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Companhia das Letras
A FILHA DE AGAMENON E O SUCESSOR
Ismail Kadaré



A FILHA DE AGAMENON

1.

De fora, da rua, chegavam a música festiva, a barulheira e o ruído abafado dos pés dos passantes. Aquele som específico que só poderia vir de uma multidão que se dirigisse aos lugares designados para o desfile.
Pela décima vez, afastei um pouquinho a cortina da janela para ver a mesma cena: a lenta extensão da torrente humana. Sobre ela, tal qual no ano anterior, iam as faixas, os arranjos florais e os retratos dos membros do Birô Político. Seus rostos pareciam ainda mais petrificados sob aquele mar de cabeças e mãos. Às vezes, por causa de algum movimento das mãos de quem segurava o retrato, os rostos pintados pareciam se olhar de lado, ameaçadores. Mas mesmo quando eles ficavam lado a lado, pareciam não se conhecer.
Fechei a cortina e notei que tinha na mão o convite para a festa. Era a primeira vez que recebia um convite para a tribuna do Primeiro de Maio, e eu, tal como no instante em que o entregaram, ainda não acreditava que tinham escrito ali o meu nome. Não menos perturbados tinham sido os olhos do vice-secretário do partido. Não se poderia dizer que havia neles apenas ciúme. Misturado com o ciúme, aflorava o assombro. E de certa maneira havia razão para isso. Eu não era daqueles que apareciam nos palanques e recebiam convites para tribunas de honra. E embora, como soube mais tarde, o próprio vice-secretário tivesse falado de mim quando o Comitê Regional do Partido solicitara nomes diferentes daqueles propostos ano após ano, mesmo assim ele não escondia a surpresa. É verdade que ele tinha me citado, entre outros, mas, ao que parecia, não pusera fé em que aprovariam uma lista nova. Falam isso todo ano, dissera talvez com seus botões, mas, quando chega a hora, são os de sempre que vão.
"Parabéns! Parabéns!", disse-me, ao entregar o convite, e, no último instante, pareceu-me ver no seu olhar algo mais que ciúme e assombro. Estava ali bem no meio do sorriso dele, como uma cria do sorriso, e ao mesmo tempo era outra coisa. Talvez a palavra mais exata fosse "sorriso cúmplice". Concentrado, interrogativo, meio zombeteiro, mas com aquela zombaria benévola entre duas pessoas ligadas por um segredo. O sorriso cúmplice parecia me dizer: "Esse convite não veio de graça, cara, não é? Qual servicinho você fez para merecê-lo? Parabéns, espertinho!".
Aquela interpelação estava tão clara que eu senti que corava. O sentimento de incômodo não me abandonou nem mesmo durante o caminho para casa, e por mais de uma vez eu me perguntei: É mesmo, por que mereci esse convite?
O apartamento parecia ainda mais silencioso em contraste com o barulho da rua. Silencioso e vazio. Todos tinham ido para os pontos de concentração do desfile, e meus passos, em vez de preencher, destacavam ainda mais o silêncio e o vazio, um vazio que também era especial, como tudo mais naquele dia.
Eu esperava por Suzana. Ainda assim, aquilo que me arranhava o peito não parecia nem um pouco com a ansiedade habitual de quem espera uma garota. Era um sentimento mais opressivo. E, aparentemente, inflado pela música e pelo cansativo barulho que vinham da rua. Às vezes parecia até que um daqueles retratos iria se erguer acima de quem o conduzia, tão alto que chegaria até a minha janela, olhando para dentro do apartamento com aqueles olhos pintados, imóveis: O que você está esperando? Hum, hum, deixou seu lugar na tribuna vazio por causa de uma garota, é?
"Se eu não chegar até as oito e meia, não me espere mais", dissera Suzana.
Toda vez que essas palavras me vinham à mente, os olhos escapavam sem querer para o sofá onde se dera nossa última conversa. Fora uma conversa triste demais. Suzana estava meio despida, e também suas palavras saíam pela metade, a custo revelando seu sentido. Estava cada vez mais difícil se encontrar comigo. A carreira do pai prosperava a cada dia. Agora a família era mais vigiada. Duas semanas antes, na reunião plenária do CC, o pai subira ainda mais. De maneira que, claro, ela teria que rever seu modo de vida, seu guarda-roupa, as companhias. Senão, ia causar prejuízos ao pai.
- Ele mesmo pediu isso (eu ainda não sabia que nome dar a "isso") ou foi você que teve a idéia?
Ela me olhou de viés.
- Ele - respondeu, depois de uma pausa. - Mas...
- Mas o quê?
- Mas quando ele me explicou, concordei.
- É?
Senti que devia estar com os olhos injetados de sangue, como se alguém tivesse me atirado um punhado de areia. Com um jeito culpado, ela apoiou o rosto em meu ombro. Seus dedos, frios, como vidro moído, acariciaram meus cabelos, na nuca.
Eu queria dizer: Mas por que só você? As filhas deles, dos outros, pelo contrário, aproveitam, têm uma vida mais livre. Carros, passeios em casas de praia. Era o que eu com certeza diria, se ela mesma não falasse. Os outros davam alguma liberdade aos filhos, mas o pai dela... Ele era mesmo espantoso. Ninguém sabia o que tinha na cabeça... Ou então não havia nada de espantoso, mas era algo obrigatório apenas para ele. Precisamente porque nos últimos tempos ele se distinguia dos outros. Assim, se na festa de Primeiro de Maio ele aparecesse do lado direito do Dirigente, tudo estaria acabado entre nós.
Como eu não disse nada, ela achou que eu não tinha entendido direito. Entende?, insistia, soluçante. Era inaceitável para eles, quer dizer, para a opinião pública, que ela fizesse amor com alguém que estava noivo. Porque um dia aquilo viria à luz. Entende? Tinha de entender.
Eu não sabia o que responder, enquanto meus olhos se perdiam em suas pernas nuas.
-Você também iria se prejudicar-disse um pouco depois.
-Eu não ligo a mínima.
-Você fala assim, mas depois vai se arrepender. Ainda mais agora que tem a esperança de fazer a pós-graduação em Viena.
Continuei a manter os olhos sobre as partes descobertas do corpo dela. Na verdade eu não sabia ao certo se trocaria, por Viena ou por qualquer coisa que fosse, aquele corpo de menina e também de mulher, branco e liso. Os Campos Elíseos com seus jardins e ao fundo o Arco do Triunfo, com o fogo eterno no centro.
Nunca me coubera uma mulher que na hora de fazer amor tivesse no rosto um êxtase sorridente, como se estivesse tendo um sonho sublime. Ele se derramava das faces para o travesseiro branco, que, mesmo vazio depois que ela se ia, me dava a impressão de guardar a luz dela por algum tempo, como uma tela de tevê que ainda depois de apagada dá a impressão de permanecer iluminada. E em tudo ela, logo se via, dava-se ao amor com dedicação profunda, tocante e a sério.


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