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Companhia das Letras
O LIVRO DAS CITAÇÕES
Eduardo Giannetti



I
LER, ESCREVER, SER COMPREENDIDO


1. A mania de citar

Não importa qual fosse o livro que eu estivesse lendo, adquiri o hábito de anotar por escrito sentenças isoladas ou passagens curtas que me parecessem dignas de atenção. Fazia isso tendo em vista o meu próprio uso ou para simples desfrute, como dizem os advogados, sem intenção alguma de publicar. Até que mais recentemente me ocorreu que pelo menos uma parte dessas citações - já na casa dos milhares - poderia despertar o interesse de outras pessoas. Daí este livro.
VISCOUNT SAMUEL (1947)

Não me inspiro nas citações; valho-me delas para corroborar o que digo e que não sei tão bem expressar, ou por insuficiência da língua ou por fraqueza do intelecto. Não me preocupo com a quantidade e sim com a qualidade das citações. Se houvesse desejado que fossem avaliadas pela quantidade teria podido reunir o dobro.
MONTAIGNE (1592)

Alguns, em nome da fama, com farrapos de erudição se besuntam, e imortais se crêem tornar à medida que citam.
EDWARD YOUNG (1728)

Um autor aparece com mais vantagem nas páginas de outro livro, distinto do seu. No seu próprio, ele é apenas um candidato à espera da aprovação do leitor; no livro de outro autor ele tem a autoridade de quem legisla.
EMERSON (1876)

As citações em meu trabalho são como bandidos de beira da estrada que repentinamente surgem armados e tomam de assalto as convicções dos passantes.
WALTER BENJAMIN (1928)

De um modo geral, quando lemos um estudo crítico erudito, tiramos melhor proveito das citações que dos seus comentários.
W. H. AUDEN (1962)

A autoridade dos mortos não aflige, e é definitiva.
MACHADO DE ASSIS (1897)

Antônio: O demônio pode citar as Escrituras para o seu propósito. Um espírito maligno que invoca testemunho sagrado é como um vilão com bochechas sorridentes.
SHAKESPEARE (1596)

A mania de citações e de comentário dos filólogos mais antigos, o que era, senão filha da pobreza de livros e do excesso de espírito literário.
NOVALIS (1798)

Bem ao lado do criador de uma grande frase figura aquele a quem primeiro ocorre citá-la. Muitos lerão um livro antes que alguém pense em citar certa passagem. Mas, assim que isso é feito, aquela linha será citada de leste a oeste. [...] De fato, é tão difícil se apropriar dos pensamentos de outros como inventá-los. Pois sempre alguma transição abrupta, alguma mudança repentina de temperatura ou de ponto de vista trai a inserção do alheio.
EMERSON (1876)

O que quer que um outro disser bem, é meu.
SÊNECA (século I D.C.)

O efeito de uma estrada campestre não é o mesmo quando se caminha por ela ou quando a sobrevoamos de avião. De igual modo, o efeito de um texto não é o mesmo quando ele é lido ou copiado. O passageiro do avião vê apenas como a estrada abre caminho pela paisagem, como ela se desenrola de acordo com o padrão do terreno adjacente. Somente aquele que percorre a estrada a pé se dá conta dos efeitos que ela produz e de como daquela mesma paisagem, que aos olhos de quem a sobrevoa não passa de um terreno indiferenciado, afloram distâncias, belvederes, clareiras, perspectivas a cada nova curva [...]. Apenas o texto copiado produz esse poderoso efeito na alma daquele que dele se ocupa, ao passo que o mero leitor jamais descobre os novos aspectos de seu ser profundo que são abertos pelo texto como uma estrada talhada na sua floresta interior, sempre a se fechar atrás de si. Pois o leitor segue os movimentos de sua mente no vôo livre do devaneio, ao passo que o copiador os submete ao seu comando. A prática chinesa de copiar livros era assim uma incomparável garantia de cultura literária, e a arte de fazer transcrições, uma chave para os enigmas da China.
WALTER BENJAMIN (1928)

Ah, o quanto me repugna impingir a outro meus pensamentos! Como me alegro de todo estado de ânimo e secreta mudança dentro de mim, em que os pensamentos de outros prevalecem diante dos meus! De vez em quando, porém, há uma festa ainda maior, quando é permitido distribuir seus bens espirituais, à maneira do confessor que se acha sentado no canto, ávido de que um necessitado venha e fale da miséria de seus pensamentos, para que ele possa lhe encher a mão e o coração e aliviar a alma inquieta!
NIETZSCHE (1881)

Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que tenho lido.
JORGE LUIS BORGES (1969)

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