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INCIDENTE EM ANTARES
Erico Verissimo



POR TRÁS DO INCIDENTE

Quando Erico Verissimo recebeu o primeiro exemplar de O prisioneiro - sua parábola contra a Guerra do Vietnã, de 1967 -, já pensava desde o ano anterior em escrever um romance que completasse a série iniciada em Clarissa, dedicada à vida na cidade moderna. Esse projeto, em 1966, contava apenas com uma personagem, chamada Valentina, para a qual o autor procurava uma história. Sob diversos títulos, o mais freqüente sendo Dança com máscaras, ele pretendia estudar a derrocada da burguesia de Porto Alegre, tematizando sua moralidade hipócrita, sob o ângulo político, nas águas de O senhor embaixador e da novela antibelicista.
Já em 1969 o novo projeto previa um narrador defunto, à maneira do machadiano Memórias póstumas de Brás Cubas, uma espécie de olho sobrenatural a contemplar os vivos e seu "baile de máscaras". Teria o título de A hora do sétimo anjo, de conotações apocalípticas, trataria do Brasil a partir da República, com cenário no Rio de Janeiro, e uma de suas personagens seria o existencialista Martim Santana.
Escusado dizer que o romance anunciado não veio à luz, apesar da quantidade de esboços e rascunhos existente em seu espólio. Numa entrevista aos jornalistas gaúchos Ney Gastal e Susana Przybylski, em 1971, Erico revela que naquele ano de 69 o plano do livro estava bem adiantado quando viu uma fotografia, numa revista americana, que lhe ficou na retina, "pelo que continha de simbólico". Tratava-se de uma greve de coveiros em Nova York, com dez ou doze féretros à vista aguardando o enterro. Pensou ele: "E se esses mortos resolvessem erguer-se e fazer greve contra os vivos?". A idéia lhe pareceu interessante, mas A hora do sétimo anjo o interpelava e ele logo esqueceu o clichê da revista, ainda mais que uma greve de coveiros no Brasil, um país em plena ditadura, despolitizado à força, parecia inverossímil.
O assunto, porém, recusou-se a ser cancelado dos planos do escritor, que, na mesma entrevista, informa ter sido assaltado outra vez por ele: "Dia oito de maio de mil novecentos e setenta. Andava caminhando com minha mulher pelas colinas do Alto Petrópolis quando a idéia me voltou com tanta força que comecei a trabalhar nela mentalmente. [...] Quando cheguei à esquina da Carlos Gomes com a Protásio Alves, o livro já estava estruturado. E o título me veio como que soprado pela brisa daquele belo outono". Nascia Incidente em Antares, e toda a imensa papelada do romance antes iniciado acabou engavetada.
Latente nessas gavetas, A hora do sétimo anjo emprestou algumas de suas figuras ao autor. Martim Santana reapareceu em "Antares" como Martim Francisco Terra, o sociólogo e professor do Centro de Pesquisas Sociais da Universidade do Rio Grande do Sul que, com sua porto-alegrense equipe de alunos-pesquisadores, financiado pela Ford Foundation, tenta compreender as relações sociais do antigo Povinho da Caveira, designação inicial do povoado que nos anos 60 seria uma cidade de médio porte, às margens do rio Uruguai, perto de São Borja. Valentina tornou-se a "pantera açaimada", nas impressões do professor Terra, mulher do juiz de direito Quintiliano do Vale e musa perturbadora do progressista padre Pedro-Paulo.
Não só de retalhos do romance inacabado se fez, porém, Incidente em Antares. Erico, antes de retomar certas cenas, atitudes e personagens já imaginadas, precisava resolver o problema da inverossimilhança dos grevistas. Em entrevista a Carlos M. Fernandes, em 1972, diz ele que um belo dia, passando perto de um cemitério da capital gaúcha, lembrara da fotografia mas a deixara outra vez de lado. Em casa, imaginou uma greve geral, no pólo industrial da cidade, que iria interditar o cemitério. E completa: "A primeira coisa que fiz foi um desenho em cores da praça central da cidade, onde a parte mais dramática do romance se desenrola. Depois atendi as personagens ou, melhor, os candidatos a personagens que batiam à minha porta e pediam um lugarzinho no novo romance".
Essa história da gênese da obra demonstra que Erico começou o trabalho a partir de uma Gestalt, de uma forma que se lhe impôs unitária e completa imediatamente, um "estalo", como diria o pós-estruturalista Roland Barthes. Primeiro elabora um plano mental do enredo, depois traça um diagrama, a fim de localizar no espaço o evento-símbolo do livro, e, enfim, as possíveis personagens são avaliadas, em conformidade com as exigências do esquema das ações.
Esse processo de composição contraria o método de trabalho do romancista, que, geralmente, parte da concepção das características das personagens, depois arquiteta ações que se coadunem com elas e reúne os eventos decorrentes numa ordem mais de justaposição que de subordinação. Nos romances de Erico Verissimo, a lógica de causa-efeito nem sempre atua, como queriam os autores clássicos. Suas histórias avançam por quadros, por cenas, são fragmentárias, e as conexões - necessárias para que a história exista - se dão mais por um laço de associações que de efeitos, operando predominantemente por meio de links, um evento puxando o outro, ou nele repercutindo, para o que a metáfora de O resto é silêncio, da pedra lançada n'água, gerando círculos concêntricos, fornece uma imagem eficiente.
Em Incidente em Antares, talvez em função do longo tempo em que estivera cogitando no romance que não pôde acabar, a fase do projeto do texto ocorre muito rapidamente e o autor logo passa a elaborar roteiros, a rascunhar passagens. Deslocando-se para os Estados Unidos para visitar a filha Clarissa em Washington, Erico consegue outra proeza: vence a barreira psicológica que sempre o acometia quando estava naquele país e o impedia de produzir seus textos ali.
Num diário que manteve numa agenda, relativo ao período de 29 de junho a 12 de dezembro de 1970, ele registra suas decisões, bloqueios criativos, momentos de desânimo e de entusiasmo, e sabe-se por essas anotações que Verissimo começou a escrever o livro não pelo incidente com os mortos, mas pela história de Antares. Trabalhar com um tema que poderia incidir no realismo mágico do romance latino-americano o afligia, muito embora desde Fantoches o lado macabro da existência o fascinasse. Entre os mortos que desfilam pelas ruas de Antares e encenam o julgamento da cidade no coreto central, haveria um menino, Angelito, mas Mafalda, sua esposa, o adverte de que seria um dado chocante e desnecessário, e ele o transforma no maestro Menandro Olinda.
Outra revelação importante desse diário é que o maior problema de Erico foi o tratamento da larga fatia da história brasileira abrangida na primeira parte (desde o Pleistoceno até a ditadura militar de 1964 - a história do incidente inicia em 63 e termina em 70). Ele corria o risco de cansar o leitor e, por isso, precisava ficcionalizá-la, sem, no entanto, traí-la, uma vez que boa parte dela era de farto conhecimento público (os governos de Getulio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart). Além disso, o diário comprova que o autor escreveu toda a parte intitulada "Antares" nos Estados Unidos, esboçou ali a pesquisa de Martim Francisco Terra e as cenas de impacto do incidente em si.
Manter um diário, algo também não muito corriqueiro nos hábitos de Erico Verissimo - há noutra agenda algumas notas sumárias que se reportam à escrita de O senhor embaixador, por exemplo -, evidencia uma maturação da autoconsciência do escritor. Fixar os acidentes de percurso de seus atos criativos lhe parece significativo, já numa fase adiantada da vida, em que uma espécie de compromisso com o público que o consagrara o obriga a confessar-se, mesmo que em clave privada. Recorrer a diários era um procedimento válido para as obras de ficção - o memorialismo vinculado ao dia-a-dia começa a ser empregado em Clarissa; repete-se em cartas de Olhai os lírios do campo; retorna no "Caderno de pauta simples" de Floriano e no "Diário de Sílvia", de O arquipélago; sem mencionar o "Caderno de notas" de Bill Godkin, de O senhor embaixador. Recurso destinado a mostrar a interioridade das personagens por meio do discurso direto, Erico o adota para evitar a monotonia de um narrador onisciente que invada intempestivamente o íntimo de suas criaturas, e assim resguarda-lhes os segredos para ajuizamento direto do leitor.
Dar voz ao outro, aliás, é a tônica de composição de todo o romance. Após o narrador onisciente situar desde a pré-história o Povinho da Caveira, a primeira notícia histórica propriamente dita vem na narrativa de viagens de Gaston Gontran d'Auberville, naturalista que se hospeda na casa de Francisco Vacariano e lhe oferece o nome da futura cidade ao mostrar-lhe a estrela Antares na constelação de Escorpião. Outro documento procede do jesuíta Juan Bautista Otero, em carta a seu provincial em Buenos Aires, que vem batizar e casar os habitantes promíscuos da região. Bem mais adiante, vão surgir a pesquisa em livro de Martim Francisco Terra e seu diário pessoal, as reportagens de Lucas Faia sobre o incidente, assim como o diário do padre Pedro-Paulo. Em nenhum outro romance o autor multiplicou as vozes narrativas como neste, coletivizando e ao mesmo tempo individualizando a função de mostrar e contar, privilégio clássico do narrador impessoal.
Não só no interior do romance, entretanto, Erico dá vez ao outro. No dossiê genético de Incidente em Antares, há diversas notas de pesquisa que atestam a busca de outros olhares e outras compreensões para conferir substância ao texto. Ainda relacionadas à criação de A hora do sétimo anjo, há menções e resumos, em seus cadernos de notas, sobre as doutrinas existencialistas de Sartre e Camus e sobre o humanismo em Marx. Essa pesquisa de idéias destinava-se a fundamentar as posições do primeiro Martim Santana e são os pilares da conduta crítica de Martim Francisco Terra. Num desses cadernos de notas Erico cita, a propósito da construção do caráter do sociólogo, Albert Camus, em O homem rebelde, destacando o paradoxo entre perceber a inutilidade da vida cotidiana, sua falta de razão, e a recusa do suicídio, e sublinhando que continuar a existir num mundo absurdo seria o maior índice de heroicidade.
Leitor contumaz de Camus, de quem admirava a independência de pensamento, é possível que Erico tenha utilizado seu A peste como intertexto, pois a estranha indiferença que assola o romance do existencialista francês ressoa na naturalidade insólita com que é recebido o extraordinário incidente na praça de Antares. Enquanto as autoridades e próceres da cidade se enojam e apavoram diante dos defuntos, a população que eles oprimem aceita os mortos como melhores que os vivos e não se afasta do coreto apesar da corrupção de seus corpos e dos ratos que se avizinham. Sintoma desse descompasso são as ovações dos jovens arborícolas na cena do julgamento e, mais tarde, a Operação Borracha, que apaga, pela intimidação dos envolvidos, a lembrança do evento sinistro.
Incidente em Antares, dessa forma, adquire foros de inovação na obra de Erico Verissimo. É criativo na montagem da ação em duas partes separadas, a primeira, uma verdadeira história nacional da infâmia, anunciando e fundamentando a segunda, em que o absurdo aflora, sob o disfarce de realismo mágico, ao contrário do que ocorre em O senhor embaixador, em que o realismo político domina. Afasta-se do processo genético usual do autor, indo da concepção global às personagens e cenas, e remontando pedaços de uma obra já em processo.
O romance é novo no tratamento da intertextualidade, pois, além de homenagear a literatura existencialista francesa, sem renunciar ao realismo mágico que crescia em prestígio no país, efetua um exercício ímpar de intratextualidade na literatura brasileira. Na sua primeira parte, evoca - de forma satírica, em virtude da violência desmedida que caracteriza as elites governantes de Antares ao longo da história da formação da cidade - O tempo e o vento. Também em Antares, durante toda a ação, há o conflito de duas famílias pelo poder, mas a simpatia não recai sobre nenhuma delas. Ao contrário do que acontece em Santa Fé, não há os bravos, embora por vezes egoístas e libertinos, Terras Cambarás. Em "Antares", há uma ascensão contínua de autoritarismo, que vai desde o caudilhismo sem dó nem piedade até a sustentação de um regime discricionário pela via da opressão e da tortura. Na segunda parte, onde se desenvolve a ação principal do enredo, a força opositiva a esse estado de coisas não está do lado da vida - uma vida usufruída até o excesso, mas comprometida com a liberdade, como é o caso de Rodrigo Terra Cambará ou uma vida exaltada pela arte do romance de um Floriano. A oposição vem da morte, implicados nesta o apagamento e a anulação das possibilidades de transformação da sociedade.
É assim que Incidente em Antares potencializa seu efeito chocante e seu assalto crítico ao Establishment brasileiro: põe a morte a ensinar a vida, mas mostra-a como inócua, pois os vivos não mudam. Se vida é movimento, devir, consciência em expansão, Antares, como microcosmo do Brasil, não remete a nada senão imobilidade, estagnação e cegueira: morte em vida para as elites e o povo. Resta apenas o ato de denúncia, reverberando na praça até o som desaparecer da memória. O romance diz ao leitor que a força e o tempo apagam qualquer história e que a única forma de duração do que acontece está na escrita - desde que possa ser lida, mesmo truncada, como a palavra semi-apagada que, no final do romance, o pequeno escolar tenta ler no muro da cidade.

Maria da Glória Bordini
Professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUC-RS) e coordenadora do Centro de Memória Literária da PUC-RS,
responsável pelo gerenciamento do Acervo Literário Erico Verissimo (ALEV)


PARTE 1
ANTARES

1
Afirmam os entendidos que os ossos fósseis recentemente encontrados numa escavação feita em terras do município de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituições gráficas da paleontologia, era uma espécie de tatu gigante dotado duma carapaça inteiriça e fixa, mais ou menos do tamanho dum Volkswagen, afora o formidável rabo à feição de tacape riçado de espigões pontiagudos. Calcula-se que durante o Pleistoceno, isto é, há cerca de um milhão de anos, não só gliptodontes como também megatérios habitavam essa região diabásica da América do Sul, onde - só Deus sabe ao certo quando - veio a formar-se o rio hoje conhecido pelo nome de Uruguai. Ignora-se, todavia, em que época da era cenozóica surgiram naquela zona do Brasil meridional os primeiros espécimes do Homo sapiens. Tudo nos leva a crer, entretanto, que esse problema jamais tenha preocupado os antarenses. O que até hoje ainda os deixa ocasionalmente irritados é o fato de cartógrafos, não só estrangeiros como também nacionais, não mencionarem nunca em seus mapas a cidade de Antares, como se São Borja fosse a única localidade digna de nota naquelas paragens do Alto Uruguai. De pouco ou nada têm servido os memoriais assinados pelo prefeito municipal, pelos membros da Câmara de Vereadores e por outras pessoas gradas e repetidamente dirigidos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, protestando contra a acintosa omissão. O pe. Gerôncio Albuquerque, quando ainda vigário da matriz local, mais de uma vez encaminhou, mas em vão, idêntica reclamação ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, do qual era membro correspondente.
No entanto, a verdade clara e pura é que, a despeito da má vontade ou da ignorância dos fazedores de cartas geográficas, a cidade de Antares, sede do município do mesmo nome, lá está, visível e concreta, à margem esquerda do grande rio.


O incidente que se vai narrar, e de que Antares foi teatro na sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963, tornou essa localidade conhecida e de certo modo famosa da noite para o dia - fama um tanto ambígua e efêmera, é verdade - não só no estado do Rio Grande do Sul como também no resto do Brasil e mesmo através de todo o mundo civilizado. Entretanto, esse fato, ao que parece, não sensibilizou até agora geógrafos e cartógrafos.
Tão insólitos, lúridos e tétricos - e esses adjetivos foram catados no artigo alusivo àquele dia aziago, escrito pelo jornalista Lucas Faia para o seu diário A Verdade, porém jamais publicado, por motivos que oportunamente serão revelados -, tão fantásticos foram esses acontecimentos, que o pe. Gerôncio chegou a exclamar, dentro de seu templo, que aquilo era o começo do Juízo Final. Nesse momento de susto e angústia coletiva, um cético gaiato, desses que costumam menosprezar a terra onde nasceram e vivem, murmurou: "A troco de que Deus havia de começar o Juízo Final logo neste cafundó onde Judas perdeu as botas?".
Bem, mas não convém antecipar fatos nem ditos. Melhor será contar primeiro, de maneira tão sucinta e imparcial quanto possível, a história de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma idéia mais clara do palco, do cenário e principalmente das personagens principais, bem como da comparsaria, desse drama talvez inédito nos anais da espécie humana.


2
O mais antigo documento escrito que se conhece, referente ao lugar onde mais tarde viria a ser fundada essa comunidade da região missioneira do Rio Grande do Sul, encontra-se no livro do naturalista francês Gaston Gontran d'Auberville, intitulado Voyage pittoresque au Sud du Brésil (1830-1831). Escreveu o ilustre cientista em seu diário de viagem:

24 de abril. - Cruzamos esta manhã o rio Uruguai, numa balsa, e entramos em território do Brasil. Estes campos verdes, duma beleza idílica, lembram os da nossa Provence. Aqui as pastagens são boas e o gado bovino, abundante. Os primeiros homens que encontramos, tanto os brancos como os índios, me olham com uma curiosidade meio desconfiada, que acho justificável, pois devem estranhar a minha indumentária, o meu aspecto físico e principalmente a minha bagagem: as gaiolas em que trago os pássaros vivos que apanhei no Paraguai e na Argentina, e os sacos e caixas cheios das plantas e pedras que venho colecionando desde o momento em que pisei terras do Novo Mundo.
Cerca das dez horas da manhã, chegamos a um lugarejo pertencente à comarca de São Borja e conhecido como Povinho da Caveira, formado por uma escassa dúzia de ranchos pobres, perto da barranca do rio. A pouca distância deles, situa-se a casa do proprietário destas terras, que me recebeu com certa cortesia. É um homem ainda jovem, de compleição robusta, cabelos e barbas castanhos e pele clara. Tem um ar autoritário, costuma falar muito alto, parece habituado a dar ordens e a ser obedecido. Chama-se Francisco Vacariano, nome provavelmente derivado da palavra vaca e que não me parece legítimo, mas adotado. A casa da estância de gado do sr. Vacariano é apenas um rancho maior que os outros da povoação. Comunico-me com esse senhor no meu precário espanhol, e ele me responde na mesma língua mas usando, uma vez que outra, palavras portuguesas.
Almoçamos ao meio-dia e o estancieiro nos serviu, numa grande marmita de ferro, pedaços de carne-seca (aqui chamada "charque") com farinha de mandioca, tudo misturado com gordura animal. O sr. Vacariano imaginava que eu era uma espécie de mascate. Ficou desapontado quando verificou que eu não trazia tabaco, açúcar nem sal, gêneros de que carece no momento. Expliquei-lhe que sou um cientista e o meu hospedeiro pareceu não me dar crédito, pois acha impossível que um homem empreenda uma tão longa e penosa viagem apenas para apanhar bichos e juntar plantas e pedras.
Percebi que o sr. Vacariano não confia nos "homens do outro lado do rio" nem parece gostar deles. Tal coisa não é para estranhar-se, se levarmos em conta que recentemente o Brasil esteve envolvido numa guerra com a Argentina pela posse da chamada Banda Oriental.
O meu guia, que é um homem loquaz e grande conhecedor desta região e desta gente, duma margem e outra do rio, assegurou-me que o meu hospedeiro não só herdou as sesmarias que a Coroa de Portugal concedeu ao seu avô, no início do povoamento desta província, como também se apossou pela força de algumas léguas de campo pertencentes a outros estancieiros vizinhos, que pôs em fuga, sob ameaças. Contou-me ainda o dito guia que boa parte do rebanho de gado que o sr. Vacariano hoje possui é formada de descendentes dos bois e vacas que o seu pai roubou na Argentina, aproveitando a confusão de tempos de desordens e lutas intestinas no país vizinho. O guia me pediu discrição absoluta, quanto a essas informações, pois, ao que diz, o sr. Vacariano é um homem violento e vingativo.
Fui informado de que os índios deste povoado pensam que sou um feiticeiro, e que o capataz do meu hospedeiro está convencido de que não passo de um bispo disfarçado que aqui veio, a mandado do papa, para estudar a possibilidade do restabelecimento das reduções jesuíticas que outrora floresceram nesta região. O que, porém, mais me perturbou foram as palavras que o próprio sr. Vacariano pronunciou, ao fim de nosso almoço. Reproduzo-as aqui, verbatim: "Sabe o que fiz com o último lotador de impostos que apareceu nestas terras? Mandei matá-lo e atirei seu corpo no rio". Felizmente, depois dessa ameaça soltou uma risada, deu-me uma palmada cordial nas costas e declarou que era um homem de boa-fé e portanto acreditava que eu era mesmo um colecionador de plantas e passarinhos, pois "cada louco tem a sua mania".
Passei a tarde herborizando nos arredores do povoado. À hora de recolher, o sr. Vacariano prometeu proporcionar-me, ao amanhecer do dia seguinte, "um espetáculo inesquecível".
Passei a noite
quase sem dormir, por causa dos mosquitos.



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