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Companhia das Letras
O VULTO DAS TORRES
Lawrence Wright



Prólogo


No dia de são Patrício, Daniel Coleman, um agente do escritório de Nova York do Federal Bureau of Investigation [FBI] encarregado dos casos de inteligência estrangeiros, foi de carro até Tysons Corner, Virgínia, para assumir um novo cargo. As calçadas ainda estavam soterradas em montes de neve já cinzenta da nevasca de 1996, ocorrida algumas semanas antes. Coleman entrou numa torre comum de escritórios do governo chamada Gloucester Building e saltou do elevador no quinto andar. Era a Alec Station.
Outras unidades da Central Intelligence Agency [CIA] estão localizadas nos diferentes países em que atuam. A Alec era a primeira unidade "virtual", situada a poucos quilômetros do prédio do quartel-general, em Langley. Num organograma estava marcada como "Vínculos Financeiros Terroristas", uma subseção do centro de contraterrorismo da cia, mas na prática se dedicava a rastrear as atividades de um só homem, Osama bin Laden, cujo nome havia surgido como o maior financiador do terrorismo. Coleman ouvira falar dele pela primeira vez em 1993, quando uma fonte estrangeira mencionou um "príncipe saudita" que vinha sustentando uma célula de islamitas radicais que tramavam explodir marcos de Nova York, inclusive a sede das Nações Unidas, os túneis Lincoln e Holland e até o número 26 da Federal Plaza, o prédio onde Coleman trabalhava. Agora, três anos depois, o fbi havia enfim arranjado tempo para enviá-lo a fim de examinar as informações compiladas pela CIA e ver se havia motivo para investigação.
A Alec Station já dispunha de 35 volumes de material sobre Bin Laden, que consistia sobretudo em transcrições de conversas telefônicas captadas pela escuta eletrônica da National Security Agency [NSA]. Coleman achou o material repetitivo e inconclusivo. Mesmo assim, abriu uma investigação sobre Bin Laden, para a eventualidade de o "financiador islamita" se revelar algo mais do que isso.
Como muitos agentes, Dan Coleman havia sido treinado para combater a Guerra Fria. Entrou no fbi como arquivista em 1973. Culto e inquiridor, Coleman foi naturalmente atraído para a contra-inteligência. Na década de 1980, concentrou-se em recrutar espiões comunistas na numerosa comunidade diplomática ao redor das Nações Unidas. Um adido da Alemanha Oriental foi um tesouro singular. Em 1990, porém, com a Guerra Fria recém-encerrada, Coleman acabou integrando um esquadrão dedicado ao combate ao terrorismo do Oriente Médio. Pouco em sua formação o preparara para aquela virada - mas aquilo ocorria com o fbi inteiro, que via o terrorismo como um estorvo, não uma ameaça real. Difícil acreditar, naqueles dias tranqüilos após a queda do Muro de Berlim, que os Estados Unidos ainda tivessem inimigos reais de pé.
Então, em agosto de 1996, de uma caverna no Afeganistão, Bin Laden declarou guerra aos Estados Unidos. O motivo alegado foi a prolongada presença de forças americanas na Arábia Saudita, cinco anos após a primeira Guerra do Golfo. "Aterrorizá-las, enquanto carregam armas em nossa terra, constitui um direito legítimo e uma obrigação moral", ele afirmou. Supunha falar em nome de todos os muçulmanos, e até dirigiu parte de sua extensa fatwa pessoalmente ao então secretário da Defesa americano, William Perry. "Digo-lhe, William, isto: estes jovens amam a morte como você ama a vida. [...] Estes jovens não lhe pedirão explicações. Eles bradarão que não há nada entre nós que precise ser explicado, existe apenas morte e gargantas cortadas."
Além de Coleman, poucos nos Estados Unidos - mesmo no FBI - conheciam o dissidente saudita ou se importavam com ele. Os 35 volumes na Alec Station pintavam o quadro de um bilionário messiânico de família influente e dispersa e intimamente ligada aos governantes do Reino da Arábia Saudita. Ele adquirira renome na jihad no Afeganistão contra a ocupação soviética. Coleman estudara história o suficiente para entender as referências, no brado de guerra de Bin Laden, às Cruzadas e às lutas antigas do islã. De fato, um dos aspectos marcantes do documento era que o tempo parecia ter parado mil anos antes. Havia o presente e havia aquela época remota, mas não havia nada no meio. Era como se as Cruzadas prosseguissem no universo de Bin Laden. A intensidade da raiva também era difícil de compreender para Coleman. Que mal fizemos a eles?, ele se indagou.
Coleman mostrou o texto da fatwa de Bin Laden a promotores do ministério público americano do distrito sul de Nova York. Aquilo era estranho, bizarro, mas seria um crime? Os advogados se debruçaram sobre a linguagem e encontraram uma lei, raramente invocada, da conspiração sediciosa do tempo da guerra civil, que proíbe instigar a violência e tentar derrubar o governo americano. Parecia um desafio querer aplicá-la a um saudita apátrida numa caverna em Tora Bora, mas, baseado naquela jurisprudência escassa, Coleman abriu um processo criminal contra a figura que se tornaria o homem mais procurado da história do FBI. Ainda estava trabalhando totalmente só.
Alguns meses depois, em novembro de 1996, Coleman viajou para uma base militar americana na Alemanha com dois promotores federais, Kenneth Karas e Patrick Fitzgerald. Ali, num esconderijo, estava um informante sudanês nervoso chamado Jamal al-Fadl, que afirmava ter trabalhado para Bin Laden em Cartum. Coleman trazia um álbum com fotografias dos asseclas conhecidos de Bin Laden, e Fadl rapidamente identificou a maioria. Ele estava contando a sua versão da história, mas ficou claro que conhecia os protagonistas. O problema era que insistia em mentir para os investigadores, enfeitando seu relato, retratando-se como um herói que só queria fazer a coisa certa.
"Então por que você foi embora?", os promotores quiseram saber.
Fadl contou que adorava os Estados Unidos. Havia morado no Brooklyn e falava inglês. Depois disse que fugira para poder escrever um best-seller. Estava tenso e com dificuldade em permanecer sentado. Obviamente, tinha muito mais para contar. Foram necessários vários longos dias para que, enfim, parasse de inventar histórias e admitisse que havia fugido com mais de 100 mil dólares do dinheiro de Bin Laden. Ao fazê-lo, chorava sem parar. Foi o momento crucial do interrogatório. Fadl concordou em testemunhar caso um julgamento viesse a ocorrer, o que parecia improvável, dadas as acusações modestas que os advogados do governo vinham levantando.
Até que, por iniciativa própria, Fadl desatou a falar sobre uma organização chamada Al-Qaeda. Foi a primeira vez que qualquer um dos homens no aposento ouviu o termo. Ele descreveu campos de treinamento e células dormentes. Falou sobre o interesse de Bin Laden em adquirir armas químicas e nucleares. Revelou que a Al-Qaeda fora responsável pelo atentado em 1992 no Iêmen e por treinar os insurgentes que derrubaram os helicópteros americanos na Somália naquele mesmo ano. Forneceu nomes e desenhou um organograma. Os investigadores ficaram pasmos com sua história. Por duas semanas, seis ou sete horas por dia, conferiram os detalhes repetidas vezes, testando a coerência de suas respostas. Ele nunca se contradizia.
Quando Coleman voltou ao FBI, ninguém pareceu particularmente interessado. O depoimento de Fadl era arrepiante, todos concordaram, mas como corroborar o depoimento de um ladrão mentiroso? Além disso, havia outras investigações mais urgentes.
Durante um ano e meio, Dan Coleman continuou sua investigação solitária de Bin Laden. Por estar designado para a Alec Station, o FBI mais ou menos o esqueceu. Valendo-se de grampos telefônicos nas empresas de Bin Laden, Coleman conseguiu traçar um mapa da rede da Al-Qaeda, que se estendia pelo Oriente Médio, África, Europa e Ásia Central. Alarmou-se ao perceber que muitos dos membros da Al-Qaeda tinham vínculos com os Estados Unidos. Ele concluiu que aquela era uma organização terrorista mundial dedicada a destruir os Estados Unidos, mas nem sequer conseguiu que seus superiores respondessem aos seus telefonemas sobre o assunto.
Coleman ficou sozinho refletindo sobre as questões que, mais tarde, ocorreriam a todos. Qual a origem daquele movimento? Por que escolhera atacar os Estados Unidos? E como detê-lo? Era como um técnico de laboratório examinando uma lâmina de um vírus nunca visto. Sob o microscópio, as qualidades letais da Al-Qaeda começaram a se revelar. O grupo era pequeno - apenas 93 membros na época -, mas fazia parte de um movimento radical maior que se alastrava pelo islã, particularmente no mundo árabe. As possibilidades de contágio eram grandes. Os homens que compunham o grupo estavam bem treinados e endurecidos no campo de batalha. Pareciam dispor de amplos recursos. Além do mais, estavam fanaticamente empenhados em sua causa e convencidos de que sairiam vitoriosos. Haviam se reunido por uma filosofia tão irresistível que estavam dispostos - de bom grado - a sacrificar a própria vida por ela. No processo, pretendiam matar o máximo de pessoas possível.
Contudo, o aspecto mais assustador daquela ameaça nova era o fato de que quase ninguém a levava a sério. Era estranha demais, primitiva e exótica demais. Diante da confiança dos americanos na modernidade, na tecnologia e em seus próprios ideais para protegê-los do desfile selvagem da história, os gestos desafiadores de Bin Laden e seus sequazes se afiguravam absurdos e até patéticos. No entanto, a Al-Qaeda não era um mero artefato da Arábia do século vii. Aprendera a usar ferramentas modernas e idéias modernas, o que não surpreendia, já que a história da Al-Qaeda na realidade começara nos Estados Unidos, não tanto tempo atrás.



1. O mártir


Numa cabine de primeira classe de um navio de passageiros fazendo o trajeto de Alexandria, Egito, a Nova York, um escritor e educador frágil, de meia-idade, chamado Sayyid Qutb viveu uma crise de fé. "Devo ir para os Estados Unidos como qualquer estudante normal com uma bolsa de estudos, com que só se come e dorme, ou devo ser especial?", ele se perguntou. "Devo me ater às minhas crenças islâmicas, enfrentando as várias tentações pecaminosas, ou devo me entregar às tentações ao meu redor?" Era novembro de 1948. O novo mundo assomava no horizonte, vitorioso, rico e livre. O viajante deixara para trás o Egito, em frangalhos e lágrimas. Nunca saíra de seu país natal. Nem era de bom grado que o deixava agora.
O solteiro carrancudo era delgado e moreno, testa alta e inclinada e bigode semelhante a um pincel pouco mais estreito que a largura do nariz. Os olhos traíam uma natureza altiva que se ofendia facilmente. Ele sempre evocava um ar de formalidade, preferindo ternos escuros de três peças, apesar do sol abrasador do Egito. Para um homem tão zeloso de sua dignidade, a perspectiva de voltar à sala de aula aos 42 anos pode ter parecido aviltante. No entanto, tendo nascido numa aldeia cercada por muros de barro, no Alto Egito, já havia ultrapassado o modesto objetivo de tornar-se um funcionário público respeitável. As críticas literárias e sociais que escreveu fizeram dele um dos autores mais populares de seu país. Também despertaram a fúria do rei Faruk, o monarca dissoluto do Egito, que assinara uma ordem para a sua prisão. Amigos poderosos e solidários providenciaram sua partida.
Na época, Qutb ocupava um cargo confortável de supervisor no Ministério da Educação. Politicamente, era um nacionalista egípcio fervoroso e anticomunista, posição que o situava nas correntes predominantes da vasta classe média burocrática. As idéias que dariam origem ao que se denominaria fundamentalismo islâmico ainda não estavam completamente formadas em sua mente. Na verdade, ele mais tarde diria que nem mesmo era um homem muito religioso antes de começar aquela viagem, embora tivesse memorizado o Alcorão aos dez anos, e seus escritos haviam recentemente dado uma guinada para temas mais conservadores. Como muitos de seus compatriotas, foi levado a posições radicais pela ocupação britânica e odiava a cumplicidade do enfastiado rei Faruk. O Egito foi varrido por protestos antibritânicos, e facções políticas rebeladas estavam determinadas a expulsar as tropas estrangeiras do país - e talvez o rei também. O que tornava particularmente perigoso aquele desinteressante funcionário público de médio escalão eram seus comentários incisivos e potentes. Ele nunca chegara à linha de frente do cenário literário árabe contemporâneo, fato que o afligiu por toda a carreira. No entanto, do ponto de vista do governo, estava se tornando um inimigo irritantemente importante.
Ele era ocidental em alguns aspectos: os trajes, o gosto por música clássica e filmes de Hollywood. Havia lido, em traduções, as obras de Darwin e Einstein, Byron e Shelley, e mergulhara na literatura francesa, em especial Victor Hugo. Mas, mesmo antes da viagem, preocupava-se com o avanço de uma civilização ocidental dominadora. Apesar da erudição, via o Ocidente como uma única entidade cultural. As distinções entre capitalismo e marxismo, cristianismo e judaísmo, fascismo e democracia eram insignificantes em comparação com a única grande divisão na mente de Qutb: islã e Oriente de um lado, e Ocidente cristão de outro.
Os Estados Unidos, porém, mantinham-se afastados das aventuras coloniais que caracterizaram as relações da Europa com o mundo árabe. Ao final da Segunda Guerra Mundial, haviam superado a divisão política entre colonizadores e colonizados. De fato, era tentador imaginar os Estados Unidos como o paradigma anticolonial: uma nação subjugada que se libertara e sobrepujara, triunfante, os antigos senhores. O poder do país parecia residir em seus valores, e não em noções européias de superioridade cultural ou raças e classes privilegiadas. E, como se diziam uma nação de imigrantes, mantinham relações permeáveis com o resto do mundo. Os árabes, como a maioria dos outros povos, haviam criado suas próprias colônias dentro dos Estados Unidos, e laços de afinidade os aproximavam dos ideais que o país alegava defender.
Desse modo, Qutb, como muitos árabes, sentiu-se chocado e traído pelo apoio do governo americano à causa sionista após a guerra. Enquanto Qutb zarpava do porto de Alexandria, o Egito, com cinco outros exércitos árabes, estava nos estágios finais da derrota na guerra que criou Israel como um Estado judeu dentro do mundo árabe. Os árabes estavam aturdidos, não apenas pela determinação e habilidade dos combatentes israelenses, mas pela incompetência de suas próprias tropas e as decisões desastrosas de seus líderes. A vergonha daquela experiência moldaria o universo intelectual árabe mais profundamente do que qualquer outro evento na história moderna. "Odeio aqueles ocidentais e os desprezo!", escreveu Qutb depois que o presidente Harry Truman apoiou a transferência de 100 mil refugiados judeus para a Palestina. "Todos eles, sem exceção: os ingleses, os franceses, os holandeses e, finalmente, os americanos, em quem tantos confiaram."


O homem na cabine conhecera o amor romântico, especialmente a sua dor. Ele descrevera com algum disfarce, num de seus romances, um relacionamento fracassado. Depois daquilo, virou as costas ao casamento. Alegou que não conseguira encontrar uma noiva adequada entre as mulheres "indecorosas" que se deixavam ver em público, posição que acabou por deixá-lo sozinho e inconsolável na meia-idade. Ainda gostava de mulheres - era íntimo de suas três irmãs -, mas a sexualidade o ameaçava, e ele recuara para uma carapaça de desaprovação, vendo no sexo o principal inimigo da salvação.
A relação mais afetuosa que desfrutou foi com a mãe, Fátima, mulher analfabeta mas devota, que enviou o filho precoce ao Cairo para estudar. O pai morreu em 1933, quando Qutb tinha 27 anos. Nos três anos seguintes, ele lecionou em diferentes postos da província até ser transferido para Heluan, subúrbio próspero do Cairo, e levar o restante da família para viver ali com ele. A mãe superconservadora nunca se adaptou totalmente, sempre vigilante contra a crescente influência estrangeira, bem mais aparente em Heluan do que na aldeia de onde viera. Essa influência deve ter ficado evidente também em seu sofisticado filho.
Enquanto orava na cabine, Sayyid Qutb ainda estava em dúvida quanto à própria identidade. Deveria ser "normal" ou "especial"? Resistir às tentações ou se entregar a elas? Ater-se rigidamente às crenças islâmicas ou trocá-las pelo materialismo e pelo pecado do Ocidente? Como todos os peregrinos, fazia uma viagem dupla: externa, para o mundo maior, e ao mesmo tempo interna, na direção da própria alma. "Decidi ser um verdadeiro muçulmano!", ele concluiu. Mas quase imediatamente se questionou: "Estou sendo honesto ou isso foi um mero capricho?".
Batidas na porta interromperam suas ponderações. Diante da cabine, uma moça, que ele descreveu como magra, alta e "seminua". Ela perguntou em inglês: "Tudo bem se eu for sua convidada esta noite?".
Qutb respondeu que seu quarto tinha apenas uma cama.
"Uma única cama pode conter duas pessoas", ela retrucou.
Consternado, ele fechou a porta na cara da moça. "Ouvi quando ela caiu no assoalho lá fora, e percebi que estava bêbada", lembrou. "Na mesma hora agradeci a Deus por derrotar minha tentação e permitir que eu seguisse meus princípios morais."
Este é o homem, portanto - decente, orgulhoso, atormentado, virtuoso -, cuja genialidade solitária abalaria o islã, ameaçaria regimes em todo o mundo muçulmano e acenaria para uma geração de jovens árabes desenraizados em busca de sentido e propósito para a vida, coisas que encontrariam na jihad.
[...]

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