Companhia das Letras
LUUANDA
José Luandino Vieira



VAVÓ XÍXI E SEU NETO ZECA SANTOS

Tinha mais de dois meses a chuva não caía. Por todos os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos dos jipes das patrulhas zunindo no meio de ruas e becos, de cubatas arrumadas à toa. Assim, quando vavó adiantou sentir esses calores muito quentes e os ventos a não querer mais soprar como antigamente, os vizinhos ouviram-lhe resmungar talvez nem dois dias iam passar sem a chuva sair. Ora a manhã desse dia nasceu com as nuvens brancas - mangonheiras no princípio; negras e malucas depois - a trepar em cima do musseque. E toda a gente deu razão em vavó Xíxi: ela tinha avisado, antes de sair embora na Baixa, a água ia vir mesmo.
A chuva saiu duas vezes, nessa manhã.
Primeiro, um vento raivoso deu berrida nas nuvens todas fazendo-lhes correr do mar para cima do Kuanza. Depois, ao contrário, soprou-lhes do Kuanza para cima da cidade e do Mbengu. Nos quintais e nas portas, as pessoas perguntavam saber se saía chuva mesmo ou se era ainda brincadeira como noutros dias atrasados, as nuvens reuniam para chover mas vinha o vento e enxotava. Vavó Xíxi tinha avisado, é verdade, e na sua sabedoria de mais-velha custava falar mentira. Mas se ouvia só ar quente às cambalhotas com os papéis e folhas e lixo, pondo rolos de poeira pelas ruas. Na confusão, as mulheres adiantavam fechar janelas e portas, meter os monas para dentro da cubata, pois esse vento assim traz azar e doença, são os feiticeiros que lhe põem.
Mas, cansado do jogo, o vento calou, ficou quieto. Durante algum tempo se sentiram só as folhas das mulembas e mandioqueiras a tremer ainda com o balanço e um pírulas, triste, cantando a chuva que ia vir. Depois, pouco-pouco, os pingos da chuva começaram a cair e nem cinco minutos que passaram todo o musseque cantava a cantiga d'água nos zincos, esse barulho que adiantou tapar os falares das pessoas, das mães gritando nos monandengues para sair embora da rua, carros cuspindo lama na cara das cubatas, e só mesmo o falar grosso da trovoada é que lhe derrotava. E quando saiu o grande trovão em cima do musseque, tremendo as fracas paredes de pau-a-pique e despregando madeiras, papelões, luandos, toda a gente fechou os olhos, assustada com o brilho azul do raio que nasceu no céu, grande teia d'aranha de fogo, as pessoas juraram depois as torres dos reflectores tinham desaparecido no meio dela.
Com esse jeito choveu muito tempo.
Era meio-dia já quase quando começou ficar mais manso, mesmo com o céu arreganhador e feio, todo preto de nuvens. O musseque, nessa hora, parecia era uma sanzala no meio da lagoa, as ruas de chuva, as cubatas invadidas por essa água vermelha e suja correndo caminho do alcatrão que leva na Baixa ou ficando, teimosa, em cacimbas de nascer mosquitos e barulhos de rãs. Tinha mesmo cubatas caídas, e as pessoas, para escapar morrer, estavam na rua com as imbambas que salvaram. Só que os capins, aqueles que conseguiam espreitar no meio das lagoas, mostravam já as cabeças das folhas lavadas e brilhavam uma cor mais bonita para o céu ainda sem azul nem sol.
Na hora que Zeca Santos saltou, empurrando a porta de repente, e escorregou no chão lamacento da cubata, vavó pôs um grito pequeno, de susto, com essa entrada de cipaio. Zeca riu; vavó, assustada, refilou:
- Ená, menino!... Tem propósito! Agora pessoa de família é cão, não é? Licença já não pede, já não cumprimenta nos mais-velhos...
- Desculpa, vavó! É a pressa da chuva!
Vavó Xíxi muxoxou na desculpa, continuou varrer a água no pequeno quintal. Tinha adiantado na cubata e encontrou tudo parecia era mar: as paredes deixavam escorregar barro derretido; as canas começavam aparecer; os zincos virando chapa de assar castanhas, os furos muitos. No chão, a água queria fazer lama e mesmo que vavó punha toda a vontade, nada que conseguia, voltava sempre. Viu bem o melhor era ficar quieta; sentou no caixote e, devagar, empurrou as massuícas no sítio mais seco para fazer o fogo, adiantar cozinhar almoço.
Lá fora, a chuva estava cair outra vez com força, grossa e pesada, em cima do musseque. Mas já não tinha mais trovão nem raio, só o barulho assim da água a correr e a cair em cima da outra água chamava as pessoas para dormir.
- Vavó?! Ouve ainda, vavó!...
A fala de Zeca era cautelosa, mansa. Nga Xíxi levantou os olhos cheios de lágrimas do fumo da lenha molhada.
- Vamos comer é o quê? Fome é muita, vavó! De manhã não me deste meu matete. Ontem pedi jantar, nada! Não posso viver assim...
Vavó Xíxi abanou a cabeça com devagar. A cara dela, magra e chupada de muitos cacimbos, adiantou ficar com aquele feitio que as pessoas tinham receio, ia sair quissemo, ia sair quissende, vavó tinha fama...
- Sukua'! Então, você, menino, não tens mas é vergonha?... Ontem não te disse dinheiro 'cabou? Não disse para o menino aceitar serviço mesmo de criado? Não lhe avisei? Diz só: não lhe avisei?...
- Mas, vavó!... Vê ainda!... Trabalho estou procurar todos os dias. Na Baixa ando, ando, ando - nada! No musseque...
- Cala-te a boca! Você pensa que eu não lhe conheço, enh? Pensa? Está bom, está bom, mas quem lhe cozinhou fui eu, não é!?
Tinha levantado, parecia as palavras punham-lhe mais força e juventude e ficou parada na frente do neto. A cabeça grande do menino toda encolhida, via-se ele estava procurar ainda uma desculpa melhor que todas desses dias, sempre que vavó adiantava xingar-lhe de mangonheiro ou suinguista, só pensava em bailes e nem respeito mesmo no pai, longe, na prisão, ninguém mais que ganhava para a cubata, como é iam viver, agora que lhe despediram na bomba de gasolina porque você dormia tarde, menino?...
- Juro, vavó! Andei procurar trabalho...
- O menino foste no branco sô Souto, foste? Te avisei ainda para ir lá, se você trabalha lá, ele vai nos fiar almoço!... Foste?
Zeca Santos fechou a cara magra com as palavras da avó. Na barriga, o bicho da fome, raivoso, começou roer, falta de comida, dois dias já, de manhã só mesmo uma caneca de café parecia era água, mais nada. Vavó quase a chorar lhe sacudiu da esteira com a vassoura para ele ir embora procurar serviço na Baixa e, quando Zeca saiu, ainda falava as palavras cheias de lágrimas, lamentando, a arrumar as coisas:
- Nem maquezo nem nada! Aiuê, minha vida! Esta vida está podre!...
Agora, recolhida no canto, continuava soprar o fogo; a lata de água fervia, mas nada que tinha para pôr lá dentro.
- Mas, vavó, vamos comer?
- Ih?! Vamos comer, vamos comer!... Vamos comer mas é tuji! Menino trouxeste dinheiro, trouxeste, para comprar as coisas de comer?... Todos dias nas farras, dinheiro que você ganhaste foi na camisa e agora vavó quero comer, vavó vamos comer é o quê?! Juízo, menino!
Continuou abanar o fogo com raiva, a lenha já estava arder muito bem, cheia de estalos, fazendo mesmo pouco fumo, mas vavó não podia ficar ainda calada. Lamentou outra vez:
- Aiuê!... Não te disse para ir no sô Souto? Cadavez se você ia lhe ajudar, ia nos fiar outra vez, cadavez quem sabe...
- O branco sô Souto, o branco sô Souto! Vê só, vavó, vê ainda, mira bem!
Zeca Santos estava tirar a camisa amarela de desenhos de flores coloridas, essa camisa que tinha-lhe custado o último dinheiro e provocado uma grande maca com vavó. Na pouca luz da cubata e do dia sem sol, as costas estreitas de Zeca apareceram com um comprido risco vermelho atravessado. Vavó levantou com depressa e passou as mãos velhas e cheias de calos nas costas novas do neto.
- Aka! Como é o menino arranjaste?... Diz só! Fal'então!?
Mas ele já tinha vestido outra vez a camisa. Virado para vavó Xíxi, empurrou-lhe devagar para ir no caixote dela e, sentando o comprido corpo magro na mesa pequena, começou falar triste, disse:
- Vavó me disseste para eu ir lá e eu fui. Verdade! Nem mesmo a chuva que tinha começado a chover e a fome estava-me chatear nessa hora...
Sô Souto recebera-lhe bem, amigo e risonho, pôs mesmo a mão no ombro dele para falar:
- Pois claro! Para o filho de João Ferreira tenho sempre qualquer coisa. E a avó, vai bem? Diz ela não precisa ter vergonha... a conta é pequena, pode vir ainda cá...
Tinha desaparecido depois, na direcção do armazém, arrastando a barriga dele dentro da camisola suja e Zeca Santos distraiu-se a olhar a bomba da gasolina com tambor e manivela de medir, não era automática como as da Baixa, não senhor. E dois vidros amarelos, cada qual marcando cinco litros...
- Juro, vavó, não fiz nada, não disse nada! Só tinha-lhe pedido para trabalhar na bomba de medir gasolina, mais nada... Só para comer e para te fiar comida ainda, vavó! E ele estava rir, estava dizer sim senhor, eu era filho de João Ferreira, bom homem e depois nem dei conta, vavó...
Zeca Santos queria chorar, os olhos enchiam de água, mas a raiva era muita e quente como tinha sido o grito do cavalmarinho nas costas dele e esse calor mau secava as lágrimas ainda lá dentro dos olhos, não podiam sair mesmo.
- ... me arreou-me não sei porquê então, vavó! Não fiz nada! Quando eu fugi, ficou me gritar ia pôr queixa no Posto, eu era gatuno como o Matias que andava lhe roubar o dinheiro da gasolina quando estava trabalhar lá...
- Ih!? Mas esse menino está preso mesmo, mentira?
- Sim, vavó! Foi ele que lhe levou no Posto. E estava-me gritar eu era filho de terrorista, ia-me pôr uma queixa, não tinha mais comida para bandidos, não tinha mais fiado...
Vavó Xíxi Hengele, velha sempre satisfeita, a vida nunca lhe atrapalhava, descobria piada todo o dia, todos os casos e confusões, não queria acreditar essas coisas estava ouvir, mas as costas do neto falavam verdade. Um branco como sô Souto, amigo de João Ferreira, como é ele ia ainda bater de chicote no menino só porque foi pedir serviço? Hum!... Muitas vezes Zeca tinha começado com as manias antigas, o melhor era procurar saber a verdade inteira...
- Mas ouve ainda, Zeca! Você não lhe tiraste nada? Nem mexeste mesmo nas roupas da porta, só para ver?...
Cautelosa, com toda a esperteza e técnica dos anos que tinha vivido, vavó Xíxi começou explorar o neto, pôr per-guntas pareciam à toa mas eram para descobrir se ele fa-lava mentira. Zeca não aceitou: saltou da mesa, os sapatos furados puseram um barulho mole no chão de barro, e gritou raivoso, defendendo-se:
- Vavó, possa! Não sou ladrão! Não roubei nada! Só queria o serviço, juro, vavó!
Os grandes soluços, as lágrimas brancas a descerem na cara magra dele, a cabeça encostada na mesa e escondida nos braços, todo o corpo a tremer sacudido com a dor desse falso, com a raiva que a fome trazia, calaram a boca de vavó.
Lá fora, a chuva tinha começado cair mais fina e vagarosa, parecia era mesmo cacimbo e muitas pessoas já que adiantavam sair, os monas com suas brincadeiras de barcos de luando e penas de pato nas cacimbas do musseque. Junto com os estalos da lenha a arder e o cantar da água na lata, os soluços de Zeca Santos enchiam a cubata com uma tristeza que, pouco-pouco, começou atacar vavó, fez a cabeça velha ficar abanar à toa, pensando essa vida assim, sem comida, trabalho nada, no choro do neto, nessa vez parece ele tinha razão. Mas também Zeca não ganhava mais juízo; quando estava ganhar o vencimento no emprego que lhe correram, só queria camisa, só queria calça de quinze em baixo, só queria peúga vermelha, mesmo que lhe avisava para guardar ainda um dinheiro, qual?! Refilava ele é que ganhava e só farra, farra, acordar tarde, sair nas corridas até que lhe despediram. Uma grande ternura, uma grande vontade de lhe deitar no colo como nos tempos do antigamente, de monandengue chorão e magrinho, adiantou entrar no coração dela, velho e cansado; para disfarçar, foi, sem barulho, desembrulhar o pacote ela tinha trazido da Baixa.
A chuva já estava calada e um fresco vento molhado punha pequenas ondas nas águas barrentas das cacimbas, sacudia as gotas das folhas dos paus. Os zincos despregados batiam devagar com esse sopro. O barulho do papel a desembrulhar debaixo da mesa, as costas dobradas de vavó, os pés dela, descalços e grossos, espetados no chão vermelho de lama, obrigaram Zeca Santos a levantar a cabeça ainda cheia de lágrimas. Tudo parecia-lhe agora mais claro, mais leve, sem tantas sombras; a dor na barriga já não estava lá, era só fresco, vazio, nesse sítio, parece mesmo não tinha mais nada, era oco aí, como as coisas dentro da cubata estavam também a ficar. E o olhar bom de vavó, desembrulhando o jornal na frente dele, vinha de longe, parecia ela mesmo uma sombra.
- Zeca! Olha ainda, menino... Parece estas coisas é mandioca pequena, vou lhes cozer. E tem esta laranja, vê ainda, menino! Arranjei para você...
E foi nessa hora, com as coisas bem diante da cara, o sorriso de vavó cheio de amizade e tristeza, Zeca Santos sentiu uma vergonha antiga, uma vergonha que lhe fazia querer sempre as camisas coloridas, as calças como sô Jaime só quem sabia fazer, uma vergonha que não lhe deixava aceitar comida, como ainda nessa manhã: Maneco tinha querido dar meia-sandes, voltara-lhe. Agora enchia-lhe no peito, no coração. Fechou os olhos com força, com as mãos, para não ver o que sabia, para não sentir, não pensar mais o corpo velho e curvado de vavó, chupado da vida e dos cacimbos, debaixo da chuva, remexendo com suas mãos secas e cheias de nós os caixotes de lixo dos bairros da Baixa. As laranjas quase todas podres, só ainda um bocado é que se aproveitava em cada uma e, o pior mesmo, aquelas mandiocas pequenas, encarnadas, vavó queria enganar, vavó queria lhes cozer para acabar com a lombriga a roer no estômago...
Nem Zeca mesmo podia saber o que sucedeu: saltou, empurrou vavó Xíxi e, sem pensar mais nada, antes que as lágrimas iam lhe nascer outra vez nos olhos, saiu a gritar, a falar com voz rouca, a repetir parecia era maluco:
- São dálias, vavó! São flores, vavó! É a raiz das flores, vavó!
A porta, inchada com a chuva, não entrou no caixilho dela. Bateu com força uma vez, duas vezes; ficou depois a ranger, a chorar baixinho essa saída de Zeca. Vavó Xíxi, no meio da cubata escura e cheia de fumo mal soprado, olhava a saída do neto, segurando nas mãos a tremer as raízes de dália e abanando a cabeça num lado e noutro, sem mesmo dar conta, parecia era um boneco de montra de lotaria.

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