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Cia das Letras
VIDA CRÔNICA
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Apresentação

POESIA TERMINAL
Heloisa Prieto


O médico e o escritor, seja Rabelais ou o dr. Oliver Wendell Holmes, têm como características comuns o conhecimento do ser humano, a capacidade de diagnosticar sua fragilidade ou sua força e o humor suficiente para preservar a própria sanidade.
Bradley, Beatty, Long, Perkins


Durante minha infância, marcada pela leitura constante, um médico me ensinaria a importância de "ler" a fisionomia, o caminhar, a respiração, para compreender o outro. Ele se chamava dr. Agostinho Bruno, era nosso vizinho, e me lembro nitidamente de quando avistei seus sapatos brancos, escondida debaixo da cama, tentando fugir de uma temível injeção, lá pelos sete anos de idade. Lembro-me também de sua voz confiante, a voz que me transmitiu coragem para enfrentar um tratamento que implicava tudo o que eu mais detestava: repouso, remédios e a famosa injeção.
Clínico geral, o dr. Bruno era rápido e certeiro no diagnóstico, coisa que fascinava meu pai. E eu costumava ouvir as conversas de ambos, nas quais "tio" Bruno tentava explicar como percebera as nuanças e os detalhes de uma certa moléstia, ou o temperamento do paciente, as doenças imaginárias de minhas tias-avós, o perigo real de um choque anafilático num parente alérgico a penicilina. Escutá-lo era instigante porque, além das explicações técnicas, havia em sua fala um conhecimento profundo da natureza humana e de suas idiossincrasias.
Recentemente, ao ouvir Paulo Bloise contar sobre suas primeiras experiências como psiquiatra, essas lembranças voltaram à tona e começamos a conversar sobre a prática da medicina ao longo dos tempos, sobre os médicos que se tornaram escritores. Percebemos que a lista era imensa, passando por figuras como Alexandre Dumas filho e sua adorável Dama das camélias ou nosso amado Guimarães Rosa, colhendo histórias magníficas no interior mineiro.
Foi justamente para homenagear esses habitantes do território comum à medicina e à literatura que é o sofrimento humano, como bem definem as palavras de Moacyr Scliar, que decidimos organizar esta antologia. Mesclando textos clássicos e contemporâneos e ficção científica, nosso objetivo era criar uma espécie de "reflexão narrativa" sobre duas práticas milenares: a arte da cura e a arte de contar histórias.
Prazer, dor e mistério na visão de médicos e pacientes constituem os fios condutores dos contos selecionados. Quantas sutilezas permeiam a troca que se estabelece durante uma consulta? Qual a natureza do pacto firmado entre médico e paciente? Esta é a dúvida que assombra a jovem narradora de Ana Miranda, inquietude também presente no breve relacionamento entre um médico e sua pequena paciente no conto do médico e escritor norte-americano William Carlos Williams.
Fraternidade e compaixão desafiam a desesperança quando os males físicos e mentais se impõem no contexto de prisões e sanatórios. O Carandiru infernal humanizado pelo olhar sensível de Drauzio Varella, o sanatório labiríntico, angustiante, na visão do jovem e perplexo psiquiatra protagonista do conto de Paulo Bloise. E o que fazer quando só nos restam vinte e quatro horas? Esta última indagação é a premissa básica do conto de Moacyr Scliar, compondo, com os outros autores, um mosaico desse universo oculto tão renegado durante os afazeres de nossas vidas. Pois, dentro do espaço de um hospital, vários "tempos" coexistem, enredando diferentes histórias de modo bastante peculiar. Corredores, ambulâncias, salas de espera, abrigam toda uma combinatória de eventos e personagens que abrange desde pacientes inesquecíveis, enfermeiras e decisões de vida ou morte até a sensação de vitória ou impotência que toma os médicos e suas equipes.
Como fator comum aos textos selecionados está a condição humana, seus flagelos e sua plenitude, às vezes encarada com muita ironia, como no texto de Machado de Assis, outras com humor e ousadia, como no divertido conto de Ricardo Gouveia. Médicos são seres humanos, tão ignorantes acerca dos mistérios existenciais quanto todos nós, e para lembrar-nos de sua fragilidade, nada melhor que as histórias emocionantes de Anton Tchekhov e Sir Arthur Conan Doyle.
Referindo-se à prática da medicina, o poeta e médico William Carlos Williams elaborou uma inspirada analogia entre a prática da medicina e a linguagem literária:
"Quando uma garota vem até mim sôfrega, cambaleante, de camisola, carregando um bebê, e me pede que a proteja da própria mãe, ou quando vejo um homem que perdeu a sanidade, é como se todos esses pacientes me dissessem a mesma coisa. E então um novo significado começa a intervir. E sob a linguagem que ouvimos a vida inteira, um idioma mais profundo, infiltrando-se na dialética, se oferece. É aquilo que chamam poesia. Essa é a fase terminal."



TREPANAÇÃO
Ana Miranda

Boa noite, cérebro, amanhã vou pela primeira vez ao médico ginecologista e estou morrendo de medo, apavorada, primeiro porque eu não gosto de médico ginecologista, preferia uma médica, mas a mamãe prefere ele, porque ele é médico ginecologista da mamãe faz anos e anos, segundo porque eu sei que ele vai me olhar por dentro, e logo por onde ele vai me olhar! tenho tanta vergonha que sou capaz de na hora desmaiar, fico achando que ele vai encontrar dentro de mim um monte de formigas, ou uma coleção de borrachas de apagar, sei lá o que mais, e terceiro porque ele vai descobrir que eu não sou virgem e vai contar para a mamãe e ela vai ficar vermelha e me olhar com aquela cara de quem acabou de levar uma pancada na cabeça, claro que a mamãe sabe que eu não sou mais virgem, ou deveria saber, ou parece que finge que sabe, mas essas coisas quando viram realidade eu sei o que acontece, a mamãe me deixa trancada no quarto, o papai me corta a mesada e a televisão e o computador, eles sabem que é o pior castigo para mim, ficar trancada no quarto nem tanto, mas sem poder ligar o computador e a televisão e sem atender ao telefone, claro que quando eles saem para o trabalho eu tranco a porta, digo para a dona Josefa que vou dormir e ligo a televisão sem som e o computador e fico conversando com o Vi pelo ICQ e só desligo quando ouço o barulho do carro da mamãe chegando em casa, e finjo que passei a tarde estudando, ela me olha com uma cara de pena... e eu fico morrendo de pena dela, e me achando a pior filha do mundo, Amanhã vamos, então, ao médico ginecologista, ela disse, me olhando com uma pena... mas um pouco de orgulho, a filha está mulher, e um pouco de temor, no fundo ela sabe o que vai acontecer, amanhã às quatro, ela disse, e de noite tive um sonho horrível, um pesadelo, o médico ginecologista me abria e puxava de dentro de mim um monte de coisas estranhas, as fotos rasgadas do Vi, flores com sonífero, um sapato azul, aquela blusa com um coração dourado que eu vi numa loja e não pude comprar, a poesia que eu escrevi sobre a estrela-dama-da-noite, o caderno de sonhos que eu perdi, o meu urso velho, a bronca que a mamãe me deu sem eu ter feito nada de errado... acho que tive esse sonho porque na aula de ciências na escola eu vi um livro de medicina, no livro havia o plano geral do corpo humano, o corpo humano com todas as suas partes, eu virava as páginas transparentes, desde a pele até chegar nos ossos do esqueleto, passando pelos músculos, pelo sistema nervoso, pelos órgãos que ficam nos espaços, coração, pulmões, fígado, rins, útero... até que os desenhos eram bonitos, fiquei impressionada com tanta coisa dentro de nós, e o que cada uma dessas coisas precisa fazer, o coração precisa bombear o sangue pelo corpo todo, o esqueleto precisa sustentar e proteger e é todo feito para se articular, os mais de quinhentos grandes e milhares de pequenos músculos precisam manter o coração bombeando e o pulmão respirando e o intestino funcionando e os olhos piscando e tudo trabalhando, e nos movimentamos usando os músculos, a pele abriga a ponta dos nervos que nos dão as sensações de tato e de calor e de frio e ajuda na eliminação dos desperdícios e regula a temperatura do corpo, o estômago precisa transformar a comida em líquido, o intestino termina de separar tudo e digerir, ah quanto trabalho, estou cansada só de pensar, em casa eu fui me olhar no espelho quando mudava de roupa e vi o meu corpo de uma maneira diferente, como se finalmente ele existisse, mas fiquei com agonia porque de repente vi o meu corpo por dentro, como se eu passasse as páginas transparentes, tirava a minha pele, depois a pele de baixo, depois os músculos, os músculos de baixo, os feixes de nervos, depois tirei os órgãos todos, ficou só o esqueleto de mais de duzentos ossos, e eu me imaginei um esqueleto com aquele sorriso, morro de medo daquele sorriso de esqueleto, mas o que me dá mais medo é o cérebro porque ele guarda os meus mistérios, os meus segredos, os meus pensamentos... os meus segredos... gosto de
Café-da-manhã à tarde
Passar a noite acordada
Curiosidades que ninguém sabe
Livros espalhados na cama
Seis travesseiros
Tatuagem
Músculo, coração
Telefone colorido quando ele toca
O cheiro da dama-da-noite na casa do Lu
Comprar coisinhas brilhantes
Estrelas artificiais
Sapato bem alto só para encher a sapateira e olhar
Beijo na boca
Tirar a sorte abrindo um livro de poesia
Independência ou morte
Comer o que tiver vontade de comer

E não gosto de
Vulcão, rato, aranha escondida na roupa, mosca
Letra garranchosa, dor de dente, legume, mingau, fumaça de cigarro
Obrigação
Não ter carro
Não ter dezoito anos, quando tudo vai mudar
Meninos que seguram a minha mão sem pedir licença
Dizerem que o meu quarto está uma bagunça
Caldo de rim de lhama e extrato de inseto
Física, química, fantasma, prova, esqueleto, fígado
Caderno todo certinho
Festa de quinze anos
Espelho
... abri a boca e vi a minha língua e é tão estranho precisar da língua para falar e para sentir o gosto das coisas, e olhei as minhas mãos, abri e fechei as mãos, olhei os meus peitos e ali no meio vi um coraçãozinho vermelho, pulsando, antigamente acreditavam que o coração era o centro do corpo, ali eles achavam que estavam os sentimentos e os pensamentos e tudo partia do coração, além disso não se fazia a menor idéia de que os ratos espalhavam peste pelas aldeias e que as águas podiam levar germes para todo lado, li uma vez num livro de curiosidades que os romanos morriam aos vinte anos e não se sabia por que mas depois descobriram que era porque eles bebiam vinho em copos feitos de mercúrio e mercúrio intoxica, e antigamente, li tantas histórias assim no livro de medicina, se você sentia dor de dente eles arrancavam o seu dente com um boticão, sem anestesia, e se você tinha sono demais rapavam a sua cabeça e batiam nela um ramo de urtiga brava até você acordar e você acordava com a cabeça toda ferida e coçando, e se você tinha uma ferida eles estancavam o sangue com teias de aranha, e se você tinha uma doença nos olhos eles esfregavam o seu globo ocular até sangrar e depois punham uma seiva de legume, para problema de pele eles usavam barro, se você cortava o lábio eles o costuravam com cabelo humano, para picada de abelha usavam cataplasma de ninho de abelha e ferrões, a gengiva com problema era furada com um bico de pica-pau, a tatuagem de índios na América do Norte era remédio contra dor de cabeça e dor de dentes e contra reumatismo, para um doente possuído de um espírito davam mingau e passavam o mingau no seu corpo enquanto ele aspirava uma fumaça de pó queimado e escutava música, para dor de ouvido os incas jogavam no ouvido caldo de rim de lhama, usavam sangue de condor para doenças nervosas, e sangue de vicunha contra a doença das montanhas, xamãs indígenas tocavam tambor e o doente dizia o nome do espírito mau que o tomava e depois ficava curado tomando banho e bebendo e vomitando sangue de cabra, para a impotência sexual os hindus usavam extrato de inseto, e um dia quando um príncipe hindu bebeu tanto que ficou delirando queimaram a cabeça dele em cinco lugares diferentes, no livro eu li que antigamente os médicos egípcios usavam uma "farmácia imunda": carne podre, gordura rançosa, cera de orelha de porco, cocô de asno, de criança, de avestruz, de mosca, e para espantar os demônios malignos faziam inalações fedorentas, os médicos egípcios preparavam os remédios enquanto diziam frases mágicas, já no tempo muito, muito antigo, abriam a cabeça das pessoas, eu li no livro de medicina, era uma cirurgia chamada trepanação, abriam um buraco no crânio para que os maus espíritos saíssem dali, e acham que eles salvavam algumas pessoas assim pois quando um homem levava uma pancada na cabeça, e eles deviam levar todo dia uma pancada na cabeça, o cérebro inchava e ficava feito uma panela de pressão e a trepanação aliviava isso, e aliviava também a dor de cabeça, cada coisa! tudo isso no livro me divertiu na hora, mas de noite me deu ainda mais medo de ir ao ginecologista, a medicina evoluiu muito, muito mesmo, mas não mudou tanto assim, eles ainda cortam, eles serram, eles costuram o nosso corpo, mas vão descobrir muita coisa, no futuro a operação vai ser feita com a força do pensamento, raio laser, só de imaginar o que o ginecologista vai me fazer eu fico arrepiada de medo, já pensei em estudar medicina, o Vi vai fazer medicina, feito o pai dele, o pai dele é neuro, serra a cabeça das pessoas, sabe fazer as coisas mais incríveis, as mais fininhas, para salvar as pessoas, nem dá para acreditar no que ele tem coragem de fazer, às vezes ele olha para mim como se estivesse pensando em serrar a minha cabeça, e fala da medicina com a maior paixão, mas eu não vou fazer medicina de jeito nenhum, muito menos para ficar trepanando a cabeça das pessoas e descobrindo os espíritos que moram lá dentro, porque eu já sei os espíritos que tenho dentro da minha, o espírito do zero na matemática, o espírito do sonho nua na rua, o da raiva de não poder sair de casa nem fazer tatuagem nem piercing, o do amor pelo Vi, as fotos dele, não sei por que rasguei, acho que foi porque ele fica me controlando, pergunta tudo, quer saber tudo, e eu não gosto de contar nada a não ser o que eu quero contar naquela hora, e, mesmo assim, inventando umas histórias, às vezes eu converso com o meu cérebro, digo para ele, Você não está apaixonado pelo Lu, Você quer fazer sim a minha festa de quinze anos, Você está muito preguiçoso, Você não vai me dizer o que é, mesmo, metáfora? Você está escondendo de mim aquela resposta, Você não tem medo do ginecologista, mas eu estou morrendo de medo, preciso fazer uma trepanação na minha cabeça para o espírito do medo do médico ginecologista desaparecer, dormir, sonhar, aranha, extrato de inseto, panela de pressão, sonífero azul... borracha de apagar... boa noite, cérebro.