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Companhia das Letras
20 CONTOS DE TRUMAN CAPOTE
Truman Capote



AS PAREDES SÃO FRIAS

"... então Grant disse a eles para virem conosco a uma festa maravilhosa, e, bom, foi fácil assim. Realmente, eu acho que foi genial trazê-los, Deus sabe que eles são capazes de nos ressuscitar do túmulo." A garota que falava bateu a cinza do cigarro no tapete persa e olhou com cara de desculpa para sua anfitriã.
A anfitriã arrumou o elegante vestido preto e apertou os lábios, nervosa. Era muito jovem e pequena e perfeita. Seu rosto era claro e emoldurado pelo cabelo preto liso, e o batom era um pouquinho escuro demais. Passava das duas, e ela estava cansada e queria que todos fossem embora, mas não era tarefa fácil se livrar de umas trinta pessoas, particularmente quando a maioria estava encharcada do scotch de seu pai. O ascensorista tinha subido duas vezes para reclamar do barulho; então ela lhe dera um highball, que de qualquer modo é só o que ele quer. E agora os marinheiros... ah, eles que se danem.
"Está tudo bem, Mildred, de verdade. Que são alguns marinheiros a mais ou a menos? Deus, espero que eles não quebrem nada. Você pode ir à cozinha pegar gelo, por favor? Vou ver o que posso fazer com seus novos amigos."
"Realmente, querida, não acho que isso seja necessário. Pelo que vi, eles se aclimatam com muita facilidade."
A anfitriã caminhou na direção de seus convidados inesperados. Eles estavam apinhados num canto da sala de estar, apenas olhando e não parecendo muito à vontade.
O mais bem-apessoado do grupo de seis virou nervosamente o boné e disse: "Nós não sabíamos que era uma festa como esta, senhorita. Quer dizer, a senhorita não nos quer aqui, não é?".
"É claro que vocês são bem-vindos. O que estariam fazendo aqui se eu não os quisesse?"
O marinheiro estava constrangido.
"Aquela garota, aquela Mildred e o amigo dela nos pegaram num bar, e nós não tínhamos idéia de que vínhamos para uma casa como esta."
"Que absurdo, totalmente absurdo", disse a anfitriã. "Você é do Sul, não é?"
Ele pôs o boné debaixo do braço e pareceu mais à vontade. "Sou do Mississippi. Imagino que nunca esteve lá, esteve, senhorita?"
Ela olhou para a janela e passou a língua nos lábios. Estava cansada, terrivelmente cansada daquilo. "Ah, sim", mentiu. "Um belo estado."
Ele deu um sorriso forçado. "A senhorita deve estar confundindo com algum outro lugar. Não há nada que chame a atenção no Mississippi, a não ser talvez na região de Natchez."
"Natchez, claro. Eu estudei com uma garota de Natchez. Elizabeth Kimberly, conhece?"
"Não, não posso dizer que conheço."
De repente, ela percebeu que estava sozinha com o marinheiro; todos os amigos dele tinham ido para perto do piano, onde Les tocava Porter. Mildred estava certa sobre a aclimatação.
"Venha", disse ela. "Vou preparar um drinque para você. Eles podem se virar sozinhos. Meu nome é Louise, então, por favor, não me chame de senhorita."
"O nome de minha irmã é Louise, eu me chamo Jake."
"É mesmo? Que coisa adorável! Eu falo da coincidência." Ela alisou o cabelo e sorriu com seus lábios escuros demais.
Entraram no vestíbulo, e ela sabia que o marinheiro observava o modo como seu vestido balançava em volta dos quadris. Abaixou-se para passar pela porta atrás do bar.
"Bem", disse, "o que vai ser? Eu esqueci, temos scotch e uísque de centeio e rum; que tal um belo rum com Coca?"
"Se você acha bom", ele sorriu, passando a mão sobre a superfície espelhada do bar, "sabe, eu nunca vi um lugar como este. Parece coisa de cinema."
Com um bastão misturador ela girou vigorosamente o gelo num copo. "Se você quiser, eu o levo para um passeio de quatro centavos. É muito grande, quer dizer, para um apartamento. Temos uma casa de campo que é muito, muito maior."
Isso não pareceu certo. Era muito arrogante. Ela se virou e pôs a garrafa de rum de volta no nicho. Podia ver pelo espelho que ele olhava fixamente para ela, talvez através dela.
"Quantos anos você tem?", ele perguntou.
Ela precisou pensar por um minuto, realmente pensar. Mentia com tanta freqüência sobre a idade que às vezes ela mesma esquecia a verdade. Que diferença fazia ele saber ou não sua verdadeira idade? Então ela lhe contou.
"Dezesseis."
"E nunca foi beijada...?"
Ela riu, não do clichê, da resposta que deu.
"Estuprada, você quer dizer."
Estava de frente para ele, e viu que ele ficou chocado e depois alegre e depois alguma outra coisa.
"Ah, pelo amor de Deus, não me olhe assim, eu não sou uma menina má." Ele corou, e ela passou pela porta, voltando, e pegou a mão dele. "Venha, vou lhe mostrar o apartamento."
Conduziu-o por um longo corredor revestido descontinuamente de espelhos, e mostrou a ele aposento por aposento. Ele admirava os tapetes macios em tom pastel e a mistura harmoniosa de móveis modernistas com móveis de época.
"Este é o meu quarto", ela disse, segurando a porta aberta para ele, "não repare na bagunça, não é toda minha, a maioria das garotas se arrumou aqui."
Não havia nada para ele reparar, o quarto estava em perfeita ordem. A cama, as mesas, o abajur eram todos brancos, mas as paredes e o tapete eram de um frio verde-escuro.
"Bem, Jake... o que acha, combina comigo?"
"Eu nunca vi nada assim, minha irmã nem acreditaria se eu contasse a ela... mas eu não gosto das paredes, me desculpe falar assim... esse verde... elas parecem muito frias."
Ela pareceu desnorteada, e, sem saber bem por quê, estendeu a mão e tocou a parede atrás da penteadeira.
"Você tem razão, as paredes, quero dizer, elas são frias." Olhou para ele, e por um momento seu rosto assumiu uma expressão tal que ele não soube ao certo se ela ia rir ou chorar.
"Eu não falei nesse sentido. Ah, eu não sei exatamente o que quis dizer!"
"Não sabe ou está só sendo eufemístico?" Não houve resposta, então ela sentou na beira de sua cama branca.
"Aqui", disse, "sente-se e fume um cigarro, o que aconteceu com seu drinque?"
Ele sentou ao lado dela. "Eu deixei no bar. Parece bem calmo aqui depois de toda aquela algazarra lá na frente."
"Há quanto tempo está na Marinha?"
"Oito meses."
"Você gosta?"
"Não importa muito se a gente gosta ou não... Eu vi muitos lugares que não teria visto se não estivesse lá."
"Então por que se alistou?"
"Ah, eu ia ser convocado, e a Marinha me pareceu mais conveniente."
"E é?"
"Bom, vou dizer uma coisa para você, eu não me dou bem com esse tipo de vida, não gosto de outros homens mandando em mim. Você gostaria?"
Em vez de responder, ela pôs um cigarro na boca. Ele segurou o fósforo para ela, e ela deixou a mão roçar na dele. A mão dele tremia, e a chama não estava muito firme. Ela tragou e disse: "Você quer me beijar, não quer?".
Olhou atentamente para ele e viu o rubor se espalhar lentamente por seu rosto.
"Por que não quer?"
"Você não é esse tipo de garota. Eu teria medo de beijar uma garota como você, além disso você só está caçoando de mim."
Ela riu e soprou uma nuvem de fumaça em direção ao teto. "Pare, isso parece coisa tirada de um melodrama do tempo da iluminação a gás. Aliás, o que é 'esse tipo de garota'? Só uma idéia. Você me beijar ou não não tem a mínima importância. Eu poderia explicar, mas para que me preocupar? Você provavelmente acabaria achando que eu sou ninfomaníaca."
"Eu nem sei o que é isso."
"Diabos, é justo isso que quero dizer. Você é um homem, um homem de verdade, e eu estou tão cansada desses rapazes fracotes e afeminados como o Les. Eu só queria saber como seria, é isso."
Ele se inclinou sobre ela. "Você é uma garota engraçada", disse, e ela estava nos seus braços. Beijou-a, deslizou a mão pelo ombro dela e pressionou seu seio.
Ela se virou e o empurrou com violência, e ele se estatelou no tapete verde e frio.
Ela se levantou e ficou parada diante dele, e eles se encararam. "Seu sujo", ela disse. Depois deu um tapa no rosto perplexo dele.
Ela abriu a porta, hesitou, arrumou o vestido e voltou para a festa. Ele ficou sentado no chão por um momento, depois se levantou e foi para o vestíbulo, e então lembrou que tinha deixado o boné no quarto branco, mas não se importou, só queria sair dali.
A anfitriã olhou para a sala de estar e acenou para que Mildred viesse.
"Pelo amor de Deus, Mildred, tire essas pessoas daqui; aqueles marinheiros, o que eles pensam que é aqui... a USO?"
"Que houve, aquele sujeito a estava importunando?"
"Não, não, ele é só um idiota provinciano que nunca viu nada como isto e acabou se achando o máximo, de um jeito desrespeitoso. É só um grande aborrecimento, e eu estou com dor de cabeça. Você pode mandá-los embora por mim, por favor... todos?"
Ela assentiu com a cabeça, e a anfitriã voltou pelo corredor e entrou no quarto da mãe. Deitou na chaise longue de veludo e olhou para a pintura abstrata de Picasso. Pegou um travesseirinho rendado e o pressionou contra o rosto com toda a força. Ia dormir ali naquela noite, ali onde as paredes eram de um tom claro de rosa e quentes.

[1943]

Tradução de Otacílio Nunes Jr.