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Companhia das Letras
DENTRO DA FLORESTA
David Remnick



PARTE I

A campanha do ostracismo: Al Gore

"Ei, Dwayne!... Dwayne!"
"Sim, senhor vice-presidente?"
"Poderia me trazer mais um pouco de café?"
"Sim, senhor vice-presidente. Já estou indo..."
"Obrigado, Dwayne."
Eram dez da manhã em Nashville, um dia de semana tranqüilo; a maioria dos vizinhos tinha saído para trabalhar, e Albert Gore Jr. estava sentado à cabeceira da mesa da sala de jantar, tomando o café-da-manhã. O prato estava cheio, com ovos mexidos, bacon, torrada. A caneca enorme tinha sido rapidamente reabastecida por Dwayne Kemp, seu cozinheiro, homem habilidoso e educado que fora contratado pelos Gore quando, como seu patrão sempre diz, "nós ainda trabalhávamos na Casa Branca". De banho tomado e barba feita, Gore estava usando uma camisa azul-escura e calça de lã cinza. Nos meses que se seguiram à perda da batalha pelos votos eleitorais da Flórida e depois de reconhecer a vitória de George W. Bush, no dia 13 de dezembro de 2000, Gore pareceu relaxar, saindo de cena e viajando pela Espanha, Itália e Grécia durante seis semanas com sua esposa, Tipper. Usava óculos escuros e um boné de beisebol enterrado na cabeça. Deixou crescer uma barba de montanhês e ganhou peso. Quando começou a aparecer em público novamente, quase sempre em salas de aula, passou a se apresentar dizendo: "Oi, meu nome é Al Gore. Eu costumava ser o próximo presidente dos Estados Unidos". As pessoas olhavam para aquele homem corpulento e hirsuto - um político que havia não muito tempo recebera 50999897 votos como candidato à presidência, mais do que qualquer democrata na história, mais do que qualquer candidato na história, com exceção de Ronald Reagan em 1984, e mais de meio milhão de votos a mais do que o homem que assumiu o cargo - e não sabiam muito bem o que sentir ou como se comportar, e acabavam cooperando com as esmeradas manifestações de autodepreciação dele. Elas riam de suas piadas, como se para ajudá-lo a apagar aquilo que todos entendiam ser uma decepção de proporções históricas - "o desgosto de toda uma vida", como disse Karenna, a mais velha de seus quatro filhos.
"É como se costuma dizer", Gore explicava a uma platéia atrás da outra. "A gente ganha umas, perde outras - e tem aquela terceira categoria menos conhecida."
Desde essa época Gore já perdeu a barba, mas não o peso. Ele ainda está acima do peso. Come com rapidez e entrega-se ao ato por inteiro, com total satisfação, exatamente como um homem que não tem mais de se importar se vai parecer gordo no programa Larry King Live. "Quer uns ovos mexidos?", perguntou ele. "Dwayne é o máximo."
Essa era a primeira temporada eleitoral em que Al Gore não disputava um cargo público. Ele concorreu à presidência em 1988, com 39 anos; à vice-presidência, junto a Bill Clinton, em 1992 e 1996; e depois novamente à presidência em 2000. Depois de decidir que uma nova disputa contra Bush traria muito conflito (ou talvez fosse muito difícil), Gore esforçou-se para não lamentar aquilo que não fez. Em vez disso, passou a usar palavras como "liberado" e "livre" com uma convicção inabalável para descrever sua condição interior. Ele estava livre do fardo, livre da pressão, livre dos olhos das câmeras. Em sua casa em Nashville, o telefone tocava poucas vezes. Não havia ninguém da equipe, nem assessores à sua volta. Ele podia dizer o que quisesse e isso causava pouca repercussão na mídia. Quando tinha vontade de chamar George Bush de "covarde moral", quando tinha vontade de comparar Guantánamo e Abu Ghraib a ilhas em um "gulag americano", ou os agentes de mídia do presidente a "fascistas digitais", ele simplesmente o fazia. Sem preocupações, sem hesitação. É verdade que, ao meio-dia no Belcourt Theatre, ele iria discursar para um grupo chamado Music Row Democrats, mas as únicas câmeras que estariam por lá seriam de estações locais. De maneira brincalhona, ele resumiu o discurso na folha de um pequeno bloco de anotações com apenas duas palavras: "guerra" e "economia".
Depois que Al e Tipper Gore recuperaram-se do choque inicial da eleição de 2000, eles gastaram 2,3 milhões de dólares na casa em que moram agora: uma construção em estilo colonial de cem anos de idade no Lynwood Boulevard, na área de Belle Meade, em Nashville. Eles ainda possuem uma propriedade em Arlington, Virgínia - uma casa que foi construída pelo avô de Tipper -, e uma fazenda de gado de 36 hectares na sede da família Gore em Carthage, Tennessee. Mas Arlington ficava perigosamente perto de Washington, e Carthage era longe demais para se fixar residência, especialmente para Tipper. Belle Meade, que se parece com Buckhead, em Atlanta, ou com Mountain Brook, em Birmingham, é um próspero reduto para executivos e estrelas da música country. Abrange uma área de grandes gramados em declive, e casas com magnólias e entradas de carro amplas na frente e anexos envidraçados e piscinas nos fundos. Chet Atkins foi um dos vizinhos; Leon Russell ainda é. Algumas das características da casa, que o casal ampliou com a ajuda de um arquiteto, são nitidamente ao estilo Gore: a bateria de Tipper na sala de visitas (completa, com congas); fotografias de Al sorrindo e apertando as mãos dos Clinton e de líderes mundiais em todas as paredes. Há menos livros e mais televisores do que se poderia esperar. Quando o arquiteto estava projetando o anexo na parte de trás do imóvel, Gore pediu-lhe que curvasse as paredes para dentro em dois lugares para evitar o corte de várias árvores. "As árvores não tinham nada de especial, não eram raras nem nada", disse ele. "Eu apenas não suportava a idéia de ter de cortá-las." No terreno nos fundos da casa, ao redor do pátio e da enorme piscina, onde Al e Tipper se exercitam, Gore também instalou um sistema contra insetos que borrifa uma fina névoa de crisântemos rasteiros a partir de lugares diferentes, como o tronco de uma árvore ou uma das paredes do pátio. "Os mosquitos odeiam", comentou. Outras atrações da casa são menos ambientalmente corretas. Um Cadillac preto 2004, que Gore dirige, estava estacionado na entrada para carros. Um Mustang 65 - presente de Dia dos Namorados que Al deu para Tipper - estava na garagem.
Gore terminou de comer os ovos. Andou até um pátio coberto na lateral da casa e acomodou-se em uma cadeira macia. Dwayne trouxe-lhe a caneca de café e a encheu novamente.
Não se pode dizer que Gore tenha sido um recluso desde que decidiu, no final de 2002, que não iria se candidatar novamente. No ano passado, ele fez uma série de discursos em Nova York e Washington criticando severamente a administração Bush, mas respondeu a poucas perguntas. "É melhor assim, por uns tempos", disse. Fez palestras pelo mundo todo e foi pago por elas. E tem dado cursos, especialmente sobre a intersecção entre a comunidade e a família americana, na Middle Tennessee State University, em Murfreesboro, e na Fisk University, em Nashville.
"Já temos umas quarenta horas de palestras e aulas em fita", disse Gore, inexpressivo. "Agora é sua oportunidade de assistir a elas."
Gore está começando a ganhar dinheiro para valer. É membro do conselho administrativo da Apple e assessor sênior da Google, que acabou de abrir seu capital. Também tem trabalhado na criação de uma estação de televisão a cabo e no desenvolvimento de uma empresa financeira.
"Estou me divertindo muito", observou.
Em um sistema parlamentar, um candidato a primeiro-ministro, depois de perder uma eleição, com freqüência retorna a uma posição proeminente no parlamento. Não é assim que as coisas funcionam nos Estados Unidos. Aqui, a pessoa tem de se arranjar sozinha: faz palestras, escreve memórias, acumula fortuna, encontra uma boa causa para defender. Às vezes pode aparecer algum repórter, mas não é algo freqüente. De qualquer forma, Donna Brazile, gerente de campanha de Gore em 2000, disse: "Quando tudo acabou, o Partido Democrata chutou-o para um canto", preferindo esquecer não só a catástrofe que aconteceu na Flórida, mas também os lances errados de Gore - sua personalidade instável nos três debates com Bush; sua confiança em consultores políticos; sua inabilidade para explorar a duradoura popularidade de Bill Clinton e seu fracasso em conquistar o Arkansas de Clinton, sem falar no Tennessee; sua decisão de não pressionar imediatamente para que se fizesse uma recontagem em nível estadual na Flórida. Agora, aonde quer que vá, Gore enfrenta multidões que perderam toda e qualquer esperança na administração Bush e que vêem nele tudo o que poderia ter sido, todo um "o que aconteceria se". O desgosto de toda uma vida. Às vezes as pessoas se aproximam e dirigem-se a ele como "senhor presidente". Algumas tentam animá-lo e lhe dizem: "Nós sabemos que foi o senhor quem realmente ganhou". Algumas balançam a cabeça, assumindo um ar de profunda solidariedade, como se ele tivesse acabado de perder um membro da família. Ele tem de enfrentar não apenas os seus próprios desapontamentos; será para sempre o espelho dos desapontamentos dos outros. Um homem inferior teria feito algo muito pior do que apenas deixar a barba crescer e ganhar alguns quilos.
Mais do que Franklin Roosevelt, ou mesmo John F. Kennedy, Gore foi criado para ser presidente. Seu pai, Albert Gore Sr., senador conhecido por ter a aparência nobre de um estadista romano, esperava isso dele. Quando a mãe de Gore estava grávida, o pai disse aos editores do The Tennessean, de Nashville, que, se a esposa desse à luz um menino, ele não ia querer ver a reportagem escondida no meio do jornal. Depois que Al nasceu, a manchete foi: BEM, SR. GORE, AQUI ESTÁ ELE, NA PÁGINA 1. Seis anos depois, o senador plantou uma história no The Knoxville News-Sentinel sobre como o menino Al havia convencido o pai a dar-lhe um jogo de arco-e-flecha mais caro do que aquele que planejavam comprar. "É possível que haja outro Gore a caminho do pináculo político", dizia a matéria. "Agora ele só tem seis anos de idade. Mas, com suas experiências até agora, nunca se sabe o que pode acontecer." Na época em que Gore entrou em Harvard (a única escola a que se candidatou), ele já falava à sua classe sobre sua ambição suprema. Sua primeira candidatura, em 1988, depois de ter passado poucos anos no Senado, foi menos um ato de arrogância juvenil do que uma tentativa apressada de chegar à Casa Branca enquanto o pai ainda era vivo.
Gore tem 56 anos. Depois que a corrida eleitoral de 2000 finalmente se resolveu, algumas pessoas a seu redor o consolaram dizendo-lhe para "lembrar Richard Nixon", lembrar como Nixon perdeu a eleição presidencial em 1960, perdeu o governo da Califórnia em 1962 - informando à imprensa que ela não o teria mais para "chutá-lo por aí" - e em seguida voltou para conquistar a Casa Branca em 1968. Por algum motivo, quando essa opinião é mencionada para Gore atualmente, ela não consola nem encoraja. Se John Kerry vencer em novembro, isso provavelmente significaria o fim da carreira de Gore na política nacional. Se Kerry perder, ainda assim haveria outras figuras fortes em perspectiva para 2008, como John Edwards e Hillary Clinton.
"Basicamente, a resposta é: eu não espero ser candidato de novo", disse Gore. "Realmente não espero. A segunda parte da resposta é que eu ainda não descartei essa possibilidade por completo. E o terceiro qualificador é que não estou afirmando a segunda parte como uma forma de sinalizar acanhamento. É apenas para completar uma resposta honesta à pergunta e de maneira alguma muda a parte principal da resposta. Que é: eu realmente não espero voltar a ser candidato. Se tivesse alguma expectativa de ser candidato de novo, eu provavelmente não me sentiria tão livre quanto me sinto para falar o que quero nas palestras. E eu gosto disso. É uma sensação" - e aí vem a palavra novamente - "é uma sensação libertadora para mim." Uma candidatura ao Senado ou algum cargo em um ministério, ele disse, também estavam fora de questão.
Gore, junto com uma parcela do país que não é pequena, está convencido de que se as coisas tivessem sido diferentes na Flórida em 2000, se os conservadores da Suprema Corte não tivessem superado numericamente os liberais por um único voto, os Estados Unidos não estariam na situação em que se encontram: as primeiras páginas não estariam descrevendo o caos no Iraque, déficits orçamentários recordes, o retrocesso de inúmeras iniciativas ambientais, uma diminuição das liberdades civis, uma redução das pesquisas com células-tronco, uma erosão do prestígio americano no exterior. Gore não admite nenhum tipo de amargura, mas ela está clara em quase todos os discursos e palestras que faz. E, embora o sentimento possa ser parcialmente pessoal - quem poderia culpá-lo? -, ele atinge um nível mais profundo, é mais um sentimento público do que uma decepção em relação às próprias ambições, ou às de seu pai.
"Esse é um sujeito que trabalhou a vida toda para alcançar a única coisa que queria - ser o presidente dos Estados Unidos -, e ela estava lá, ao alcance dele", disse Tony Coelho, diretor da campanha de Gore em 2000. "Ele achou que Clinton o prejudicou, mas mesmo assim se matou de trabalhar e resolveu a situação. Ele teve a maioria dos votos, meio milhão a mais, mas aí a Suprema Corte se meteu e já era. É difícil para qualquer um de nós entender o significado disso ou como ele se sente. A verdade é que Gore é um cara de políticas, e não um cara político, e para ele sentir que estava quase conseguindo o principal cargo para o estabelecimento de políticas, um cargo por meio do qual ele poderia influenciar as políticas e o mundo como ninguém mais, e então nada acontece - bom, imagine o que isso significa!"
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