremamente reticentes quanto a assumir uma postura pública de dianteira, e em certos casos até mesmo uma postura privada, como aconteceu com esse assassinato chileno. [grifo nosso]

Há uma evidência adicional, ainda mais convincente, de que o Serviço de Inteligência norte-americano tinha em mãos informações que poderiam ter sido usadas para evitar o ato de terror em Washington. Sabemos agora que no verão e no outono de 1976 estava em andamento não apenas uma, mas duas missões de assassinato relacionadas ao Condor. Surpreendentemente, o Serviço de Inteligência norte-americano detectou ambas durante seu desenvolvimento. O plano de enviar assassinos a Paris era uma delas, e tinha relação direta com o telegrama de Kissinger com a ordem para enviar a mensagem de alerta (não transmitida). A segunda missão foi descoberta pelo embaixador americano no Paraguai, George Landau. Os funcionários paraguaios solicitaram que fossem providenciados vistos americanos em passaportes paraguaios falsos para dois agentes de Segurança chilenos a caminho dos Estados Unidos. Landau suspeitou que algo não estava bem e alertou a CIA em Washington. Landau não sabia que descobrira um plano de assassinato em desenvolvimento, porém sua ação alertou o governo norte-americano de que agentes de Segurança do Chile estavam planejando algo nos Estados Unidos. A ação de Landau (ele também fez cópias das fotos dos passaportes, uma das quais mostrava o assassino real) acabou por implicar o Chile, o Paraguai e o aparelho do Condor na morte de Letelier e contribuiu para que o caso fosse resolvido pelo FBI.
A nossa preocupação nesse ponto - nas semanas anteriores ao assassinato de Letelier - é com o conhecimento prévio. Havia novas informações de que o Chile, o Uruguai e a Argentina estavam planejando um assassinato em Paris; depois chegaram informações separadas de que o Chile planejava uma missão suspeita em Washington, D. C. As informações de ambas as fontes foram elaboradas durante o mesmo período (fim de julho, agosto e início de setembro) e manipuladas pelos mesmos funcionários da CIA e do Departamento de Estado.
É razoável perguntar, mesmo após todos esses anos, quem abortou as instruções claras que pretendiam acabar com os planos de assassinato elaborados pelo Condor e por quê. Também é razoável pensar que um alerta forte e incisivo sobre o Condor teria feito com que Pinochet e seu chefe de Segurança cancelassem a missão de matar Letelier.
O que sabemos ao certo é que o aviso aos países do Condor, inclusive o Chile, foi posto em movimento, e então inexplicavelmente retirado. A explicação mais benévola é que os pontos não foram ligados antes de ser tarde demais, que se tratou apenas de um erro inócuo de funcionários muito ocupados. Essa explicação, dada por vários funcionários do Departamento de Estado, é solapada pelo esforço subseqüente de ocultar em que medida os funcionários americanos tinham conhecimento de ambas as correntes de informação do Condor. É também solapada pela recusa continuada do Departamento de Estado e da CIA de desclassificar documentos relevantes que responderiam a essas perguntas ainda sem resposta.
Essa é uma das histórias do Condor que será objeto desta investigação. A oportunidade de impedir um ato de terror e assassinato nas ruas de Washington empalidece ao lado da tragédia mais profunda na América Latina e do fracasso mais profundo dos Estados Unidos naquele período. A pergunta histórica é: quantos milhares de assassinatos cometidos por Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Brasil poderiam ter sido impedidos, se os Estados Unidos tivessem assumido "uma postura pública de dianteira, [ou] até mesmo uma postura privada" contra a matança, a tortura e os desaparecimentos que seus aliados nas Agências de Inteligência amigas estavam executando?


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