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Companhia das Letras
UMA QUESTÃO DE LOUCURA
Ismail Kadaré



1.Meu tio mais novo quer se matar

Senti que alguma coisa estava errada assim que entrei no jardim. A espreguiçadeira estava no lugar de costume, mas vovô não. Por terra estavam o livro arroxeado, a bolsa de tabaco e o cachimbo que havia tempo esfriara.
Quando empurrei o portão do quintal, quase gritei de espanto. Vovô estava de pé, coisa inusual, tão rara que ele até me pareceu outra pessoa. Falava com alguém, um homem de chapéu preto que eu nunca vira. Estavam tão entretidos na conversa que nem me notaram, dir-se-ia que era eu o desconhecido. Cuide principalmente de não esconder o revólver, dizia o homem do chapéu. Se alguém cismar de se matar, é mais fácil não ter um.
Ah, que será isso, pensei, enquanto subia a escada. No corredor do andar de cima, quase esbarrei na tia mais nova. Ela me abraçou num impulso melancólico cujo motivo não atinei. Parecia chorosa e culpada. Eu já reparara que mulheres bonitas pareciam ainda mais belas quando tinham alguma culpa.
- É você que vai se matar? - perguntei.
Ela me olhou com uns olhos arregalados de espanto.
- Quem te disse?
- Ouvi vovô falando com outro homem.
- Papai disse a alguém que eu queria me matar?
Cochichei.
- Não ouvi falarem seu nome, mas nesta casa... uma... alguém ia se matar. Foi o que ouvi... E que não era para esconder o revólver, era para deixar onde está.
- Você está variando - interrompeu a tia, cheia de fúria. Já ia embora, mas voltou-se subitamente.-Agora escute, seu bobo. O que você ouviu, ouviu errado e não deve contar para ninguém mais, entendeu? São segredos de família, não devem sair daqui, entendeu?
Ela continuou falando, inflamada, e no fim de cada frase voltava a dizer: "Entendeu?". Não sei onde iria parar com toda aquela fúria, mas, de repente, mudou de idéia. Aproximou o rosto de meu ouvido e numa voz macia me explicou que, embora ela tivesse culpa, era outro quem queria se matar. Esse outro era o irmão dela, quer dizer, meu tio mais novo, mas eu devia esquecer aquilo.
Minha cabeça deu um nó. Ela era culpada, mas não era ela que queria se matar. Era e não era. Prometi que ia esquecer, mas que pelo menos ela me contasse o que fizera de errado.
- Não fiz nada de errado - disse, pensativa. - Nada de errado - acrescentou, depois de uma pausa.
Ela repetiu várias vezes aquilo, e eu, a duras penas, entendi que realmente não fizera nada de errado, a não ser, um dia, sem querer, ter visto uma coisa... Uma coisa que nunca devia ter visto...
- E agora chega - disse ela. - Já falei mais do que devia. Você não vai me trair, vai?
Abraçou-me. Como de costume, cheirava bem. Quando se afastou, os cabelos louros se sacudiram inquietos, pareciam agravar a sua culpa.
Vagabundeei um tempo pela casa, à toa, mas não vi meu tio. Ele estava trancado no "empate", como chamávamos a sala da lareira, e só Deus sabe o que fazia. Aos meus olhos ele ganhara mais importância que nunca. Eu daria tudo para saber o que tinha acontecido.
A tia mais velha estendia as mantas no quintal. Eu tinha certeza de que ela sabia do mistério, e também de que não iria me contar. Pelos seus olhos escuros, cavos, e especialmente por sua timidez, ela tinha criado fama de inteligente, enquanto a mais nova, junto com os cabelos louros cacheados e os olhos como que desenhados por perigosos cacos de vidro, concentrara toda a maluquice da família.
Vovô finalmente se espichara na espreguiçadeira, com o livro diante de si, mas era sabido que a única chance de falar com ele seria ao anoitecer, quando ele se deixava levar pelo violino dos ciganos. Embora o regime tivesse mudado, a família estava ligada aos comunistas e vovô não sofrera nenhuma condenação, só o confisco das propriedades, de modo que os ciganos ainda viviam na varanda de casa, e à noitinha, tal como antes, tocavam violino.
Meu tio mais velho devia saber do caso melhor que ninguém (mais que irmãos, os dois eram amigos, tinham apenas um ano de diferença de idade e toda manhã iam juntos ao colégio), mas, sendo meio surdo, era a pessoa menos adequada para se ter uma conversa em segredo.
Mesmo assim me aproximei e perguntei onde estava o outro. Quem?, perguntou. O gabola?
Boquiaberto, escutei uma saraivada de palavrões como nunca tinha ouvido. Na qualidade de mais velho, naturalmente ele tinha o direito de espinafrar o caçula por aquela besteira de suicídio, mas a raiva dele tinha algo mais profundo.
Enquanto o ouvia, minha cabeça virava numa confusão. Segundo ele, em vez de ser digno de pena (como se não bastasse a perda de cabelos, agora mais aquilo), o tio mais novo era dissimulado e maluco. Quase o acusava de ter pretendido o suicídio por mania de grandeza.
O tio mais velho falava num crescendo. Junto com a roupa suja aparentemente lavava também suas opiniões.
Eu gostava igualmente dos dois tios. Gostava de tudo neles. Do modo como andavam ao voltarem do colégio, bonés de ginasianos na cabeça, dos livros que tinham no quarto, das lições de latim que faziam em conjunto e, principalmente, de quando conversavam exatamente em latim, para que os outros não entendessem. Dominus. Divide et impera. In extenso.
Mas a admiração partilhada não me impedia de enxergar, ora em um, ora em outro, uma aura de maior mistério. Pouco antes, por exemplo, o tio mais velho, ao barafustar pela casa ainda com uma atadura na cabeça, depois de uma operação no ouvido, transformara-se no meu ídolo. O mais novo, como que a perceber-se em desvantagem, e ver no suicídio o único modo de recuperar sua importância, pegara o revólver. Diante daquilo, só restava ao maior ir outra vez ao hospital enfaixar a cabeça com o dr. Babamet Grande, tal como da outra vez.
Em outras palavras, tudo explodia.
Com os olhos cintilando de um brilho maldoso, o tio maior continuava a resmungar palavras incompreensíveis: gnomo dos segredinhos, ser ou não ser, eis a questão, ha-ha, mistérios do Louvre, he-he.
Eu não queria mais ouvir aquilo. Assim, entristecido, saí do quarto. Quando descia a escada, ele gritou de longe:
- De qualquer modo, não fale com ninguém sobre isso.
Espantoso como todos insistiam que eu não devia falar com ninguém sobre aquele assunto. Ao cair da tarde, ao voltar para casa achei-a sem vida. Ao contrário de outras vezes, o almoço com vovô não fora alegre. Havia a mesma bureka gostosa e, principalmente, as mesmas sobremesas com figos que tinham feito a fama de vovó, mas nada importava.
Por causa do tio mais novo, que continuava trancado no "empate", faltavam as tiradas surpreendentes e, em especial, as palavras secretas em latim.
Eu estava convencido de que não existiam no mundo duas casas mais diferentes entre si que a de vovô e a nossa, em Palorto. Ninguém nunca imaginaria que ficavam na mesma cidade, ou até no mesmo país.
Às vezes me parecia que a única coisa semelhante entre as duas eram os mistérios. Enquanto eu me aproximava de Palorto, ia pensando exatamente neles. Na verdade, quebrava a cabeça para aquilatar se, com o novo segredo do suicídio, a casa de vovô suplantaria a nossa em enigmas. Até o momento os dois mistérios principais estavam divididos equitativamente, um para cada casa. O nosso era a cela, enquanto o de lá era o misterioso irmão de vovô.
A cela era, como dizia o nome, uma prisão. Só as casas mais velhas da cidade tinham uma assim. Era um aposento cavado na pedra, perto da coluna principal. Não tinha porta, só um alçapão que se abria de cima, para descarregar o prisioneiro. Depois, a escada era erguida e o alçapão, fechado.
Tudo isso acontecia nos tempos antigos. A tia contara que naquela época havia dois tipos de prisão, porém o doméstico era o principal. O outro, do Estado, segundo ela era mais para fazer alarde que para prender.
Com muito esforço eu conseguira captar algo do que minha tia contava. A prisão de alguém, a condenação, o trancafiamento ou a saída da cela, tudo transcorria em silêncio e em segredo, dentro dos muros de casa. Sem polícia, sem juízes e sem júri.
Mesmo vovó nunca chegara a ver uma cela ser usada desde os tempos de noiva em Palorto. Antes sim, todas as histórias contavam. A mais assombrosa delas era a do tataravô, cujo nome era o mesmo que o meu. Certa vez ele acordara no meio da noite ao lembrar de uma antiga culpa sua. Levantem, mulheres, bradara, preparem um estrado e a bilha d'água, que vou me enfiar na cela. E assim fizera de fato, por algumas semanas, até que suas contas lhe dissessem que havia cumprido sua pena.
Ao contrário da cela, cujo alçapão ainda estava ali e podia ser tocado, o segredo da casa dos avós era invisível e nebuloso. Tratava-se de um irmão de vovô, um irmão que nunca ninguém vira. Normalmente ninguém nunca falava dele, e quando se fazia alguma referência era em voz baixa e em monossílabos.
Ele não fora condenado nem fizera nada de vergonhoso, como eu chegara a pensar. Apenas morava muito longe, no norte da Albânia. E além disso tinha outra religião. A tia mais velha me explicara que isso não era motivo para arregalar os olhos de espanto. Um ramo do tronco dos Dobatë permanecera católico, coisa semelhante acontecera com algumas velhas famílias, inclusive a nossa, em Palorto.
Na realidade, conforme eu deduzira dos raros murmúrios sobre o caso, havia muito tempo se esperava que o irmão de vovô aparecesse. Mas ele nunca viera. Nem mesmo na véspera ou no desenlace de um grande acontecimento. Ele não viera, por exemplo, quando foi proclamada a Monarquia, tampouco na semana em que ela veio abaixo. E assim por diante: o mesmo acontecera com o cometa de 1942, mais tarde com a chegada dos alemães e a seguir com a dos comunistas. Depois disso, alguém dissera: Agora ele não vem mais.
Eu achava que viria.