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Companhia das Letras
RESTOU O CÃO
Livia Garcia-Roza



E aí...

E aí, quando eu morava em Icaraí... rimou, viu? eu passeava descalça pelo telhado da minha casa, abraçando as telhas com os dedos dos pés, tentando me equilibrar, e com a camisola que quando eu a vestia meu pai me chamava de Tiradentes. Minha mãe tocava harpa. Bolhas e mais bolhas na ponta dos dedos, até formarem calo de sangue. Quando as cordas rebentavam, e rebentavam sempre, ela dizia: Ai, meu sol! Foi assim que mamãe nos afinou. Meu avô dizia que minha avó era a pessoa mais detestável que ele conhecia, mas fez bodas de ouro com ela. Uma festa em que os velhos, parecendo aranhas carregadas, mal se sustentavam nas cadeiras. Nesse dia, vovó espalhou batom nas bochechas, pintou as unhas de rosa-rei e vestiu um vestido cheio de pedrarias, e meu avô pôs o terno sobre o pijama. Durante a festa, a todo momento vovó dizia: Ufa! Mas não devia estar com a dor de cabeça permanente que dizia que tinha, uma espécie de leque de copeira na cabeça apertando seus miolos. Antes de sair, mamãe escovou seus cabelos crespos e pôs o vestido que ela usava para todas as festas. Papai não dava dinheiro para comprar roupa. E mamãe não reclamava. Ela era educada. Tocava harpa, já disse. Quando eu me distraía, meu irmão vinha por trás e lambia meu rabo-de-cavalo. Às vezes, parecia que eu tinha saído do banho. Meu pai cumprimentava o cachorro quando chegava em casa, querendo ser amigo dele, até que um dia o cachorro o mordeu. Então meu tio pediatra correu até a nossa casa, fez o curativo no braço do meu pai, que, descabelado e com olhos desacertados, se dizia traído pelo animal. Assim ele falava: animal. Minha bicicleta foi roubada três vezes, e três vezes apareceu a Margarida. Ficou sendo seu apelido. O nome era igual ao meu. Meu irmão mais velho era um caçador noturno das babás da vizinhança. De madrugada, de cuecas, pulava muros, cruzando quintais, saltando feito sapo. Ele nunca respondia às perguntas que fazíamos. Sempre com ouvidos nos quintais alheios. De vez em quando tinha cãibras noturnas, então gritava, e papai e mamãe subiam correndo as escadas, e depois ela passava bálsamo de bengué nas pernas dele. Foi assim que ele se viciou. Quando todos dormiam, eu pegava meu travesseiro e o lençol, e ia para o quarto deles dormir na cama do meu irmão menor. Acordava com meu pai me chamando de menina encagaçada. O quitandeiro levou nossa cachorrinha vira-lata embora. Ela foi pulando dentro do cesto, uivando, e nós ficamos chorando sentados em cima da cisterna. Todas as noites meu pai ia verificar a altura da água da cisterna. Levava o flash light (como ele chamava a lanterna) e um dos filhos para segurar a tampa. Quando era a minha vez, eu olhava para o céu, e a noite tinha olhos azuis. De vez em quando brincávamos de casinha no fundo do quintal. Várias vezes casei com meus irmãos, e eles com a minha prima. Mas nunca tivemos filhos. E nenhum casamento deu certo. Um dia, minha prima ficou tão doente, mas tão doente, que parecia uma menina de giz, então não pôde nadar na piscina de Friburgo que papai contava que tinha um índio no fundo respirando por um bambu. Na serra, quando anoitecia, meu irmão ficava esperando o sapo que vinha visitá-lo. Ele demorava para chegar porque tinha que percorrer cada azulejo da varanda. Aos pulos. Depois de muito tempo, minha prima ficou boa e foi ser cantora. De ópera. La donna è mobile. Como eu não arranjava namorado, mamãe dizia que meu príncipe encantado devia estar com problemas com seu cavalo. Então perguntei se eu podia me divertir com os cavalinhos que apareciam enquanto o príncipe não chegava. Ela disse que não gostava de menina saliente. Levei um tempo enorme para ter peito e bunda. Todos os dias vigio para ver se estão no lugar. Meu irmão que lambe cabelo sumiu dentro de um bueiro com a bicicleta. Foi o desaparecimento mais rápido a que assistimos. E meu outro irmão levou um tombo na quadra de basquete e ficou desmiolado. Papai mandou que eu fosse lá com urgência buscar a memória do meu irmão. Os jogadores não souberam informar, mas riram à beça. Um dia, meus pais viajaram ao Rio Grande do Sul e me trouxeram uma roupa de presente. Passeei na praia vestida de gaúcho. Foi outro momento de gargalhada. A folha de taioba quando é mergulhada volta seca. Ficamos cansadas, minha prima e eu, de tentar fazer com que ela se molhasse. Repetimos a operação não sei quantas vezes, e acabamos com a roupa encharcada. À noite, jogávamos baralho de flores, às vezes brigávamos durante a partida, aí voavam flores para todos os lados. Quando mamãe resolvia nos bater, batia nos três, depois ficava cansada, chorava, e dizia que ia para Pirapora. Nunca ela soube explicar a razão dessa escolha. Meu irmão lambedor de cabelo entrou dentro da cômoda e ela virou com ele. Ficou soterrado no meu quarto, ao lado da minha cama. Eu vi a ponta dos dedos dele desenhando no ar sos. Quase perdeu todos os artelhos. Meus pais não estavam, então gritei pelos vizinhos, que apesar de surdos vieram nos socorrer. Por causa do que aconteceu, meu pai passou a me chamar de Helena de Tróia. Minha tia, que era inglesa, dizia que de todas as crianças eu era a peor. E meu tio tocava a toda hora no piano um elefante amola muita gente. No dia do aniversário, meu primo engasgou com uma pedra de gelo, meu avô deu um pulo da cadeira de palhinha e acertou um soco nas costas dele, a pedra voou longe, e meu avô caiu pra trás com os óculos tortos na cara. Minha avó dizia que eu tinha orelha de abano, joelho da vaca Clarabela e voz de homem. Jamais poderia ser cantora. Como ela sabia quem era a Clarabela? Uma vez, em que meus irmãos jogavam futebol na varanda, eu pedi para dar um chute. Deixaram. Acertei no jornal que meu pai lia. Ele levantou urrando, apertando a bola contra o peito, e pegou uma faca para furá-la; não conseguindo, isolou a bola. Então, virando-se para mim, acertou um bico na minha bunda, eu voei e minha avó gritou: Olha a virgindade dela! E eu fui parar de cabeça pra baixo no divã.
Acabou? Era assim? Pra eu falar qualquer coisa?