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Companhia das Letras
SOBRE A BELEZA
Zadie Smith



1.

Podemos muito bem começar pelos e-mails de Jerome a seu pai:

Para: HowardBelsey@fas.Wellington.edu
De: Jeromenoexterior@easymail.com
Data: 5 de novembro
Assunto:


Oi, pai - o lance é que eu vou continuar continuando a mandar esses e-mails - já não espero que vá responder, mas ainda desejo que responda, se é que faz sentido.
Bem, estou aproveitando tudo bastante. Trabalho no escritório do próprio Monty Kipps (sabia que na verdade ele é Sir Monty??), que fica na região do Green Park. Somos eu e uma garota de Cornwall chamada Emily. Ela é legal. Há também outros três estagiários ianques no andar de baixo (um deles é de Boston!), portanto me sinto bastante em casa. Sou meio que um estagiário com tarefas de assistente pessoal - organizar almoços, arquivar, falar com pessoas no telefone, esse tipo de coisa. O trabalho de Monty é muito mais do que as coisas acadêmicas: ele está envolvido com a Comissão Racial, e tem instituições beneficentes ligadas à Igreja em Barbados, Jamaica, Haiti etc. - ele me mantém muito ocupado. Como é uma estrutura muito pequena, acabo trabalhando muito próximo dele - e, é claro, estou morando com a família agora, que é como estar completamente integrado em algo novo. Ah, a família. Você não respondeu, então estou imaginando a sua reação (não é muito difícil imaginar...). A verdade é que foi só a alternativa mais conveniente para o momento. E eles foram gentis demais em oferecer - eu estava sendo despejado do lugar das "quitinetes" em Marylebone. Os Kipps não têm nenhuma responsabilidade sobre mim, mas eles convidaram e eu aceitei - agradecido. Agora faz uma semana que estou na casa deles e ainda não se tocou no assunto do aluguel, para ter uma idéia. Sei que você quer que eu diga que está sendo um pesadelo, mas não está - adoro morar aqui. É um universo diferente. A casa é simplesmente uau - início do vitoriano, parte de um conjunto de casas - modesta por fora, só que imensa por dentro - mas ainda assim há uma certa humildade que realmente me agrada - quase tudo branco, cheio de coisas feitas à mão, colchas, prateleiras de madeira escura, sancas e uma escada de quatro patamares - e no lugar todo há apenas uma televisão, que ainda assim fica no porão, só para o Monty manter-se em dia com as notícias e algumas coisas que ele faz na televisão - mas é só isso. Penso nela como uma imagem em negativo da nossa casa, às vezes... Fica num pedacinho de North London chamado "Kilburn", que soa bucólico, mas ah não senhor, não é nem um pouco bucólico, tirando essa rua onde moramos, longe da "rua principal", onde de repente não se escuta mais nada e dá pra sentar no quintal debaixo da sombra de uma árvore enorme - vinte e cinco metros de altura, com o tronco todo coberto de heras... lendo e sentindo-se dentro de um romance... O outono é diferente aqui - bem menos intenso, e as árvores ficam sem folhas bem mais cedo -, tudo mais melancólico por algum motivo.
A família é um outro papo - eles merecem mais espaço e tempo do que tenho agora (estou escrevendo isso no meu horário de almoço). Mas em resumo: um filho, Michael, boa-pinta, elegante. Um pouco enjoado, acho. Você ia achar, pelo menos. É um homem de negócios - o tipo exato de negócio eu ainda não consegui descobrir. E ele é enorme! Tem cinco centímetros a mais que você, no mínimo. Todos eles são grandes, daquele jeito atlético, caribenho. Ele deve ter um metro e noventa e cinco. Tem também uma filha muito alta e linda, Victoria, que só vi em fotos (ela está viajando de trem pela Europa), mas ela volta para passar um tempo aqui na sexta, acho. A esposa de Monty, Carlene - perfeita. Mas ela não é de Trinidad - é de uma ilha pequena, Saint alguma coisa - não tenho certeza. Não escutei muito bem quando ela disse a primeira vez, e agora meio que ficou tarde demais para perguntar. Vive tentando me engordar - me alimenta constantemente. O resto da família conversa sobre esportes, Deus e política, e Carlene paira sobre tudo como uma espécie de anjo - e ela está me ajudando com as orações. Ela sabe mesmo como orar - e é muito bom poder orar sem alguém da sua família entrando no quarto e (a) soltando pum (b) gritando (c) analisando a "impostura metafísica" da oração (d) cantando alto (e) rindo.
Então essa é Carlene Kipps. Diz pra mãe que ela sabe cozinhar. Só diz isso e depois dá uma risadinha e sai andando...
Mas olha só, escuta essa próxima parte com cuidado: de manhã, TODA A FAMÍLIA KIPPS toma café junta e conversa JUNTA e depois entra num carro JUNTA (está anotando?) - eu sei, eu sei - não é fácil fazer a sua cabeça. Nunca conheci uma família que quisesse passar tanto tempo junta.
Espero que consiga ver, diante de tudo que escrevi, que a sua rixa, ou seja lá o que for, é uma perda completa de tempo. É só da sua parte, de qualquer forma - Monty não se envolve em rixas. Vocês nem se conhecem - é só um monte de debates públicos e cartas bestas. Quanto desperdício de energia. A maior parte da crueldade deste mundo não passa de energia colocada no lugar errado. Enfim: preciso ir - o trabalho chama!

Meu amor para a mãe e Levi, amor parcial para Zora,
E lembre-se: amo você, pai (e rezo por você, também)
Ufa! Maior e-mail de todos os tempos!

Jerome XXOXXXX


Para: HowardBelsey@fas.Wellington.edu
De: Jeromenoexterior@easymail.com
Data: 14 de novembro
Assunto: Oi de novo


Pai,
Obrigado por me encaminhar os detalhes sobre a dissertação - poderia ligar para o departamento em Brown e tentar me arranjar um prolongamento de prazo? Agora começo a entender por que Zora se matriculou em Wellington... é bem mais fácil estourar prazos quando o professor é o papai? Li seu questionamento de uma única linha e depois procurei, como um idiota, algum outro anexo (tipo uma carta, por exemplo???), mas acho que você está ocupado/brabo etc. demais para escrever. Bem, eu não. Como vai o livro? A mãe disse que você estava com dificuldades para ir em frente. Já encontrou alguma maneira de provar que Rembrandt não valia nada??
Os Kipps continuam subindo no meu conceito. Terça, fomos todos juntos ao teatro (o clã inteiro está em casa, agora) e assistimos a um grupo de dança sul-africano, e depois, voltando de "tube", começamos a cantarolar uma das músicas do espetáculo e acabou com todo mundo cantando a plenos pulmões, conduzidos por Carlene (ela tem uma tremenda voz), e até Monty participou, porque no fundo ele não é o "psicótico de mal com a vida" que você pensa que ele é. Teve mesmo algo de encantador, a cantoria, o trem subindo à superfície, depois enfrentar o tempo chuvoso voltando a pé para aquela casa linda e comer um curry de frango caseiro no jantar. Mas vejo a cara que está fazendo enquanto digito isso, então vou parar.
Outra novidade: Monty mergulhou de cabeça no que é a grande carência dos Belsey: lógica. Ele está tentando me ensinar xadrez, e hoje foi a primeira vez que não perdi em menos de seis jogadas, embora tenha perdido, é claro. Todos os Kipps acham que sou atrapalhado e poético - não sei o que diriam se soubessem que entre os Belsey sou praticamente um Wittgenstein. Apesar disso, acho que eu os divirto - e Carlene gosta que eu fique com ela na cozinha, onde minha limpeza é vista como algo positivo em vez de algum tipo de síndrome anal-retentiva... devo admitir, porém, que acho um pouco sinistro acordar de manhã e me deparar com um silêncio pacífico (uns SUSSURRAM nos corredores para não acordar os outros), e uma pequena parte das minhas costas sente saudade da toalha molhada e enrolada de Levi, assim como uma pequena parte do meu ouvido não sabe o que fazer da vida agora que Zora não está mais gritando dentro dele. A mãe me mandou um e-mail para contar que Levi aumentou o número de acessórios de cabeça para quatro (gorro, boné, capuz do moletom, capuz do casaco) mais fones de ouvido - de modo que dá pra ver só um pedacinho do rosto dele, ao redor dos olhos. Dê um beijo bem ali por mim, por favor. E dê um beijo na mãe por mim também, e lembre-se de que amanhã falta uma semana para o aniversário dela. Dê um beijo em Zora e peça pra ela ler Mateus, 24. Sei como ela adora ler um trechinho das Escrituras diariamente.

Amor e paz em abundância,

Jerome XXXXX


P.S. em resposta ao seu "delicado questionamento", sim, ainda sou... apesar de seu evidente desprezo, me sinto bem tranqüilo em relação a isso, obrigado... vinte não é tão tarde assim entre os jovens de hoje em dia, especialmente os que decidiram aderir a Cristo. Foi estranho você ter perguntado, porque caminhei pelo Hyde Park ontem e pensei em você perdendo a sua com alguém que nunca tinha visto antes e nunca mais voltaria a ver. E não, não fiquei tentado a repetir esse incidente...


Para: HowardBelsey@fas.Wellington.edu
De: Jeromenoexterior@easymail.com
Data: 19 de novembro
Assunto:


Prezado dr. Belsey!

Não faço a menor idéia de como você vai receber essa! Mas estamos apaixonados! A filha do Kipps e eu! Vou pedir ela em casamento, pai! E acho que ela vai dizer sim!!! Tá curtindo esses pontos de exclamação!!!! O nome dela é Victoria mas todos a chamam de Vee. Ela é incrível, linda, brilhante. Vou fazer um pedido "oficial" hoje à noite, mas queria te contar antes. Aconteceu com a gente como os Cantares de Salomão, e não tem como explicar, a não ser dizendo que foi uma espécie de revelação mútua. Ela acabou de chegar aqui, semana passada - parece loucura, mas é verdade!!!! Sério: estou feliz. Por favor, tome dois Valiums e peça pra mãe me escrever um e-mail o quanto antes. Não tenho mais créditos nesse telefone e não gosto de usar o deles.

JXX



2.
"O quê, Howard? O que tenho diante de mim, exatamente?"
Howard Belsey apontou para sua esposa americana, Kiki Simmonds, o trecho relevante do e-mail que tinha imprimido. Ela pôs um cotovelo em cada lado da folha de papel e baixou a cabeça como sempre fazia ao se concentrar em letras miúdas. Howard se afastou até o outro lado de sua cozinha com sala de jantar para cuidar de uma chaleira chiando. Havia apenas essa única nota aguda - o resto era silêncio. Sua única filha, Zora, estava sentada num banquinho de costas para a cozinha, usando fones de ouvido e com os olhos reverentes apontados para a televisão. Levi, o menino mais novo, estava parado ao lado do pai na frente dos armários da cozinha. Os dois começaram a coreografar um café-da-manhã em muda harmonia: passando a caixa de cereal um para o outro, trocando utensílios, enchendo suas tigelas e compartilhando o leite de uma jarra de porcelana rosa com borda amarelo-clara. A casa dava para o sul. A luz atingia a porta dupla de vidro que dava acesso ao jardim e passava pelo arco que dividia a cozinha, repousando suavemente sobre a natureza-morta de Kiki, imóvel, lendo na mesa de café. À sua frente havia uma tigela vermelho-escura de cerâmica portuguesa contendo uma pilha alta de maçãs. A essa hora, a luz se estendia mais longe ainda, além da mesa do café, passando pelo corredor até chegar à menor das duas salas de estar. Ali, uma estante preenchida com os livros de bolso mais antigos da família fazia companhia a um pufe de camurça e uma otomana sobre a qual Murdoch, o dachsund, estava estirado sob um raio de sol.
"Isto aqui é sério?", perguntou Kiki, mas não recebeu resposta.
Levi estava fatiando morangos, passando-os na água e soltando-os dentro de duas tigelas de cereal. Era tarefa de Howard recolher os cálices sujos da fruta e jogá-los no lixo. Quando tinham quase terminado essa operação, Kiki virou os papéis de face para baixo sobre a mesa, tirou as mãos das têmporas e riu baixinho.
"Tem algo engraçado nisso?", perguntou Howard, indo para o balcão de café-da-manhã e apoiando os cotovelos nele. O rosto de Kiki respondeu com sua negritude impassível. Era essa expressão esfíngica que às vezes induzia seus amigos americanos a imaginar para ela uma procedência mais exótica do que realmente tinha. Na verdade, ela era de uma estirpe simples do interior da Flórida.
"Meu bem - tente ser menos jocoso", sugeriu. Pegou uma maçã e começou a cortá-la com uma das facas pequenas de cabo translúcido, dividindo-a em pedaços irregulares. Comeu devagar, um pedaço depois do outro.
Howard afastou o cabelo do rosto com as duas mãos.
"Desculpe - é que - você riu, então achei que devia ter algo engraçado."
"Como devo reagir?", disse Kiki, suspirando. Largou a faca e pegou Levi, que estava passando naquele momento com sua tigela. Agarrou seu robusto rebento de quinze anos pela cintura de brim, puxou-o para perto de si com facilidade e forçou-o a abaixar-se quinze centímetros, até a altura em que estava sentada, para poder enfiar a etiqueta de sua camiseta de basquete dentro da gola. Pôs um polegar em cada lado de sua cueca samba-canção para fazer mais um ajuste, mas ele se esquivou dela.
"Mãe, meu..."
"Levi, querido, por favor levante isso só um pouquinho... está tão baixa... não cobre nem a sua bunda."
"Então não é engraçado", concluiu Howard. Não lhe dava prazer nenhum cavoucar o assunto dessa maneira. Mesmo assim, ele insistiria nessa linha de interrogatório, por mais que não tivesse pretendido começar por aí, e sabia que era uma jornada sem volta rumo a resultado nenhum.
"Ai, Deus, Howard", disse Kiki. Ela virou de frente para ele. "Podemos discutir isso daqui a quinze minutos, não podemos? Quando as crianças estiverem..." Kiki se ergueu um pouco na cadeira ao escutar a tranca da porta da frente girar uma vez e depois outra. "Zoor, querida, atenda lá por favor, meu joelho está ruim hoje. Ela não consegue entrar, vamos, dê uma ajuda..."
Zora, comendo uma espécie de saquinho torrado cheio de queijo, apontou para a televisão.
"Zora, atenda agora, por favor, é a mulher nova. Monique... por algum motivo, as chaves não estão funcionando direito... achei que eu tinha pedido para você tirar cópias de um novo conjunto para ela... não posso ficar aqui o tempo todo, esperando ela chegar... Zoor, será que dá para levantar essa bunda..."
"Segunda bunda da manhã", comentou Howard. "Que bonito. Civilizado."
Zora saiu do banco e seguiu pelo corredor até a porta da frente. Kiki olhou outra vez para Howard com uma profundidade questionadora que ele confrontou com a expressão mais inocente de seu próprio rosto. Ela pegou o e-mail do filho ausente, levantou os óculos que estavam suspensos por uma corrente sobre o busto portentoso e os encaixou novamente na ponta do nariz.
"É preciso dar crédito a Jerome", murmurou enquanto lia. "Esse menino não é bobo... quando quer a sua atenção, ele com certeza sabe como conseguir", disse olhando subitamente para Howard e separando as sílabas como um caixa de banco contando notas. "A filha de Monty Kipps. Pá, pum. Pronto, você já está interessado."
Howard fechou a cara. "É isso que você tem a dizer."
"Howard... tem um ovo no fogo, não sei quem pôs para ferver, mas a água já evaporou... o cheiro está nojento. Desligue, por favor".
"Essa é a sua contribuição?"
Howard observou a esposa encher com toda a calma um terceiro copo de suco de tomate com marisco. Ela pegou o copo e o aproximou dos lábios, mas parou no meio e falou novamente.
"Puxa, Howie. Ele está com vinte. Está querendo a atenção do papai - e está procurando no lugar certo. Até esse estágio com o Kipps, para começar - ele poderia ter feito milhões de outros estágios. Agora vai casar com a caçula dos Kipps? Não precisa ser freudiano. Estou querendo dizer que a pior coisa que podemos fazer é levar isso a sério."
"Os Kipps?", perguntou Zora em voz alta, voltando pelo corredor. "O que está acontecendo - Jerome foi morar com eles? Mas que loucura completa... é tipo assim: Jerome - Monty Kipps", disse Zora, moldando dois homens imaginários à sua direita e à sua esquerda e repetindo o gesto. "Jerome... Monty Kipps. Morando juntos." Zora simulou um arrepio cômico.
Kiki emborcou seu suco e bateu o copo vazio com força na mesa. "Chega de Monty Kipps - estou falando sério. Não quero mais ouvir o nome dele esta manhã, juro por Deus." Consultou o relógio de pulso. "Que hora é a sua primeira aula? Por que você ainda está aqui, Zoor? Sabe? Por - que - você - está - aqui? Oh, bom dia, Monique", disse Kiki num tom de voz formal e um tanto diferente, livre de seu sotaque cantado da Flórida. Monique fechou a porta de frente e se aproximou.
Kiki lhe dirigiu um sorriso exausto. "Estamos enlouquecidos hoje... todo mundo está atrasado ou ficando atrasado. Como vai, Monique... tudo bem?"
A nova faxineira, Monique, era uma haitiana atarracada, mais ou menos da mesma idade de Kiki, ainda mais escura que Kiki. Era apenas sua segunda visita à casa. Vestia uma jaqueta da Marinha americana com a gola felpuda levantada e mostrava um olhar de apreensão defensiva, se desculpando pelo que daria errado antes mesmo que acontecesse. Tudo se tornava ainda mais lancinante e difícil para Kiki por causa das tranças de Monique: um aplique sintético laranja e vagabundo que precisava ser renovado e hoje parecia mais recuado que nunca sobre o crânio, preso por fios finos em seus cabelos ralos.
"Começo aqui?", perguntou Monique com timidez. Sua mão pairou próxima ao zíper superior de seu casaco, mas ela não o abriu.
"Na verdade, Monique, pode começar pelo escritório - o meu escritório", disse Kiki rapidamente por cima de algo que Howard começava a dizer. "Pode ser? Por favor, não mexa nos papéis - apenas empilhe, se puder."
Monique ficou parada no lugar, segurando o zíper. Kiki experimentou um estranho momento de nervosismo, imaginando o que aquela mulher negra pensava de ser paga por outra mulher negra para fazer faxina.
"Zora vai acompanhá-la - Zora, acompanhe Monique, por favor, vá agora, mostre a ela onde fica."
Zora saiu galgando a escada de três em três degraus e Monique foi se arrastando atrás dela. Howard saiu do proscênio e entrou em seu casamento.
"Se isso acontecer", disse Howard num tom equilibrado, entre goles de café, "Monty Kipps será um parente por afinidade. Parente nosso. Não parente de outra pessoa. Nosso."
"Howard", disse Kiki com o mesmo controle, "por favor, sem 'teatrinho'. Não estamos num palco. Acabei de dizer que não quero falar sobre isso agora. Sei que você me ouviu."
Howard fez uma pequena mesura.
"Levi precisa de dinheiro para um táxi. Se quer se preocupar com algo, se preocupe com isso. Não se preocupe com os Kipps."
"Kipps?", gritou Levi de algum lugar fora de vista. "Kipps quem? Qualé a deles?"
Esse sotaque artificial do Brooklyn não pertencia a Howard nem a Kiki, e só tinha chegado à boca de Levi três anos atrás, quando ele fizera doze anos. Jerome e Zora tinham nascido na Inglaterra, Levi, nos Estados Unidos. Mas o sotaque americano de cada um parecia, para Howard, um pouco artificial - não exatamente um produto daquele lar ou de sua esposa. Nenhum, entretanto, era tão inexplicável quanto o de Levi. Brooklyn? Os Belsey estavam trezentos e vinte quilômetros ao norte do Brooklyn. Howard chegou perto de fazer um comentário sobre isso naquela manhã (sua esposa o tinha alertado para não comentar a respeito), mas bem na hora Levi surgiu do corredor e desarmou seu pai com um sorriso cheio de espaços entre os dentes.
"Levi", disse Kiki, "querido, agora me interessei em saber - você sabe quem sou eu? Presta alguma atenção em tudo que acontece por aqui? Lembra de Jerome? Seu irmão? Jerome não aqui? Jerome cruzar grande oceano para lugar chamado Inglaterra?"
Levi trazia um par de tênis nas mãos. Ele os sacudiu para o sarcasmo da mãe e, fazendo cara feia, sentou-se e começou a calçá-los.
"E daí? Qualé? Conheço esse Kipps? Não tô ligado em nenhum Kipps."
"Jerome - vá para o colégio."
"Agora também me chamo Jerome?"
"Levi - vá para o colégio."
"Meu, por que vocês têm que ser tudo... só faço uma pergunta, só isso, e vocês têm que ficar tudo..." Levi ofereceu um gesto inconclusivo que não deu idéia nenhuma da palavra que faltava.
"Monty Kipps. O homem para quem seu irmão está trabalhando na Inglaterra", rendeu-se Kiki com a voz cansada. Howard achou interessante ver como Levi tinha conquistado essa desistência, confrontando a ironia corrosiva de Kiki com o seu oposto.
"Viu?", disse Levi, como se apenas através de seus esforços fosse possível chegar à decência e ao bom senso. "Foi tão difícil?"
"Então isso aí é uma carta do Kipps?", perguntou Zora, terminando de descer a escada e chegando por trás do ombro da mãe. Nessa pose, a filha curvada sobre a mãe, elas lembravam a Howard duas das carregadoras de água rechonchudas de Picasso. "Pai, por favor, preciso ajudar a responder dessa vez - vamos destruir ele. Para onde é? Para a Republic?"
"Não. Não, não tem nada a ver com isso - é de Jerome, na verdade. Ele vai se casar", disse Howard deixando o roupão abrir e virando para o outro lado. Aproximou-se das portas de vidro que davam para o jardim. "Com a filha do Kipps. Parece que isso é engraçado. Sua mãe acha hilário."
"Não, querido", disse Kiki. "Acho que acabamos de deixar claro que eu não acho hilário - acho que não sabemos o que está acontecendo - esse e-mail tem sete linhas. Não sabemos nem o que isso significa, e não vou ficar toda grilada por causa..."
"Isso é sério?", interrompeu Zora. Ela arrancou o papel das mãos de sua mãe e o trouxe para bem perto dos olhos míopes. "É uma porra duma piada, né?"
Howard apoiou a testa no grosso painel de vidro e sentiu a condensação ensopar suas sobrancelhas. Lá fora a democrática neve da Costa Leste continuava caindo, igualando as cadeiras do jardim às mesas, plantas, caixas de correio e estacas de cerca. Exalou uma nuvem em forma de cogumelo e depois a esfregou com a manga da camisa.
"Zora, você precisa ir para a aula, tá? E você realmente precisa abandonar esse linguajar dentro da minha casa - Hup! Hap! Nap! Não!", disse Kiki, cada vez encobrindo uma palavra que Zora tentava pronunciar. "Tá? Acompanhe Levi até o ponto de táxi. Não posso levar ele de carro hoje - você pode pedir para Howard lhe dar uma carona, mas parece que isso não vai acontecer. Eu vou ligar para Jerome."
"Não preciso de carona", disse Levi, e então Howard reparou propriamente em Levi e no que havia de novo em Levi: uma meia comprida de mulher, fina e preta, amarrada na cabeça com um nó atrás e um pequeno e involuntário bico em cima, parecendo um mamilo.
"Você não pode ligar para ele", disse Howard baixinho. Deslocou-se taticamente para o lado esquerdo de sua impressionante geladeira, para fora do alcance visual de sua família. "O telefone dele está sem crédito."
"O que você disse?", perguntou Kiki. "O que você está dizendo? Não consigo escutar."
De repente ela estava bem atrás dele. "Cadê o número do telefone dos Kipps?", exigiu, apesar de os dois saberem a resposta.
Howard ficou calado.
"Ah, é, isso mesmo", disse Kiki, "está na agenda, a agenda que foi deixada em Michigan, durante a famosa conferência em que você tinha coisas mais importantes na cabeça do que sua mulher e sua família."
"Podemos evitar isso agora?", pediu Howard. Quando se é culpado, só resta pedir para adiar do julgamento.
"Tanto faz, Howard. Tanto faz - de qualquer jeito, eu é que vou ter que lidar com isso, com as conseqüências dos seus atos, como sempre, portanto..."
Howard bateu na geladeira com o lado do punho.
"Howard, por favor, não faça isso. A porta abriu, ela... vai descongelar tudo, empurre do jeito certo, do jeito certo, até que ela - Tá bom: é lamentável. Isso se realmente aconteceu, o que não sabemos. Só nos resta dar um passo de cada vez até sabermos que diabo está acontecendo. Então vamos deixar assim e, não sei... discutir quando nós... bem, quando Jerome estiver aqui, para começar, e quando houver algo de fato a ser discutido, concorda? Concorda?"
"Parem de discutir", reclamou Levi do outro lado da cozinha, e depois repetiu a mesma coisa em voz alta.
"Não estamos discutindo, querido", disse Kiki inclinando o corpo até o quadril. Dobrou a cabeça para a frente e libertou os cabelos do lenço cor de fogo amarrado em sua cabeça. Ela os arranjava em duas grossas cordas trançadas que chegavam até as nádegas, como os chifres desenrolados de um carneiro. Sem olhar para cima, nivelou os dois lados do tecido, jogou a cabeça de novo para trás, deu duas voltas com o tecido ao redor dela e amarrou de novo, exatamente da mesma maneira, porém mais apertado. Tudo se ergueu dois centímetros, e com esse rosto novo e autoritário ela se apoiou na mesa e se dirigiu aos filhos.
"Tá, acabou o show. Zoor, deve ter uns dólares no pote ao lado do cacto. Entregue-os a Levi. Se não tiver, empreste alguns para ele e eu te pago mais tarde. Estou meio apertada este mês. Certo. Vão em frente e aprendam. Qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo."
Alguns minutos depois, com a porta recém-fechada por seus filhos, Kiki encarou o marido com uma tese de expressão facial de que somente Howard poderia conhecer todas as linhas e referências. Só por esporte, Howard sorriu. Em resposta, recebeu absolutamente nada. Howard parou de sorrir. Se houvesse uma briga, nenhum tolo apostaria nele. Kiki - que certa vez Howard, vinte e oito anos atrás, havia jogado sobre o ombro como um rolo de carpete para deitá-la, e deitar nela, pela primeira vez em sua primeira casa - tinha hoje sólidos cento e quinze quilos, e parecia vinte anos mais jovem que ele. Sua pele tinha aquela célebre vantagem étnica de não enrugar muito, mas, no caso de Kiki, o ganho de peso a tinha esticado de maneira ainda mais impressionante. Aos cinqüenta e dois, seu rosto ainda era o rosto de uma menina. O lindo rosto de uma menina briguenta.
Ela cruzou o recinto e forçou passagem com tanta força que ele foi empurrado para cima de uma cadeira de balanço adjacente. De volta à mesa da cozinha, ela começou a encher violentamente uma sacola com coisas que não precisava levar para o trabalho. Falou sem olhar para ele. "Sabe o que é esquisito? Como é que alguém pode ser professor de uma coisa mas ao mesmo tempo ser tão intensamente burro a respeito de todo o resto? Consulte o abecê da paternidade, Howie. Você descobrirá que, seguindo esse caminho, o oposto, o exato oposto do que você quer que aconteça vai acabar acontecendo. O exato oposto."
"Mas o exato oposto do que eu quero", avaliou Howard, balançando na cadeira, "é exatamente a porra que sempre acontece."
Kiki interrompeu o que estava fazendo. "Certo. Porque você nunca consegue o que quer. Sua vida é só uma orgia de privações."
Isso acenava para o conflito recente. Era uma proposta de arrombar com um chute a porta da mansão de seu casamento que conduzia a uma antecâmara de sofrimento. A proposta foi recusada. Em vez disso, Kiki deu início ao conhecido desafio de conseguir acomodar sua pequena mochila bem no meio de suas costas gigantes.
Howard se levantou e voltou a arrumar o roupão de forma decente. "Temos o endereço deles, pelo menos?", perguntou. "Endereço residencial?"
Kiki pressionou a ponta dos dedos nas têmporas como uma vidente de parque de diversões. Falou devagar, e, embora sua pose fosse sarcástica, seus olhos estavam úmidos.
"Quero entender o que você pensa que fizemos contra você. Sua família. O que foi que fizemos? Privamos você de alguma coisa?"
Howard suspirou e olhou para o outro lado. "Vou apresentar uma monografia em Cambridge na terça, de qualquer forma - bem que eu podia pegar um vôo para Londres um dia antes, nem que seja para..."
Kiki bateu com a palma da mão na mesa. "Ai, Deus, não estamos em 1910 - Jerome pode se casar com quem diabo ele quiser - ou vamos começar a fazer cartões de visita e pedir para ele conhecer somente as filhas dos acadêmicos que você por acaso..."
"Talvez o endereço esteja na calça verde de algodão."
Ela piscou os olhos até afastar a possibilidade de lágrimas. "Não sei onde o endereço talvez esteja", disse, imitando o sotaque dele. "Encontre você mesmo. Quem sabe está escondido embaixo daquela merda toda naquele seu maldito galpão."
"Muitíssimo obrigado", disse Howard, subindo a escada e começando a jornada de volta até seu escritório.