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Companhia das Letras
HUMANISMO E CRÍTICA DEMOCRÁTICA
Edward W. Said



Prefácio

Os três capítulos centrais deste livro foram primeiro apresentados como um conjunto de conferências na Universidade Columbia em janeiro de 2000, numa série anual sobre aspectos da cultura americana patrocinada pela universidade e pela Columbia University Press. O convite original partiu do diretor Jonathan Cole, um querido amigo e colega de muitos anos na Columbia, cujo compromisso com os padrões intelectuais e a investigação livre têm ajudado a fazer de nossa universidade um lugar tão extraordinário. Em outubro e novembro de 2002, expandi as conferências para quatro e alterei a ênfase para incluir não apenas o que devia se tornar uma quarta conferência (acrescentada neste livro como capítulo sobre Mimesis, a obra-prima humanista de Erich Auerbach), mas também para dar conta de um contexto político e social diferente. Essas quatro conferências foram proferidas em resposta ao generoso convite do Centro para Pesquisa nas Artes, Ciências Sociais e Humanidades (CRASSH), dirigido pelo professor Ian Donaldson na Universidade de Cambridge, onde minha esposa, Mariam, e eu desfrutamos a maravilhosa hospitalidade do King's College. Sou muito grato a Ian e Grazia Donaldson por seu calor humano e espírito maravilhoso, e a Mary-Rose Cheadle e a Melanie Leggatt, do CRASSH, por sua extraordinária solicitude e ajuda prática. Para o reitor Pat Bateson e os membros do King's, mal temos palavras para expressar a nossa gratidão pela sua hospitalidade durante o que foi um período penoso para mim. É uma ironia que os dois conjuntos de conferências, em Nova York e em Cambridge, tenham sido apresentados durante intensos períodos de quimioterapia e transfusão, de modo que toda ajuda recebida foi realmente bem-vinda. As conferências foram reelaboradas e revisadas para publicação.
O que interveio entre as duas datas que mencionei acima foram os acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Uma atmosfera política modificada colheu os Estados Unidos e, em graus variados, o resto do mundo. A guerra contra o terrorismo, a campanha no Afeganistão, a invasão anglo-americana do Iraque, tudo isso deu origem a um mundo de animosidades intensificadas, a uma atitude americana muito mais agressiva para com o mundo, e - considerando a minha própria formação bicultural - a um conflito muito exacerbado entre o "Ocidente" e o "islã", rótulos que há muito tempo julgo equívocos e mais apropriados para a mobilização de paixões coletivas do que para uma lúcida compreensão, enquanto não forem analítica e criticamente desconstruídos. Muito mais do que lutar, as culturas coexistem e interagem proveitosamente umas com as outras. É para essa idéia da cultura humanista como coexistência e partilha que estas páginas têm a intenção de contribuir, e, obtenham sucesso ou não, eu pelo menos guardo a satisfação de ter tentado.
Devido a todas essas circunstâncias pessoais e gerais, as minhas conferências sobre o humanismo americano e sua relação com o mundo em que vivemos não são nem uma declaração definitiva nem uma convocação às armas. Vou deixar que as páginas que se seguem falem por si, mas gostaria de dizer que tentei, de modo reflexivo, discutir aqueles aspectos de um tema enorme que têm mais significado para mim. Por exemplo, sempre me perguntei como e de que maneiras o humanismo, considerado normalmente um campo bastante restrito de esforços, relaciona-se com outras dimensões do empreendimento intelectual sem se tornar algo como a sociologia ou a ciência política; é o que discuto no primeiro capítulo. No segundo, tendo sido um estudante e professor universitário de humanidades por várias décadas, achei importante observar como o mundo da minha educação e o mundo em que agora vivo são totalmente diferentes, e como os deveres de um humanista às vezes entram surpreendentemente em conflito com o que agora se espera de nós - e nunca tanto quanto depois do Onze de Setembro. No meu terceiro capítulo, discuto o papel crucial da filologia, que utilizo, a par da leitura cerrada e imaginativa, na esperança de que uma atitude de abertura para com o que um texto diz (e, com essa abertura, uma certa dose de resistência) seja a verdadeira estrada para a compreensão humanista no melhor e mais amplo sentido da expressão.
Acrescentei ainda um capítulo que serve como coda, intitulado "O papel público dos escritores e intelectuais", um texto escrito originalmente para uma ocasião acadêmica, uma conferência sobre a república das letras, realizada na Universidade de Oxford em setembro de 2000. Algumas mudanças substanciais nesse texto também refletem a atmosfera especial que nos foi imposta pelos terríveis acontecimentos do Onze de Setembro, mas gostaria de observar que o argumento essencial ainda acompanha o que eu havia originalmente escrito.
E.W.S
Nova York, maio de 2003


1. A ESFERA DO HUMANISMO

Gostaria de começar este conjunto de reflexões advertindo de saída que, por razões mais do que justificadas, concentrarei minha abordagem no humanismo americano, embora esteja convicto de que boa parte do meu argumento também se aplica a outros lugares. Vivi nos Estados Unidos a maior parte da minha vida adulta, e nas últimas quatro décadas tenho sido humanista praticante, professor, crítico e estudioso de literatura. Esse é o mundo que conheço melhor. Segundo, como a única superpotência remanescente, a América oferece ao humanista desafios e demandas especiais diferentes daqueles apresentados por qualquer outra nação. Claramente, porém, como uma sociedade de imigrantes, os Estados Unidos não são um lugar homogêneo, e isso também faz parte da mistura de fatores que o humanista americano deve levar em consideração. Terceiro, cresci numa cultura não ocidental, e, como alguém que é anfíbio ou bicultural, sou especialmente consciente, creio eu, de perspectivas e tradições diferentes daquelas consideradas em geral como unicamente americanas ou "ocidentais". Isso talvez me propicie um ângulo de visão um pouco peculiar. Por exemplo, os antecedentes europeus do humanismo americano e aqueles que se originam de "fora" do âmbito ocidental ou são considerados "alheios" a essa esfera muito me interessam, e falarei a esse respeito no terceiro e quarto capítulos, e sobre como, de muitas maneiras, eles provêm de fora da tradição ocidental. Por último, o cenário na América, e talvez em toda parte do mundo, mudou consideravelmente desde os terríveis acontecimentos de 11 de setembro de 2001, com muitas conseqüências calamitosas para todos nós. Também levo esses fatos em consideração, mas aqui, por razões bem óbvias, mais uma vez a cena americana é privilegiada.
A última coisa que quero observar de início é que o tema real deste livro não é o humanismo tout court, que é um tema demasiado grande e vago para o que estou comentando aqui, mas antes o humanismo e a prática crítica, o humanismo que informa o que alguém faz como intelectual e professor erudito das humanidades no mundo turbulento de nossos dias, transbordante de beligerância, guerras reais e todo tipo de terrorismo. Dizer, com o jovem Georg Lukács, que vivemos num mundo fragmentado, abandonado por Deus, mas não pelos seus muitos acólitos barulhentos, é correr o risco de atenuar os fatos.
Como disse acima, sou professor de literatura e humanidades na Universidade Columbia desde 1963. Por várias razões, Columbia tem oferecido um lugar privilegiado para contemplar o humanismo americano no século que acabou de chegar ao fim e naquele que mal está começando. É a universidade em que um conjunto célebre, na verdade lendário, de cursos centrais exigidos na graduação, típicos da educação liberal, tem sido oferecido ininterruptamente ao longo dos últimos oitenta e um anos. No núcleo desse currículo está o programa de um ano, estabelecido em 1937, intitulado simplesmente "Humanidades"; há vários anos esse programa é comumente conhecido como o de "Humanidades Ocidentais", para distingui-lo de uma oferta paralela chamada "Humanidades não-Ocidentais", "Orientais" ou "do Leste". A idéia de que todo estudante de primeiro ou segundo ano deve fazer esse curso rigoroso de quatro horas por semana tem sido absolutamente, talvez até inabalavelmente, central e, sob todos os aspectos, positiva para uma educação superior em Columbia, tanto pela qualidade indiscutível e fundamental das leituras - Homero, Heródoto, Ésquilo, Eurípides, Platão e Aristóteles, a Bíblia, Virgílio, Dante, Santo Agostinho, Shakespeare, Cervantes e Dostoiévski - quanto pela grande quantidade de tempo despendida não só nesses autores e livros difíceis, mas em defender a importância de sua leitura para o mundo em geral. Em grande parte, o curso de humanidades em Columbia emergiu das assim chamadas guerras culturais das décadas de 1970 e 1980 sem maiores danos e alterações.
Lembro-me de ter sido convidado, há uns vinte e cinco anos, a participar de uma discussão num painel público sobre o programa das humanidades na universidade, e recordo não menos vividamente que fui minoria absoluta quando critiquei o curso por fazer nossos estudantes enfrentarem textos latinos, gregos, hebraicos, italianos, franceses e espanhóis em traduções às vezes obscuras ou discutíveis. Argumentei que a prática de ler esses livros maravilhosos fora de seus contextos históricos e a vários graus de distância de suas formas originais precisava de um exame crítico, e que as expressões piedosas de olhos úmidos sobre a grande experiência que é ler Dante - mais ou menos como as meditações de antigos participantes envelhecidos de acampamentos de verão sobre os bons velhos tempos de escaladas no monte Washington, ou alguma outra dessas atividades associadas com o hábito pastoral e a tradição inventada -, aliadas às pressuposições acríticas sobre os "grandes livros" disseminadas pelo curso, que se tornaram de algum modo uma parte integrante sua, eram passíveis de uma suspeita justificada. Não sugeri absolutamente que o curso fosse abandonado, mas recomendei que as equações fáceis entre a "nossa" tradição, "as humanidades" e "as maiores obras" fossem rejeitadas. Há "outras" tradições, e portanto outras humanidades, que certamente poderiam ser de algum modo consideradas e representadas para moderar a centralidade não questionada do que era, com efeito, um amálgama forjado com muito esforço do que abrangeria a "nossa" tradição. Por outro lado, disse-me o meu falecido colega Lionel Trilling, o curso de humanidades tem a virtude de dar aos estudantes de Columbia uma base comum de leitura, e se eles mais tarde esquecem os livros (como muitos sempre fazem), ao menos esquecerão os mesmos livros. Isso não me impressionou como um argumento todo-poderoso, mas, em oposição a não ler nada exceto literatura técnica das ciências sociais e das ciências, era ainda assim convincente. Tenho desde então concordado com a essência do que o curso de humanidades faz de melhor, que é familiarizar os estudantes com o cânone literário e filosófico central das culturas ocidentais.
Mencionar Trilling é dar bastante proeminência a outro dos títulos de Columbia no que diz respeito ao humanismo. É uma universidade que se vangloria de possuir, por um período considerável, toda uma população de ilustres humanistas, com muitos dos quais tive o prazer de trabalhar ou simplesmente partilhar o mesmo espaço. Além do próprio Trilling, têm aparecido figuras (para mencionar apenas aqueles que conheci ou ainda estavam em Columbia como eminências mais velhas quando vim para Nova York em 1963) como Mark van Doren, Jacques Barzun, F. W. Dupee, Andrew Chiappe, Moses Hadas, Gilbert Highet, Howard Porter, Paul Oskar Kristeller, Meyer Schapiro, Rufus Mathewson, Karl-Ludwig Selig e Fritz Stern, dentre muitos outros. Uma verdade a respeito da maioria desses eruditos consistia certamente em que não eram só humanistas em todos os sentidos tradicionais da palavra, mas também ilustres como exemplos notáveis do que o humanismo acadêmico era e é no seu auge. Alguns deles - Trilling em particular - falavam freqüentemente de modo crítico sobre o humanismo liberal, às vezes até de modo perturbador, embora aos olhos do público e na opinião de seus colegas e estudantes acadêmicos representassem a vida humanista, sem jargão ou profissionalismo indevido, no seu momento mais rico e mais intenso. Antes desses homens - o Columbia College, até apenas os últimos dezoito anos, era essencialmente uma escola de alunos do sexo masculino - houve figuras tão diversas como John Dewey, Randolph Bourne e Joel Springarn, cujo trabalho em filosofia, pensamento político e literatura teve um impacto capital em definir o compromisso de Columbia com as virtudes do humanismo liberal, e às vezes radical, considerado um componente do espírito democrático, e também com a busca contínua de liberdade, tão bem documentada na América pelo meu colega e amigo Eric Foner no seu excelente livro The Story of American Freedom.
Grande parte de todos esses dados fornece um pano de fundo auspicioso para a minha pesquisa sobre a relevância e o futuro do humanismo na vida contemporânea, o tema a que estas páginas são dedicadas. Indica também quão rico e contestado é esse campo, com todos os tipos de debates, polêmicas e projetos de pesquisa sobre o papel e lugar do humanismo e das humanidades inundando o domínio público durante os últimos anos do século passado e o início deste. Não tenho o desejo nem a capacidade de recapitular todos esses argumentos, e menos ainda de fazer um longo catálogo dos significados do humanismo, exceto para notar a sua presença impositiva em tudo o que tenho a dizer, e indicar que estarei fazendo um uso altamente seletivo do que outros disseram. O meu argumento pretende ser uma continuação, dentro do contexto de Columbia, do que os meus predecessores disseram e fizeram - predecessores, apresso-me a acrescentar, que tornaram meus anos naquela instituição tão extraordinariamente ricos e valiosos para mim. Apesar de meu envolvimento na luta pelos direitos humanos palestinos, nunca ensinei senão humanidades ocidentais em Columbia, literatura e música em particular, e pretendo continuar a fazê-lo por tanto tempo quanto for possível. Mas ao mesmo tempo acho que chegou o momento, ao menos para mim, de reconsiderar, reexaminar e reformular a relevância do humanismo, ao entrarmos num novo milênio com tantas circunstâncias conjurando mudanças suficientemente dramáticas para transformar o cenário por completo.
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