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AS AVENTURAS DE TIBICUERA
Erico Verissimo



1. Nasci

Nasci na taba duma tribo tupinambá. Sei que foi numa meia-noite clara, de lua cheia. Minha mãe viu que eu era magro e feio. Ficou triste mas não disse nada. Meu pai resmungou:
- Filho fraco. Não presta para a guerra.
Tomou-me então nos seus braços fortes e saiu caminhando comigo para as bandas do mar. Ia cantando uma canção triste. De vez em quando gemia.
Os caminhos estavam respingados do leite do luar. O urutau gemeu no mato escuro. Uma sombra rodopiou ligeira por entre as árvores.
O mar apareceu à nossa frente: grande, misterioso... Suas ondas pareciam soltar um longo ai quando rebentavam na praia. Meu pai estacou. Olhou primeiro para mim, depois para o oceano... - não teve coragem.
Voltou para a taba chorando. Minha mãe nos recebeu em silêncio.


2. Cresci

Passaram-se luas. Uma tarde ia eu escanchado na cintura de minha mãe quando o pajé da nossa tribo nos fez parar na frente de sua oca. Olhou para mim. Viu que eu era magro, feio e tristonho. O pajé era um homem muito engraçado. Fazia troça de toda a gente e de todas as coisas. Examinou-me, da cabeça aos pés, sorriu e disse: "Tibicuera".
O nome pegou. Toda a gente ficou me chamando Tibicuera. Tibicuera na nossa língua queria dizer cemitério. O nome sentava bem. Eu era calado e triste.
Certa vez fiquei parado, olhando a minha sombra no chão. Era a sombra de um guri cabeçudo, de barriga enorme, como que inchada. As pernas eram finas como os juncos que crescem nos rios. Soltei um grito de desespero. Na taba até pensaram que tinha sido gemido de urutau.
Uma tarde me debrucei sobre um córrego para matar a sede. Vi minha cara no espelho da água. Levei um susto. Ergui-me num pulo e saí a correr. Agarrei-me às pernas de minha mãe e choraminguei:
- Vi um peixe feio dentro d'água, mãe.
Cresci na taba, comendo terra, brincando com as formigas e as minhocas.
Aos cinco anos fiz minha primeira caçada de tucanos. Mas não me meti fundo no mato, porque tinha medo de encontrar Anhangá, Curupira e os outros espíritos maus.
À noite eu via as danças dos índios ao redor de uma grande fogueira. Os tupinambás pulavam, faziam roda, rebolavam as ancas, erguiam os braços, batiam com os pés no chão. A fogueira lambia a noite com línguas de muitas cores. De dentro dela saltava um clarão que devorava a luz do luar, pintava de fogo a cara dos guerreiros e ia bolir com o mato que estava dormindo.
Os guerreiros dançavam sempre. Os tambores batucavam - bum-qui-ti-bum, bum-qui-ti-bum, bum, bum... Eu olhava para o céu. A lua parecia uma fogueira branca e as estrelas eram os índios dançando ao redor dela.
Um dia os tupinambás foram para a guerra. Os tambores soaram com raiva. O eco respondeu longe. O pajé reuniu o conselho. Os guerreiros prepararam suas armas. Movimentaram-se os tacapes, os arcos, as frechas e as lanças. Depois os guerreiros entraram no mato. Só ficaram na taba os velhos, as mulheres e as crianças.
Comecei a sentir vontade de ficar homem para ir também à guerra. Uma vontade que chegava a doer, de tão forte.


3. O mistério da caveira

Os nossos guerreiros voltaram vitoriosos. Trouxeram muitos prisioneiros e o crânio do chefe inimigo. Fiquei muito tempo olhando aquela cabeça sem corpo. Que cara horrível! Eu queria fechar os olhos ou olhar para outro lado, mas não podia. O crânio do chefe inimigo me atraía, me chamava, me prendia...
Naquela noite tive um pesadelo pavoroso. Sonhei que a cabeça sem corpo estava em cima de meu peito, pesada como uma pedra, procurando esmagar-me o coração. Acordei suando frio. Saí da minha oca. Silêncio na taba. A noite ia alta. A lua minguante lá no céu parecia a caveira de algum grande chefe vencido. Os grilos cantavam. Saí a caminhar. Aonde era que eu ia? Uma força me puxava...
Andei trocando pernas à toa por entre as ocas. Só depois de muito tempo é que compreendi o que queria. Tinha vontade de pegar a caveira do chefe inimigo. Sabia que ela estava espetada num pau da caiçara, perto da oca de nosso chefe. Fui...
Puxei o crânio branquinho com todo o cuidado. Sentei-me na areia da praia. E, sem ouvir o barulho do mar, nem o uivo do vento, nem os pios das aves da noite, revirei nas mãos a caveira e fiquei com os olhos pregados nela. Eu sentia um grande medo no coração. Queria decifrar o mistério daquela cabeça sem vida. Queria... Queria... Queria...
Que era aquilo? Cheguei a gritar para o céu. Que era aquilo?
O mar continuou gemendo, o vento uivando, as aves piando. Mas nada, ninguém respondia à minha pergunta.
De repente agarrei a caveira e joguei-a para o ar, como se a quisesse quebrar contra as pontas agudas das estrelas. A caveira branquejou ao luar e depois tombou na areia. Pof!
Estendi-me ao lado dela e, cansado, dormi até ao amanhecer.


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