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Companhia das Letras
A TRAGÉDIA BRASILEIRA
Sérgio Sant'Anna



ABERTURA

Com seu instrumento de trabalho (a pá), o Coveiro - e Autor-Diretor do Espetáculo - faz soar no chão as três pancadas de praxe que anunciam o início deste espetáculo. E será esse mesmo Coveiro quem, lentamente, descerrará as cortinas.
Clareia então tênue, quase imperceptivelmente, como um primeiro rastro luminoso na mais densa treva, Caos que antecede ao Verbo. Essa luz, ainda tão esmaecida, nos dá a impressão de que gera a si mesma, como num fogo-fátuo. Adaptando-se, porém, os olhares à escuridão, perceber-se-á que tal luminosidade é emitida por uma pedra branca, retangular, a arrastar-se lentamente, ainda na horizontal. Depois, aos poucos, ela começa a erguer-se dentro de um ritmo, até colocar-se em posição vertical. Mais tarde, quando a claridade for suficiente, se poderá ler, gravada naquela lápide, a inscrição:

AO ANJINHO JACIRA, A NOSSA SAUDADE ETERNA
1950-1962

A claridade, então, será como o primeiro indício da madrugada surpreendido apenas pelos olhos treinados e atentos de um pastor. E uma sensação de frio se irradiará, desse Centro, para o espaço integral do Espetáculo. Permanecendo, no entanto, temperado o ambiente, tal sensação advém principalmente do isolamento de certas características em geral associadas ao frio, como a solidão, o vácuo, o mármore de uma lápide, uma réstia de luz a trespassar uma profundidade negra.
E a esse momento, o da primeira réstia de claridade - fresta que lenta e progressivamente se expande na noite -, se fará seguir o soar grave da nota sol, que pingará a partir daí, com pausas bem marcadas, por umas doze vezes, de um piano invisível, numa associação da luz e do calor ao som e à palavra (sol), mas que poucos poderão assimilar no plano da consciência. Mas esses poucos nos bastam e o importante é a sílaba contundente, que pinga, a reger os primeiros e lerdos movimentos dentro do nosso espaço com suas inúmeras bifurcações e que, muito aos poucos, se poderá captar a que território pertence: ao de um palco imaginário, elástico, com seus múltiplos círculos, labirintos, a nos remeter além - às vezes com a velocidade do sonho -, para outros espaços, aberturas...
Ao soar, a cada uma dessas doze vezes, da nota sol - como um sinal perceptível do tempo, o tempo zero, a "meia-noite" - também doze movimentos espaçados, presumivelmente humanos, mas como os de um boneco mecânico, serão vistos cada vez mais nitidamente, à medida que aumentam a intensidade da luz e também a sensação de calor por todo o ambiente, embora um calor também apenas pressentido e cuja origem se deve muito mais não à própria luz (de um pálido agudo e artificial), mas ao signo emitido pelo som grave da nota sol, cavernoso, protetor, bojudo, como um sonar em profundezas marinhas.
Jacira surgirá à tona primeiramente através do rosto, coberto por um véu tão negro que, a princípio, quase se confundirá, aos olhos de todos, com a escuridão. Porém quando se erguer ela até a altura do tronco e, por causa de seus movimentos, deixar cair o véu, sua face agora visível para a platéia, mais do que uma inacreditável beleza irradiará luminosidade. E antes do espraiar-se desse ainda pequeno facho de luz, proveniente do rosto de Jacira, os olhares mais atentos já terão percebido, no canto oposto desse espaço (o palco?), o vulto do Poeta, que, a julgar por um movimento e ranger ritmados, está sentado numa cadeira de balanço, como signo perceptível de um tempo que se estratificou. E nesse balançar-se de um vulto que se move mas não se desloca para lugar algum, há também o vem e vai, para cima e para baixo, de um pequeno ponto luminoso, de brilho crescente mas quase opaco, num tom entre o branco neon e o azul de uma chama de acetileno.
E quando todo o espaço estiver mais visível, através dessa claridade que aparentemente emana do objeto inicial, a lápide, e dos próprios personagens, perceberemos que o que se encontra atado à cabeça do Poeta, o ponto luminoso, cada vez mais intenso, é uma dessas lanternas de foco dirigido utilizadas pelos trabalhadores de fundo de mina, numa metáfora um tanto ou quanto óbvia, mas não importa: a de que o Poeta é aquele que em primeiro lugar decifra, mergulha, (n)aquilo que ainda se encontra invisível para seus semelhantes.
Jacira acha-se agora de pé, ao lado de sua tumba e, semi-hipnotizados, estaremos diante de uma jovem vestida com uma túnica negra que deixa à mostra o tronco e os seios, de uma pequenez, brancura e firmeza tão resplandecentes que talvez tenha sido a partir daí - mas quem o sabe? - que o território do Poeta e seu foco luminoso se terão tornado visíveis: sua silhueta magra, da qual se poderia dizer doentia ou ascética; a cadeira de balanço, mas dentro de um ambiente deslocado, esse que a circunda e que não faz lembrar nenhum aposento de uma casa, e antes parece pertencer a esse espaço aberto na noite onde se movimenta tão lentamente Jacira, não mais ao ritmo do pingar da nota sol, que já silenciou. Um espaço que, pelas cruzes que agora fornecem um contraste à luminosidade, já sabemos referir-se a um cemitério, circundado por paredes e janelas de casas como se fossem ruínas. E o foco de luz à cabeça do Poeta se dirige, então, sem nenhuma dúvida, diretamente para Jacira, que também se volta em sua direção, oferecendo o perfil para quem se encontra diante da cena.
No entrechoque, então, dessas duas luminosidades, não se poderá dizer qual estará dando a luz à outra e deduzir-se-á, pois, que são antes os dois necessários pólos de atração de um Sistema, em torno dos quais gravitarão os elementos secundários da composição do Espetáculo. E haverá sempre uma indagação sem resposta pairando sobre o espaço cênico: dá a luz o Poeta à sua obra, sua Musa, Jacira (o poema), ou seria o contrário: a Musa, ao fazer-se presente, ainda que enquanto Espectro, é quem desenharia um contorno nítido para o Poeta, antes mera sombra, partículas não integradas no meio da noite negra, o Caos a preceder imediatamente o Verbo?
Aproxima-se a Virgem de Roberto e, toda crispada, deixa que ele a abrace e a beije entre os seios.
Tal contato faz com que se ilumine magicamente o restante do espaço cênico, o cenário, e também com que se realimentem as energias do Poeta e da Virgem.
Afastam-se eles para se ocultar em suas respectivas casas e dá-se início ao cerimonial (de mortos?) que é este espetáculo: A tragédia brasileira.


A TRAGÉDIA BRASILEIRA

I
O PRIMEIRO ATO

Rua de bairro, a casa de Roberto, poeta mórbido e romântico, à antiga, de aproximadamente vinte e cinco anos que mora sozinho com a mãe, viúva de um militar e que, para sustentar a si e ao filho (que por ser doente dos nervos não trabalha), costura para fora.
Na casa em frente mora Jacira, menina de doze anos, por quem o Poeta nutre uma paixão distante e doentia.
Ao lado da casa de Roberto, um terreno baldio.
No fundo do espaço cênico, um território obscuro e misterioso, com cruzes, lápides etc.

CENA 1
O atropelamento

Fim de tarde, cantar de cigarras, grupo de crianças pré-adolescentes soltando bolhas de sabão, no meio de outros jogos infantis como a amarelinha, brincadeiras de roda ou com bonecas, onde se revela, veladamente, uma sensualidade infantil, dentro, porém, de um silêncio (de mortos?).
Aproxima-se o crepúsculo e as crianças vão se dispersando para dar lugar à Jacira, vestidinho curto, que surge do portão de sua casa para pular corda, solitariamente, na rua.
Através da janela entreaberta do quarto de Roberto entrevê-se, então, o vulto do Poeta, voyeur oculto, a observar a menina, enquanto se começa a escutar, como se entoada por um coro longínquo de crianças, a canção: "Nesta rua, nesta rua tem um bosque. Que se chama, que se chama solidão. Dentro dele, dentro dele mora um anjo. Que roubou, que roubou meu coração".
E é assim que a luminosidade a trespassar o interior do espaço cênico parecerá provir, agora, do quarto de Roberto, dos sentidos do Poeta. E seremos acometidos pela sensação de que a única perspectiva para se ver e ouvir o que se passa em cena é aquela dos olhos e ouvidos de Roberto, enquanto sentimos, com ele, um leve aroma de jasmim. Mais ainda do que isso, nos assaltará a sensação de "sermos Roberto"; de que o nosso coração, acelerado na taquicardia, é o coração dele, Roberto, enquanto ouvimos com ele os pezinhos de Jacira a pularem na calçada e depois no asfalto; enquanto escutamos, ainda, o som sibilante de uma corda a cortar o vento e a chicotear a rápidos intervalos o solo. E "sermos Roberto" é principalmente colar nossos olhos à fresta da janela para ver Jacira, o vestido esvoaçante mostrando as coxas branquíssimas, e ouvir, ao longe, como se entoada dentro de um subterrâneo escondido ou, talvez, dentro dos porões mais fundos de nós mesmos, nossa memória, a canção: "Nesta rua, tem um bosque. Que se chama, que se chama solidão...".


Um cão uiva, uma única vez, e a lua surge imediatamente na abóbada do Palco; uma lua pálida, com todo o seu traçado de crateras e que lança de chofre uma claridade fantasmagórica, de gás neon, tornando visível o terreno baldio, coberto de mato de plástico e onde se percebe o rosto de um Negro. Tanto ele como Roberto, de seus respectivos pontos, observam fascinados a figura da menina a atravessar a fronteira da infância para a adolescência, tornando-se os gestos dela, progressiva e veladamente, mais lânguidos e sensuais, enquanto as pontinhas incipientes dos seios parecem querer furar, arfantes, o vestido.
Como signo dessa transformação - e também numa antecipação alucinatória da tragédia - uma gota vermelha se espraia pelo vestidinho de Jacira.
Escuta-se, abafadamente, o soar de uma percussão, no ritmo dos corações acelerados de Roberto e do Negro.
Começa-se a ouvir, ainda distante, o ronco do motor de um carro.
Percebendo nesse momento o olhar de Roberto, Jacira estaca paralisada (e fascinada), apertando a corda contra o corpo.
Faz-se ouvir, cada vez mais próximo, o ruído do motor; depois o soar, por duas ou três vezes, de uma buzina e o piscar de faróis.
Ergue-se o Negro no terreno baldio, com movimentos que tanto traduzem o desejo de trazer Jacira para si, como de afastá-la, presumivelmente por causa do perigo representado pelo carro. A menina assusta-se, mas não consegue fugir, hipnotizada, como num desses sonhos em que se quer correr mas as pernas não obedecem.
A luz, presumivelmente do farol, atinge uma súbita intensidade. Ranger de freios, uma dissonância sonora, o atropelamento, uma exclamação no quarto de Roberto: - Jacira!!!
Como se emitidos pelo rádio do carro, acordes da Ave-Maria, a significarem tanto as seis horas da tarde, o crepúsculo, como a agonia da Virgem.
Tais acordes alcançam uma súbita intensidade e rapidamente silenciam.
Na abóbada do espaço cênico surgiu uma estrela de grande magnitude.


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