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Companhia das Letras
O RETRATO - VOL. 2
Erico Verissimo



Chantecler
[continuação]

CAPÍTULO XV

1

Licurgo e Toríbio voltaram para o Angico, e Rodrigo ficou com a madrinha no Sobrado, o que lhe deu uma gostosa sensação de liberdade. Queria bem ao pai, respeitava-o, e era-lhe intimamente necessária a idéia de que ele o estimava e admirava. No entanto, quando o velho estava perto, não podia deixar de sentir uma impressão de mal-estar, por ver um implacável olho fiscalizador permanentemente focado em sua pessoa. Não havia criatura mais crítica de seus atos que Maria Valéria, mas Rodrigo tinha para com ela a liberdade de replicar. Além do mais, as repreensões da tia geralmente faziam-no rir. Com Licurgo, porém, era diferente. Havia pouco, ao receber algumas caixas de vinhos franceses e italianos encomendadas a uma firma de Porto Alegre, Rodrigo transformara um dos compartimentos do porão numa adega. Levara o pai a vê-la, mas o único comentário que arrancara dele fora uma série de pigarros de contrariedade. Soube depois que o Velho dissera à cunhada: "Esse rapaz é um perdulário. Não sei por quem puxou".
Doutra feita, durante o almoço, Rodrigo abrira uma garrafa de Borgonha. Ao fazer menção de encher o cálice do pai, este o detivera.
- Pra mim, não.
No dia seguinte, vendo o filho abrir uma garrafa de Chianti, franzira o cenho.
- O senhor pretende tomar vinho todos os dias?
Fora uma pergunta desconcertante. Num rompante, Rodrigo meteu a rolha no gargalo, saiu da sala a pisar duro, levando a garrafa de volta à adega. Passaram o resto do almoço num silêncio que em vão Bio mais duma vez tentara romper.


A primeira coisa que Rodrigo fez quando o pai deixou o Sobrado foi mandar esconder todas as escarradeiras que se achavam espalhadas pela casa. "Uma porcaria, Dinda, uma coisa dum mau gosto horrendo!"
Maria Valéria encolheu os ombros.
- Sua alma, sua palma.
- Se dependesse só de mim - murmurou Rodrigo -, eu tirava também aquele retrato do Júlio de Castilhos da parede do escritório...
- Se você tirar, seu pai bota o mundo abaixo.
- Não é que eu não admire o homem... Mas acontece que esse retrato tem qualquer coisa de cemitério, de mausoléu. Temos de alegrar esta casa. Precisamos de cor!
Estava pensando em quadros com mulheres nuas - nus artísticos, naturalmente -, reproduções de obras de pintores famosos como Rubens, Ticiano, Manet, Renoir... Ah! Como ele gostaria de ter no Sobrado as sugestivas pinturas de Toulouse-Lautrec, tão típicas da galante vida parisiense!
- Dinda - disse ele um dia, ao erguer-se da mesa do almoço -, vou convidar uns amigos para virem aqui em casa no sábado de noite.
Ela olhou de viés para o afilhado.
- Festa?
- Não, não se assuste. Uma pequena reunião. Que diabo! Gosto de gente, não quero viver como uma fera enjaulada. Vou convidar o coronel Jairo, o tenente Lucas, o tenente Rubim... Pode vir também o Chiru, o Saturnino, o espanhol...
- Isso está me cheirando a festa.
Tomou-lhe a cabeça com ambas as mãos e deu-lhe um sonoro beijo na face. Ela permaneceu séria e fria.
- Não adianta me adular. Conheço bem as suas manhas.
- Venha me fazer um cafuné.
- Pensa que não tenho mais o que fazer?
Rodrigo arrastou-a para o quarto, estendeu-se na cama, na beira da qual Maria Valéria se sentou. Seus dedos longos e magros meteram-se pelos cabelos do sobrinho e começaram a friccionar-lhe o couro cabeludo, vagarosamente.
Ele cerrou os olhos, com um profundo suspiro de prazer. O relógio lá embaixo bateu uma badalada.
- Não há nada no mundo melhor que um cafuné. Aaaai! Feliz de quem tem uma tia, quando essa tia é um anjo!
- Hum...
- Devagarinho... Assim...
- Não suje a colcha, porcalhão, tire essas botinas.
Rodrigo fez um pé descalçar o outro e jogou os sapatos para fora do leito.
- Dinda, vou lhe contar meus planos. Daqui por diante pretendo cuidar da profissão, do consultório, da farmácia. O resto que vá pro diabo!
- Promessa de bêbedo.
- Palavra de honra. Esse país não tem jeito. Só uma revolução.
Soergueu-se na cama, e, como se a frase anterior tivesse sido dita por ela e não por ele, perguntou:
- Fazer uma revolução com quem? Com o povo? Mas não é possível ir contra as classes armadas! (Na verdade não se estava dirigindo à tia, mas aos leitores d'A Farpa.) Neste pobre país parece que nada se pode fazer sem o concurso dos militares. Foram civis como Castilhos, Patrocínio, Bocaiúva e outros que fizeram a República com idéias. Mas na hora de dar o golpe, desgraçadamente recorreu-se ao Exército. O primeiro presidente foi um marechal. E que fez ele? Dissolveu o Congresso. Agora, pra mal dos pecados, parece que vamos ter outro soldado na presidência. Outro Fonseca! Este país está perdido. Só uma revolução!
Tornou a deitar-se. De novo os dedos de Maria Valéria se afundaram em seus cabelos.
- Coce mais pra baixo, Dinda. Não, mais pra baixo. Aí...
- Não sei por que essa gente só pensa em política.
- Eu sei. É porque a política lhes dá as coisas que eles mais ambicionam: posições de mando, força, prestígio. E não há quem não goste disso.
- Você não é obrigado a se meter...
- Mas acontece que também gosto!
- Estás bem arranjado...
Fez-se um longo silêncio durante o qual Rodrigo pareceu adormecido. Maria Valéria parou o cafuné e fez menção de levantar-se.
Ele sorriu, segurando com um gesto vivo o pulso da tia.
- Ia fugindo, não, sua traidora? Fique aí, que eu quero lhe contar outro segredo. Vou me casar ainda este ano.
- Pra que tanta pressa?
- Ora! Preciso ter minha mulher, meus filhos, meu lar...
- Mas tudo vem a seu tempo. Não é bom a gente precipitar as coisas.
- Não sou homem de meias medidas. Não tenho paciência pra esperar. Veja o que aconteceu pro Macedinho. Morreu com dezessete anos.
- O Fandango está com cem.
- Seja como for, já resolvi. Sabe quem é ela?
- A filha do Babalo.
- Claro, quem mais podia ser? A moça mais bonita e prendada de Santa Fé. Não é do seu gosto?
- É.
- Então diga isso com mais entusiasmo.
- É.
- Quando ela voltar de fora, vou falar com o pai.
- Sabe que o Babalo anda mal de negócios?
- Mais uma razão pra apressar o casamento.
- Já falou com a moça?
- Não. Mas tenho a certeza de que ela vai me dar o sim.
- Presunçoso.
A voz de Rodrigo estava começando a ficar arrastada, e ele sorria com a languidez da sonolência.
- É bom viver, titia... Mesmo que a gente viva cem anos como o Fandango, ainda é pouco. Quero viver cento e vinte... cento e oitenta... cento e sessenta... - Mal movia os lábios. - Mil e quatrossss...
Adormeceu sorrindo. Maria Valéria ergueu-se e saiu do quarto na ponta dos pés.

2

Laurinda olhava com uma expressão de perplexidade para Rodrigo, que, parado junto da mesa da cozinha, barrava de caviar pequenos quadrados de pão que ele mesmo acabara de cortar com todo o cuidado.
- Parece mentira! - exclamou a mulata, olhando para Maria Valéria. - O Rodrigo virou mulher.
- Prove, titia!
- Não quero. Isso é capaz de me arruinar o estômago.
- Prova tu, então, Laurinda.
- Credo! Essa porqueira até parece chumbo miúdo.
A negra Paula, que estava acocorada no canto da cozinha, soltou a sua risada cava e rouca.
Rodrigo meteu o pedaço de pão na boca e por um instante ficou a mastigá-lo com delícia.
- Milagre dos milagres! - exclamou, metendo a ponta da faca dentro da lata de caviar. - A Argentina planta o trigo, pescadores escandinavos pescam esturjões no mar do Norte e com suas ovas se fabrica o caviar. O Chico Pão faz o pão com farinha argentina e o doutor Rodrigo Cambará passa nele o caviar nórdico pra oferecer aos seus convidados, um dos quais nasceu no Rio de Janeiro, os outros em Sergipe, em Alagoas, na Espanha e em Jacarezinho, quarto distrito de Santa Fé. E assim é a vida, meus senhores!
Ali estava uma boa coisa para dizer aos convidados no momento em que lhes servisse a iguaria.
Voltou-se para a cozinheira e, mostrando-lhe uma lata de salsichas de Viena:
- Bom, Laurinda, lá pelas nove horas tu me botas essas latas em banho-maria. Não te esqueças, sim? Essa coisa tem que ser servida quente.
Saiu da cozinha assobiando uma valsa. Maria Valéria seguia-o com um olhar em que havia um misto de censura e mal disfarçada admiração.
Rodrigo abriu as seis janelas que davam para a rua, acendeu os bicos de acetilene, aproximou-se do consolo, ajeitou as rosas que mandara botar no vaso, e depois mirou-se por um instante no espelho. Que o Sobrado tomava outro jeito, não havia negar. Tinha mandado fazer uma estante especial para o gramofone, com gavetas destinadas aos discos. Comprara um tapete feito à mão para a sala de visitas e um pêlo de tigre para o chão do escritório. Pensou no pai... Como acontecia com quase todos os homens do campo, Licurgo Cambará desprezava o conforto. Gaúchos como ele em geral dormiam em camas duras, sentavam-se em cadeiras duras, lavavam-se com sabão de pedra e pareciam achar indigno de macho tudo quanto fosse expressão de arte, beleza e bom gosto. Isso explicava a nudez e o desconforto de suas casas, a aspereza espartana de suas vidas.
Aproximou-se do gramofone, abriu uma das gavetas da estante, escolheu um disco - Loin du Bal -, colocou-o no prato e estava a dar manivela ao aparelho quando Maria Valéria entrou.
- Acho que você não devia tocar música.
- Por quê?
- Faz tão pouco tempo que morreu o Macedinho...
Por um instante Rodrigo hesitou, não sabendo se devia ou não dar razão à tia. Bastou-lhe, porém, uma fração de segundo para perceber que ia cometer uma indelicadeza. Diabo, como é que eu não penso numa coisa dessas! Ficou a censurar-se a si próprio, mas nem por isso menos contrariado por não poder ouvir música.

3

Eram oito e quarenta da noite quando o próprio Rodrigo foi à cozinha buscar a bandeja onde estava a travessa com pão e caviar. Voltou para a sala de visitas, radiante.
- Vejam só quanta coisa aconteceu através do tempo e do espaço para que este simples momento fosse possível! - Parou no meio da peça e passeou o olhar pelas faces dos convivas. - Um lavrador na Argentina plantou o trigo...
E desenvolveu a tese. Quando terminou, o cel. Jairo avançou para ele, de braços abertos.
- Pois tudo isso é sociologia, meu caro doutor! Para Comte todos esses elementos contavam, no estudo da história!
Rodrigo fez a bandeja andar a roda.
O ten. Lucas provou o caviar e em seguida representou a pantomima do homem envenenado: atirou-se ao chão e começou a rolar no tapete, as mãos crispadas sobre o ventre, o rosto convulsionado. Liroca, que aparecera sem ser convidado, estava quieto no seu canto, a olhar para o pândego, com uma expressão entre rabugenta e triste.
Chiru fumava, recostado ao peitoril duma das janelas, discutindo com Saturnino o resultado das eleições. Meteu um pedaço de pão na boca e engoliu-o sem mastigar.
- Vamos beber alguma coisa! - exclamou Rodrigo.
Foi até a cozinha e voltou com uma garrafa de champanha. Fez saltar a rolha, que bateu no espelho e caiu entre as rosas do vaso. O vinho jorrou sobre o tapete. Rodrigo encheu a primeira taça e entregou-a ao coronel. Serviu depois os outros. Liroca e Saturnino não quiseram beber. Lucas perguntou a Rodrigo se nunca havia bebido "champanha de cascata". De cascata? Sim - com a sua licença, coronel -, despeja-se a garrafa na cabeça duma mulher bonita, o champanha escorre pelo rosto, pelos peitos, a gente se agacha, mete a boca debaixo dos seios da criatura, e bebe...
- Devasso! - exclamou Rodrigo, lembrando-se de que, não fazia muito, ele próprio bebera champanha nos sapatos dourados duma atriz.
O coronel ficou muito vermelho e levou o copo de limonada aos lábios, depois de erguê-lo, num brinde silencioso. Liroca continuava a olhar, intrigado, para o tenente de obuseiros. Chiru achou a idéia de Lucas interessante.
- Vou experimentar na primeira ocasião. Só que é uma brincadeira meio cara...
- O que é caro é bom - retrucou o tenente.
Chiru e Saturnino entraram a discutir animadamente as eleições. Nos primeiros dias de março o Correio do Povo publicara alguns resultados parciais das cidades, que acusavam pequeno saldo de votos favorável a Rui Barbosa. Agora, porém, vinham de todo o país telegramas desanimadores para os civilistas: o marechal estava vitorioso na maioria das urnas, e tudo indicava que o candidato oposicionista se encontrava irremediavelmente derrotado. Rui Barbosa lançara um manifesto, afirmando que as eleições haviam sido feitas sob pressão do governo, à sombra da fraude: os hermistas subtraíam as atas ou as falsificavam. A propalada neutralidade de Nilo Peçanha - clamava o candidato civilista - era como as saias postas em moda na França por Mme. de Maintenon para esconder a barriga das mulheres grávidas.
- Esse manifesto do Rui - interpretou Saturnino - é uma confissão pública de derrota.
- Cala a boca, animal!
Jairo pôs afetuosamente a mão no ombro do ecônomo.
- Meu amigo, não vamos trazer à baila esse assunto ingrato. Já basta o que aconteceu...
- Isso mesmo, Saturno - disse Chiru -, mete a viola no saco.
Saturnino encolheu os ombros.
- Foste tu quem puxou o assunto.
[...]


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