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Companhia das Letras
MÚSICA AO LONGE
Erico Verissimo



1

Clarissa risca com giz no quadro-negro a paisagem que os alunos devem copiar. Uma casinha de porta e janela, em cima duma coxilha. Um coqueiro do lado (onde o nosso amor nasceu - pensa ela no momento mesmo em que risca o tronco longo e fino). Depois, uma estradinha que corre, ondulando como uma cobra, e se perde longe no horizonte. Nuvens de giz do céu preto, um sol redondo e gordo, chispando raios, árvores, uma lagoa com marrecos nadando...
Clarissa recua um pouco para olhar. O zunzum das conversas abafadas aumenta e diminui, como a música dum órgão. Estrala um banco. Explode uma risadinha.
- Quietos! - exclama a professora, voltando a cabeça para os alunos. - Agora vejam bem o que eu desenhei na pedra. Prestem atenção.
Todos os olhares estão fitos no quadro-negro. Ergue-se um dedinho acima das cabeças.
- Professora!
- Que é, Moisés?
- Como é que o telhado da casa está encostando nas nuvens?
Risadas. Clarissa franze a testa.
- Psiu! Silêncio! - Põe mais açúcar na voz. - Meu filho, o telhado não está encostando nas nuvens. Nos desenhos e nas fotografias é assim, não pode ser de outro jeito.
Moisés insiste:
- Por que é que não pode, fessora?
- Porque não pode.
Outra mão se levanta.
- Que é, Leontina?
- A casa não tem chaminé?
Clarissa sorri.
- Queres que eu bote chaminé?
Leontina sacode afirmativamente a cabeça.
- Pois então vamos botar chaminé.
Ergue o braço e fabrica com giz uma chaminé. Outra vozinha:
- Falta uma coisa, fessora!
- Diga.
- A fumaça.
- Pronto. - Clarissa risca a fumaça a subir para as nuvens. - Falta mais alguma coisa?
- Falta.
- Que é?
- Uma vaca.
Risos. A professora faz um gesto de súplica.
- Por amor de Deus! Vamos, Marina, por que é que queres uma vaca?
- Porque eu gosto.
- Bem, neste caso vamos desenhar uma vaca...
Clarissa volta-se de novo para o quadro-negro e começa a desenhar uma vaca. O focinho, os cornos, o pescoço, o corpo, as patas, a cauda...
- Falta uma coisa, fessora!
- Diga o que falta, Terêncio.
- As mamicas!
Gargalhadas, algazarra. Clarissa cora.
- Terêncio, tenha modos!
Terêncio baixa os olhos. Clarissa exige silêncio.
- Agora todos olhem bem para esta paisagem. Depois eu apago e cada um vai fazer no seu caderno um desenho igual, de memória. Atenção! Vou apagar...
Pega da esponja e apaga os rabiscos brancos.
- Vamos, agora todos desenhem!
Sobe para o estrado. Ali do alto fica olhando os alunos e, quando as cabecinhas se inclinam para os cadernos, ela tem a impressão de que uma grande quantidade de frutas - pretas, castanhas, douradas, vermelhas - vem descendo uma correnteza de rio, ondulando à flor d'água.
Mas que comparação absurda! Absurda? Nem tanto. Frutas, frutas à tona do rio. Frutas se comem, cabecinhas de crianças, não. Polpa, suco, massa cinzenta, gosto bom, inteligência. Quem sabe quantos futuros grandes homens estão agora sentados aqui nos bancos, de língua de fora, procurando imitar no caderno a paisagem que a "fessora" riscou no quadro-negro?
Clarissa perde-se em divagações. A luz jorra através das janelas. A manhã vai envelhecendo aos poucos. Na parede a folhinha diz que hoje é 20 de março. Um mapa-múndi afirma que a Terra é uma esfera achatada nos pólos. Vem de outras aulas o som de vozes destacadas: professoras que gritam... A voz da Maria da Glória, do quinto ano, mole e doce como mingau. A voz metálica da Dolores, do terceiro.
Clarissa desce do estrado e começa a passear por entre as classes, com as mãos trançadas às costas. Já se vai habituando aos pequenos, agora. Nos primeiros dias ficou meio atordoada: nunca se tinha visto a sós diante duma classe: tinha constrangimento até de falar alto. Quando falava, punha-se vermelha. Aquelas carinhas miúdas - umas sérias, outras maliciosas, não poucas dissimuladas e todas dum certo modo misteriosas - mantinham-na num estado permanente de alarma. Temia que algum maroto lhe dissesse um nome feio ou que todos se recusassem a obedecer-lhe as ordens. Chegava a temer que rompessem em vaias.
Tudo, porém, foi mudando aos poucos. Agora ela está senhora da situação. (Nem sempre, claro...) Já sabe os nomes da maioria dos alunos, já lhes quer bem, como se eles lhe pertencessem, fossem seus irmãos, seus filhos...
- Professora!
Uma voz débil.
- Que é, Francelina?
- Se a gente não saber...
- "Souber", Francelina, "souber"...
- Se a gente não souber desenhar vaca, pode desenhar gato?
- Pode.
Clarissa continua o seu passeio por entre as classes. Pára diante duma janela. Como é diferente a paisagem de verdade da paisagem que a gente faz a giz no quadro-negro... Impossível pintar com branco no preto um céu assim azul, umas árvores verdes assim, o chão de terra vermelha, a grama, as casas coloridas... Mas também, para falar a verdade, os quadros que os pintores fazem a óleo são mais bonitos do que a paisagem ao natural...
Os minutos passam. Clarissa começa a sentir um "ponto claro" no estômago. Fome? Olha o relógio: onze e meia. Por um instante no cineminha de sua cabeça se ilumina um quadro: a varanda do casarão, papai, mamãe, tia Cleonice, os pratos, os talheres, a sopa gostosa de tia Ambrósia...
- Fessora, não sei fazer o sol... A bola fica torta.
Clarissa senta-se na carteira, ao lado de Pedrinho, e, tirando-lhe o lápis da mão, desenha no caderno um sol bem redondo sobre o céu de papel quadriculado.


As aulas da manhã terminam. O colégio - pensa Clarissa - é como um dragão enorme que vomita pela boca da porta central a criançada que sai a correr aos gritos, numa festa de roupas coloridas. Bem como os bichos dos contos de fadas...
O dragão de cimento, com os vinte olhos das janelas, mora no alto duma coxilha. Lá embaixo, Jacarecanga se espreguiça ao sol do meio-dia: telhados dum pardo enegrecido ou alaranjado, contrastando com a massa verde-escura do arvoredo dos quintais. As ruas vermelhas, de terra batida, parecem feridas em carne viva rasgadas no corpo da cidade. Acima dos telhados erguem-se as duas torres brancas da matriz.
Clarissa espera Dolores. E, enquanto espera, pensa. Se o campo fosse um mar (as coxilhas verdes até parecem ondas...), Jacarecanga seria uma ilha. Ilha perdida. Ilhazinha de gentes e coisas engraçadas. Seu Leocádio, seu Podalírio, a Banda Municipal, o Clube Recreio Jacarecanguense, o cinema de seu Mirandolino, o quiosque da praça...
Dolores:
- Vamos, Clarissa?
- Vamos.
Descem lado a lado a estradinha que corta a relva da coxilha, coleando na direção da cidade.
Dolores, os óculos escarranchados no narigão lustroso e vermelho, queixa-se de seus alunos. Uns mal-educados, badernistas e desinquietos. Ninguém pode com a vida deles.
Tem uma voz que dá a impressão de marteladas compassadas e enérgicas. Fala com um ar autoritário e sobranceiro de quem está sempre em aula. E anda eternamente com as meias enrugadas (meias de lã, pernas finas, sapatos cambaios). Apesar de tudo, Clarissa gosta dela. A melhor das colegas. No fundo, boa e simples. E, depois, não exige que a gente esteja falando: solta a língua e pouco se lhe dá que as outras ouçam ou respondam...
- O programa é uma loucura. O ano é curto pra tanta matéria. - As palavras martelam no ar pregos invisíveis. - Quero só ver!
Dolores vai falando sem olhar para o lado, como se estivesse arengando às nuvens. Clarissa deixa o pensamento voar para longe.
As duas amigas entram na rua do Poço. Passa um automóvel levantando poeira. Um cachorro ergue a perna e desenha arabescos líquidos e caprichosos no poste telefônico. Uma grande nuvem cobre o sol por alguns instantes.
A rua estende-se a perder de vista. Vidraças chispam nas casinhas baixas. Nos muros caiados destacam-se cartazes de cores fortes.
- Viste os chapéus que a Moderna recebeu?
Clarissa sacode a cabeça: não viu. Dolores gosta da moda que estão usando, copinhas assim deste tamanho, abas largas, chapéus lá no alto do cocuruto? Não. Dolores é partidária da boina. Simples e barata.
Silêncio.
Na rua do Comércio há um maior movimento de transeuntes. À frente do clube, seu Quirino, barbeiro e tocador de bandolim, palita os dentes.
Chegam à casa de Dolores.
- Adeusinho.
- Adeusinho.
Beijam-se. Dolores tem a mania de beijar na boca. Gosto de pó-de-arroz barato. Clarissa a custo reprime uma careta de repugnância.
Passa pela casa do velho Leocádio, o sobradinho marrom com sacada de ferro, estatuetas na platibanda, azulejo no rodapé. No vértice do telhado, o galo magro do cata-vento. Quanta recordação! Quando menina, Clarissa veio uma noite com os companheiros olhar no telescópio de seu Leocádio, um canudo de metal azinhavrado. O velho tinha uma voz esfarelada, dizia coisas que ninguém entendia, chupava pastilhas e usava bonezinho de alpaca.
- Venham ver a Lua! - convidava ele, rosnando como um cachorro desconfiado.
Clarissa metia o olho no telescópio. Seu Leocádio explicava tudo:
- A Lua é um satélite da Terra. O que você está vendo são crateras dos vulcões extintos...
Mas o que ela na verdade via era uma coisa branca, apagada e confusa.
- Não está enxergando as montanhas? - perguntava a voz de farelo. - E os selenitas?
Clarissa tinha medo de seu Leocádio. Respondia que sim, para ele não ficar zangado. Mas o primo Vasco ria na cara do velho:
- Qual nada! Não se enxerga! Este periscópio não presta, seu Leocádio!
- Maroto! - gritava o velhote, entre zangado e jocoso.
Ela tremia. Que rapaz valente, o Vasco! Tinha coragem de contradizer seu Leocádio...
Depois o bando descia as escadas escuras. Ratos furtivos corriam pelos cantos. No escritório daquele velho solitário havia uma caveira. Clarissa passa por ela de olhos fechados. Ah! aquele sobradinho era um mistério...
Clarissa caminha à cadência dos pensamentos... O engraçado é que a gente fica moça, compreende melhor as coisas, estuda nos livros mas continua sentindo mais ou menos o que sentia quando criança. Certas impressões custam a se apagar... Por exemplo: podemos dizer que não acreditamos mais em fantasmas (e no íntimo mesmo achamos que não existe assombração) mas a verdade é que não entramos sem susto em quarto escuro, não passamos sem voltar o rosto pelas casas que se dizem assombradas ou pela frente do cemitério...


Ambrósia serve o almoço. Vem segurando a bandeja com a terrina de sopa. Petrusca, de lenço vermelho amarrado na cabeça, lembra uma figura que Clarissa viu numa revista, anunciando um preparado para polir as panelas: Eu só uso Alveol...
Papai está sentado no lugar de costume. Amarra um guardanapo no pescoço, limpa a colher na ponta da toalha (é infalível!) e pigarreia.
Mamãe abre a sopeira. O vapor sobe para o alto e se esvai no ar.
D. Clemência mergulha a grande concha de prata no líquido dourado.
- Sopa, João de Deus?
O marido faz um sinal afirmativo.
- Sopa, minha filha?
- Ahn.
Cleonice, com os seus grandes olhos muito pretos, o rosto duma palidez esverdinhada, diz que está sem apetite e recusa a sopa.
- Não te esqueças das gotas hepáticas, mana.
Cleonice é irmã de d. Clemência. Noiva há doze anos de Pio Pinto. Então, esse casório sai ou não sai? O noivo alega que está esperando aumento de ordenado. Mas o aumento também não sai. E assim rolam os dias.
- Ainda hoje andei às voltas com o banco - diz João de Deus. - Estou criando cabelos brancos por causa daquelas promissórias...
D. Clemência solta um suspiro. A cara de João de Deus ensombrece. E Clarissa sente que vão cair no assunto que as mulheres temem: negócios. Papai perdeu a estância, com gado e tudo. Está quase sem nada. Agora só lhe resta aquele casarão, onde já não há mais alegria. Antigamente todos riam e conversavam à hora das refeições. Agora, não. Desânimo e tristeza. Só se fala em economia: gastar menos açúcar, comprar menos verdura, consumir menos luz... De vez em quando a palestra se anima: esquecem-se as mágoas. Mas de repente alguém pronuncia a palavra - dinheiro. Pronto! Todos ficam com a cara anuviada. É como se tivessem falado em morte. Dinheiro! Dinheiro! Não haverá no mundo nada mais importante que dinheiro?
Clarissa, angustiada, faz a si mesma essa pergunta.
Papai falou nas letras do banco. Ninguém mais tem fome, ninguém mais ri. Clarissa procura salvar a situação:
- Hoje mandei os meus alunos desenharem uma paisagem. Tinha uma casa...
Mas ninguém está ouvindo o que ela diz. Parece que papai só ouviu a palavra casa. Porque diz em seguida, interrompendo a filha:
- Se no final de contas eu conseguir salvar o casarão, me dou por muito satisfeito...
Afasta o prato de sopa. Cleonice toma as suas gotas hepáticas.
- Ambrósia, pode trazer os outros pratos - diz d. Clemência.
Na parede, num quadro de moldura de prata, Jesus Cristo e os apóstolos estão na sua ceia. Pão e vinho. Clarissa ergue os olhos para a gravura e fica pensando... Tem a impressão de que lá do quadro Jesus está a lançar-lhe um olhar furtivo e meio trocista, como a dizer-lhe:
"Nós nos entendemos, hein, Clarissa?"


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