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Companhia das Letras
A VOZ DO MORTO
Rex Stout



1

Sentado em sua gigantesca cadeira atrás da mesa, recostado com os olhos semicerrados, Nero Wolfe resmungou para mim:
"É um fato interessante que os membros da Associação Nacional da Indústria presentes ao jantar da noite passada representem, juntos, ativos de aproximadamente trinta bilhões de dólares."
Pus o talão de cheques no lugar, no alto da pilha, fechei a porta do cofre, girei a maçaneta e bocejei enquanto voltava para a minha mesa.
"Sim, senhor", concordei com ele. "Também é interessante o fato de que os índios pré-históricos chamados Mound Builders tenham deixado mais vestígios de seus trabalhos em Ohio do que em qualquer outro estado. No meu tempo de garoto..."
"Cale a boca" , Wolfe resmungou.
Deixei passar sem qualquer ressentimento, primeiro porque já era quase meia-noite e eu estava com sono, segundo porque poderia haver alguma conexão entre o seu fato interessante e nossa conversa anterior, o que não se aplicava ao meu. Estivéramos conversando sobre o saldo bancário, a reserva para os impostos, expectativas quanto a contas e encargos, um dos quais era o meu salário, e assuntos afins. O erário resistira aos ataques, mas sem grandes vantagens.
Depois que bocejei mais três vezes, Wolfe falou de repente, com firmeza.
"Archie. Seu caderno. Estas são as instruções para amanhã."
Em dois minutos ele me deixou acordado. Quando terminou e eu subi para o quarto, a programação matinal estava tão viva em minha cabeça que me revirei na cama por trinta segundos inteiros antes de cair no sono.



2

Era uma quarta-feira, quase no final do mês de março mais quente da história de Nova York. Na quinta-feira, foi a mesma coisa e nem sequer levei um sobretudo quando saí de casa na rua 35 Oeste e fui até a garagem pegar o carro. Estava armado até os dentes, pronto para todas as contingências. Na minha carteira, havia um estoque de cartões de visitas:


ARCHIE GOODWIN

Com Nero Wolf
Rua 35 Oeste, 922
Proctor 5-5000


E no bolso interno do casaco, além do conteúdo de rotina, havia um item especial, recém produzido por mim na máquina de escrever. Era um bilhete em forma de memorando que, após informar que era PARA Nero Wolfe, de Archie Goodwin, dizia:


O inspetor Cramer autorizou a revista do quarto no Waldorf. Farei um relatório por telefone mais tarde.
À direita do texto datilografado, um rabisco em tinta, também de minha autoria e digno de admiração, com as iniciais LTC, de Cramer.
Como eu havia começado cedo e o gabinete do Departamento de Homicídios na rua 20 ficava a menos de um quilômetro e meio, no centro da cidade, passava pouco das nove e meia quando me deixaram entrar em uma sala e sentar junto a uma velha escrivaninha vagabunda. O homem na cadeira giratória, com o cenho franzindo diante dos papéis, tinha um rosto grande e vermelho, olhos cinzentos semifechados e orelhas pequenas e delicadas, grudadas no crânio. Assim que me sentei, ele transferiu o olhar franzido para mim e rosnou:
"Estou ocupado como o diabo." Seus olhos concentraram-se em alguns centímetros abaixo do meu queixo. "O que você está pensando? Que estamos na Páscoa?"
"Não conheço nenhuma lei", eu disse com firmeza, "que proíba um homem de comprar uma camisa e uma gravata novas. De qualquer modo, estou disfarçado de detetive. Claro que o senhor está ocupado e não vou desperdiçar seu tempo. Quero pedir um favor, um grande favor. Não é para mim, tenho certeza de que, se eu estivesse preso em um edifício em chamas, o senhor tentaria apagar o incêndio com gasolina. Mas é em nome de Nero Wolfe. Ele quer permissão para que eu inspecione aquele quartinho no Waldorf onde Cheney Boone foi assassinado na manhã de terça-feira. E também para tirar fotos."
O inspetor Cramer olhou para mim, não para a minha gravata nova. "Pelo amor de Deus", ele finalmente disse, com um desgosto amargo. "Como se esse caso já não fosse uma confusão. Tudo o que faltava para se transformar num carnaval era Nero Wolfe, e, por Deus, aí está ele." Ele mexeu o maxilar, olhando-me mal-humorado. "Quem é seu cliente?"
Sacudi a cabeça. "Não tenho nenhuma informação sobre cliente algum. Até onde sei, trata-se apenas de curiosidade científica do senhor Wolfe. Ele se interessa por crimes..."
"Você me ouviu, quem é seu cliente?"
"Não, senhor", eu disse com pesar. "Abra meu peito, leve meu coração para o laboratório, e encontrará escrito nele..."
"Suma", ele disse, irritado, e mergulhou em seus papéis.
Fiquei em pé. "Certamente, inspetor, sei que o senhor está ocupado. Mas o senhor Wolfe apreciaria muito se o senhor me permitisse inspecionar..."
"Tolice." Ele não levantou a cabeça. "Você não precisa de nenhuma permissão para inspecionar e sabe muito bem disso. Estamos todos metidos lá e são instalações públicas. Se vocês estão atrás de autorização, é a primeira vez que Wolfe se incomoda em vir solicitá-la para fazer qualquer coisa, e, se eu tivesse tempo, tentaria descobrir o que há por trás disso, mas estou muito ocupado. Suma."
"Meu Deus", eu disse com desânimo, dirigindo-me para a porta. "Desconfiado. Sempre desconfiado. Que jeito de viver."