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Companhia das Letras
A HISTÓRIA DE MILDRED PIERCE
James M. Cain



1

Na primavera de 1931, o homem escorava árvores num gramado em Glendale, na Califórnia. Serviço tedioso, pois ele precisava cortar os galhos secos primeiro, depois envolver os ramos mais fracos com lona e em seguida dar voltas com a corda por sobre a lona e amarrar a ponta da corda no tronco, para que o ramo suportasse o peso dos abacates que cresceriam até o outono. Embora fizesse calor naquela tarde, ele não se apressava, trabalhando meticulosamente enquanto assobiava. Era um sujeito meio franzino, trinta e poucos anos, mas, apesar das manchas na calça, ele a vestia com garbo. Chamava-se Herbert Pierce. Quando terminou de ajeitar as amarras, empilhou gravetos e galhos secos, levou-os para a garagem e guardou-os na caixa de cavacos para acender a lareira. Retornou com o cortador e aparou a grama. Era um gramado igual a milhares de outros na Califórnia: um retângulo no qual cresciam pés de abacate, limão e mimosa, rodeados por pazadas de terra fofa. A casa também era semelhante a outras do gênero: um bangalô espanhol de paredes brancas e telhado vermelho. As casas em estilo espanhol saíram um pouco de moda, mas na época eram consideradas de alto nível, e aquela não ficava a dever nada à próxima, talvez fosse até melhorzinha.
Terminado o corte da grama, ele pegou a mangueira, desenrolou-a antes de atarrachá-la na torneira do jardim e começar a regar. Foi minucioso também nisso, esguichando água na copa das árvores, nos círculos de terra fofa, no caminho de lajota e finalmente na grama. Quando a área inteira molhada começou a cheirar como em dia de chuva, ele fechou a torneira, levantou a mangueira com a mão para esgotar a água, enrolou-a e a devolveu à garagem. Voltou à frente da casa para examinar as árvores e se certificar de que as cordas não estavam demasiadamente apertadas. Depois entrou em casa.
A sala em que entrou correspondia ao gramado do qual saíra. Era a própria sala de estar padrão vendida pelas lojas de departamentos como a mais adequada aos bangalôs espanhóis, e era constituída de um brasão com fundo de veludo vermelho pendurado na parede; cortinas de veludo vermelho penduradas em lanças de ferro; tapete vermelho com bordas decoradas; canapé na frente da lareira, ladeado por duas poltronas, todos com encosto reto e assento de continhas; uma mesa de carvalho comprida encimada por uma luminária com cúpula de ferro pintado; duas luminárias no chão, de hastes combinando com as lanças das cortinas e cúpulas de seda vermelha; uma mesa de canto no estilo Grand Rapis e um rádio em cima dela, no estilo baquelite. Nas paredes pintadas, além do brasão, havia três quadros: um monte solitário ao crepúsculo, com esqueletos bovinos no primeiro plano; um cowboy a conduzir o gado pela neve; e um de trem de passageiros varando a planície alcalina. Na mesa comprida havia um livro chamado Enciclopédia dos Conhecimentos Úteis, com encadernação dourada disposta numa diagonal interessante. Alguém poderia criticar a sala pelo feito notável de ser fria e simultaneamente entulhada, um lugar onde alguém viveria oprimido. Mas o homem sentia um vago orgulho, principalmente dos quadros, que se convencera de serem "muito bons". Quanto a morar nela, isso nunca lhe ocorrera.
Naquele dia ele não dedicou à sala nem um olhar nem um pensamento. Passou apressado e seguiu para o quarto mobiliado pelo conjunto verde de sete peças em verde berrante, onde eram visíveis toques femininos. Ele tirou a roupa com que trabalhara, pendurou-a no closet e entrou despido no banheiro, onde abriu a torneira para tomar um banho de imersão. Ali refletiu novamente sobre a civilização em que vivia, desta vez com uma profunda diferença. Pois embora fosse, e ainda seja, uma civilização em larga medida naïve em relação a gramados, salas, quadros e outros elementos de natureza estética, ela alcançara a genialidade e chegara mais longe do que qualquer outra civilização poderia imaginar no campo da praticidade. O banheiro em que ele assobiava era uma jóia de utilidade: azulejos verdes e azulejos brancos; limpo como uma sala de operações, tudo estava em seu devido lugar e tudo funcionava. Vinte segundos após abrir as torneiras o homem entrou na banheira com a água na exata temperatura de seu agrado, lavou-se, puxou a tampa do ralo, saiu da banheira, enxugou-se com uma toalha limpa e entrou outra vez no quarto, sem errar um compasso sequer da melodia que assobiava e sem considerar que havia algo de notável em tudo aquilo.
Penteou o cabelo e depois se vestiu. Ainda não surgira a calça esporte, apenas a folgada de algodão: vestiu uma limpa com camisa pólo e malha azul. Seguiu para a cozinha, similar ao banheiro, onde a esposa confeitava um bolo. Era uma mulher miúda, consideravelmente mais jovem do que ele; mas, como havia uma mancha de chocolate em sua face e ela vestia um avental verde folgado, era difícil definir sua aparência, a não ser pelo par de pernas voluptuosas entrevistas entre o avental e o sapato. Ela estudava um motivo num livro de decoração de bolos, no qual um pássaro segurava no bico um pergaminho, e tentava reproduzi-lo com lápis no bloco de papel. Ele a observou por alguns momentos, olhou para o bolo e disse que estava sensacional. Talvez sensacional fosse pouco, pois se tratava de uma obra gigantesca, quase cinqüenta centímetros de largura, quatro camadas, coberto de glacê acetinado. Após o comentário, ele bocejou e disse: "Bem, não tem mais nada que eu possa fazer por aqui. Acho que vou sair para dar uma volta".
"Você volta até a hora do jantar?"
"Vou tentar, mas se eu não chegar até as seis não me espere. Talvez demore um pouco."
"Eu precisava saber."
"Já falei, se eu não voltar para casa até as seis..."
"Dizer isso não adianta nada. Estou terminando este bolo para a senhora Whitley, que vai pagar três dólares por ele. Se você pretende comer em casa, vou gastar um pouco do dinheiro em bistecas de cordeiro, para você jantar.
Caso contrário, comprarei outra coisa mais ao gosto das meninas."
"Então me inclua fora dessa."
"Era só isso que eu queria saber."
Pairava um tom sombrio na cena, obviamente incompatível com o senso de humor do homem. Ele ficou parado, sem graça, e tentou cavar um elogio. "Ajeitei as árvores.
Prendi tudo, para os galhos não vergarem quando os abacates amadurecerem, como aconteceu no ano passado.
Cortei a grama. A frente ficou uma beleza."
"Vai regar o gramado?"
"Já reguei."
Ele pronunciou a frase com certa condescendência, pois preparara uma armadilha e ela caíra. Mas o silêncio trouxe uma sensação ligeiramente desagradável, como se ele mesmo tivesse caído numa armadilha sem se dar conta.
Incomodado, acrescentou: "Reguei até dizer chega".
"É meio cedo para molhar a grama, não acha?"
"Ah, tanto faz, cedo ou tarde."
"A maioria das pessoas espera até o fim do dia para molhar a grama, quando o sol não está mais tão quente, o que não é má idéia, pois economiza a água pela qual outra pessoa está pagando."
"Quem, por exemplo?"
"Não sei de ninguém aqui que esteja trabalhando, além de mim."
"Você vê alguma coisa que eu poderia fazer mas não faço?"
"E terminou cedo, né?"
"Mildred, tenha dó, aonde você está querendo chegar?"
"Ela está esperando por você, vá logo."
"Quem está esperando por mim?"
"Você sabe muito bem."
"Se está falando de Maggie Biederhof, saiba que não a vejo faz uma semana, e que ela não significa nada para mim, a não ser uma parceira de rummy quando não tenho nada para fazer."
"Isso é praticamente o dia inteiro, se quer saber minha opinião."
"Eu não quero saber."
"O que você faz com ela? Joga rummy, depois desabotoa aquele vestido vermelho que ela vive exibindo por aí, sem sutiã, e a joga na cama? Depois você vira para o lado e dorme, levanta para ver se tem frango frio na geladeira, joga mais um pouco de baralho e a leva para a cama de novo? Puxa vida, deve ser o máximo. Não consigo imaginar nada mais gostoso."
A tensão nos músculos da face indicava que ele poderia perder a paciência. Abriu a boca para dizer algo, mas pensou bem e desistiu. Acabou dizendo: "Ah, tudo bem", querendo soar resignado e altivo, e foi saindo da cozinha.
"Não quer levar nada para ela?"
"Levar? Como assim?"
"Bem, sobrou um pouco de massa, fiz uns bolinhos para as crianças. Mas, gorda daquele jeito, ela deve adorar um docinho. Espere, vou embrulhar um."
"Por que você não vai para o inferno, hein?"
Ela deixou de lado o desenho do pássaro para encará-lo. E começou a falar. Pouco tinha a dizer sobre amor, fidelidade ou moral. Falou do dinheiro, da incapacidade dele para arranjar trabalho; e, quando mencionou a outra mulher, não foi para acusá-la de ser a sereia que lhe roubara o amado, e sim como causa da inquietude que tomara conta dele recentemente. Ele a interrompia com freqüência, arranjando desculpas para seu comportamento, insistindo que não havia trabalho, insistindo ferinamente que um homem tem direito a um momento de sossego, por isso a sra. Biederhof entrara em sua vida, ele não tinha de aturar alguém a atormentá-lo sem parar por questões que escapavam a seu controle. Falavam depressa, como se dissessem coisas que queimavam a boca e precisassem ser esfriadas a cusparadas. Na verdade, a cena inteira exibia uma feiúra quase clássica, pois trocavam as mesmas recriminações desde o início do casamento, pouca originalidade fora acrescentada, e nenhuma beleza. Acabaram ao cansar, ele tentou sair da cozinha novamente, mas ela o impediu.
"Onde você pensa que vai?"
"Preciso dizer?"
"Vai visitar Maggie Biederhof?"
"E se for?"
"Então é melhor fazer a mala e sumir daqui para sempre, pois se você sair agora por aquela porta não o aceitarei de volta. Nem que eu tenha de usar o cutelo para impedi-lo, aqui nesta casa você não entra mais."
Ela tirou o cutelo da gaveta e o ergueu antes de devolvê-lo a seu lugar, enquanto ele a observava com ar de desprezo. "Vamos com calma, Mildred, com muita calma.
Se você não tomar cuidado, eu sou bem capaz de ir embora um dia desses. E sou bem capaz de fazer isso agora mesmo. Deixar você."
"Você não está me deixando, sou eu quem está pondo você daqui para fora. Se for à casa dela hoje nunca mais entrará aqui."
"Eu vou para onde bem entender, tá?"
"Então leve as malas, Bert."
O rosto dele ficou branco, os olhos a fixaram por um longo tempo. "Tudo bem. Vou fazer isso."
"Então faça logo de uma vez. Quanto antes, melhor."
"Tá bom... tá bom."
Ele saiu da cozinha. Ela encheu o saco de confeitar descartável com glacê, cortou a ponta com a tesoura e começou a desenhar o pássaro no bolo.
[...]

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