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Cia das Letras
DA HORA, DA ONDA, DA VINCI
Jon Scieszka



UM

"Preparar!... Apontar!..."
"Peraí!", gritou Sam. Ele ajeitou os óculos para enxergar melhor em volta. "A gente devia estar na Itália."
Fred, Sam e eu estávamos de costas para um morro íngreme e árido. Podia até ser na Itália. Mas tinha um invento estranhíssimo bem na nossa frente - uma coisa em forma de disco voador, de madeira, do tamanho de um caminhão de sorvete.
Não era o tamanho que metia medo. O que metia medo eram as armas que apontavam de dentro do troço. O que metia mais medo ainda era que todo mundo sabe qual é a palavra que costuma vir depois de "Preparar! Apontar!"
"Você está com sorte de a gente não ter ido parar numa privada gigante", disse Fred. "Mas agora é melhor ir pensando no que fazer com essas armas apontando pra nossa direção."
Olhei o disco voador de madeira. Fred tinha razão. Metade das armas estava apontada para nós.
"Ô de dentro! Hum... seja lá quem for que está aí dentro!", eu disse. "Somos viajantes pacíficos. Só estamos atrás de um cara chamado Leonardo da Vinci. Já ouviu falar dele?"
Um homem de barba curta e escura, que usava um capote avermelhado, saiu de trás de uns arbustos.
"Quem procura por Leonardo da Vinci?", ele perguntou.
"A gente", respondi. "Quer dizer, eu, sou o Joe, este aqui é o Fred, e aquele é o Sam."
O homem se aproximou e nos olhou de cima a baixo. Mostrava um sorriso que nos pareceu familiar.
"Espero que ele não seja o inventor da descarga", disse Fred.
"A gente está procurando o Leonardo da Vinci por causa deste Livro", eu disse. "Tem um desenho no nosso Livro igualzinho a um dos desenhos do livro do Leonardo."
O homem parecia surpreso. "Vocês viram os meus cadernos?"
Sam entendeu tudo na hora. "Seus cadernos? É claro. A gente está na Itália. E esse é você. É que você parece mais novo em pessoa do que no desenho que a gente viu, com cabelo e barbas brancas."
O homem parecia bem confuso.
Sam continuou tagarelando. "Eu sabia. Eu sabia. Eu sabia. Leonardo da Vinci. O Leonardo cientista. O Leonardo inventor. Leonardo é o senhor."
"Sim", disse o homem pausadamente. "Sou Leonardo da Vinci. Vocês me conhecem. Mas eu não os conheço. E vocês parecem muito novos para ser espiões." Leonardo acenou com uma das mãos. Dois de seus homens saíram do tanque de madeira, carregando uma corda comprida. Amarraram Fred, Sam e eu, juntos.
"É sempre a mesma coisa", disse Leonardo. "Sempre alguém tentando roubar minhas idéias."
"Oh, não", disse Sam. "Somos fãs do senhor. Adoramos suas idéias. Os canhões. A balista gigante. O submarino..."
Agora Leonardo parecia chocado. "Como é que vocês sabem dessas coisas?"
Percebi que Sam estava nos metendo num rolo cada vez maior. Falei antes que ele pudesse causar ainda mais problemas. "Ah, ele só está adivinhando", disse. "Não somos espiões. Também somos inventores. Não viemos de nenhum lugar perto daqui. Somos Joe, Sam e Fred... da Brooklyn."
"Acho que não conheço essa cidade", disse Leonardo.
"Não, não imaginei que conhecesse", respondi. "Mas viemos de lá em busca de um Livro fino, azul, com uma escrita estranha e uns desenhos e gravuras, para ver se conseguíamos lhe fazer umas perguntas sobre como ele funciona. Depois a gente volta para o Brooklyn de uma vez e nunca mais vem incomodá-lo. O senhor o viu por ai?
"Um caderno?", perguntou Leonardo. "Azul? Com desenhos e escrita? Como este?"
Leonardo mostrou um caderno fino e azul.
Passarinhos cantavam nas árvores. A água rumorejava nos riachos. Era uma linda manhã.
"Então o senhor tem O Livro. O senhor é o inventor do Livro", disse Sam. "É impressionante. É a primeira vez que a gente consegue trocar de tempo para o lugar aonde a gente queria ir... e ainda encontrar O Livro de primeira."
Até Fred estava impressionado. "Uau!", disse. "E, antes de trocar de tempo, senhor Leonardo, gostaria de dizer que o senhor desenha muuuuito bem!"
"Com certeza", acrescentei. "A gente adora todos os seus desenhos. Mesmo aqueles de caras horríveis, que são muito estranhos... mas muito legais também."
Leonardo ficou olhando para nós. Alguma coisa estava errada.
"Então", eu disse, "se o senhor puder chamar seus seguranças de volta e mandar que desamarrem a corda, a gente só vai lhe fazer umas perguntas sobre O Livro. Como é que funciona, coisas assim. Depois o senhor pode continuar testando seu tanque de madeira, ou seja lá o que for aquilo."
"Ninguém jamais viu meus cadernos", disse Leonardo. E meteu o livrinho azul debaixo do capote outra vez. "Se vocês os viram, então devem ser espiões. E só existe uma solução contra espiões." Ele deu um passo atrás e acenou na direção do tanque de madeira. A invenção rodou um pouco, para que mais armas pudessem apontar para nós.
"Essa não!", disse Sam. "Isso é pior do que cair na descarga de uma privada gigante. Faça alguma coisa, Joe."
Fred tentou forçar a corda. "Segura eles com um truque qualquer."
Tentei pensar em alguma coisa. Qualquer coisa.
"Preparar!...", disse Leonardo.
Eu só conseguia pensar que finalmente tínhamos achado o grande Leonardo da Vinci.
"Apontar!...", continuou ele.
Eu só conseguia pensar que seríamos fulminados por um invento do grande Leonardo da Vinci.
"FO..."


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