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Companhia das Letras
DE VERDADE
Sándor Márai



Veja aquele homem. Espere, não olhe agora, vire-se para mim, vamos conversar. Eu não gostaria que ele olhasse para cá, que me visse, não gostaria que me cumprimentasse. Agora pode olhar de novo... O homem baixo, atarracado, com o casaco de pele de gola de marta? Não, nada disso. Aquele alto, pálido, de sobretudo preto, conversando com a garçonete magra. Está pedindo a ela que embrulhe cascas de laranja cristalizada.
Interessante, para mim ele nunca comprou laranja cristalizada.
Que foi, querida?... Nada. Espere, vou assoar o nariz.
Ele já foi embora? Avise quando tiver ido.
Está pagando?... Diga, como é a carteira dele? Preste atenção, eu não quero olhar. Não é uma carteira marrom de couro de crocodilo?... É? Pois bem, isso me deixa feliz.
Por que me deixa feliz? Por nada. É claro, fui eu que lhe dei a carteira, quando ele fez quarenta anos. Dez anos atrás. Se eu gostava dele?... Pergunta difícil, minha cara. Sim, acho que gostava. Ele já foi?...
É bom que tenha ido. Espere, vou passar pó no nariz. Dá para ver que eu chorei?... É estúpido, mas, você sabe, somos assim estúpidas. Meu coração ainda bate forte quando o encontro. Se posso dizer quem ele era? Posso, sim, querida, não é segredo. Esse homem foi o meu marido.


Vamos pedir sorvete de pistache. Não entendo por que dizem que no inverno não se pode tomar sorvete. Eu gosto de vir a esta confeitaria no inverno para tomar sorvete. Às vezes, acho que tudo é possível, não só porque alguma coisa é boa ou inteligente, mas simplesmente porque é possível. Porém faz alguns anos que estou sozinha e gosto de vir aqui no inverno entre cinco e sete da tarde. Gosto do salão vermelho, com os móveis do século passado, gosto das velhas garçonetes, da agitação da praça diante das janelas espelhadas, das pessoas que chegam. Tudo transmite certo calor, tem um toque de fim de século. E o chá é excelente, você notou?... Sei que as mulheres de hoje não freqüentam confeitarias. Preferem os cafés, onde precisam ter pressa, não podem sentar-se confortavelmente, o café custa quarenta centavos, almoçam salada, é o novo mundo. Mas eu ainda faço parte do outro mundo, sinto falta da confeitaria elegante, com seus móveis, seus tecidos de seda vermelha, as velhas condessas e baronesas, os armários espelhados. Não venho aqui todos os dias, como você pode imaginar, mas no inverno às vezes dou uma passada e me sinto bem. Uma certa época eu e meu marido nos encontrávamos aqui com freqüência, na hora do chá, quando ele vinha do escritório, depois das seis.
Ele agora também veio do escritório. São seis e vinte, está no seu horário. Até hoje eu sei de todos os seus passos com muita precisão, como se vivesse a vida dele. Às cinco para as seis ele chama o secretário, que lhe entrega o casaco escovado e o chapéu, então sai do escritório, manda o carro seguir à sua frente, acompanha-o a pé, para esfriar a cabeça. Anda pouco, e por isso é tão pálido. Ou por outra razão, não lembro mais. Não lembro porque nunca o vejo, não falo com ele, não falo com ele há três anos. Não gosto das separações afetadas, em que os parceiros deixam o fórum de braço dado, almoçam juntos no restaurante famoso do parque da cidade, são gentis e atenciosos um com o outro, como se não tivesse acontecido nada, e, depois da separação e do almoço, seguem, cada um, o seu caminho. Sou uma mulher de princípios e de temperamento diferente. Não acredito que depois da separação as duas metades do casal possam continuar sendo boas amigas. Casamento é casamento, e separação é separação. É assim que eu penso.
Você, que acha? É verdade, você nunca foi casada.
O que a humanidade descobriu e os homens repetem impotentes há milênios não pode ser uma formalidade vazia. Acredito que o casamento seja sagrado. E acredito também que a separação seja um sacrilégio. Fui criada assim. Mas penso desse modo independentemente de tudo, não apenas por causa da educação e dos mandamentos religiosos. Acredito nisso porque sou mulher, e para mim o divórcio não é uma formalidade, como não é uma formalidade vazia o ritual no cartório diante do notário e na igreja, e sim uma união completa de corpos e de almas, definitiva, ou, em caso contrário, uma ruptura e uma separação completa de destinos. Quando nos divorciamos, eu não me iludi achando que continuaria "amiga" do meu marido. Ele, naturalmente, não deixou de ser amável e gentil, além de generoso, como era de esperar, segundo os costumes. Mas eu não fui amável nem generosa, levei embora até o piano, sim, como era de esperar, respirava rancor, teria desejado levar a casa inteira, as cortinas, tudo. Tornei-me uma inimiga dele no instante da separação, e assim será enquanto eu viver. Não quero que ele me convide para um jantar amigável no restaurante do parque, não estou disposta a fazer o papel da jovenzinha orgulhosa que freqüenta a casa do ex-marido e ajeita tudo depois que a empregada roubou a roupa de cama. Pouco me importa se roubarem tudo o que ele tem, e, se um dia eu souber que ele está doente, também não vou visitá-lo. Por quê?... Porque nos separamos, entendeu? Não tenho como me conformar.
Espere, prefiro retirar o que disse sobre doença. Não quero que ele fique doente. Acabaria visitando-o se ele estivesse doente, iria ao hospital. Por que está rindo?... Está rindo de mim? Acha que espero que ele fique doente para que eu possa visitá-lo? É claro que espero. Vou esperar a vida inteira. Mas não quero que ele fique muito doente. Estava tão pálido, você viu?... Faz alguns anos que está pálido.
Vou lhe contar tudo. Você tem tempo? Eu tenho muito, infelizmente.


Bem, o sorvete chegou. Sabe, depois que eu saí da escola, fui parar no escritório dele. Naquela época nós duas continuamos nos escrevendo por algum tempo, não é? Você logo viajou para os Estados Unidos, mas ainda nos escrevemos, acho que durante uns três ou quatro anos. Lembro que sentíamos uma pela outra aquele amor bobo, adolescente, de que, ao olhar para trás, não me orgulho muito. Parece que não podemos viver sem amor. Pois eu gostava de você. Além disso, sua família era rica, e nós, por outro lado, éramos de classe média, três dormitórios, cozinha, entrada pelo corredor. Eu a admirava... e essa espécie de encantamento, entre jovens, é uma forma de ligação amorosa. Nós também tínhamos uma empregada, mas ela usava a água do banho de segunda mão, tomava banho depois de mim. Os detalhes são muito importantes. Entre a pobreza e a riqueza existe uma quantidade assustadora de nuances. E na própria pobreza, à medida que descemos de nível, você não sabe quantas nuances existem!... Você é rica, não sabe da imensa diferença entre quatrocentos e seiscentos por mês. Entre dois e dez mil por mês a diferença não é tão grande. Hoje em dia já sei bastante sobre o assunto. Para nós, em casa, entravam oitocentos por mês. Meu marido ganhava seis mil e quinhentos. Fui obrigada a me acostumar.
Tudo era apenas um pouco diferente entre a casa dele e a nossa. Nós morávamos num apartamento de aluguel, eles numa mansão alugada. Nós tínhamos um terraço, e eles um pequeno jardim, com dois canteiros de flores e uma velha nogueira. Nós tínhamos uma geladeira comum e comprávamos gelo para ela no verão, na casa da minha sogra havia uma pequena geladeira elétrica que produzia belos cubos de gelo de formas regulares. Nós tínhamos uma faz-tudo, eles, um casal, empregado e cozinheira. Nós tínhamos três quartos, eles quatro, na verdade cinco contando o hall. Eles tinham um hall, com tecidos de chiffon claro nas portas, e nós tínhamos apenas um vestíbulo, onde ficava também a geladeira - um vestíbulo escuro, típico de Budapeste, com um porta-escovas e um mancebo à moda antiga. Nós tínhamos um rádio de três válvulas, e o aparelho, que meu pai havia comprado à prestação, "pegava", a cada momento, o que bem entendia; eles tinham um móvel em forma de armário, com rádio e gramofone juntos, alimentados a eletricidade, que trocava os discos e fazia o próprio Japão soar na sala. Eu fui educada para conseguir viver. Ele foi educado para, antes de tudo, viver, com elegância, segundo os costumes e, sobretudo, de maneira regrada e sem sobressaltos. Essas diferenças são enormes. Na época eu não sabia disso.
Certa vez, no início do casamento, durante o café-da-manhã ele me disse:
"Aquele tecido cor de malva na sala de jantar é um pouco cansativo. É grosseiro, como se alguém estivesse gritando o tempo todo. Dê uma olhada na cidade, querida, procure outro tecido para a primavera."
Eu deveria trocar o estofamento de doze cadeiras por um tecido "um pouco menos cansativo". Olhei para ele incomodada, pensei que se tratasse de uma brincadeira. Mas ele não estava brincando, lia o jornal e olhava para a frente, sério. Via-se que tinha refletido antes de falar comigo, de fato o irritava a cor malva, que - não nego - era um tanto vulgar. Minha mãe a escolhera, as cadeiras eram novas em folha. Quando ele saiu, eu chorei. Não sou completamente estúpida, entendi perfeitamente o que ele quis dizer... Procurou dizer o que jamais pode ser transmitido com palavras simples, verdadeiras e diretas, ou seja, que havia entre nós certa diferença de gosto, eu vinha de outro mundo, embora soubesse tudo, embora tivesse aprendido tudo, pois eu também era de classe média, como ele, a meu redor tudo era ligeiramente diferente, havia uma diferença quase insignificante em relação aos hábitos e gostos dele. O burguês é muito mais sensível a essas diferenças do que o aristocrata. O burguês sente necessidade de se afirmar até a exaustão. O aristocrata recebe a certificação ao nascer. O burguês precisa adquiri-la, ou preservá-la o tempo todo. Ele não pertencia mais à nação dos que tinham de adquirir, e, na verdade, não pertencia nem à nação dos que tinham de preservar. Uma vez falou sobre isso. Lia um livro em alemão, e disse que no livro encontrara a resposta à grande pergunta de sua vida. Eu não gosto dessas "grandes perguntas" - acho que em torno de uma pessoa sempre existem milhões de pequenas perguntas o tempo todo, e apenas o conjunto é importante -, e indaguei um pouco irônica:
"Você acha mesmo que agora já se conhece...?"
"É claro que sim", ele respondeu. E por trás dos óculos olhou para mim com uma sinceridade e uma disposição que me levaram a me arrepender da pergunta. "Eu sou um artista, embora não tenha um gênero de preferência. Entre os burgueses isso é comum. É assim que uma família se desfaz."
Ele nunca mais falou nisso.
Na época eu não entendi nada. Ele nunca escrevia, não pintava, não fazia música. Desprezava os amadores. Mas lia muito, "regularmente" - sua palavra preferida -, um pouco "regularmente" demais para o meu gosto. Eu lia obsessivamente, de acordo com a vontade e o estado de espírito. Ele lia como quem cumpria uma das tarefas mais importantes da vida. Quando começava um livro, não o largava antes de chegar ao fim -ainda que o livro o irritasse ou entediasse. A leitura era para ele uma obrigação sagrada, ele venerava as letras como os padres veneram o texto dos livros santos. Lidava assim também com os quadros, e da mesma maneira freqüentava museus, teatros, concertos. Interessava-se por tudo, interessava-se de verdade. Interessava-se por tudo o que dissesse respeito ao espírito. Eu só me interessava por ele.
Só que ele não tinha um "gênero" definido. Dirigia a fábrica, viajava bastante, contratava artistas, a quem pagava bem. Mas tomava muito cuidado para não impor seus gostos, bem diferentes das preferências da maioria de seus funcionários e conselheiros, aos colegas de trabalho. Punha um abafador diante de todas as suas palavras, como se - muito atencioso, educado - pedisse desculpas por alguma coisa, como se estivesse perdido e precisasse de ajuda. A despeito disso era capaz de ser implacável nas decisões importantes, em especial nos negócios.
Sabe quem era meu marido? O fenômeno mais raro da vida. Era um homem.
Mas não no sentido teatral, sedutor, da palavra. Não como nos referimos à masculinidade dos campeões de esgrima. A alma dele era masculina, concentrada e reflexiva, inquieta, inquiridora e desconfiada. Na época eu ainda não sabia disso. É extremamente difícil aprendermos na vida.
Na escola não aprendemos essas coisas, eu e você, não é verdade?
Talvez eu devesse começar pelo dia em que ele me apresentou a seu amigo Lázár, o escritor. Você o conhece?... Leu os livros dele?... Eu li todos. Revirei suas obras, como se em seus livros se ocultasse um segredo que também fosse o segredo da minha vida.
Mas acabei não encontrando nenhuma resposta. Segredos assim não têm resposta. A vida responde, às vezes, de maneira surpreendente.
Eu nunca havia lido uma única linha desse escritor antes.
Conhecia-o de nome, sim. Porém não sabia que meu marido o conhecia, não sabia que eram amigos. Certa noite, cheguei em casa e encontrei meu marido com esse homem. E então aconteceu algo muito estranho. Foi a primeira vez, no terceiro ano de casamento, que me dei conta de que não sabia nada sobre o meu marido. Vivia com alguém e não sabia nada sobre ele. Às vezes achava que o conhecia, e fui obrigada a admitir que não tinha idéia de suas preferências, de seus gostos, de seus anseios. Sabe o que eles estavam fazendo, os dois, Lázár e meu marido, naquela noite?
Jogando.
No entanto jogavam de um modo muito estranho, inquietador!
Não jogavam rumi, nada disso. Além de tudo, meu marido odiava e desprezava toda diversão mecânica, inclusive as cartas.
Jogavam, mas de um modo tão estranho, um pouco amedrontador, que de início não os compreendi, senti medo, ouvi angustiada a conversa deles, como se estivesse perdida entre loucos. Na companhia daquele homem, meu marido se transformara completamente.
Estávamos casados havia três anos, e, certa noite, cheguei em casa e na sala de estar encontrei meu marido e um desconhecido que parou diante de mim, fez um gesto na direção do meu marido e disse:
"Que Deus esteja com você, Ilonka. Não leva a mal que eu tenha trazido Péter comigo, não é?"
E apontou para o meu marido, que se levantou com ar constrangido e olhou para mim como quem se desculpava. Pensei que os dois tinham ficado loucos. Mas eles não se incomodaram muito comigo. O estranho falou mais, enquanto batia nas costas do meu marido.
"Encontrei com ele na avenida Arena. Imagine, ele não quis parar, o louco, só me cumprimentou e seguiu adiante. É claro que não o deixei ir embora. Eu disse: 'Péter, seu velhaco, você não está zangado, está?'. Em seguida, dei-lhe o braço e o trouxe comigo. Vamos, crianças", disse, e estendeu os braços, "abracem-se. Autorizo até mesmo um beijo."
Você pode imaginar como me senti. Com as luvas, a bolsa e o chapéu nas mãos, fiquei parada no meio da sala, feito uma imbecil, olhando sem entender. Meu primeiro impulso foi correr até o telefone e ligar para o médico da família ou para a ambulância. Depois, pensei na polícia. Mas meu marido deu um passo em direção a mim, beijou minha mão, constrangido, e com a cabeça baixa disse:
"Vamos esquecer tudo, Ilonka. Fico feliz pela felicidade de vocês."
Em seguida sentamos para jantar. O escritor sentou-se no lugar de Péter, arrumou as coisas e deu ordens como se fosse o dono da casa. Tratou-me por você. A empregada, naturalmente, pensou que tínhamos endoidado e, com o susto, derrubou a travessa de salada. Naquela noite eles não me explicaram o jogo. Porque o sentido do jogo dependia justamente de que eu não soubesse de nada. Essa tinha sido a combinação dos dois enquanto me esperavam, e eles jogaram com perfeição, como atores profissionais. A idéia básica era que eu teria me separado de Péter havia anos e me casara com o escritor, amigo do meu marido. Péter se ofendera e deixara tudo para nós, o apartamento, os móveis, tudo. Numa palavra, o escritor era meu marido, e Péter o encontrara na rua, o escritor agarrara o braço de Péter, separado, ofendido, e lhe dissera: "Veja bem, não seja bobo, o que aconteceu aconteceu, venha jantar conosco, Ilonka também vai gostar de vê-lo". E Péter concordara. E agora estávamos juntos, os três, no apartamento onde eu um dia vivera com Péter, e jantávamos amigavelmente, o escritor era meu marido, dormia na cama de Péter, ocupava o seu lugar na minha vida... Entendeu? Era esse o jogo que eles jogavam, como loucos.
Mas o jogo tinha também sutilezas.
Péter fazia de conta que estava constrangido porque as lembranças o torturavam. O escritor fazia de conta que estava excessivamente descontraído, que não tinha preconceitos, porque a singularidade da situação o afligia, sentia culpa para com Péter, e por isso falava alto e com animação. Eu fazia de conta... não, eu não jogava nada, apenas fiquei sentada entre eles, e olhava ora para um ora para outro, espantada com as imbecilidades incompreensíveis dos dois homens, adultos, inteligentes. Naturalmente, compreendi por fim as nuances mais sutis do jogo e me submeti às regras da estranha brincadeira. Porém, naquela noite, compreendi alguma coisa mais.
Compreendi que meu marido, que eu pensava que fosse inteiramente meu, de corpo e alma, como se diz, com todos os segredos de seu espírito, não era nada meu, mas um estranho que tinha seus segredos. Era como se eu descobrisse algo novo sobre ele; como se ele tivesse estado preso ou tivesse obsessões patológicas que não combinavam de maneira alguma com a imagem dele que nos anos passados eu pintara na minha alma. Descobri que meu marido era meu confidente somente em alguns aspectos, e, além disso, era uma pessoa estranha e misteriosa como o escritor que ele arrumara na rua e trouxera para casa, para que a despeito de mim eles jogassem um jogo absurdo, incompreensível, como cúmplices. Descobri que meu marido tinha outro mundo, não apenas o que eu conhecia.
E descobri que aquele homem, o escritor, detinha certo poder sobre a alma do meu marido.
[...]