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Títulos / Companhia das Letras / POESIA 1902-1917
Companhia das Letras
POESIA 1902-1917
Fernando Pessoa



Mote: Teus olhos, contas escuras,
São duas Avé-Marias
Do rosário de amarguras,
Que eu rezo todos os dias.

[Augusto Gil]


Glosa

Quando a dor me amargurar,
Quando sentir penas duras,
Só me podem consolar
Teus olhos, contas escuras.

Deles só brotam amores,
Não há sombra d'ironias,
Esses olhos sedutores
São duas Avé-Marias.

Se acaso a ira os vem turvar,
Fazem-me sofrer torturas
E as contas todas rezar
Do rosário d'amarguras.

Ou se os alaga a aflição,
Peço p'ra ti alegrias
Numa fervente oração
Que eu rezo todos os dias.

Lisboa - Março, 1902

Mote: Um adeus à despedida

Glosa

Quem nunca se despediu
Pode julgar-se feliz,
A pessoa que assim diz
É porque sempre sorriu.
Mas se outra dor a feriu -
A da morte desvalida
Que deixa maior ferida
De saudade e de amargura
Maior do que essa tortura -
Um adeus à despedida.

Abril, 1902


Mote: Não posso viver assim!

Glosa

Mina-me o peito a saudade.
Haverá maior tormento,
Ou um veneno mais lento
Que turva a felicidade,
Que vence a própria vontade,
Que quasi nos mata enfim?
Este que me fere a mim
Foi causado pela sorte,
Foi cavado pela morte...
Não posso viver assim!

27-4-1902