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Companhia das Letras
VIDA DE ESCRITOR
Gay Talese



1.

Não sou, nem nunca fui, um apreciador de futebol. É provável que isso se deva, em parte, à minha idade e ao fato de que, na adolescência, quando eu morava no litoral sul de Nova Jersey - há meio século - esse esporte fosse praticamente desconhecido dos americanos, a não ser os nascidos no exterior. E embora meu pai fosse nascido no exterior - era um sisudo alfaiate que se vestia com esmero, oriundo de uma aldeia calabresa, no sul da Itália, e naturalizado norte-americano em meados da década de 1920 -, quando conversava comigo sobre futebol ele se limitava a discorrer sobre as brigas de sua juventude relacionadas ao esporte, e sobre a frustração que sentia ao ver os colegas de escola jogando numa praça enquanto ele costurava à janela dos fundos de um ateliê próximo, onde trabalhava como aprendiz. No entanto, como muitas vezes me repetia, já naquela época ele sabia que aqueles jovens atletas (entre os quais havia irmãos e primos seus, menos conscienciosos) estavam perdendo tempo e pondo em perigo seu futuro, chutando bola de um lado para outro quando deveriam estar aprendendo um ofício digno e se preparando para pagar o alto preço de uma passagem para os Estados Unidos, onde poderiam alcançar a prosperidade como imigrantes. Mas não, continuava ele, incansavelmente dedicado a me advertir: eles dissipavam suas tardes jogando futebol na praça, da mesma forma como mais tarde viriam a jogar atrás da cerca de arame farpado do campo de prisioneiros de guerra no norte da África em que foram metidos pelos aliados (aqueles que não foram mortos ou ficaram aleijados em combate) quando se renderam, em 1942, na qualidade de soldados de infantaria do exército derrotado de Mussolini. Vez por outra, eles enviavam cartas a meu pai, contando sobre o confinamento. Um dia, já perto do fim da Segunda Guerra Mundial, ele pôs de lado a correspondência e me disse, num tom de voz que prefiro interpretar como mais triste do que sarcástico: "Eles ainda estão jogando futebol!".

A final da Copa do Mundo feminina entre as equipes da China e dos Estados Unidos, disputada em 10 de julho de 1999, no Rose Bowl de Pasadena, na Califórnia, diante de 90 185 espectadores (o maior público de qualquer evento esportivo feminino na história) seria televisionada para quase 200 milhões de pessoas em todo o mundo. A transmissão ao vivo, que começaria nessa tarde de sábado às 12h30 na Califórnia, seria vista em Nova York às 3h30 da tarde e, na China, às 4h30 da manhã de domingo. Eu não tinha pensado em assistir ao jogo. Para aquele sábado, em Nova York, eu havia combinado uma partida de tênis em duplas, no Central Park, com velhos companheiros que, como eu, tinham vagas lembranças de jogar muito bem no passado.
Antes de sair para o Central Park, resolvi ligar a tv no jogo de beisebol entre os New York Mets e meus queridos Yankees, que começava à 1h15. Contra o conselho mil vezes repetido, embora às vezes sem muita convicção, de meu ranzinza e agora falecido pai, os Yankees conquistaram meu coração e me escravizaram para todo o sempre em fevereiro de 1944. Naquele ano, por causa do racionamento de gasolina provocado pela guerra e de seu efeito restritivo sobre os deslocamentos, a equipe transferiu seu tradicional campo de treinos de primavera de Saint Petersburg, na Flórida, para um estádio menos quente, meio mambembe porém mais à mão, nas proximidades do aeroporto de Atlantic City, e suficien temente perto de minha escola para que ficássemos ali cabulando aulas. A partir de então, na guerra e na paz, durante um período que cobriu a carreira de Joe DiMaggio e Mickey Mantle e chegou até o estrelato, no fim do século, de recém-chegados como o shortstop Derek Jeter e o lançador substituto Mariano Rivera, venho me alegrando com os triunfos dos New York Yankees e sofrido com seus reveses. E, nesse sábado de julho de 1999, eu estava contando com eles para descansar de várias semanas de extenuante batuque em minha máquina de escrever.
Decidi que precisava relaxar, deixar de lado meu livro por algum tempo. E prontamente aceitei a sugestão de minha mulher, feita dias antes, de que passássemos esse fim de semana tranquilamente em Nova York. Nossas duas filhas e seus namorados iriam de carro para a Jersey Shore, para a casa de veraneio que tínhamos comprado perto da de meus pais, trinta anos antes, depois do nascimento de nossa segunda filha. Na noite de sábado, minha mãe, vigorosa viúva de 92 anos, tencionava levar as netas e seus namorados para jantar no cassino Taj Mahal, no calçadão de Atlantic City, onde ela gostava de saborear sua sobremesa e seu café, enquanto alimentava as máquinas caça-níqueis.
No mês anterior, minha adorável mulher e eu havíamos comemorado nosso quadragésimo aniversário de casamento, e espero não ser tachado de pouco romântico se disser que esse longo relacionamento deu certo, em parte, por termos normalmente vivido e trabalhado separados - eu como escritor-pesquisador de não ficção, frequentemente viajando por força do ofício, e ela como preparadora de textos e editora que, ao longo de todos esses anos, fez questão de não trabalhar para empresas com as quais eu estivesse ligado por contrato. Mas quando estamos juntos sob o mesmo teto - desfrutando o que tomarei a liberdade de chamar uma harmoniosa e feliz convivência que começou em meados da década de 1950 num apartamento sem água quente em Greenwich Village, transferiu-se depois para Uptown e, finalmente com as crianças, para uma casa brownstone que até hoje é ocupada por nós (duas pessoas ágeis e ativas da terceira idade determinadas a não morrer num cruzeiro) -, devo admitir que frequentemente me aproveito da presença de minha mulher como profissional das letras, solicitando sua opinião não só sobre o que estou pensando em escrever, como também sobre o que já escrevi. E embora suas respostas, vez por outra, difiram das expressadas mais tarde pelo editor "oficial", considero mais uma bênção que um problema ter vários pontos de vista entre os quais escolher, e julgo essa situação mil vezes preferível à falta de ajuda na revisão textual de que tanto se queixam muitos de meus amigos escritores. Mas a escritores que deploram o fato de passarem a vida abandonados e solitários, quero dizer o seguinte: quando nosso trabalho não está indo bem, ter uma mulher editora pode ser até mais humilhante, principalmente durante os fins de semana e noites que passamos em casa, quando ela lê avidamente as palavras de outras pessoas, recostada em nosso leito conjugal, sob amarrotadas páginas de originais que cobrem nosso edredom de grife ou se escondem entre os lençóis, páginas que no devido tempo ela há de juntar e empilhar ordenadamente em seu criado-mudo antes de apagar a luz e, quem sabe, sonhar com o dia em que serão transformadas num livro muito bem encadernado e elogiado pela crítica.
Seja como for, nesse fim de semana que decidimos (ela decidiu) passar em Nova York, enquanto ela estava lá em cima editando os capítulos de um original com o qual tínhamos dormido na noite de sexta-feira, eu estava embaixo, assistindo ao jogo Yankees-Mets. (Os Yankees fizeram logo 2 a 0 com o home run de Paul O'Neill na primeira entrada, depois do single de Bernie Williams.) Entre uma entrada e outra, eu antevia minha partida de tênis e lembrava a mim mesmo que devia lançar a bola mais alto quando tivesse o serviço e aproveitar todas as oportunidades de subir à rede.
Fui apresentado ao tênis por meu professor de educação física durante o primeiro ano do curso secundário, e muito embora nossa escola não tivesse, naquela época, uma equipe de tênis, eu treinava sempre que podia durante o recreio do meio-dia, pois jogava melhor que os desajeitados colegas que escolhia para adversários, os quais eram também meus subordinados na redação do jornal estudantil. O fato de nunca ter me destacado em algum esporte importante (futebol americano, basquetebol, beisebol ou atletismo) não me aborrecia, já que as equipes de nossa escola eram medíocres nesses esportes. Ademais, como cronista e potencial crítico dos jogadores (além de trabalhar no jornal estudantil, eu escrevia sobre esportes e também sobre atividades escolares em minha ocupação extracurricular de correspondente sobre educação para o semanário de minha cidade natal e para o diário de Atlantic City), eu de repente experimentava a dúbia notoriedade de ser um jornalista, de ter minha imatura personalidade e identidade impulsionadas,senão valorizadas, por meus artigos assinados ou por minha foto, do tamanho de um selo postal, que aparecia sobre a minha coluna no semanário da cidade, para não falar dos muitos privilégios que estavam à minha disposição, como viajar para jogos em outras cidades no ônibus da equipe, numa poltrona reservada atrás do técnico, ou voltar depois, de carona, num cupê Buick com painel cromado, dirigido pela bela esposa do diretor de esportes.
Por piores que fossem os jogadores, pois constantemente tratavam mal a bola, chutando quase sempre para fora e desperdiçando a maioria das faltas, eu nunca os humilhava em letra de fôrma. Invariavelmente, encontrava meios de descrever com gentileza cada derrota da equipe, cada deficiência individual. Meu texto parecia ter uma queda precoce para artifícios de retórica e circunlóquios, muito antes que eu soubesse escrever direito essas palavras. Minha atitude em relação ao jornalismo foi fortemente influenciada, durante todos os meus anos de secundário, por um rebuscado romancista chamado Frank Yerby, um negro nascido na Geórgia que mais tarde se radicou na Espanha e que escrevia prolificamente sobre mulheres de anquinhas e cobertas de joias, com tantos excessos eróticos que, não fosse o floreado estilo de sua prosa - a qual de certa forma encobria o que para mim era assustadoramente obsceno -, seus livros teriam sido censurados em todos os estados americanos, e eu não teria tido a oportunidade de solicitá-los um por um, encabulado, à proprietária da locadora de livros de nossa cidade. Além disso, não teria tentado imitar, em minhas tentativas de encobrir as falhas dos atletas da escola, a facilidade de Yerby para usar eufemismos.
Embora meus textos evasivos e cheios de rodeios pudessem ser em parte atribuídos ao desejo de manter relações amistosas com os atletas e incentivá-los a conceder constantes entrevistas, creio que essas questões práticas tinham muito menos a ver com meu estilo do que minha própria identificação juvenil com a derrota e com o fato de que, com exceção da habilidade para escrever textos que douravam a dura crueza da realidade, eu não era capaz de fazer nada fora do comum. As notas que os professores me davam, tanto no curso primário quanto no secundário, sempre me colocavam na metade pior da classe. Ao lado de química e matemática, inglês era a disciplina em que eu me saía pior. Em 1949, fui rejeitado pelas duas dúzias de faculdades a que me candidatei, em meu estado natal de Nova Jersey, e nos estados vizinhos de Pensilvânia e Nova York. Ter sido aceito pela Universidade do Alabama deveu-se inteiramente aos apelos de meu pai a um magnânimo médico de Birmingham que clinicava em nossa cidade e usava ternos cortados e costurados com perfeição por meu pai, e aos pedidos desse médico, em meu favor, a um antigo colega de classe e amigo de toda a vida, que na época ocupava o cargo de reitor de admissões daquela universidade.
Minhas principais conquistas durante os quatro anos que passei no campus da Universidade do Alabama foram ser nomeado editor de esportes do semanário da faculdade e a popularidade por assinar uma coluna intitulada "Sports Gay-zing", na qual, muitas vezes misturando humor com gentileza e opiniões veladas, mostrava pelo melhor ângulo possível algumas das piores exibições atléticas da gloriosa história da universidade. Até mesmo o time de futebol americano da Alabama, que durante muito tempo se habituara a fazer jus à reputação nacional de estar sempre entre os dez melhores, passou, enquanto estudei ali, por alguns de seus dias mais tristes desde a Guerra Civil. Embora sua glória tivesse sido restaurada depois de 1958, com a chegada do hoje lendário técnico Paul "Bear" Bryant, em minha época cada temporada foi, no mais das vezes, motivo de um clima de velório no estado a cada fim de semana. E o técnico do time, natural da Nova Inglaterra, chamado Harold "Red" Drew, tinha sua efígie sistematicamente queimada nas noites de sábado, no meio do campo, por bandos de calouros turbulentos e suas namoradas, que tinham passado a tarde a costurar panos de saco para produzir figuras, em tamanho natural, de olhos esbugalhados e rostos gorduchos e avermelhados com blush, que supostamente representavam os traços de Red Drew.
Ainda que Drew nunca se queixasse disso a mim ou ao pessoal do jornal, comecei a sentir pena dele, e sempre procurava inserir, em nossa página de esportes, um aspecto positivo sobre sua carreira em queda livre. Em uma de minhas colunas, lembrei a bravura que ele demonstrara ao servir a seu país como oficial da marinha na Primeira Guerra Mundial, destacando um episódio no qual ele havia saltado de um dirigível, a seiscentos metros de altura, sobre o golfo do México. Esse salto, em 1917, quando Drew era apenas um segundo-tenente, fez com que ele se tornasse o primeiro paraquedista da história da marinha, ou pelo menos foi isso que escrevi, depois de obter a informação num recorte amarelado de jornal colado num velho álbum que a mulher dele me emprestou. Além disso, ilustrei minha matéria com uma antiga fotografia da Primeira Guerra, que mostrava um magro e espadaúdo segundo-tenente Drew diante de um caça biplano naval numa base no canal do Panamá, usando culotes, botas longas e um quepe de oficial que protegia seus olhos do sol mas não ocultava um meio-sorriso, o qual, eu esperava, meus leitores interpretariam como a marca de um guerreiro modesto e indômito - julgando, ingenuamente, que isso pudesse despertar neles o patriotismo e extinguir algumas das tochas noturnas que brandiam para vilipendiar o técnico Drew e também, às vezes, seu venerável assistente, Henry "Hank" Crisp, que tinha como especialidade dirigir a frouxa linha de defesa do time da Alabama.
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