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Companhia das Letras
ASSASSINATOS NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
Jô Soares



SEGUNDA-FEIRA, 7 DE ABRIL DE 1924

PULVIS EST ET IN PULVEREM REVERTERIS

Uma chuva de gotas grossas caía sobre a cidade do Rio de Janeiro naquela tarde de céu encoberto, e relâmpagos festejavam a tempestade. Contrariando a crença de que aguaceiros aliviam o calor, os termômetros acusavam uma temperatura de trinta e nove graus. O clima não impediu que os partícipes se apresentassem a rigor para as últimas despedidas ao senador da República e emérito escritor Belizário Bezerra, no cemitério São João Batista. Havia mais gente ainda que no dia da posse. Sérgio Loreto viera de Pernambuco, e até a autoridade maior do país, o presidente Arthur Bernardes, estava lá, de cartola e sobrecasaca, prestigiando o amigo morto, apesar das preocupações com o estado de sítio, que vigorava desde o governo anterior.
Turistas ocasionais também se amontoavam em volta do túmulo, dando mostras da curiosidade mórbida que se manifesta em catástrofes e nos enterros de pessoas ilustres.
Imortais mais ansiosos já cabalavam, entre si, votos para futuros candidatos. Causava estranheza vê-los de fardão e guarda-chuva.
Outros grupelhos contavam anedotas e riam disfarçadamente. Mulheres envoltas em renda negra trocavam idéias, em voz baixa, sobre os últimos lançamentos da moda em Paris e falavam do exótico Cuir de Russie, novo perfume de Coco Chanel.
Deputados e senadores, conhecedores das tensões do momento político, dirigiam olhares para o presidente, conjecturando sobre possíveis rebeliões tenentistas, inspiradas pelos Dezoito do Forte. Enfim, como em qualquer funeral, o único silencioso era o morto.
Todos pretendiam despachar o defunto com um necrológio pujante, porém o criminalista Aloysio Varejeira foi o mais pressuroso. Quando ele puxou do bolso o panegírico, um enorme círculo abriu-se à sua volta. O inescrupuloso advogado era temido pelo seu mau hálito.
Os maledicentes imputavam-lhe o sucesso nos tribunais ao bafejo cáustico, cultivado por anos de vinho avinagrado e queijo-do-reino, que ele expelia, ameaçador, em direção aos jurados. Pura aleivosia: o talento de Varejeira era tão perigoso quanto seu bafo venéfico.
A não ser por essa discutível qualidade, Aloysio era um homem comum. Portava bem seus setenta e oito anos, não escondia os cabelos brancos, e os dentes perdidos numa juventude descuidada haviam sido substituídos por belas dentaduras de marfim. O fardão, esmaecido por anos de baú, não conseguia atenuar-lhe a penosa figura. Desprendia-se dele um almíscar em que o odor da naftalina se confundia com o da bafagem malfazeja. Somando-se a tudo isso a transpiração abundante do advogado, ficava mais que justificado o largo espaço formado em seu redor. Mesmo assim, algumas senhoras protegiam as narinas com lencinhos perfumados, fingindo prantear o finado.
Indiferente a tudo, Aloysio Varejeira ajustou no nariz o lorgnon que lhe facilitava a leitura, abriu a boca cheia de molares luzidios e, engrolando um ruidoso gorgolejo, tombou morto sobre o caixão do seu confrade.


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