Livro acessível
0
Carrinho
Títulos / Companhia das Letras / JOAQUIM NABUCO
Companhia das Letras
JOAQUIM NABUCO
Angela Alonso



1. Dândi


"Que hei de dizer depois do fato consumado? [...] Enfim, o que está feito está feito, mas erraste", escreveu o senador Nabuco de Araújo ao filho, em 10 de junho de 1874. Com esse juízo ressoando na cabeça, Joaquim desceu em Charing Cross. Viajava pela Europa há quase um ano, passando por Paris, pela Itália e por Genebra. Ao longo do caminho dilapidara sua pequena herança e deixara escapar um dos maiores dotes brasileiros do século. Foi de noivado rompido que Joaquim Nabuco, na intimidade o Quinquim, conheceu finalmente a capital do Império Britânico.


O BELO

"Vi-o pela primeira vez em Londres", lembra Henrique Coelho. "Era ele branco alvíssimo. [...] nas suas delicadas feições, de rara beleza varonil, parecia europeu [...]." Apesar do um metro e oitenta e seis, era bem-proporcionado, feições delicadas, gestos graciosos. Movia-se com passadas largas, sorriso nos lábios. Tinha o hábito de pôr uma mão na cintura ou no bolso, enquanto a outra, cofiando o bigode, escondia parte do rosto perfeitamente simétrico. Ao falar, conta seu colega Afonso Celso Jr., acabava por "enfiar dois dedos da mão direita na algibeira do colete", completando seu "ar de desembaraço e petulância". Esse era Joaquim Nabuco, aos 25 anos.
Cônscio da impressão que causava, ficou vaidoso na adolescência. O gosto vinha de casa. Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo cresceu numa família bem estabelecida no mundo social do Segundo Reinado. Seu pai, José Thomaz Nabuco de Araújo, baiano, se fixara em Pernambuco, onde cursara a tradicional faculdade de direito. Era filho de senador, mas não rebento da aristocracia puro-sangue brasileira, a fundiária. A hierarquia social era bem mais complexa do que a divisão entre livres e escravos leva a supor. No ápice estavam os grandes proprietários de terras, mas havia grupos ascendentes, como os cafeicultores de São Paulo, gente estacionária, caso dos estancieiros gaúchos; e comerciantes, empregados urbanos, profissionais liberais, funcionários públicos que contavam com poucos canais de ascensão. Havia ainda os "áulicos", que auferiam poder e prestígio social por integrar a corte do imperador. Nabuco de Araújo pertencia à aristocracia burocrática, chamada então "do talento": homens sem grande lastro econômico, que faziam carreira no Estado. Nabuco de Araújo chegara a ela casando-se, em 1840, com uma Suassuna, família aliada dos Cavalcanti, a grande oligarquia territorial pernambucana. A partir daí se estabeleceu. Seu escritório jurídico logrou reputação e freqüentes consultorias ao Estado. Ascendeu a quase todos os postos políticos relevantes e foi assimilado à sociedade de corte - mas sem acumular patrimônio. Joaquim Nabuco nasceu, pois, numa família que compunha a aristocracia de segunda divisão.
A política situou os Nabuco no Rio de Janeiro, coração do Império. Tinha 275 mil habitantes em 1872 e era a maior cidade da América do Sul. Grande porto brasileiro, entrecruzamento do comércio externo e dos negócios provinciais, do dinheiro velho do tráfico de escravos e do novo, vindo da exportação do café. Desde os anos de 1840, o boom da zona cafeeira do Vale do Paraíba engordava a nata do Partido Conservador, os saquaremas, que, nos termos do historiador Ilmar Matos, deram a direção do Segundo Reinado. Sua opulência azeitou atividades urbanas - comércio, bancos, atravessadores, companhias de transporte, firmas de exportação. A infância de Joaquim Nabuco correu durante essa era de ouro fluminense. Tudo confluía para o Rio. Capital política, sediava o Parlamento, ministérios, autarquias, legações estrangeiras. Tinha três faculdades, o principal colégio secundário, os grandes jornais, editoras, associações político-intelectuais. O extenso funcionalismo público e o volumoso contingente de letrados animavam o circuito cultural em torno do imperador. D. Pedro II reinava sobre vinte províncias e um séqüito de cortesãos, que ditavam todas as modas.
Os Nabuco se educaram nos hábitos de corte. A começar pela apresentação. A sedução era um imperativo - e não só em relação ao sexo oposto. A vida social era um contínuo exercício de autocontrole e de conquistas. Importava a graça de um chiste, a fala espirituosa, a polidez, a erudição. Nisso, os Nabuco eram do primeiro time. Finíssimos. Nabuco de Araújo era garboso - "o belo porte, a cabeça bem formada, o rosto escanhoado", lembra Tobias Monteiro, envolvia-se em indumentária impecável. Sempre aprumado em seu escritório numa das salas da residência do Catete e, a partir de 1860, quando os salários de senador e conselheiro de Estado se somaram, na vasta biblioteca da casa de três andares da rua Bela da Princesa no. 1 (atual Correia Dutra), esquina da praia do Flamengo. No salão de festas, d. Ana Benigna, nem tão alta nem tão bonita quanto os homens da casa, compensava-se bem com uma personalidade imperiosa, tratando de igual para igual os políticos, que apreciavam seus quitutes e não tinham como se furtar a suas opiniões. Em seus freqüentes saraus, Joaquim, quarto de seus cinco filhos, aprendeu os maneirismos do meio aristocrático brasileiro.
Como o irmão mais velho, Sizenando, Joaquim foi educado no manejo das maneiras, das palavras, na modulação do corpo e da voz, de modo a encarnar as marcas de seu grupo social. O refinamento era completado por um preceptor. José Herman de Tautphoeus, barão bávaro, antes freqüentador do famoso Journal des Debats, ensinou línguas, história e literatura a Joaquim e a seu outro irmão, Vitor, em 1859, em Nova Friburgo.
Antes disso, sua educação fora tacanha. A primeira infância transcorrera no interior de Pernambuco, num engenho na freguesia de Santo Antônio do Cabo: o Massangano. Logo que nasceu, em 19 de agosto, no aterro da Boa Vista, 39 (atual rua da Imperatriz Teresa Cristina, 147), ponto nobre do Recife, às margens do rio Capiberibe, foi batizado com o nome do padrinho, Joaquim Aurélio Pereira de Carvalho, e posto sob guarda dele e da mulher, Ana Rosa Falcão de Carvalho. Naquele 1849, Nabuco de Araújo, reeleito deputado, mudava-se para a corte, deixando o terceiro filho confiado a essas gentes, de muitas posses e nenhum herdeiro. Entre eles se tornou Quinquim, apelido que vingou por toda a juventude. Assim, embora a família não tivesse terras, foi o clássico menino de engenho, crescendo misturado à natureza e à escravaria, apegado à sua ama-de-leite, "mãe Rosa", e amigo de algazarras perdoadas no confessionário.
O Massangano era um engenho de fogo morto; não produzia mais. Expressão da decadência da antes poderosa "açucarocracia" de Pernambuco. Mundo parado, com rendeiros, agregados e poucos escravos cantando lundus na senzala, integrados à vida doméstica de senhores patriarcais parcimoniosos no uso do açoite. Em sua autobiografia, Nabuco rememoraria o Massangano como um "pequeno domínio, inteiramente fechado a qualquer ingerência de fora, como todos os outros feudos da escravidão". Sobre ele imperava a casa-grande, no mais sóbrio estilo colonial, com três janelas arredondadas de cada lado da entrada principal. Diante dela "os edifícios da moagem, e tendo por trás, em uma ondulação do terreno, a capela sob a invocação de São Mateus. [...] perto da casa um grande viveiro, rondado pelos jacarés [...]. Mais longe começavam os mangues [...]". Entre uma coisa e outra, os extensos canaviais e, adiante, o rio Ipojuca, onde Quinquim se banhava com seus companheiros de brincar, Marcos e Vicente, moleques da casa. Aliás, conta ele em Minha formação que, intercedendo junto à madrinha em favor de um terceiro, teria não só obtido o perdão como o escravo.
O padrinho, homem do mundo, dado ao luxo, morreu logo. D. Ana Rosa, corpulenta, inválida, em luto fechado, criou sozinha Quinquim, enchendo-o de dengos até seus oito anos. Foi profunda a vinculação afetiva entre a viúva e o menino separado da família. Nas cartas ao compadre, ela o chamava "nosso filho". Incutiu-lhe sua emotividade e seu catolicismo tosco e piedoso. Deu-lhe a função de coroinha na capela da fazenda. Um mestre-escola local ministrou-lhe as primeiras letras, incluindo-o entre os 15% dos brasileiros que sabiam ler e escrever. Depois, num colégio do Recife, aprendeu latim e aritmética. A casa tinha boa mobília, mas biblioteca sofrível, dominada por livros de reza e folhetins da moda. Quinquim escapou desse mundo, purgando sua maior perda afetiva, narrada em Minha formação, como puro desamparo: "A noite da morte da minha madrinha é a cortina que separa do resto de minha vida a cena da minha infância. Eu não imaginava nada, dormia no meu quarto com a minha velha ama, quando ladainhas entrecortadas de soluços me acordaram e me comunicaram o terror de toda a casa. No corredor, moradores, libertos, os escravos, ajoelhados, rezavam, choravam, lastimavam-se em gritos [...]. Uma cena de naufrágio".
Nabuco de Araújo enviou seu agregado Julião Jorge Gonçalves para buscar o filho, sua ama, Marcos e Vicente, alforriados, como era costume, por ocasião da morte de sua dona. O moleque que ganhara da madrinha foi com o engenho inteiro para outro afilhado. Enxotado de seu pequeno reino, Quinquim realizou uma verdadeira epopéia até o lar original. Conheceu então a posição do pai. Ganhou pernoites, almoços, cuidados de notabilidades no trajeto a cavalo até o Recife e nas paradas do vapor para a corte. Na Bahia, hospedou-se no palácio do governo, de onde Cansansão de Sinimbu presidia a província. No percurso foi sumindo o menininho de d. Ana Rosa enquanto se tecia o herdeiro do ministro da Justiça. A identidade social suplantava a identificação afetiva, e Quinquim começava a virar Nabuco.
Na viagem, o menino reconheceu em toda parte as marcas da instituição que, homem-feito, combateria. A escravidão nascera com o país. Fora a base da agricultura colonial de exportação, combinada ao latifúndio e à monocultura. O Segundo Reinado manteve o modelo. Como até 1850 o comércio de africanos era livre, e o preço, baixo, a escravidão se infiltrou em toda a vida social e no país inteiro. Ganhou muitos usos, além da plantation, na lavoura de subsistência e no trabalho doméstico.
Quando Quinquim nasceu, o Rio de Janeiro era "uma cidade quase negra", no dizer de Luiz Felipe de Alencastro. A maior aglomeração de escravos desde o Império Romano: 110 mil - perto de metade da população. Podiam ser vistos aos montes no Valongo - o grande mercado na boca do porto. Em meio a sujeira, miséria, endemias, casebres de palha multiplicavam-se por sobre o mangue, ancestrais, diz Gilberto Freire, do "mocambo" urbano brasileiro.
Em 1850, sob pressão inglesa, o gabinete Eusébio de Queirós proibiu o tráfico. Então a escravidão se configurou como problema. Ao contrário dos Estados Unidos, os senhores brasileiros não desenvolveram um bom sistema de reprodução em cativeiro. Dependiam da entrada de novos africanos para repor sua utilização extensiva pela grande lavoura. E o tráfico por si dava bons lucros. Por isso seguiu ilegal até a intervenção enérgica de Nabuco de Araújo, ministro da Justiça, que processou donos de engenho pouco antes de o Quinquim chegar em casa.
Viveu os dois mundos. Na casa-grande de d. Ana Rosa, conheceu a escravidão familista do engenho, restos do mundo colonial. Em casa do pai, viu o vigor da escravidão comercial, convertida em negócio. Pelas ruas, trabalhavam "ao ganho", alugados, dominavam o comércio ambulante: eram carregadores, lixeiros, vendedores, costureiras, quituteiras. A criadagem, a começar pela ama de leite, era toda de origem africana. A primeira providência de um alforriado de Brás Cubas foi comprar um escravo. A escravidão era uma segunda natureza, integrada na paisagem; meio e estilo de vida.
[...]

Grupo Companhia das Letras

Editora Schwarcz S.A. - São Paulo
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 - São Paulo - SP
Telefone: 11 3707-3500
Fax: 11 3707-3501
Editora Schwarcz S.A. - Rio de Janeiro
Praça Floriano, 19, sala 3001
20031-050 - Rio de Janeiro - RJ
Telefone: 21 3993-7510
Todos os direitos reservados 2020