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Companhia das Letras
STASILÂNDIA
Anna Funder



1. Berlim, inverno de 1996


Estou de ressaca e avanço como um carro pela multidão na estação Alexanderplatz. Por várias vezes calculo mal o espaço que ocupo e raspo num latão ou num daqueles postes com propaganda. Amanhã, manchas roxas vão aparecer em minha pele, como uma foto surgindo do negativo.
Junto da parede, um homem se volta, sorrindo e fechando a braguilha. Faltam-lhe os cordões do sapato e alguns dentes - rosto e sapato igualmente negligentes. Outro homem, de macacão, segurando uma vassoura do tamanho daquelas usadas para limpar as quadras de tênis, joga bolinhas de desinfetante pela plataforma. Constrói arcos de pó verde, cigarro e urina.Um bêbado matinal caminha como se o chão não fosse segurá-lo.
Vou pegar o metrô para a Ostbahnhof, a estação ferroviária de onde sai um trem regional para Leipzig, a cerca de duas horas de Berlim. Sento-me num banco verde, contemplo azulejos verdes, respiro ar verde. De repente, não me sinto muito bem. Preciso chegar rapidinho à superfície e faço o caminho de volta, escada acima. No nível da rua, a Alexanderplatz é uma gigantesca extensão em concreto cinza, projetada para fazer com que as pessoas se sintam pequenas. Funciona.
Está nevando lá fora. Sigo pela neve suja e derretida em direção aos banheiros. Como as linhas do metrô, os banheiros ficam embaixo da terra, mas ninguém pensou em conectá-los à estação correspondente. À medida que vou descendo os degraus, o cheiro enjoado de desinfetante é onipresente.
Uma mulher enorme, de avental roxo e maquiagem pesada, encontra-se postada lá embaixo. De pé, encostada num balcão de vidro, ela guarda sua pilha de preservativos, rolos de papel e absorventes. Sem dúvida, uma mulher que não teme o lixo da vida. Sua pele é suave e brilhante, e ela exibe muitos queixos macios. Deve ter uns 65 anos.
"Bom dia", cumprimento. Sinto-me esquisita. Ouvi histórias sobre pesarem a comida ingerida e as fezes expelidas por bebês alemães na tentativa de se obter a medida da vida. Sempre achei inapropriado esse tipo de espectadora maternal. Usei o toalete, saí e depositei uma moeda na bandeja dela. Penso comigo que o propósito das gotas de desinfetante é mascarar os cheiros dos corpos humanos com coisa pior.
"Como está o tempo lá em cima?", a mulher pergunta, sinalizando com a cabeça para o topo da escada.
"Bem frio."Ajeito minha pouca bagagem. "Mas não está tão ruim, a camada de gelo fino na rua ainda não está tão grande."
"Isso ainda não é nada", ela desdenha. Não sei se é ameaça ou bazófia. É o que chamam por aqui de Berliner Schnauze - aquela tromba berlinense. A postura habitual, estampada na cara. Não quero ficar ali nem tampouco subir a escada rumo ao frio. O cheiro de desinfetante é tão forte que não sei dizer se estou me sentindo melhor ou mais enjoada.
"Faz vinte e um anos que estou aqui, desde o inverno de 1975. Vi coisa bem pior do que isso."
"É bastante tempo."
"Com certeza. Tenho meus fregueses habituais, posso dizer a você. Eles me conhecem, eu conheço todos. Uma vez veio um príncipe, um Von Hohenzollern."
Imagino que ela use o truque do príncipe com todo mundo. Mas funciona: estou curiosa. "Ã-hã, e isso foi antes ou depois da queda do muro?"
"Antes. Ele veio do lado ocidental para passar o dia aqui. Costumavam aparecer muitos ocidentais, você sabe. Ele me convidou" - ela dá uns tapinhas com a mão espalmada nos seios enormes - "para visitar seu palácio.Mas é claro que não pude ir."
Claro que ela não pôde ir: o Muro de Berlim estendia-se por alguns quilômetros a partir dali, e não havia como passar para o outro lado. Junto com a Grande Muralha da China, era uma das estruturas mais extensas jamais construídas para separar as pessoas. Ela está perdendo credibilidade com rapidez cada vez maior, e sua história vai melhorando na mesma proporção. De repente, já não consigo sentir cheiro nenhum."Você já foi viajar depois que o muro caiu?", pergunto. Ela joga a cabeça para trás.Noto que está usando um delineador roxo que, visto daquele ângulo, tem um brilho fosforescente.
"Ainda não. Mas gostaria de ir. Para Bali, ou coisa do tipo. Ou para a China. É, para a China, talvez." Ela tamborila as unhas pintadas no balcão de vidro e sonha, contemplando a meia distância por sobre meu ombro esquerdo. "Você sabe o que eu gostaria mesmo de fazer? Adoraria dar uma olhada naquela muralha deles."


O trem parte da Ostbahnhof e atinge sua velocidade de cruzeiro. O ritmo me embala como um berço, silenciando meus dedos tamborilantes. A voz do condutor surge dos alto-falantes, recitando nossas paradas:Wannsee, Bitterfeld, Lutherstadt Wittenberg. No norte da Alemanha freqüento a extremidade cinza do espectro: prédios cinza, terra cinza, pássaros cinza, árvores cinza. Lá fora, a cidade e, depois, o campo passam em preto-e-branco.
A noite anterior é uma mancha enevoada - outra sessão no bar com Klaus e seus amigos.Mas minha ressaca não é daquelas que condenam o dia às trevas. É do outro tipo, mais interessante, em que sinapses destruídas se reconstroem, às vezes errando o antigo caminho e formando novas e estranhas conexões. Lembro-me de coisas de que não me lembrava antes - coisas que não provêm do arquivo ordenado de memórias a que chamo meu passado. Lembro-me do buço da minha mãe ao sol, do sentimento agudo de fome e perda da adolescência, do odor de asfalto queimado pela freada dos bondes no verão. A gente acha que tem o passado todo catalogado e arquivado por assunto, mas, em algum lugar, ele aguarda para voltar à tona.
Lembro-me de quando aprendia alemão - uma língua tão bela e tão estranha - na escola, na Austrália, do outro lado do mundo.Minha família ficou perplexa com o fato de eu estar aprendendo aquela língua tão esquisita e feia, além de - claro, eram todos sofisticados demais para dizê-lo - ser a língua do inimigo.Mas eu gostava daquela estrutura de ir juntando pedaços, de construir palavras longas e maleáveis a partir da junção de palavras menores. Podiam-se criar coisas que não tinham nome em inglês - Weltanschauung, Schadenfreude, sippenhaft, Sonderweg, Scheissfreundlichkeit, Vergangenheitsbewältigung. Gostava de toda aquela ampla gama de palavras que ia de "heartfelt" [sincero] até "heartsick" [deprimido]. E me agradava a ordem, a franqueza direta que imaginava características das pessoas. Então, na década de 1980, fui morar em Berlim Ocidental por um tempo, e ficava pensando muito no que acontecia por trás daquele muro.
Sentada diante de mim, uma mulher com uma barriga que mais parece um barril desembrulha sanduíches de pão preto. Até o momento, ela teve êxito em fingir que não estou ali, embora baste um pequeno descuido para que nossos joelhos se toquem. Delineou o arco das sobrancelhas com uma expressão de surpresa ou ameaça.
Penso no sentimento que acabei desenvolvendo pela ex-República Democrática da Alemanha. É um país que não existe mais, e no entanto aqui estou eu, num trem, a desembestar por ele - por suas casas em ruínas e por seu povo atônito. É um sentimento que demanda uma daquelas palavras juntadas: só posso descrevê-lo como de "horrormantismo". É um sentimento bobo, mas não quero me livrar dele. O romantismo provém do sonho de um mundo melhor que os comunistas alemães queriam construir das cinzas de seu passado nazista: de cada um, de acordo com sua capacidade, a cada um, de acordo com sua necessidade. O horror vem do que fizeram em nome desse sonho. A Alemanha Oriental desapareceu, mas seus restos ainda estão lá.
Minha companheira de viagem puxa um maço de cigarros ocidentais, daquela que parece ser a marca preferida por aqui desde a queda do muro. Acende um e expele a fumaça por cima da minha cabeça. Quando termina de fumar, apaga o cigarro na lata com tampa fixa, de erguer, cruza as mãos sobre a barriga e adormece. Sua expressão, desenhada a lápis, não muda.
Estive em Leipzig pela primeira vez em 1994, quase cinco anos depois da queda do muro, em novembro de 1989. A Alemanha Oriental ainda parecia um jardim secreto e emparedado, um lugar perdido no tempo. Não ficaria surpresa se as coisas tivessem ali um gosto diferente - se as maçãs tivessem gosto de pêras, digamos, ou o vinho o gosto do sangue. Leipzig foi o centro do que hoje é chamado de die Wende: a virada. A Wende foi a revolução pacífica contra a ditadura comunista na Alemanha Oriental, a única revolução bem-sucedida da história alemã. Leipzig foi seu coração e ponto de partida. Agora, dois anos mais tarde, estou voltando para lá.
Em 1994 encontrei uma cidade construída por justaposição.
As ruas serpenteavam tortuosas, passagens em ruínas atravessavam os prédios, conduzindo inesperadamente ao quarteirão seguinte, e baixas arcadas afunilavam as pessoas rumo a bares subterrâneos. Meu mapa pouco ou nada tinha a ver com a maneira como se vivia a vida ali. Quem conhecia o lugar era capaz de cortar caminho por atalhos ocultos através dos edifícios ou ao longo de vielas não mapeadas que ligavam um quarteirão a outro, permitindo que as pessoas se movessem por cima e por baixo da terra. Fiquei completamente perdida. Procurava pelo museu da Stasi na Runden Ecke, o edifício na "esquina redonda" que antes abrigava os escritórios da polícia secreta. Precisava ver com meus próprios olhos uma parte daquele vasto aparato que havia sido o Ministério para a Segurança do Estado da Alemanha Oriental.
A Stasi era o exército interno por meio do qual o governo mantinha o controle. Sua missão era saber tudo sobre todos, valendo-se dos meios que quisesse. Ela sabia quem visitava quem, quem telefonava para quem e até mesmo com quem essa ou aquela esposa andava dormindo. Era uma burocracia cuja metástase penetrara a sociedade alemã oriental: abertamente ou às escondidas, sempre havia alguém informando à Stasi sobre as atividades de colegas e amigos em cada escola, cada fábrica, cada edifício de apartamentos ou cada bar.Obcecada pelos detalhes, a Stasi não foi capaz de prever o fim do comunismo e, com ele, o fim do próprio país. Entre 1989 e 1990 viraram-na do avesso, transformando- a da noite para o dia de unidade stalinista de espionagem em museu. Ao longo de seus quarenta anos de existência, "a Firma" gerou o equivalente à totalidade dos registros relativos à história alemã desde a Idade Média. Postos lado a lado na vertical, os arquivos mantidos pela Stasi acerca dos alemães orientais formariam uma linha de 180 quilômetros de comprimento.
Acabei encontrando a Runden Ecke, e o edifício era gigantesco. Um lance de escada conduzia a enormes portas duplas de metal, com dois grandalhões diante delas. Encolhi feito Alice. À direita via-se um retângulo pálido no cimento da fachada, um pedacinho do prédio que não havia sido tingido pela poluição e pela neblina. Ali costumava ficar uma placa que dizia "Ministério para a Segurança do Estado - Divisão de Leipzig", ou coisa do tipo. Durante a revolução, a placa havia sido removida numa espécie de alegria amedrontada, e nunca mais se soube do seu paradeiro.
Dei uma volta pelo lugar. Todas as mesas estavam exatamente como haviam sido deixadas na noite em que o prédio foi tomado pelos revoltosos - exibiam asseio assustador. Telefones de discar dispunham-se aos pares. Máquinas de rasgar papel haviam sido jogadas nos fundos, depois de pifarem durante a última e desesperada tentativa da Stasi de destruir os arquivos mais comprometedores. Sobre uma mesa havia um calendário de 1989 com a foto de uma mulher nua da cintura para cima, mas de modo geral imperavam as insígnias comunistas pelas paredes.As celas estavam abertas, como se preparadas para receber novos prisioneiros. A despeito de todo o empenho de Miss Dezembro, o edifício era só umidade e burocracia.
O comitê de cidadãos responsável pela administração do museu montara expositores em pranchas baratas de madeira. Havia uma cópia da famosa fotografia tirada durante os protestos do outono de 1989. Mostrava um mar de gente segurando velas, os pescoços esticados olhando para cima, na direção do prédio, as pessoas fitando seus controladores cara a cara. Sabiam que era a partir dali que suas vidas eram observadas, manipuladas e, às vezes, arruinadas. Viam-se cópias também dos telex cada vez mais frenéticos provenientes do quartel-general da Stasi em Berlim, onde os funcionários se haviam entrincheirado vedando as janelas com chapas de metal."Protejam instalações do ministério", diziam. "Protejam itens secretos."
Minhas fotos favoritas eram as dos manifestantes ocupando o edifício em 4 de dezembro de 1989, acocorando-se pelos corredores com a surpresa estampada nos rostos, como se ainda à espera que os mandassem sair dali. Quando entraram no prédio, os guardas da Stasi pediram para ver as identidades, numa estranha paródia do controle que, naquele exato momento, estavam perdendo.Chocados, os revoltosos obedeceram, retirando a identidade da carteira. Depois, tomaram o edifício.
Grandes e pequenos mistérios encontraram explicação quando os arquivos foram abertos. Dentre eles, os tiques das pessoas comuns na rua. Em exposição, encontrei este documento:


CÓDIGOS PARA VIGILÂNCIA:
1. CUIDADO! SUSPEITO VEM VINDO
- TOCAR O NARIZ COM MÃO OU LENÇO
2. SUSPEITO SEGUE ANDANDO, ALCANÇA, ULTRAPASSA
- MEXER NOS CABELOS COM A MÃO OU ERGUER DE LEVE O CHAPÉU
3. SUSPEITO PARADO
- MÃO NAS COSTAS OU NA BARRIGA
4. AGENTE À ESPREITA DESEJA TERMINAR OBSERVAÇÃO EM RAZÃO DE
AMEAÇA AO DISFARCE
- AGACHAR-SE E RE-AMARRAR OS SAPATOS
5. SUSPEITO VOLTANDO
- DUAS MÃOS ÀS COSTAS OU NA BARRIGA
6. AGENTE À ESPREITA DESEJA FALAR COM CHEFE DE EQUIPE OU COM
OUTROS AGENTES
- RETIRAR PASTA OU EQUIVALENTE E EXAMINAR CONTEÚDO

Pus-me a imaginar esse balé de rua dos surdos-mudos.Agentes sinalizando uns para os outros, tocando o nariz, a barriga, as costas e os cabelos; amarrando e desamarrando os sapatos; erguendo o chapéu para estranhos e remexendo papéis - toda uma coreografia para escoteiros muito malvados.
Mais para o fundo do prédio, três salas abrigavam os artefatos da Stasi em mostruários de vidro. Havia uma caixa com perucas e bigodes falsos, acompanhados de pequenos tubos de cola para fixá-los.Havia também bolsas femininas de vinil com microfones embutidos, disfarçados como apliques de pétalas de flores; escutas implantadas nas paredes dos apartamentos e uma pilha de cartas que jamais chegaram ao lado ocidental - um dos envelopes ostentava uma caligrafia de criança, escrito com lápis de cor: uma cor diferente para cada letra do endereço.
Uma caixa de vidro continha apenas frascos vazios. Eu a observava quando uma mulher se aproximou. Ela parecia uma versão feminina de Lutero, a não ser pelo fato de que era bonita. Estava na casa dos cinqüenta, tinha as maçãs do rosto saltadas e um olhar direto. O aspecto era simpático, mas ela parecia saber que, em minha mente, eu ridicularizava um regime que exigia de seus cidadãos que assinassem um compromisso de lealdade mais parecido com uma certidão de casamento, um regime que confiscava cartões de aniversário enviados por crianças a seus avós e datilografava informações sem sentido junto a mesas encimadas por calendários de mulheres peitudas. A mulher era Frau Hollitzer, a administradora do museu.
Frau Hollitzer explicou-me que os frascos diante de nós eram "amostras de cheiro". A Stasi havia desenvolvido um método quase científico para encontrar criminosos: a tal "amostragem de cheiro". A teoria era a de que todos nós temos nosso próprio odor, que nos identifica e que deixamos em tudo que tocamos. Esses cheiros podem ser capturados e, com o auxílio de cães farejadores treinados, comparados na busca por alguém. A Stasi levava seus cachorros e frascos para onde suspeitava que tinha havido alguma reunião ilegal; lá, observava para ver se os cachorros apanhavam os odores daquelas pessoas cujas essências estavam contidas nos frascos.
Na maior parte das vezes, as amostras eram colhidas por meios ilícitos. A Stasi invadia o apartamento de alguém e pegava um pedacinho de alguma roupa usada o mais próximo possível da pele - com freqüência, escolhiam um pedaço de roupa de baixo. Uma alternativa era, a partir de um pretexto qualquer, levar o "suspeito" para interrogatório; o assento de vinil por ele utilizado era, então, limpado com um pedaço de tecido. Os pedacinhos de roupa roubados ou o tecido eram, depois, guardados em frascos lacrados. Os frascos pareciam-se com potes de geléia. Uma etiqueta anunciava: "Nome: Herr [nome].Hora: 1 hora.Objeto: cueca".
Quando os cidadãos de Leipzig entraram no edifício encontraram uma vasta coleção de amostras de cheiro. Depois, os frascos desapareceram. Só foram reaparecer em junho de 1990 - na "despensa de cheiros" da polícia de Leipzig.Mas estavam vazios.
Ao que tudo indica, a polícia os confiscara para uso próprio, mesmo no período posterior à queda do muro, quando a democracia dava ali seus primeiros passos. Os frascos ainda carregavam as meticulosas etiquetas. A partir delas, ficou claro que a Stasi de Leipzig tinha coletado amostras de cheiro de toda a oposição política daquela região da Saxônia. Hoje, ninguém mais sabe quem está de posse dos retalhos de pano e das meias velhas, nem por que razão estaria guardando tudo isso.
Mais tarde, Frau Hollitzer me contou sobre Miriam, uma jovem mulher cujo marido morrera numa cela da Stasi ali perto. Disseram que a Stasi orquestrou o funeral, a ponto de substituir o caixão cheio por outro, vazio, e de cremar o corpo, com o intuito de destruir qualquer indício da causa da morte. Fiquei imaginando carregadores de caixão pagos, fingindo suportar o peso da urna vazia, ou talvez suportando de verdade os oitenta quilos de um caixão cheio de jornais velhos e pedras. Pus-me a pensar no que é não saber se o seu marido se enforcou ou se foi morto por alguém que você, hoje, encontra na rua. Pensei comigo que gostaria de falar com Miriam antes que o produto da minha imaginação se fixasse à maneira das lembranças falsas.
Fui para casa, na Austrália, mas agora estou de volta a Berlim. Não consegui tirar da cabeça a história de Miriam, aquela história de segunda mão sobre uma mulher que não conheci. Consegui um emprego de meio período na televisão e saí em busca de algumas das histórias de um país que deu errado.

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