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Companhia das Letras
DISCURSO SOBRE O CAPIM
Luiz Schwarcz



Almas gêmeas

Em Cozumel

Como nunca sei quem serão os próximos hóspedes, no primeiro dia não faço nada de especial nos quartos. Deixo a cama lisa, o lençol bem preso, os sabonetes onde devem estar e o cartão de boas-vindas do gerente - às vezes com um cesto cheio de frutas, outras com meia garrafa de champanhe e um cacho de uvas. O primeiro brinde para os hóspedes é escolha do concierge. Depois fica por minha conta.
É fácil saber quem está no quarto. Se são marido e mulher ou estão namorando há pouco. Pelo estado dos lençóis. Pelo que o casal traz nos nécessaires. Se eles já dividem a escova de dentes e o desodorante. Pela hora que saem do quarto, quando saem. Acontece muito de eu nem ver seus rostos. É triste, mas faz parte da minha profissão. No treinamento eu ouvi milhares de vezes: "Respeitar a privacidade dos hóspedes", como se isso fosse mais importante que deixar o quarto limpo, o banheiro cheiroso e a cama arrumada. E eu respeito. Quem disse que não? Só dou um pouco a mais do que o hotel oferece. Uma alegria antes do sono, ou do amor. Afinal, é aqui que os casais se amam de verdade. Os lençóis revirados quase todas as noites, marcas de duas cabeças num travesseiro só, em quantas camas se vê isso fora dos hotéis?
O meu papel? Só um incentivo. Um toque romântico quando o casal é jovem ou quando acho que o sexo vem antes do amor. Nesses casos espalho pétalas de rosa pela colcha e deixo um coração esculpido na toalha de banho no centro da cama.
Quando o par é mais velho e ainda usa aliança, mesmo depois de tantos anos, prefiro esculpir cisnes, de pescoços longos. E mantenho os caules das rosas. Nessa idade homens e mulheres podem precisar de uma força da natureza. Às vezes dobro a dose do chocolate noturno sem a camareira-chefe perceber.
Se tive reação ao meu trabalho artístico? Pouca ou nula. As gorjetas pelo menos continuam iguais. Talvez os casais já entrem no quarto à noite um pouco ébrios, ou então se jogam direto na cama, em cima das minhas esculturas frágeis; não faz mal. Daqui para a frente vou me comunicar mais com os hóspedes, deixar a privacidade de lado, escrever poemas de amor, perfumar os travesseiros, perguntar se desejam uma escultura diferente, com algum símbolo familiar, uma casa, um altar ou uma boneca, por exemplo.
De qualquer maneira, comecei a deixar mensagens ao lado das toalhas brancas esculpidas. Será que vão reclamar? O mais provável é que ninguém note, mas eu capricho na letra, e com tinta vermelha escrevo no papel pautado "Lindos sueños". E assino: Concepción.


Em São Paulo

Desde aquele dia fiquei conhecido como Canova. Foi o dono do restaurante que me chamou assim pela primeira vez, entrou no local antes da hora do almoço, deu uma gargalhada, bateu nas minhas costas e disse, com seu sotaque de quem chegara havia pouco no Brasil: "Olha aí, o moço é o Canova do Brás". A partir de então passei a ser chamado apenas por esse nome - de um escultor italiano, me contou, depois de muito tempo, o patrão. Eu não ligo, é melhor ser chamado de Canova do que só de "garçom". Ou de nome nenhum.
Quando comecei na profissão, ainda tinha algum idealismo. Pensava que ia repartir o pão. Como na Bíblia. Por isso, na hora do couvert, me compenetrava, trazia a cesta com os pães cortados em rodelas, e a manteiga redondinha no pires à parte, como se eu fosse um padre entregando a hóstia. Agora, não sinto mais nada ao servir as pessoas. E comer perdeu a graça, quase não como. Quando se trabalha de garçom, a comida vira supérflua, perde o valor ritual. Nunca vi ninguém rezar em mesa de restaurante, antes da refeição. Os dedos entrelaçados, os olhos cerrados, a cabeça voltada para o prato e depois para o céu, nunca vi.
Hoje os sabores se misturam num só. Tudo tem gosto de bife. Os fregueses me pedem macarrão com almôndegas, e é como se eu estivesse trazendo um bife no prato.
E, afinal, repartir o pão não vale mais nada. Nem peço mais para cortar a baguete que vem da padaria, como fazia no início. Deixo isso para meus colegas. Mas chego cedo, sou eu que abro o estabelecimento. Visto o paletó, cada dia menos branco, e ponho a casa em ordem, uniformizado. Arrumo as mesas e dobro os guardanapos. Cada um de um jeito diferente. Faço esculturas. Um colega imbecil chama de estátuas. "Olha as estátuas do Canova", ele diz, todo dia, e eu deixo estar. Estátua!
Comecei imitando com o pano o corpo das mulheres, as suas curvas. Depois passei a vesti-las com mantos, os guardanapos se prestam bem a isso, formam frisos sutis, parecem tecidos delicados cobrindo minhas mulheres brancas. Tentei fazer homens musculosos, deuses, heróis, mas não pegou bem. Parei. De uns tempos para cá construo castelos, pontes, viadutos e aviões. O dono do local gostou. A freguesia também. Eu monto tudo, deixo a casa pronta para o almoço e fico num canto do salão, esperando o patrão chegar. Reparo em sua expressão, enquanto ele circula entre as mesas e analisa cada uma das minhas obras. Mesmo que ele não diga nada, vejo o sorriso em seus olhos, o restaurante parecido com um museu, um jardim de esculturas, o pano substituindo o mármore, e aguardo quieto que ele me chame, com seu sotaque acentuado, pelo nome com que me batizou, Canova.


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