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Companhia das Letras
GENERAL OSORIO
Francisco Doratioto



1.O Exército era de Osório


O gaúcho Manoel Luis Osorio, marquês do Herval, foi o militar mais popular do Brasil a partir de sua atuação na Guerra do Paraguai e, após sua morte, em 1879, tornou-se, por décadas, espécie de patrono informal do Exército brasileiro. Sua popularidade transpunha fronteiras, sendo admirado em países vizinhos, particularmente na Argentina. A origem dessa admiração encontra-se na sua legendária coragem em campo de batalha, associada ao caráter bonachão e por manter contato direto com soldados, com os quais falava na mesma linguagem. Essa popularidade pode ser constatada ainda hoje, nas muitas praças, ruas e instalações públicas do país que têm a designação de Osorio.
O leitor talvez esteja questionando se Luis Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias, não foi personagem mais popular, a ponto de ser o Patrono do Exército brasileiro. Na realidade, foi durante o século XX que a figura de Caxias substituiu, gradativamente, a de Osorio na posição de maior relevo do panteão militar brasileiro e, como resultado, no imaginário popular. Contudo, o Exército de Caxias, como se autodenomina hoje a instituição, foi por bom tempo o Exército de Osorio e essa mudança somente pode ser compreendida se relacionadas as trajetórias política e militar dos dois generais com o contexto histórico em que foram adotados como personagens paradigmáticos. Sim, porque embora nos dias atuais eles sejam lembrados basicamente pela condição de militares, também foram políticos e, em certas épocas, se dedicaram mais à política do que ao Exército.
À época do Império brasileiro não havia impedimento constitucional de militares da ativa participarem da vida política. Durante o Segundo Reinado (1840-89), praticamente todos os generais eram filiados ao Partido Liberal ou ao Conservador, os dois únicos existentes até a fundação do Partido Republicano, em 1870, o qual, então, não atraiu a alta oficialidade. O Partido Conservador, pelo qual Caxias se elegeu senador, defendia o Estado centralizado, que considerava garantia da manutenção da unidade nacional e da ordem social. Osorio pertenceu ao Partido Liberal, o qual, na sua origem, defendeu a descentralização do poder; maior participação dos cidadãos no processo político e, na década de 1840, pegou em armas contra o governo central.
No plano político Caxias ocupou, durante três décadas, os cargos mais relevantes na estrutura de poder do Império, enquanto Osorio teve carreira política mais modesta e sua liderança projetou-se nacionalmente apenas na década de 1870. No aspecto militar, a carreira de Caxias foi mais rica, na medida em que participou de todos os conflitos internos e externos travados pelo Império do Brasil, tendo, inclusive, Osorio como subordinado, o qual se tornou seu protegido a partir de meados da década de 1840. Caxias era melhor estrategista e organizador do que Osorio, embora este nãotenha tido as mesmas oportunidades de demonstrar sua habilidade nesse aspecto, pois pouco desempenhou a função de comandante-em-chefe. O certo é que Osorio se destacou pela capacidade tática, pois compreendia rapidamente a dinâmica de uma batalha e tomava as decisões corretas em pleno combate.
Outro contraste entre ambos se dava na relação com a tropa, o que se explica pelas origens sociais e personalidades de ambos. Caxias era muito respeitado pelos soldados, mas não tinha intimidade com eles, pois vinha de uma aristocracia militar, de bisavô, avô, pai e tio generais, e teve educação formal, cursando a Academia Militar. Vivia na capital do Império, o Rio de Janeiro, a mais cosmopolita cidade brasileira e, em duas décadas de carreira militar, conheceu o Brasil de norte a sul. Osorio, por sua vez, era filho de pequeno proprietário rural que chegou a coronel das milícias, as tropas não profissionais, "de 2a. linha", usadas como auxiliar do Exército profissional, "de 1a linha". Cresceu no ambiente rústico do interior do Rio Grande do Sul, em contato direto com peões, habituado a conversas pitorescas do dia-a-dia masculino, o que lhe permitiu, como general, falar de igual para igual com os soldados; não freqüentou escola e somente conheceu outras províncias brasileiras quando já era general. Caxias simbolizava o Exército formado na Academia, formal e rigoroso na aplicação das normas militares, enquanto Osorio era o Exército que vinha de baixo, pois nele ingressou como soldado, e, muitas vezes, relevava pequenas transgressões a formalismos e aparências.
Osorio era acessível, permitindo algumas liberalidades por parte dos subordinados. Assim, por exemplo, em 1865, o Exército brasileiro marchava em direção ao Paraguai sob seu comando quando Paulo Alves, conhecedor do gosto do general em escrever poesias, arriscou solicitar-lhe uma promoção em versos. O despacho de Osorio, em resposta, veio em igual forma:

Quem faz versos tão formosos,
Há de ter grande talento
E ser valente. Por isso,
Defiro o requerimento.
Mas não se repita
Que sai-se mal
Falando em verso
Ao general.

Nenhum subordinado ousaria escrever em versos a Caxias.
Conforme o visconde de Taunay, Osorio superava qualquer outro chefe militar na estima de oficiais e soldados e deles sabia obter tudo quanto desejasse, mesmo nas piores circunstâncias. Ninguém era mais simpático e atraente à tropa do que ele, despertando em torno de si afeto sincero e "dedicação que tocava as raias do fanatismo". Estava sempre bem-humorado, contava piadas e era "muito dado [...] ao belo sexo". Sobre esse aspecto, aliás, há ilustrativa história de que Osorio, quando ministro da Guerra no final da década de 1870, levou a Pedro II o nome de um coronel para ser promovido a general. No despacho seguinte o imperador ainda não assinara a promoção e, questionado por Osorio sobre o fato, revelou o motivo: "Dizem que é muito mulherengo", escutando como contra-argumento:
- Mas isso é até uma virtude! Se isso impedisse promoção... eu ainda hoje seria soldado raso!
Se verdadeiro, o diálogo é revelador de um aspecto da personalidade de Osorio. Se não o é, de todo modo confirma sua popularidade, a ponto de se inventar piada que reforçava sua imagem de bonachão.
Até meados da década de 1850, Osorio foi um personagem regional e, mesmo no Rio Grande do Sul, havia lideranças militares e políticas mais relevantes. Essa condição começou a mudar no final da década de 1860, quando, já general, liderou a organização do Partido Liberal gaúcho.
Projetou-se nacionalmente graças à sua atuação na Guerra do Paraguai, na qual sua bravura beirou a irresponsabilidade, arriscando a vida em diferentes ocasiões, ao lutar corpo a corpo ou expor-se à vista do inimigo. Questionado certa vez sobre esse comportamento, Osorio justificou-se: "Eu precisava provar aos meus comandados que o seu general era capaz de ir até onde os mandava". A tropa o seguia mais pelo arrebatamento e por suas qualidades pessoais do que pela obediência devida pelo regulamento militar.
As diferenças de personalidade e filiações partidárias distintas não impediram que Osorio e Caxias tivessem, durante mais de duas décadas, estreitas relações. Além da camaradagem de militares que lutaram lado a lado, ambos compartilhavam a mesma visão da sociedade, quer no aspecto político, pois defendiam o Estado monárquico, quer nos valores morais e, mesmo, na falta de preocupação em enriquecer no exercício da função pública. Coincidiam na aversão à guerra, apesar de terem sido grandes chefes militares ou, talvez por isso mesmo, por terem vivenciado os sofrimentos humanos que ela acarreta. Desenvolveram a carreira convictos dos valores que garantiam e da superioridade moral das causas que defendiam, o que lhes permitia lutar e matar pessoalmente o inimigo, movidos pela lógica de que, assim, encurtariam as guerras que travavam e poupariam vidas. Na década de 1870, porém, surgiram atritos entre ambos, originários de mal-entendidos sobre dois momentos comuns na Guerra do Paraguai, que foram explorados e ampliados por terceiros por motivos políticos, resultando no fim da amizade entre os dois generais.
Tanto as características de Osorio quanto as de Caxias são necessárias para o sucesso de um Exército em guerra, não havendo mais méritos militares em um do que no outro. Porém, elas não são suficientes, por si sós, para explicar por que, em momentos diferentes, ambos se constituíram em ícones para o Exército e assim foram apresentados à sociedade brasileira. As filiações políticas de ambos e o contexto político complementam o quadro explicativo.
A popularidade conquistada por Osorio na Guerra do Paraguai foi reforçada, em seguida, por sua militância no Partido Liberal e pela associação deste com a idéia de descentralização política, enquanto Caxias defendia o centralismo conservador. A descentralização era bandeira cara à elite agrária gaúcha, mas também aos senhores do café de São Paulo, berço do Partido Republicano, e a outras oligarquias regionais, cujo exercício do poder local encontrava limitações decorrentes do modelo centralista vigente. Na década de 1870, jornais e políticos de oposição foram fartos em elogios ao liberal Osorio, enquanto o conservador duque de Caxias, símbolo do status quo, foi alvo de reiteradas críticas.
Foi, portanto, como resultado de seus méritos militares, de sua personalidade afável e, ainda, dessa ação política que Osorio adquiriu maior estatura no imaginário popular do que Caxias, posição essa que foi reforçada com a instalação da República no Brasil, em 15 de novembro de 1889. Nos primeiros anos do novo regime os republicanos tinham no federalismo sua maior realização, em contraste com tantas promessas não cumpridas feitas quando eram oposição, e, ainda, à prática do empreguismo e concessões públicas aos apaniguados. Era um melancólico saldo para um movimento que, durante quase duas décadas, afirmara ser a República superior à Monarquia, criticando esta acidamente e prometendo que, com o novo regime, não haveria corrupção administrativa, violência política e aos brasileiros seria garantido o exercício da cidadania.
A jovem República, instalada por um golpe militar, sem a participação popular e com práticas que desmentiam essas promessas, não conseguiu construir um universo cultural legitimador, com símbolos e valores que obtivessem a adesão do povo. Recuperou, então, personagens da Monarquia que permaneciam na memória popular e que permitiam a valorização de algum aspecto que levasse o cidadão a se identificar com a República. A defesa da descentralização por Osorio e sua aceitação da idéia de República, apenas teórica, pois ressalvava não considerar o Brasil preparado para ela, permitiram aos republicanos apresentá-lo como um "pré-republicano" e ao novo regime buscar se identificar com uma unanimidade nacional. Assim, em 1894, Floriano Peixoto encabeçou a mobilização popular para a inauguração da estátua de Osorio no Rio de Janeiro.
Até a década de 1920 Osorio foi o soldado mais lembrado e admirado da nossa história, a ponto de a principal comemoração anual militar brasileira, constituindo-se praticamente em Dia do Exército, ser o aniversário da batalha de Tuiuti. Travada em 24 de maio de 1866, foi a maior batalha da América do Sul, e a atuação de Osorio foi decisiva para rechaçar o ataque paraguaio. Todos os anos, nessa data, na praça Quinze de Novembro no Rio de Janeiro, havia comemoração diante de sua estátua, em cujo pedestal se encontravam seus restos mortais, na presença de altas autoridades e com desfile de tropas. Em 1925, porém, foi criado o Dia do Soldado, em 25 de agosto, data do nascimento do duque de Caxias, que se tornou a comemoração mais importante da força terrestre. Nos anos seguintes desenvolveu-se o culto a Caxias até ele ser elevado, por decreto de 13 de março de 1962, à condição de Patrono do Exército, termo até então inexistente na tradição militar brasileira. Na mesma data, Osorio foi colocado em um degrau inferior no panteão militar, ao ser oficializado Patrono da Cavalaria, sendo desvinculado da batalha de Tuiuti. Nessa data passou-se a comemorar o Dia da Infantaria, tendo como patrono o general Antonio de Sampaio, que, coincidentemente, fazia aniversário no mesmo dia desse combate, no qual recebeu ferimentos que causaram sua morte.
Na origem e desenvolvimento do culto a Caxias, o cientista social Celso Castro identifica, no plano simbólico, a afirmação do valor da legalidade, da disciplina e o afastamento da política. São valores favoráveis à manutenção da unidade interna do Exército, despedaçada nos anos 1920 por revoltas internas e posicionamentos políticos. Na década seguinte, a figura de Caxias foi instrumentalizada pela mudança decorrente do progressivo fechamento político promovido por Getulio Vargas, que, em 1937, desembocou na ditadura do Estado Novo. Passou-se, então, a ressaltar as qualidades do duque como chefe militar a serviço de um Estado forte e centralizado tal qual o da ditadura getulista. Essa instrumentalização persistiu após 1964, quando os militares no poder colocaram em relevo as características de Caxias que interessavam à situação vigente, como a de ter sufocado movimentos revolucionários. Essas foram, de fato, suas características e, à exceção do princípio da centralização, também as de Osorio. Contudo os dois generais tinham ainda como características a subordinação ao poder civil, a aversão ao caudilhismo e a repulsa ao militarismo, mas estas os ideólogos do autoritarismo não tinham interesse em lembrar e os da democracia negligenciaram em recuperar.

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