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Companhia das Letras
POESIA 1918-1930
Fernando Pessoa



GOMES LEAL

Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a amargura, a solidão...
Oito luas fatais fitam do espaço.

Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

Inúteis oito luas da loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!

Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura...
É a lua além de Deus, álgida e ignota.

27-1-1924 (alt./a.m.)



ENIGMA

No fundo de tudo quanto pensamos
Há a caverna do que nós vemos
Sonhos lhe bóiam na sombra aberta.
Uma árvore vela-a com rede-ramos
Terá de ramos luzindo pomos
Pomos-estrelas na noite deserta.
Por trás das costas do visto mundo
Por trás de nós se sonhamos ver,
Fogem de um onde ladeando estar,
Ramos sem sede cruzando o fundo
Do pensamento e caverna - ser
Com sonhos boiando no cavernar.

Quadro - boiando do fundo da alma,
Com pomos luzindo na árvore-parte,
Com o segredo por trás de aquém...
Brilha um instante na luz sem calma
Como um relâmpago de 'standarte,
E em tudo isto não há ninguém.

11-2-1924