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Companhia das Letras
POR ACASO
Ali Smith



Minha mãe me começou numa noite de 1968, no café do único cinema da cidade, em cima de uma das mesas. Um pequeno lance de escada mais adiante, atrás do gasto veludo da cortina do balcão, a lanterninha bocejava, afagando a lanterna desligada, e, apoiada num cotovelo, acima dos amassos e farfalhos da última fileira, arrancava lascas da divisória de madeira e arremessava fiapos sobre a cabeça do pessoal de cidade pequena. Na tela, acima delas, o filme era A lágrima secreta, com Terence Stamp, ator de um alumbramento tal que minha mãe, jovem, chique, delgada e imperiosa, assistindo ao filme pela terceira vez naquela semana, se levantou da poltrona, deixou que o assento atrás dela se fechasse com um baque surdo, espremeu-se diante das pernas das pessoas sentadas em sua fileira, subiu a rampa encardida, cruzou a cortina e deparou com a luz.
Não havia ninguém no café, a não ser um rapaz pondo as cadeiras em cima das mesas. Acabamos de fechar, ele disse a ela. Minha mãe, ainda piscando por causa do escuro, avançou pelo vermelho surrado da escadaria. Pegou a cadeira que ele segurava e, sem desvirá-la, colocou-a no chão, de cabeça para baixo. Tirou os sapatos. Desabotoou o casaco.
Atrás da registradora, as laranjas semi-submersas da máquina de suco rodopiavam sem parar nas varetas; o bagaço, no fundo do reservatório, subia e assentava, subia e assentava. As cadeiras sobre as mesas espichavam as pernas para o alto; embaixo delas, as migalhas de bolo esperavam passivas pela boca do aspirador de pó. Ao final da majestosa escadaria principal, que levava à rua, e para onde minha mãe iria, em mais alguns minutos, com as meias de náilon ainda mornas emboladas no bolso do casaco, sacudindo na mão os sapatos presos pelas tiras, Julie Andrews e Christopher Plummer sorriam de suas molduras, do mesmo jeito que ainda sorririam, desbotados e sedutores, uma década atrasados, para o assomo de luz que enegreceu tudo cinco anos mais tarde, quando o aprendiz de projecionista (sentindo-se passado para trás, em relação ao cargo que considerava seu: a gerência havia contratado um novo projecionista de cidade grande, depois da morte do antigo) decidiu pôr o prédio abaixo com uma lata de creolina e uma ponta de cigarro.
As dispendiosas poltronas do balcão, onde era proibido fumar? Viraram fumaça. Os camarotes, com aquele seu cheiro entranhado de couro? Foram-se para sempre. As cortinas de veludo, o candelabro de bolas de vidro? Cinzas espalhadas ao vento, um salpico de minúsculos estilhaços de luz na superfície da história local. Os jornais do dia seguinte foram enfáticos, um acidente. O sujeito que era o dono do cinema acionou o seguro e vendeu o prédio demolido para um armazém que funcionava no sistema pegue e pague chamado, sem muita imaginação, de Pegue e Pague Mackay.
Mas naquela noite, nos idos de 1968, no café quase fechado, as vozes ainda alardeavam amor moderno por trás das paredes. A música ainda irrompia de lugar nenhum. Pouco antes do momento em que Terence Stamp se estrepa e é colocado no devido lugar, ela havia enganchado um calcanhar no outro, por trás das costas dele, e meu pai, surpreso, se enfiara e grunhira dentro dela, oferecendo-lhe literalmente milhões de possibilidades, das quais ela escolheu apenas uma.
Olá.
Eu sou Alhambra, assim chamada por causa do lugar onde fui concebida. Acredite. Tudo aqui é a sério.
De minha mãe: boas maneiras sob pressão; os usos do mistério; como obter o que quero. De meu pai: como desaparecer, como não existir.