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Companhia das Letras
QUESTÃO DE SANGUE
Ian Rankin



INTRODUÇÃO


O problema de escrever a respeito de uma cidade real em tempo real é ter de levar em conta as mudanças. Foi impossível para mim não escrever sobre o novo Parlamento escocês, por exemplo, por isso Set in darkness passou a existir. Do mesmo modo, eu estava na metade da versão inicial de Questão de sangue quando recebi uma mensagem de texto de um detetive meu amigo. Dizia apenas: "St. Leonard's não tem mais um Departamento de Investigações Criminais. Rá rá rá". Ele sabia que eu teria de mudar Rebus de St. Leonard's por causa de algumas dúzias de leitores de Edimburgo, pois do contrário eles saberiam que eu estava abandonando o realismo. Isso explica a dedicatória a St. Leonard's, in memoriam: seria o último livro passado lá.
O estímulo que originou Questão de sangue foi uma questão levantada por uma fã numa sessão de perguntas e respostas. Ela me perguntou por que eu nunca falava do sistema de escolas particulares de Edimburgo. Por volta de um quarto dos estudantes do ensino médio da cidade freqüenta instituições pagas - uma porcentagem muito mais alta do que a de qualquer outra cidade da Escócia (e talvez do Reino Unido inteiro). Minha resposta naquela noite foi superficial: creio ter dito que não sabia nada a respeito de tais escolas, por isso considerava difícil escrever sobre elas. Mas ela me fez pensar. Os livros de Rebus sempre se detiveram na dupla identidade de Edimburgo, sua natureza Jekyll e Hyde. Escolas particulares fazem parte da estrutura da cidade, sendo uma questão polêmica em alguns círculos. Eu já decidira que o livro seguinte abordaria o problema dos que ficam de fora. Rebus é um eterno excluído, incapaz de trabalhar em equipe. Em minhas incursões regulares à Cockburn Street para comprar discos eu também topava com grupos de adolescentes góticos. Eles me lembravam que um dia eu também quisera ser visto pela sociedade como marginal: eles se vestiam como góticos; eu era punk.
Como dei a Rebus um passado nas forças armadas, fico de olho em notícias sobre militares (inclusive uma nota a respeito da queda de um helicóptero ao largo da costa escocesa), além de ter montado um arquivo sobre os efeitos dos combates nos soldados da ativa. Quando a tropa deixa o exército, muitos encontram dificuldade para voltar à vida civil. Alguns se tornam agressivos em casa, passam a beber e acabam morando na rua. Continuam sendo marginais, por assim dizer. Pensei que seria interessante criar um enredo no qual essas várias questões se entrelaçassem, e um tiroteio numa escola particular parecia ser a resposta. Mudei a ação de Edimburgo para South Queensferry, em parte por não querer que nas escolas existentes pensassem que eu calcara nelas a Port Edgar Academy, e em parte por querer investigar os efeitos de um crime assim numa comunidade pequena e fechada. Rebus, pelo que sabemos, foi enviado a Lockerbie logo depois da queda do vôo Pan-Am 101, e ele comenta a "dignidade quieta" da cidade. Dunblane estava na minha cabeça também, é claro, mas eu não ia escrever um livro "sobre Dunblane": examinaria as razões para a ocorrência de atrocidades numa sociedade aparentemente civilizada.
Comecei a planejar o livro durante a filmagem de um documentário em três partes sobre o "mal", para o Channel 4, e minhas idéias para a série afetaram as idéias de Questão de sangue. Entrevistei neurologistas, psiquiatras, estudiosos e advogados, criminalistas e assassinos... e até um exorcista simpático. A série tentava responder três perguntas fundamentais: O que queremos dizer com a palavra "mal"? De onde vem o mal? E o que podemos fazer a respeito? As diversas respostas que recebi durante minhas viagens formariam a espinha dorsal moral do livro. Meu caderno de anotações da época registra, entre passagens teológicas de santo Agostinho e Auschwitz, possíveis rumos que Questão de sangue tomaria. Desde o início eu me detive no duplo sentido do título: sangue não somente como líquido vital, mas também no sentido de laços familiares.
Se isso tudo soa um tanto maçante e edificante, não deveria: Questão de sangue foi muito divertido de escrever, e creio que é igualmente divertido de ler. Nos livros recentes leiloei "direitos de personagem" para várias instituições de caridade, e Questão de sangue contém alguns de meus favoritos. Por exemplo, há um gato chamado Boécio no livro só porque seu dono pagou para que ele fosse mencionado (além de mandar fotos e uma biografia extensa para garantir que eu ia fazer tudo certo). Nesse meio-tempo, um policial que atuava em Edimburgo também ganhou o direito de aparecer no livro - fácil e tranqüilo, pensei, até ficar sabendo que ele era australiano e tinha doutorado em astronomia (ou disciplina similar). Seu nome é Brendan Innes e ele é policial no livro, mas não menciono sua nacionalidade, nem sua formação acadêmica: como lhe expliquei, ao contrário da vida real, a ficção precisa ser realista!
Há no livro um personagem chamado Peacock Johnson. Ele também conquistou o direito de aparecer no livro. Alguém me falou para dar uma espiada no website dele, que mostrava um sujeito suspeito de camisa estilo havaiano e óculos tipo Elvis. O blog dele deixava claro que ele operava no limite da ilegalidade. Mandei-lhe um e-mail e disse que ele daria um ótimo pistoleiro profissional no meu livro. Ele disse que tudo bem, e que gostaria que eu mencionasse seu colega, Wee Evil Bob. Concordei. Acabei me divertindo ao criar o alter ego ficcional do sr. Johnson, e quando o livro ficou pronto mandei uma cópia por e-mail, para que ele soubesse.
O e-mail voltou.
Fui ao website dele.
Não estava mais lá.
Isso me forçou a bancar o detetive, e acabei descobrindo que o conjunto Belle e Sebastian comparecera ao leilão dos personagens. Curiosamente, o endereço de e-mail de Peacock era semelhante ao de um membro da banda, o baixista Stuart David, conhecido por suas brincadeiras. Ele acabou confessando. Eu pensava que Peacock fosse real, mas tudo não passara de ficção desde o começo. Além disso, Stuart também havia escrito um romance... e adivinhe quem era o herói?
Peacock Johnson.
Até personagens de ficção, pelo jeito, podem ter uma personalidade complexa...

Ian Rankin



PRIMEIRO DIA
Terça-feira

1
"Nenhum mistério", disse a sargento-detetive Siobhan Clarke. "Herdman perdeu o juízo, só isso."
Ela estava sentada ao lado de um leito hospitalar da recém-inaugurada Royal Infirmary de Edimburgo. O complexo situava-se na parte sul da cidade, numa área chamada Little France. Fora construído graças à destruição de boa parte de uma área verde, e mesmo assim já havia queixas de falta de espaço interno e de vagas para estacionamento do lado de fora. Siobhan acabou arranjando uma vaga, mas descobriu depois que o privilégio seria cobrado.
Ela havia contado tudo isso ao inspetor detetive John Rebus ao chegar a seu leito. As mãos de Rebus estavam enfaixadas até os pulsos. Quando ela serviu um pouco de água, ele levou o copo plástico à boca, bebendo cautelosamente enquanto ela o observava.
"Viu?", ele zombou, depois. "Não derramei nem uma gota."
Mas ele estragou tudo quando deixou o copo cair ao manobrar para devolvê-lo à mesinha-de-cabeceira. Quando a base tocou o chão, Siobhan o apanhou antes que ele emborcasse.
"Muito bem", Rebus admitiu.
"Sem problemas. Estava vazio, de todo modo."
Desde então ela falava coisas sem importância, os dois sabiam que evitava perguntas que estava desesperada para fazer. Em vez disso, passava detalhes a respeito da chacina em South Queensferry.
Três mortos e um ferido. Uma cidade costeira tranqüila, ao norte da capital. Escola particular para rapazes e moças de cinco a dezoito anos. Seiscentos alunos, menos dois agora.
O terceiro corpo pertencia ao atirador, que voltou a arma contra si. Nenhum mistério, como Siobhan disse.
Exceto pelo motivo.
"Ele era como você", ela disse. "Ex-militar, sabe. Acham que fez isso por ressentimento contra a sociedade."
Rebus notou que ela mantinha as mãos firmes dentro do bolso do casaco. Calculou que cerrara os punhos e procurava evitar que ele percebesse.
"Os jornais dizem que ele tinha uma empresa", ele comentou.
"Uma lancha potente, para prática de esqui aquático."
"E guardava ressentimento?"
Ela deu de ombros. Rebus sabia que ela torcia para conseguir um lugar no caso, qualquer coisa capaz de afastar sua mente do outro inquérito - um inquérito interno, no qual ela ocupava uma posição central.
Ela olhava para a parede acima da cabeça dele, como se ali houvesse algo que a interessasse, além da pintura e da saída de oxigênio.
"Você ainda não me perguntou se estou me sentindo bem", ele disse.
Ela o encarou. "Está se sentindo bem?"
"Estou ficando louco de desespero, obrigado por perguntar."
"Você só passou uma noite aqui."
"Parece mais."
"O que os médicos disseram?"
"Ninguém veio falar comigo ainda. Hoje, não. Digam o que disserem, saio daqui esta tarde."
"E depois?"
"Como assim?"
"Você não pode retornar ao trabalho." Finalmente, ela fixou a vista nas mãos dele. "Como pretende dirigir, ou digitar um relatório? E os telefonemas?"
"Darei um jeito." Ele olhou em torno, sua vez de evitar contato visual. Rodeado de homens da sua idade, que exibiam a mesma palidez acinzentada. A dieta escocesa cobrara sem dúvida um preço alto daquele grupo. Um sujeito tossia, desesperado para fumar. Outro dava a impressão de ter problemas respiratórios. A massa obesa de fígado inchado que formava a população masculina local. Rebus ergueu uma das mãos para esfregar o antebraço na face direita, sentindo a barba por fazer. Os pêlos, sabia, tinham o mesmo tom prateado das paredes da enfermaria.
"Darei um jeito", ele repetiu no silêncio que se seguiu, baixando o braço, arrependido de tê-lo erguido. Os dedos formigaram de dor quando latejaram por causa da circulação do sangue. "Conversaram com você?", ele perguntou.
"Sobre o quê?"
"Tenha dó, Siobhan..."
Ela o encarou sem piscar. As mãos saíram do esconderijo, quando se debruçou para a frente na cadeira.
"Outra sessão esta manhã."
"Com quem?"
"A chefe." Ela se referia à superintendente-chefe Gill Templer. Rebus acenou a cabeça, satisfeito por saber que por enquanto o caso ainda não subira ao alto escalão.
"O que você pretende dizer a ela?", Rebus perguntou.
"Não há nada a dizer. Não tive nada a ver com a morte de Fairstone." Ela fez uma pausa, outra pergunta pendente entre eles: E você? Ela parecia esperar que Rebus dissesse algo, mas ele permaneceu em silêncio. "Ela vai perguntar sobre você", Siobhan acrescentou. "Como veio parar aqui."
"Eu me queimei", Rebus disse. "Foi uma coisa estúpida, mas aconteceu."
"Sei o que você alega ter ocorrido..."
"Escute, Siobhan, foi exatamente isso que aconteceu. Pergunte aos médicos, se não acredita em mim." Ele olhou em torno novamente. "Se conseguir achar algum..."
"Provavelmente ainda estão rodando atrás de uma vaga."
O comentário não foi muito engraçado, mas Rebus riu assim mesmo. Ela demonstrava que não pretendia pressioná-lo mais. O sorriso foi um sinal de gratidão.
"Quem está no comando de South Queensferry?", ele perguntou, mudando de assunto.
"Acho que quem está na chefia é o inspetor Hogan."
"Bobby é um cara legal. Se for possível dar um jeito, ele dará."
"Um circo para a mídia, de todo modo. Grant Hood foi chamado para ser o oficial de ligação."
"Isso nos deixa com falta de pessoal em St. Leonard's, certo?" Rebus ficou pensativo. "Mais uma razão para eu voltar para lá."
"Principalmente se eu for suspensa..."
"Você não será suspensa. Você mesma disse, Siobhan - não teve nada a ver com Fairstone. Pelo que entendo, foi um acidente. Agora que temos um caso mais importante, este vai morrer de morte natural, por assim dizer."
"Um acidente", ela repetiu suas palavras.
Ele balançou a cabeça devagar. "Não se preocupe com isso. A não ser, claro, que você tenha apagado o cretino."
"John..." Havia um toque de alerta em sua voz. Rebus sorriu novamente e piscou um olho.
"Brincadeira", disse. "Sei muito bem quem Gill vai querer enquadrar, no caso de Fairstone."
"Ele morreu num incêndio, John."
"E isso quer dizer que eu o matei?" Rebus ergueu as duas mãos, virando-as para um lado e para outro. "Escaldadas, Siobhan. Só isso. Escaldadas."
Ela se levantou da cadeira. "Se você está dizendo, John..." Depois ela parou na frente dele, que baixava as mãos, sufocando a súbita agonia. Uma enfermeira se aproximava, dizendo algo a respeito da troca de ataduras.
"Estou de saída", Siobhan a informou. Depois, para Rebus: "Seria de doer se você tivesse feito uma besteira, imaginando me defender".
Ele começou a acenar a cabeça lentamente, ela deu meia-volta e se afastou. "Tenha confiança, Siobhan", ele gritou.
"Sua filha?", a enfermeira perguntou, puxando conversa.
"Só uma amiga. Colega de serviço."
"Você tem algo a ver com a Igreja?"
Rebus fez uma careta quando ela tirou a primeira atadura. "Por que você está perguntando isso?"
"Você falou algo a respeito de ter fé."
"No meu ramo de atividade, precisamos mais do que a maioria." Ele fez uma pausa. "Bem, talvez isso valha para o seu caso também."
"Meu?" Ela sorriu, sem tirar os olhos do curativo. Era baixa, comum, eficiente. "Não posso esperar que a fé faça alguma coisa aqui. Como você arranjou isso?" Ela se referia às mãos em carne viva.
"Enfiei na água fervendo", ele explicou, sentindo uma gota de suor iniciar a lenta jornada têmpora abaixo. Posso suportar a dor, pensou. O problema estava no resto. "Não podemos passar para algo mais leve que as ataduras?"
"Está ansioso para tomar seu rumo?"
"Ansioso para segurar uma xícara sem deixar cair." Ou um telefone, pensou. "Além disso, deve haver alguém lá fora precisando mais do que eu deste leito."
"Você é muito responsável socialmente, pelo que vejo. Depende do que o médico disser."
"E quem seria esse médico?"
"Tenha um pouquinho de paciência, está bem?"
Paciência: ele não tinha tempo para isso.
"Além disso, você receberá visitas", a enfermeira acrescentou.
Ele duvidava. Ninguém sabia que estava internado ali, exceto Siobhan. Pedira que telefonassem para ela, assim poderia avisar Templer que ele não iria trabalhar por motivo de doença, voltaria em dois dias no máximo. Mas a ligação fizera com que Siobhan corresse para o hospital. Ele devia saber que seria assim; talvez por isso mesmo tivesse telefonado para ela, e não para a delegacia.
Ele fora internado na véspera, durante a tarde. Pela manhã desistira de se medicar e consultara seu médico. O clínico o examinara superficialmente e lhe dissera para ir ao hospital. Rebus pegara um táxi até a A&E. Passara constrangimento quando o motorista precisou revirar o bolso da sua calça para pegar o dinheiro da corrida.
"Ouviu a notícia?", o taxista indagara. "Tiroteio numa escola."
"Provavelmente alguma brincadeira."
Mas o motorista, balançando a cabeça: "Nada disso. Deu no rádio que...".
Rebus esperou a vez no A&E. Depois de um tempo fizeram curativos em suas mãos, os ferimentos não eram graves o suficiente para justificar uma transferência para a Unidade de Queimados em Livingston. Mas ele apresentou um quadro de febre e decidiram transferi-lo de A&E para Little France. Ele calculou que queriam ficar de olho nele, caso entrasse em choque ou algo assim. Talvez tivessem pensado que fosse um desses sujeitos que se machucam de propósito. Ninguém veio tratar do assunto. Talvez por isso estivesse internado: esperando uma brecha na agenda de algum psiquiatra.
Ele pensou por um momento em Jean Burchill, a única pessoa que poderia notar seu súbito desaparecimento de casa. Mas a relação esfriara um pouco. Eles passavam uma noite juntos a cada dez dias, aproximadamente. Falavam pelo telefone com mais freqüência, tomavam café juntos à tarde, de vez em quando. Já estava virando rotina. Ele se lembrou da época em que saíra com uma enfermeira, por pouco tempo. Não sabia se ela ainda trabalhava ali. Poderia perguntar, mas o nome lhe escapava no momento. Era um problema: dificuldade para lembrar nomes. Esquecia encontros marcados. Nada sério, claro, só parte integrante do processo de envelhecimento. Mas ele sabia que precisava cada vez mais consultar suas anotações, quando testemunhava num julgamento. Dez anos antes não precisava de notas ou registros. Mostrava mais confiança, e isso impressionava os jurados, segundo os advogados.
"Prontinho." A enfermeira endireitou o corpo. Passara pomada e trocara a gaze das mãos. Depois as enrolara com as ataduras antigas. "Está mais confortável?"
Ele fez que sim. Um pouco de frescor na pele, mas ele sabia que não ia durar.
"Você está tomando algum analgésico?" A pergunta era retórica. Ela havia consultado a ficha ao pé da cama. Antes, após a visita ao toalete, ele mesmo a lera. Constavam a temperatura e os medicamentos usados, mais nada. Nenhuma informação em código que só poderia ser entendida pelos profissionais. Nenhum registro da história que contara ao ser examinado.
Preparei um banho bem quente... escorreguei e caí lá dentro.
O médico emitiu um ruído no fundo da garganta, algo para dar a entender que aceitaria aquilo sem necessariamente acreditar. Excesso de trabalho, falta de sono - seu serviço não era investigar. Médico, não detetive.
"Você quer tomar um paracetamol?", a enfermeira perguntou.
"Se tiver uma cerveja para acompanhar."
Ela abriu de novo o sorriso profissional. Em seus muitos anos de trabalho em hospitais públicos ela provavelmente não ouvira muitas tiradas originais.
"Verei o que posso fazer."
"Você é um anjo", Rebus disse, surpreso. Supunha que um paciente diria algo no gênero dos clichês esperados. De saída, ela talvez nem o tivesse escutado. Devia haver algo na natureza dos hospitais. Mesmo que o sujeito não se sentisse doente, o local provocava seus efeitos, tornando a pessoa mais lenta, mais dócil. Institucionalização. Algo a ver com a combinação de cores, com os ruídos de fundo. O aquecimento também poderia ajudar na submissão. Em St. Leonard's eles mantinham uma cela especial para os "malucos". Era rosa forte, supostamente os acalmava. Por que uma abordagem psicológica similar não era usada ali? A última coisa que desejavam era um paciente descontrolado, gritando ao saltar da cama a cada cinco minutos. Daí o número sufocante de cobertores, bem presos para evitar movimentos. Fique quieto, deitado... recostado nos travesseiros... tomando banho de luz e calor... sem criar caso. Mais um pouco daquele tratamento, pensou, e esqueceria o próprio nome. O mundo lá fora deixaria de fazer diferença. Nada de emprego a sua espera. Nada de Fairstone. Nem do maníaco a disparar tiros na sala de aula...
Rebus virou de lado, usando as pernas para soltar as cobertas. Era uma luta árdua, como a de Harry Houdini contra a camisa-de-força. O homem no leito vizinho abrira os olhos e o observava. Rebus piscou para ele ao erguer os pés no ar.
"Não pare de cavar", disse ao homem. "Vou dar uma volta, tirar a terra da perna da calça."
Pelo jeito, a alusão não fez sentido para seu companheiro de cela...
[...]

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