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O AMANTE DETALHISTA
Alberto Manguel



UM

Eddie: Senti falta de você. Verdade. Senti mais falta de você do que de qualquer outra coisa em toda a minha vida. Fiquei pensando em você o tempo todo enquanto dirigia. Vendo você. Às vezes só uma parte de você.
May: Que parte?
Eddie: Teu pescoço.
May: Meu pescoço?
Eddie: Isso aí.
May: Você sentiu falta do meu pescoço?

Sam Shepard, Louco para amar

Não há cidade como Poitiers em toda a França. Outras exibem suas histórias gloriosas com despudorada ostentação ou tentam humildemente ocultar as cicatrizes da guerra por trás de fachadas insípidas e indústrias prosaicas. Poitiers, pelo contrário, revela-se aos poucos, detalhe por detalhe, nunca permitindo que o visitante a veja em sua inteireza. Certo ângulo de um dos rios que a cercam, um canto do rochedo íngreme sobre o qual se espraia o casario, um trecho instigante de suas muitas ruas sinuosas, o fulgor de um retalho de céu entre dois torreões: essas são algumas das visões fugidias com que Poitiers seduz seus admiradores. Não se trata de timidez ou falsa modéstia, certamente não de puritanismo ou de um inadequado senso de decoro, mas tão-somente da voluptuosidade deliberada de uma criatura exposta ao sol que se revela escama por escama, segmento por segmento, como Melusine, a princesa-dragoa da vizinha Lusignan.
Segundo Jean-Luc Terradillos, essa combinação de sensualidade e recato, essa maneira de ser meio mundana e meio mágica, é característica de toda a região pela qual, séculos atrás, cavalgaram Eleanor da Aqüitânia e seu legendário séqüito inspirado pelo amor. Todavia, é a cidade de Poitiers que parece ter destilado e concentrado as qualidades que, por um lado, deram origem a belezas tão cativantes quanto Diane, amante de François I, e, por outro, a horrores tais como a Solteirona Seqüestrada descrita por André Gide. Mas essas são histórias que não nos interessam no momento.
Não há dúvida (e Terradillos concorda comigo) de que o personagem cuja trágica vida irei contar aqui é um produto típico dessa cidade encantada. Anatole Vasanpeine nasceu na última década do século XIX, no ano do caso Dreyfus, em uma família que muito antes dos terrores da Revolução já habitava uma casa despretensiosa atrás da igreja de Notre-Dame-la-Grande, numa das tortuosas ruas brancas que descem rumo ao rio Clain. Cresceu sob os cuidados indiferentes de vários adultos medíocres, entre os quais sempre teve dificuldade em distinguir sua mãe de seu pai, ambos com bigodes e ambos cinzentos. Igualmente inexpressiva foi sua educação sob a palmatória de um velho professor, que se contentou em ensinar o menino a ler, escrever e fazer contas. Mesmo quando criança, cidades bem maiores, como Paris e Bordeaux, mencionadas com admiração pelos mais velhos, em nada o atraíam. E, sem jamais pôr os pés fora de Poitiers, o garoto cinzento transformou-se num adolescente cinzento que, por seu turno, converteu-se num jovem adulto macambúzio que, com idêntico desinteresse, atendia aos pedidos de uma toalha ou de um pedaço de sabonete de Marseille nos banhos públicos da rua Gambetta, a poucos passos de Notre-Dame-la-Grande.
Naquela época, as pedras de Notre-Dame-la-Grande eram negras devido aos efeitos do sal que, séculos antes, havia se infiltrado no solo quando o andar térreo fora ocupado por um mercado desse produto; com o tempo, elementos químicos nocivos avançaram como um câncer pelas paredes, fazendo com que a Casa de Deus ganhasse a aparência de uma caverna de ébano. Para compreender o caráter de Vasanpeine (assim diz Terradillos, e acho que tem razão), é necessário entender esse aspecto curioso da igreja em cuja sombra ele nasceu, porque, tal como os blocos de pedra do edifício, sua sombria aparência externa de fato ocultava um intenso fogo interior. Anos atrás, peritos em restauração de prédios antigos conseguiram limpar uma a uma as pedras da igreja, devolvendo-lhes a luminosidade primitiva. Infelizmente, nada e ninguém tentou remover a escura pátina que encobria Vasanpeine, motivo pelo qual, embora o fogo dentro dele nunca se apagasse, aos olhos de seus conhecidos ele tenha continuado a ser, até o fim da vida, um empregado dos banhos públicos medíocre e sem brilho, de olhos remelentos. Era assim que o mundo o via.
Existe na natureza um organismo vegetal, chamado saprófito, que se alimenta de matéria orgânica em decomposição. Se desejássemos encontrar um equivalente biológico para Anatole Vasanpeine nesse universo labiríntico, tumultuoso e multifário, não erraríamos ao compará-lo a essa planta cinzenta e recôndita, menos vegetal do que mineral na aparência, que busca seu sustento naquilo que já morreu.
Foi sem dúvida essa própria opacidade que possibilitou a Vasanpeine, ainda menino, dar os primeiros passos na curiosa ocupação a que iria se dedicar solitariamente até o terrível fim. Ela nasceu de um talento que por muito tempo nem ele soube possuir, pois, como muitos de nós que desconhecemos nossas melhores habilidades, Vasanpeine não percebeu que era dotado dessa sensibilidade especial pela razão paradoxal de que ela se desenvolvera de forma mais potente e insidiosa do que qualquer outra. Aqueles de nós cujo ouvido perfeito nos permite distinguir os cantos de diversos pássaros, ou que temos um talento inato para resolver abstrusos problemas de lógica, podemos desfrutar dessas habilidades por muitos anos sem nos dar conta de que as possuímos, até que alguém chame nossa atenção para elas: parecem-nos naturais e pouco notáveis para a imagem que fazemos de nós próprios, assim como nosso jeito de dançar polca ou segurar um garfo. Vasanpeine fez uso de seu talento, cumpre dizer, sem um grão de vaidade ou se dar ares de superior.
Deixe-me dizer logo que talento era esse. Terradillos alongou-se sobre o assunto, porém, entre as fontes relacionadas para explicar a habilidade peculiar de Vasanpeine, curiosamente deixa de se referir ao blason, a forma poética típica daquela região da França nos séculos XV e XVI: uma composição rimada em louvor de alguém ou alguma coisa, em particular as partes do corpo feminino. O blason permite que o olho do poeta se concentre não no todo óbvio, mas em seus componentes individuais, dividindo assim o corpo em objetos separados de veneração e de prazer, cada qual primo inter pares. O leitor verificará a relevância disso para Vasanpeine.
Terradillos também deixa de mencionar a arte do mosaico que floresceu alguns séculos antes de Cristo, quando os romanos dominavam o Poitou e os campos eram pontilhados de mansões imponentes e templos austeros, dos quais vários exemplos notáveis podem ser vistos hoje no Musée Sainte-Croix. Conquanto se possa argumentar que o mosaico é sem dúvida o oposto do blason, ao chamar a atenção para a imagem por inteiro e não para as partes, o fato de que não tenta ocultar sua natureza fragmentária sugere que, para o artista, o que importava era a visibilidade de cada partícula mesmo se (e não por que) ela devesse se harmonizar às demais. A meu ver, o mosaico e o blason devem constar entre as fontes locais das quais brotou o dom criativo de Vasanpeine.
Recentemente, graças a uma generosa doação dos herdeiros da srta. Adelaide Piffeteau, uma prova precoce do talento do jovem Vasanpeine tornou-se acessível sob a forma de um álbum de recortes de vinte e dois centímetros e meio por trinta e um centímetros, encapado com um desbotado papel de embrulho verde. Nas décadas que precederam a Primeira Grande Guerra, um dos deveres que os professores costumavam passar para os alunos de sete e oito anos era a compilação de um herbário com exemplares das plantas silvestres da região. As crianças deviam colher, identificar, prensar e colar tantas folhas de arbustos e ervas quantas pudessem descobrir, apresentando o trabalho para ser avaliado ao final do ano escolar. Não é de surpreender que o herbário de Anatole Vasanpeine tenha sido diferente de todos. Trazendo um pequeno rótulo com a anotação "Herbier d'Anatole Vasanpeine" em letras minúsculas porém muito nítidas, ele consiste em cinqüenta páginas presas com barbante e se parece à primeira vista com todos os outros trabalhos. O dele, porém, apresenta uma diferença essencial e significativa. Em vez das comuníssimas prímulas, dentes-de-leão, bistortas e bolsas-de-pastor, presentes na maioria dos herbários, o seu trazia uma impressionante variedade de estranhos retalhos e fragmentos impossíveis de identificar: pedacinhos de couro e de casca de árvore, papéis e tecidos, cordas e fios, uma teia de bordados ou um chumaço de cabelos. O que torna notável a coleção de Vasanpeine é o desprezo, em alguém tão jovem, pela forma convencional, pelo feitio reconhecível, pela coisa inteira ou Gesamtskunstwerk, pela divisão tradicional em reinos naturais com as rígidas fronteiras entre o mineral, o vegetal e o animal. Mesmo nessa tenra idade, Anatole Vasanpeine via o mundo como fragmentos identificáveis cuja autonomia era capaz de reconhecer sem utilizar uma Gestalt abrangente.
Com exceção desse álbum de recortes, há pouco mais que seja de interesse do historiador no parco material que nos chegou de sua infância. Os documentos compilados em 1982 pelo dr. Dietrich Simon em seu conhecido suplemento ao Bulletin de la Societé des Antiquaires de l'Ouest desde então se comprovaram espúrios ou totalmente incorretos graças aos esforços do professor Alain Quella-Villeger, que salvou das ruínas uma única pérola, o testemunho do père Claude Rouquet, sacristão de Sainte-Radegonde. Em sua autobiografia, père Rouquet, ao discorrer sobre os benefícios de se recusar a discutir o catecismo com aqueles a quem lhe foi confiada a sagrada missão de instruir, conta, de passagem, um curioso episódio de sua vida pastoral. Embora não se conheça o nome do menino posto sob a guarda de père Rouquet nas manhãs de domingo, Quella-Villeger concorda relutantemente com a sugestão do dr. Simon de que, baseado numa cuidadosa análise das informações contidas no próprio documento, o menino em causa é sem dúvida Vasanpeine.
Pode ser útil reproduzir por inteiro as páginas relevantes que, escritas no estilo abominável do père Rouquet, constituem o prefácio intitulado "Para o Leitor".
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