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Companhia das Letras
CLARISSA
Erico Verissimo



1

Só agora Amaro acredita que a primavera chegou: de sua janela vê Clarissa a brincar sob os pessegueiros floridos. As glicínias roxas espiam por cima do muro que separa o pátio da pensão do pátio da casa vizinha. O menino doente está na sua cadeira de rodas; o sol lhe ilumina o rosto pálido, atirando-lhe sobre os cabelos um polvilho de ouro. Um avião cruza o céu, roncando - asas coruscantes contra o azul nítido.
Amaro sente no rosto a carícia leve do vento. Infla as narinas e sorve o ar luminoso da manhã.
Não há dúvida: a primavera chegou. Os pessegueiros estão floridos, as glicínias se debruçam sobre o muro, o menino doente já mostra no rosto magro a sombra dum sorriso.
Lindo! - exclama Amaro interiormente.
E se tentasse exprimir em música o momento milagroso? Quem sabe? Clarissa ainda corre sob as árvores. Grita, sacode a cabeleira negra, agita os braços, pára, olha, ri, torna a correr, perseguindo agora uma borboleta amarela.
Longe, lampeja um pedaço do rio. Mais longe ainda, a sombra azulada dos morros. E, por cima de tudo, a porcelana pura do céu.
Amaro caminha para o piano. Seus dedos magros batem de leve nas teclas. Duas notas tímidas e desamparadas: mi, sol... Mas a mão tomba desanimada. O olhar morto passeia em torno, vê as imagens familiares: a cama desfeita, os livros da noite, empilhados sobre o mármore da mesinha-de-cabeceira, a escrivaninha com papéis em desordem; nas paredes brancas, a máscara mortuária de Beethoven e o espelho oval por cima da pia, o espelho que rebrilha, refletindo na superfície lisa o semblante dum homem triste...
Amaro torna à janela. Clarissa mergulha na sombra do arvoredo, toda cheia de crivos de sol. Ergue os braços, põe-se na ponta dos pés, entesa o busto, pondo em relevo mais forte os seios que mal apontam. Segura com ambas as mãos o galho de um pessegueiro, dobra os joelhos e deixa o corpo cair num abandono gracioso. Os ramos se agitam, as flores se desprendem e tombam como uma chuva de pequenas borboletas rosadas. Olhos cerrados, cabeça inclinada para trás, Clarissa solta uma risada.
Amaro franze a testa. Este momento é de beleza, mas vai fugir...
Muitos instantes luminosos como este já lhe passaram diante dos olhos. Quantas vezes ele estendera os braços, na vã tentativa de prender um raio de sol...
De dentro da casa sai uma voz:
- Clarissa!
Clarissa perfila-se, conserta o vestido e responde:
- Que é, titia?
- Vem pra dentro, menina. Está na hora do colégio.
O rosto da criaturinha ensombrece. O colégio... Livros, mapas, Ouviram do Ipiranga as margens plácidas... classes, cabeças curvadas sobre cadernos, cochichos, murmúrios e uma vontade doida de sair para o sol, de correr, ver a rua, as pessoas, as casas, o céu, os bondes, os automóveis...
No quintal vizinho o menino doente começa a choramingar:
- Tatá! Ó Tatá!
Tem uma voz sumida e trêmula. Agita os braços num esforço para mover a sua cadeira.
D. Eufrasina bota a cabeça para fora da janela.
- Não ouviste, Clarissa? Está na hora do colégio!
Clarissa entra. No alpendre, o papagaio verde sacode a plumagem e grita:
- Clariiissa!
Ela pensa:
Se eu fosse o Mandarim, não precisava ir pro colégio...
- Bom dia, minha menina!
- Bom dia!
O velho Nico Pombo, major reformado, o hóspede mais antigo da pensão. Não tem o que fazer durante o dia, mas costuma madrugar para o chimarrão.
No quarto do judeu já há rumores. Uma voz grossa vem do banheiro:

Deixa esta mulher chorar,
Pra pagar o que me fez...

O Nestor. Sempre cantando, sempre alegre. Clarissa gosta das pessoas alegres. Nem todos na pensão têm cara alegre. O mais triste é Amaro: tem um ar de sofredor, olhos que sempre estão olhando para parte nenhuma. E, depois, aquela mania de viver em cima do piano, batendo à toa nas teclas, inventando músicas que ninguém compreende... Enfim, como toda a gente diz que ele é um homem muito inteligente, é melhor não discutir...
Sorrindo, Clarissa entra no quarto.


Amaro continua à janela. Sente que na paisagem agora falta alguma coisa.
Já recolheram o menino doente. Começam os ruídos matinais da pensão. A mulher do Procópio Barata cantarola com sua voz de caturrita uma valsa que fala em santuário do meu amor, ó flor!.
O judeu Levinsky assoma à janela de seu quarto.
- Bom dia, seu Amaro, como está o senhor?
- Bem, obrigado. E o senhor?
Levinsky passou a noite em claro, estudando um ponto de direito internacional privado.
- O senhor conhece direito internacional privado?
Amaro sacode a cabeça negativamente. Não conhece. Nunca leu nada... Levinsky espicha o pescoço. Faz uma dissertação sobre a matéria, enquanto a sua mão sardenta corta o ar em gestos largos.
Os olhos de Amaro estão voltados para o interlocutor. Sua atenção, porém, se concentra toda num trecho da Nona sinfonia que a Orquestra Sinfônica de Amsterdã toca em sua mente. O coro rompe num hino triunfal. A cabeleira ruiva do judeu palpita ao vento como uma chama. A batuta do maestro sobe e desce em gestos rítmicos. A mão de Levinsky risca no espaço desenhos desordenados.
- Não acha que eles estão com a razão? - pergunta o estudante.
Amaro desperta.
- Acho que sim... O senhor tem razão.
- Eu? Não! Refiro-me a eles, os tratadistas...
- Sim, eles... É verdade: toda a razão. Aliás...
Cala-se, de repente.
Soam passos na escada. Outra vez a voz de Nestor:

Pra pagar o que me fez!

No refeitório, o major Pombo solta uma risada sonora. O papagaio grita:
- Café! Café! Café!
Amaro senta-se ao piano e reproduz a música do papagaio.
Na varanda, o relógio de pêndulo bate sete horas. Amaro veste o casaco e prepara-se para descer.
Um dia há de escrever a rapsódia da pensão de dona Eufrasina: uma música colorida e viva em que aparecerão os gritos do papagaio, as cantigas do Nestor e de dona Ondina, as risadas do major, as anedotas do Barata, a voz dolorosa do menino doente - a adolescência luminosa de Clarissa.
Um dia...
Descendo a escada que dá para o refeitório, Amaro leva no pensamento uma suave aquarela: Clarissa sob a chuva de flores na manhã de sol...