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Companhia das Letras
D. PEDRO I
Isabel Lustosa



INTRODUÇÃO

UM HERÓI SEM NENHUM CARÁTER

Em 7 de abril de 1831, após uma série de acontecimentos que o tinham levado a abdicar da Coroa brasileira, d. Pedro I era obrigado a deixar o Brasil. Ao longo da semana em que seu navio permaneceu no porto, ele se dedicou a cuidar de negócios, recebendo a bordo para essas operações corretores e comerciantes de má fama na corte, tratando pessoalmente com eles. Causou espécie entre a oficialidade do Warspite, navio inglês que o acolhera, a avidez minuciosa com que o ex-imperador realizava transações, contas, avaliações, venda de títulos, venda de imóveis e até dos objetos mais banais, como selins e arreios de cavalos, mobílias, carruagens, roupas, quadros, louças e pratarias. Cuidava ele mesmo da contabilidade, arrolando tudo em inumeráveis folhas de papel nas quais se alinhavam parcelas e cálculos com o valor de todos os seus bens. Talvez por desconfiança, acompanhou pessoalmente o embarque de sua bagagem e andava pelos corredores do navio abraçado à caixa de um faqueiro de prata que pretendia vender quando chegasse à Europa.
Além dessas questões particulares, d. Pedro aproveitou o tempo até a partida para negociar por carta, e sem nenhum constrangimento, com os representantes da Regência o pagamento de salários atrasados e regatear a quitação de suas próprias dívidas com a Coroa brasileira:

Eu desejo que o tesouro me pague o que me deve e que espere o pagamento do que lhe devo para quando se venderem as minhas propriedades particulares e a mobília de que estão cheios os palácios, quer nacionais, quer meus, deixando para meus filhos o que for preciso para o seu serviço particular.

Também impressionaram mal as maneiras do imperador. Desde o embarque, quando disse a d. Amélia na hora em que ela ia passar do escaler para o navio: "Lembre-se, querida, de que está sem calças", até a maneira grosseira como recusou um pedido dela em voz alta na frente de várias pessoas: "Não, é impossível; não posso fazer nada; em geral nosso casamento só me tem custado muito dinheiro; e é tudo quanto tenho dele até agora". Talvez uma alusão ao fato de que a imperatriz ainda não lhe tivesse dado um herdeiro.
Dois ex-ministros seus que foram ao navio pedir-lhe socorro também foram maltratados. D. Pedro riu às gargalhadas quando o general Pereira Valente, ex-ministro da Guerra e seu ajudante de campo, veio se refugiar a bordo porque sofrera ameaças. A Francisco Vilela Barbosa, marquês de Paranaguá, que tantas vezes fora seu ministro, dispensou dizendo que já trazia muita gente às costas e dele não se podia encarregar. Como Paranaguá dissesse então que, nesse caso, só lhe restava tornar a Portugal, onde tinha direito a uma pequena aposentaria como professor, d. Pedro reagiu: "Espero que não vá a Portugal antes de minha filha estar estabelecida no trono; proíbo-o". "Mas, senhor, que quer que eu faça? Não tenho fortuna, só tinha meu subsídio", argumentou o marquês. "Faça o que quiser, não é da minha conta: por que não roubou como Barbacena? Estaria bem agora", concluiu d. Pedro. Meses antes da abdicação, a Assembléia Legislativa votara uma resolução segundo a qual a Fazenda de Santa Cruz, pertencente ao imperador, compreendia apenas os terrenos de cuja posse se achava o monarca em 25 de março de 1824 - data em que foi outorgada a Constituição - revertendo aos antigos donos as terras anexadas à mesma fazenda em virtude de medição posterior.
Esse era o herói que em poucos dias seria aclamado por toda a Europa quando ali desembarcasse: o campeão do constitucionalismo na América e em Portugal.
É quase um impulso natural tentar saber se alguém é mocinho ou bandido, se é bom ou ruim. Tentar dividir o mundo dessa maneira é fácil e nos garante um roteiro claro para sabermos se estamos indo na direção certa, na direção do bem. A natureza humana é maniqueísta e classificatória. Quando se trata então de personagens extraordinários, heróis ou santos, esse sistema é ainda mais exigente. Se fulano foi um herói, como é que batia na mulher? Se sicrano foi santo, como poderia ter sido um rei, um governante, alguém que tinha de tomar decisões ou fazer escolhas que necessariamente contrariavam ou prejudicavam alguém?
Para tentar provar que um herói foi de fato herói, ou que um santo foi de fato santo, muitas vezes seus biógrafos tendem a reduzir ou escamotear informações que contrariem essa tese. Historiadores que formulam por iniciativa própria ou por requisição do Estado a chamada história oficial tendem, mais que todos, a fazê-lo.
O projeto de uma história do Brasil que enaltecesse os vultos pátrios começou a ser elaborado no século XIX. Tanto nas Indicações sobre a história nacional, publicadas por Alencar Araripe na revista do Instituto Histórico e Geográfico em 1894, quanto nas instruções para o ensino da disciplina no Colégio Pedro II, de 1881, estava presente o propósito de realçar os feitos dos homens extraordinários. Era uma história escrita com o fito de criar uma mítica nacional, de enaltecer os personagens fundadores da nacionalidade. Impulsionada pela retórica, que também se ensinava nas escolas, ela se confundia com a educação moral e cívica e vinha recheada de exemplos capazes de calar no coração dos alunos. Alguns vultos pátrios apresentavam, no entanto, maior dificuldade aos historiadores para o sucesso dessa tarefa. Desses, sem dúvida o mais difícil de enquadrar na moldura foi d. Pedro I.
Dizia Joaquim Nabuco que o problema das revoluções é que sem os exaltados é impossível fazê-las, e com eles é impossível governar. Poucos governantes couberam tão bem nessa camisa quanto o primeiro imperador do Brasil, Pedro i. Num tempo em que o Brasil se inventava como nação, surgiu na boca da cena e assumiu o papel principal o rapaz de 22 anos, malcriado e irresponsável, mulherengo e farrista, briguento e fanfarrão que, como disse um visitante estrangeiro, tinha os modos de um moço de estrebaria. Era o príncipe americano, fascinado por Bonaparte, influenciado pelo palavreado político liberal da Revolução Francesa. Um príncipe que daria ainda muita preocupação às cabeças coroadas da velha Europa.
Só mesmo o grão de loucura que iluminava sua mente poderia levá-lo a tomar as atitudes que tomou. Mas a ousadia com que mandou de volta as naus portuguesas repletas de soldados; a energia com que desafiou as Cortes portuguesas, que tentavam reduzir o Brasil novamente ao estágio de colônia; e a determinação com que enfrentou os portugueses na Bahia foram fundamentais para os destinos do Brasil independente.
Contudo, foram também a intemperança, o caráter apaixonado e a incapacidade de lidar com o dia-a-dia da política que o perderam. Mais de uma vez foi chamado de louco. De maneira direta e veemente na carta que lhe endereçou o marquês de Barbacena em 15 de dezembro de 1830, depois de ser demitido do ministério: "Um dos tios-avós de V. M. I. acabou seus dias em uma prisão em Cintra. V. M. I. poderá acabar os seus em alguma prisão de Minas a título de doido". O dr. Casanova, médico da família da segunda imperatriz, que a acompanhou ao Brasil, disse a José Bonifácio estar convencido de que "o imperador é louco; se me vierem dizer que ele anda a atirar pedradas pelas ruas, não me causará isso surpresa".
D. Pedro chegou ao Brasil com nove anos. Veio na confusão que foi a partida da corte portuguesa para o Brasil. Criou-se na colônia completamente livre, cuidando dos seus cavalos, desenvolvendo suas habilidades de carpintaria, seu talento musical, sem muito interesse pelos livros nem pelas intrigas de gabinete. Quando se casou, aos dezenove anos, já revelara o enorme apetite sexual que seria uma marca de sua personalidade e que o casamento não aplacaria.
Foi apenas em 1821, no entanto, com as turbulências que sucederam à Revolução Constitucionalista do Porto, que d. Pedro assumiu um papel realmente decisivo. Enquanto o pai quedava-se paralisado pela imagem da cabeça de seu primo Luís XVI rolando da guilhotina, o príncipe enfrentava corajosamente as sucessivas rebeliões daquele ano. Era ainda mais Portugal que Brasil, mas a intransigência dos deputados portugueses, teimando em reduzir o Brasil ao estágio colonial, a situação de seu pai, que de monarca absoluto tornara-se refém da Assembléia Constituinte portuguesa, além da pressão dos brasileiros para que ficasse, determinaram a sua decisão. Em janeiro de 1822, Pedro I, ao dizer que ficava, definiu o seu destino e o do país que adotara como pátria. E foi, nessa fase, o mais apaixonado dos brasileiros, o mais agressivo dos jacobinos, o mais furioso antilusitano.
D. Pedro dizia-se e queria-se príncipe constitucional, mas o tipo de constitucionalismo que propunha estava expresso na fórmula de seus discursos: o da coroação, onde mencionava a Constituição que jurara dar, e o pronunciado na abertura dos trabalhos da Assembléia Constituinte, onde prometia aprovar a Constituição se fosse digna do Brasil e dele. E se não fosse? Seria a pergunta provocativa que lhe fariam os liberais.
A resolução de fazer a Independência partiu do mesmo homem que demitiu José Bonifácio e despachou-o para um longo exílio. O mesmo príncipe que espantava a Europa com suas atitudes liberais postava-se diariamente, na crise final de seu governo, a uma das janelas do Paço Imperial que davam para a Câmara (que tinha então o sugestivo nome de Cadeia Velha) e desmandava-se em impropérios contra os chefes da oposição. Era um personagem que dava imenso valor à glória, mas via os homens e a si mesmo de forma muito crua, desprezando as fórmulas, os juramentos, lidando com a coisa pública de maneira meio cínica.
No entanto, mais de duzentos anos se passaram desde o seu nascimento, e a história do Brasil ainda não conheceu nenhum outro personagem com trajetória igual à desse herói de folhetim. Era em tudo um excessivo, um rapagão; em certos aspectos, como disse Otávio Tarqüínio de Sousa: "O rapaz que nunca deixaria de ser, nas mais autênticas características da mocidade". Os testemunhos da época o descrevem como um homem simpático e inteligente, cuja presença cativava e que se impunha pelo porte elegante e altivo. Seus artigos e cartas revelam, apesar do descuido na forma, um autor de textos bem-humorados e interessantes e com um razoável nível intelectual.
Ao lado de suas tantas qualidades, tinha defeitos tão tremendos que quase as obscureciam. Péssimo e cruel marido para a primeira imperatriz; arrogante e despótico após a dissolução da Constituinte e ao longo de todo o Primeiro Reinado; implacável na punição a Caneca e Ratcliff; imoral e corrompido, ostentando a amante sabidamente corrupta diante de todo o Brasil e do mundo, para humilhação de sua esposa e escândalo da sociedade brasileira; mesquinho até a avareza no que dizia respeito a dinheiro e bens pessoais; talvez mesmo desonesto; injusto, desconfiado e traiçoeiro com os seus melhores auxiliares.
Com uma personalidade avessa às regras formais, à qual a irreverência e a sensualidade davam um toque especial,
d. Pedro bem faz por merecer o qualificativo que Mário de Andrade deu a Macunaíma: um herói sem nenhum caráter. Mas no caso de d. Pedro, dadas as conseqüências históricas de seus atos heróicos, a biografia marcada por lances romanescos, esse "herói" deve sempre ser associado ao seu nome com H maiúsculo. Quem foi esse homem que começou a governar o Brasil como regente aos 22 anos, fez a nossa Independência - porque sem ele talvez ela não tivesse acontecido de forma a garantir a unidade do Brasil -, deu a Constituição que regeria o país por mais de 65 anos, comandou um exército na Europa para retomar a coroa da filha em Portugal, aonde não voltava desde os nove anos, e morreu ali cercado de glória, como um verdadeiro herói? D. Pedro I é, sem dúvida, o personagem mais fascinante da história do Brasil. Este livro pretende contar a história desse homem que foi, sobretudo, um macho, na acepção mais crua da palavra, no que esta tem de sensual e de rude, mas também de valente.


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