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Companhia das Letras
DESEJOS SECRETOS
Ines Rieder
Diana Voigt



1. Leonie


No pátio interno de uma prisão vienense, uma mulher elegante caminha apressada de um lado para o outro.Traz um casaco de peles jogado displicentemente sobre os ombros. O fato de estar acompanhada por guardas armados não parece preocupá-la muito. Por toda parte, espalham-se ainda pequenas manchas de neve, cobrindo um verde estéril. A umidade e o mofo sobem em círculos pelos muros que apertam o estreito pátio como um alicate.A cor há muito se desgastou. A trilha de areia em que os prisioneiros dão voltas está suja e encharcada e range sob os passos dos detentos. Quando pára por um instante e olha para cima,a mulher percebe o olhar horrorizado da amiga, que pelo jeito obteve afinal a ansiada permissão para visitas e lhe acena de uma janela do primeiro andar do prédio. Ela acena rapidamente em resposta e encolhe os ombros com um sorriso cansado e falso, como se tudo isso na verdade a tocasse pouco.
O que havia acontecido?
A primavera de 1924 nem bem começou em Viena e há alguns dias os jornais se comprazem em difamar a bela prisioneira.
A acusada é a célebre baronesa Leonie von Puttkamer, de nobre ascendência prussiana e controvertida reputação em Viena, 33 anos, casada com Albert Gessmann Júnior, presidente da câmara de agricultura austríaca. Albert Gessmann acusa a esposa de tentativa de assassinato contra ele. Mais precisamente, sua mulher teria misturado veneno em seu café. Desenrola-se uma verdadeira guerra das rosas, que os conduz a um dos mais obscuros e inextricáveis processos de acusação do ano de 1924. Queixas sobre queixas, de parte a parte, são transmitidas entre os advogados. Incontáveis depoimentos e protocolos são registrados pela polícia, até que Leonie Puttkamer chega à prisão. Os jornais pintam quadros selvagens e sensacionalistas da bela baronesa, e a sociedade vienense se alimenta de mais um escândalo.
O jornal Neue Freie Presse escreve sobre a vida do casal,que,segundo Albert Gessmann, teria sido "extremamente feliz". Alguns dias depois, no entanto, essa declaração é retificada: teria havido também momentos sombrios, sobretudo porque Leonie Puttkamer Gessmann "se encontra sob a funesta influência de amigas que, além do mais, a exploram materialmente". Quando mocinha, Leonie Gessmann, de quem também se diz que mantém uma amizade íntima com a dançarina Anita Berber, "teria sido internada repetidas vezes em instituições para doentes mentais".
Em 31 de março de 1924, o jornal Neue Montagsblatt retoma o caso Gessmann e concentra-se nas amigas de Leonie. "Em conversa com uma amiga de inclinações semelhantes, ela teria dito que seu esposo deveria ser eliminado após a redação de um testamento."
O dr. Gessmann declara que sua mulher "estaria de tal modo à mercê da influência demoníaca da pessoa íntima, ou seja, de sua amiga lésbica, que teria perseguido o próprio marido com verdadeiro ódio".
Em 1o de abril de 1924, o jornal Neue Freie Presse extrapola a escalada de notícias maledicentes ao declarar que Leonie Gessmann von Puttkamer é "uma mulher de vida psíquica transtornada pelas aberrações sexuais e pelo vício da morfina e da cocaína". Nos interrogatórios, ela contesta qualquer envolvimento no que possa ter provocado os sintomas de envenenamento do marido." Uma pessoa com as excentricidades lamentavelmente notórias da baronesa Puttkamer não pode ser considerada responsável. Pesados os fatores em questão, todos, a polícia inclusive, não vêem outro motivo para uma ação criminosa grave além da chamada aversão da sra. Gessmann pelos homens." Nesse estágio das investigações, a polícia também constata que, no tocante a uma acusação adicional, por atentado ao pudor, provavelmente seriam necessários interrogatórios em seu círculo de amigas, no qual a acusada era chamada apenas "o Leo".
A amiga que acaba de estender o braço pela janela que dá para o pátio do tribunal de justiça de Viena também não fora poupada pela imprensa. Graças à influência do pai seu nome não fora citado. Nos melhores círculos da sociedade vienense, que freqüenta, sua reputação já estava no fim das contas bastante prejudicada. A menção do sobrenome na imprensa teria sido sua ruína definitiva.
Sidonie Csillag, filha de uma família da alta burguesia, se encontra então às vésperas de seu aniversário de 24 anos. Nunca esteve numa prisão antes e custa-lhe grande esforço vir até aqui. Os penetrantes e desdenhosos olhares dos guardas na hora da revista, os quais sentiu quase como comprometedores, os longos corredores ecoantes com as lajes do piso gastas pelos passos, assim como um odor pútrido de latrina, comida fria e lavanderia, faziam seu mal-estar se transformar bruscamente em náusea. Hoje não pode falar com Leonie. Só é permitido olhar da janela do corredor, no primeiro andar.
Como o rosto de Leonie está magro! Como ela pressiona os braços junto ao corpo e,numa irreprimível marcha em staccato,percorre o círculo estreito,dando voltas e voltas! O olhar vaga, distante.Como se ela quisesse saltar para fora desses muros ou já estivesse em outra parte há muito tempo. Sidonie precisa reprimir um riso absurdo - esses guardas, que em sua insensível diligência vão tropeçando atrás de Leonie, o que afinal querem guardar,o que querem ainda aprisionar?
Permitiram que mantivesse o casaco de peles, pelo menos, mas, por baixo, aparece o tecido ralo e cinza do uniforme da prisão. E os sapatos, impróprios para o solo encharcado e imundo, estão pretos de umidade. Num misto de melancolia, horror e desgosto, Sidonie observa a mulher amada. Como fora possível chegar tão longe? Como sua adorada Leonie pudera descer tão fundo? Os acontecimentos dos últimos meses,que acabaram conduzindo à prisão, e os longos anos de amizade repetem-se sem cessar na cabeça de Sidonie. Qual seria a verdade? O que as descrições dos jornais diziam ou o que desde sempre vira na bela e nobre mulher?
De fato, Sidonie jamais compreendeu verdadeiramente as singulares inclinações da baronesa. Se fizesse uma reflexão mais rigorosa, quase poderia dizer: comportamento inconsistente e contraditório. Naquela época, aos dezessete anos, quando viu Leonie Puttkamer pela primeira vez e apaixonou-se imediatamente, era uma "criatura inocente". Uma mocinha recatada, sem experiências sexuais, que não fazia idéia do que eram inclinações eróticas.Mas, à vista da baronesa, sentira-se inflamar. Não de um fogo sexual,mas, em sua lembrança, de um fogo de reverência e adoração.
Era o auge do verão de 1917, e a burguesia vienense abastada, como de hábito nessa estação, refugiara-se no campo. Em julho de 1917 fora promulgada a lei de plenos poderes da economia de guerra, a qual limitava de modo ainda mais drástico o abastecimento de alimentos.Todos os automóveis a gasolina, já em fevereiro de 1917, haviam sido confiscados para fins militares.Nas estradas de ferro, a circulação estava extremamente reduzida, e, devido às ações militares, a navegação no Mediterrâneo também não era mais segura.Por isso,mesmo os abastados se viram forçados a permanecer nas imediações da capital nos meses de verão, em vez de ir para a costa adriática, como antes da guerra.
No início de junho, a mãe de Sidonie deu à luz seu filho caçula - um temporão, depois de três filhos então quase adultos - e foi se restabelecer numa casa de repouso.Com dezessete anos recém-completados, Sidonie é uma garota crescida, bonita e levemente roliça, com longos cabelos castanhos, como se recortada de um álbum de colegiais da alta burguesia.Ainda não sabe como encarar o novo membro da família, que tomará para si ainda mais do amor, de resto já tão escasso, da mãe, que adorava seus filhos,em detrimento da filha, a quem tratava com frieza.
Além disso, concluiu há pouco o liceu e esse será o último verão antes de uma etapa completamente nova de sua vida. O irmão mais velho está na guerra e o pai, retido por seus negócios na indústria do petróleo, de importância estratégica e crucial na guerra.Com o irmão mais novo e uma governanta, foi despachada para Semmering, um dos conhecidos locais de tratamento e repouso da burguesia vienense. Não era um lugar tão bonito como a ilha Brioni, no Adriático, onde estivera com a família, mas pelo menos a maior parte de suas amigas também se encontrava ali. Os rapazes, entretanto, com os quais dançaram ainda alegremente nos últimos verões, nesse meio-tempo estavam nos campos de batalha ou em postos militares importantes e ofereciam suas vidas à monarquia decadente.
A guerra já durava três anos, e apenas na frente russa se esboçava um fim. Por quantos anos ainda os jovens da Europa ficariam nas trincheiras da França e da Itália? Cada vez mais vozes se faziam ouvir, a princípio numa crítica moderada que, no entanto, intensificara-se nos últimos meses num veemente crescendo, não só contra a guerra, mas também contra as dinastias dominantes.
Em 28 de junho de 1914, o sucessor do trono, Francisco Ferdinando, e sua esposa Sophie são assassinados por nacionalistas sérvios em Sarajevo, capital da Bósnia. Um mês mais tarde, a monarquia austro-húngara declara guerra à Sérvia. Em virtude das diversas alianças militares que então dominavam o continente europeu, seguem-se pouco depois as declarações de guerra da Rússia czarista, da França e da Grã-Bretanha - todos aliados da Sérvia - à Áustria-Hungria e a seu aliado, o império alemão.
No verão de 1914, uma onda de entusiasmo bélico espalhou-se pelo Império Austro Húngaro e por extensas regiões da Europa. Seguros de que a guerra seria curta,muitos estavam prontos a prestar sua contribuição: os abastados compravam empréstimos de guerra, o povo participava de ações de arrecadação como "dou ouro por ferro".As vozes que se ergueram contra a guerra repercutiram pouco,embora, aqui e ali, em 1915, algumas tenham se tornado mais fortes. No verão desse ano, Karl Kraus, editor da revista Die Fackel e antimilitarista convicto, começou a escrever Os últimos dias da humanidade. Sidonie encontrara várias vezes o famoso "Klaus, o flamejante" na casa da sobrinha dele, sua amiga Marianne Kraus. No entanto, a despeito da reputação, ele não lhe havia causado grande impressão. O empresário Julius Meinl também reunira personalidades ligadas à economia e ao mundo empresarial, partidários de seus ideais, para criar uma Iniciativa pela Paz. À mesa de almoço dos Csillag, assim como no círculo de amigos de negócios, comentava-se repetidamente sobre seus esforços, e os senhores estavam divididos sobre o que seria mais rentável: a guerra ou a paz.
Mas no outono de 1916 os acontecimentos se precipitaram. Durante semanas inteiras, Sidonie sentira muito medo. Percebia que seu mundo vacilava e, embora não desse muita atenção aos acontecimentos, não podia ignorá-los. Como seu pai empalidecera quando,em 21 de outubro de 1916, Friedrich Adler, filho de Viktor Adler, um dos fundadores do partido socialdemocrata austríaco, matou a tiros o ministro-presidente Karl Graf Stürgkh! Nomeado para sucedêlo, Ernest von Koerber, por sua vez, não inspirava muita confiança aos protagonistas da vida econômica.
Um mês mais tarde, em 21 de novembro de 1916, o velho imperador morria, vítima de uma pneumonia. Dois dias após o enterro de Francisco José, seu sobrinho-neto Karl, herdeiro do trono, assumiu o supremo comando das Forças Armadas, mas nem o Exército nem os industriais ou os políticos depositavam grande confiança nesse jovem imperador temente a Deus.
Na primavera de 1917, a Rússia era arrebatada pela primeira vaga da revolução.
Ao mesmo tempo, a situação de abastecimento tinha se agravado rapidamente em Viena. Embora Sidonie não tivesse preocupações de nenhuma ordem em sua vida cotidiana, foi, não obstante, testemunha freqüente de cenas desagradáveis.
Ela estava contente de terminar seus exames de conclusão do segundo grau e poder passar o verão fora de Viena, como todos os anos.
[...]

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