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Companhia das Letras
ESPINOSA SEM SAÍDA
Luiz Alfredo Garcia-Roza



PARTE I

Confrontação


Era um início de tarde, quando o calor atinge seu ponto máximo, a água da bica é quente, o asfalto das ruas é grudento e não se percebe a mais leve brisa no céu sem nuvens.
O menino estava sentado no degrau do portão da casa com os pés na calçada, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos em vê segurando o queixo. Vestia short e camiseta e calçava sandálias. Devia ter sete ou oito anos de idade e olhava para as coisas com lentidão, os olhos castanhos parecendo derreter sob o sol. Não olhava a rua como se estivesse à espera de alguém, olhava a calçada fronteira pelo simples fato de que era para aquela direção que estava voltada a cabeça apoiada entre as mãos. Parecia estar aguardando alguma coisa que sabia demorar muito a chegar.
Conhecia todas as casas da rua. Não por dentro, mas por fora, embora já tivesse entrado em algumas delas; eram todas parecidas com a sua: dois pavimentos, jardim na frente e quintal na parte dos fundos. Mas naquele momento não parecia interessado no interior das residências, era para a rua que olhava. Conhecia cada árvore, cada buraco na calçada, cada reentrância secreta nos muros das casas, cada automóvel estacionado ao longo do meio-fio; conhecia o sorveteiro, o carteiro, os entregadores; conhecia os cachorros que vadiavam pelas calçadas e que àquela hora estavam desaparecidos. Do seu pequeno mirante ao rés-do-chão, o menino observava aquele mundo particular que, apesar de limitado em espaço, era infinito em detalhes, segredos, esconderijos, pequenos e grandes habitantes, mistérios.
As sombras eram tão fortes e nítidas que pareciam pintadas no chão. Toda a vida animal estava recolhida. Se algum passarinho arriscava um vôo era para procurar proteção sob uma árvore. E quando ocasionalmente passava um carro, o contato do pneu com o asfalto produzia um ruído pegajoso.
Da janela do segundo andar o homem olhava, havia algum tempo, o menino sentado no portão. Pensou em dizer-lhe para sair do sol, sentar num lugar à sombra, proteger-se, mas da distância em que se encontrava teria que gritar e tinha medo de perturbar. Não sabia bem o que seu grito perturbaria, ou mesmo se era possível provocar alguma perturbação. Não havia mais ninguém na rua; também não parecia haver ninguém dentro das casas, nem mesmo dentro da casa do menino: as janelas estavam com as venezianas fechadas e não se via movimento algum do lado de fora. Talvez as pessoas estivessem dormindo. Havia apenas ele no portão.
O homem fez um movimento de quem ia sair da janela, mas o olhar permanecia voltado para a rua. Decidindo-se, retomou a posição original, braços apoiados no peitoril da janela. Olhava para o menino com a mesma obstinação com que o menino olhava para a calçada fronteira ao seu portão, mas não com a mesma serenidade. O menino não dava nenhum sinal de desconforto ou sofrimento. O sol e o calor pareciam não afetá-lo, dava a impressão de que agiria da mesma forma caso estivesse chovendo. Era o que o homem parecia estar pensando enquanto olhava da janela. Talvez ponderasse ainda que os meninos quando sozinhos estavam sempre fazendo alguma coisa. Pelo menos assim tinha sido com ele próprio. Mesmo sozinhos, os meninos brincam com carrinho, bola de gude, com pedra, alguns brincam com um companheiro imaginário. Mas aquele menino não estava brincando, ele nem sequer se movia. Apenas olhava.
Da janela, o homem viu os outros três dobrarem a esquina pela mesma calçada, vindo na direção do menino. Percebeu também quando o menino captou o movimento e moveu ligeiramente a cabeça para a direita. Dos três, um era bem maior, talvez tivesse uns treze anos; os outros dois se igualavam ao menino em tamanho, embora aparentassem mais idade. Estavam sem camisa e descalços. A peça de roupa comum aos quatro era o short, embora os dos recém-chegados estivessem mais sujos e com alguns furos visíveis. O menino voltou a cabeça para a posição original e continuou a olhar para a calçada em frente. Os três se aproximavam preguiçosamente, o andar lento e gingoso, conversando entre si, olhos voltados para o portão.
De onde estava, o homem não era capaz de perceber os detalhes, sobretudo não conseguia ouvir o que conversavam. Eram meninos pobres, os recém-chegados, e a lata com comida que passavam um para o outro sob o controle do mais velho era a prova disso. O homem viu os três se aproximarem do ponto onde o menino estava e sentarem-se no meio-fio bem defronte, de costas para ele. O menino continuou com os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça entre as mãos e o olhar voltado para a calçada defronte, só que agora o olhar estava interceptado pela imagem dos três forasteiros.
Assim que se sentaram no meio-fio, os três reiniciaram o almoço interrompido. Havia apenas uma lata de comida. O menino maior se servia retirando com a mão um pequeno punhado, repetia o gesto uma ou duas vezes e passava a lata para os outros, pegando-a de volta assim que eles se serviam, reiniciando o processo. Não faziam aquilo com pressa e não havia voracidade no comer. O homem calculou que o conteúdo da lata devia corresponder ao de um prato fundo bem cheio, o que não era muito para três crianças certamente mal alimentadas.
Um carro surgiu na esquina, passou devagar como se estivesse procurando um endereço e voltou a desaparecer na esquina seguinte. Os quatro meninos o seguiram com o olhar.
Até aquele momento, nenhum deles dissera uma única palavra. Da janela, o homem viu o menino maior passar a lata para o colega do lado, virar-se para trás e falar alguma coisa que não conseguiu captar. Os outros dois também se viraram. Os três continuavam sentados no meio-fio, mas com o rosto voltado para o menino no portão atrás deles, a menos de três metros de distância. O homem não foi capaz de distinguir se o menino respondeu alguma coisa ou mesmo se fora ele o primeiro a falar. Passados alguns segundos, os três meninos voltaram a olhar para a frente e recomeçaram a comer, mas apenas os dois menores se serviram. O maior olhava à sua frente para o mesmo ponto do olhar do outro menino. Não havia nada de especial a ser visto, apenas o muro branco da casa em frente.
Num gesto brusco, o menino maior se levantou e foi de dedo em riste para o menino do portão. O homem entendeu que ele mandava o menino se levantar. Ele se levantou. Os dois meninos que estavam no meio-fio também se levantaram e ficaram à distância. O menino maior era magro e seco, bem mais alto e mais velho que o menino do portão. Ficaram os dois de pé, frente a frente, sem dizer nada. O corpo tenso do menino maior contrastava com a atitude desarmada, os braços soltos ao longo do corpo, do menino do portão.
Sem nenhum aviso, o maior desferiu um soco que atingiu em cheio o rosto do menor. Da janela, o homem pôde perceber a expressão de perplexidade do menino, sempre de braços estendidos ao longo do corpo. Ele olhava para os lados, como que a pedir ajuda a alguém que passasse, à vizinha da casa em frente, ao sorveteiro e ao tintureiro, olhava para as janelas da sua casa e procurava o olhar do pai e da mãe, procurando socorro, mas nenhum som saía da sua boca, assim como não havia ninguém na rua. Viu ao longe o homem, mas ele estava longe e nunca saía da janela. O menino continuava com os dois braços estendidos ao longo do corpo. Quando o maior percebeu que não havia contra-ataque, nem mesmo uma atitude defensiva por parte do adversário, desferiu um segundo soco, e um terceiro, todos atingindo o rosto do menino, que sangrava pelo nariz e tinha o lábio cortado. O maior golpeava o menor sem que este esboçasse o mínimo gesto de defesa. O homem tentou gritar da janela, mas o som saiu fraco. Passou a agitar desesperada e inutilmente os braços; o menino continuava na sua imobilizante perplexidade. O menino maior virou-se, disse alguma coisa para os outros dois, e os três se afastaram sem pressa na direção de onde tinham vindo, deixando junto ao meio-fio a lata vazia de comida.
O menino continuou parado, olhando fixo para a frente, nariz e boca sangrando, braços largados ao longo do corpo. Passado algum tempo, deu meia-volta, cruzou o portão e entrou em casa.



1


Espinosa distinguia com clareza os sons vindos da rua e tinha plena consciência de estar deitado na sua própria cama, mas ainda não se dispusera a abrir os olhos. Tentava adivinhar as horas: mais de seis, com certeza, seis e meia era um bom palpite. Poderia consultar o relógio na mesinha-de-cabeceira, a dois palmos da sua cabeça, mas isso significaria aceitar-se tecnicamente acordado. Conservava os olhos fechados. Tudo o que queria naquele momento era a lentidão preguiçosa com que deixava aflorar a imagem de Irene subindo os dois andares de escada carregando sacolas e anunciando vinhos, queijos e pães enquanto ele, do alto da escada, olhava seu vestido leve mover-se sobre o corpo, modelando as coxas, a curva dos quadris, os seios, insinuando mais do que mostrando. A cena imaginária, na fronteira do despertar, não era a da noite anterior nem a de nenhuma noite específica recente ou remota, mas a antecipação do encontro que teriam naquela noite de sexta-feira. Daí a relutância em abrir os olhos e se confrontar com a realidade estúpida do relógio. Ele marcava seis e vinte quando Espinosa decidiu se levantar.
Estava ligando a cafeteira quando o telefone tocou.
- Bom dia, delegado, desculpe acordar o senhor.
- Não acordou. O que aconteceu?
- Um homem foi morto com um tiro no peito no final da rua Mascarenhas de Moraes, aquela ladeira que sai da rua Tonelero. Achamos que o senhor gostaria de ver o corpo antes de ser removido.
- Não é uma questão de gostar, detetive.
- Modo de falar, delegado, desculpe.
- E por que você achou que eu gostaria? A vítima é conhecida?
- Não, delegado, é um sem-teto, idoso, não tem uma perna... Foi morto com um tiro no peito.
- Um tiro só?
- Só um. A curta distância. No coração. No meio da noite e da chuva. Ele ficou estirado no final da rua... naquele retorno redondo...
- Cul-de-sac.
- Como?
- O nome daquilo é cul-de-sac... é francês.
- Pois então, ele estava caído junto ao meio-fio, foi encontrado pelo garagista do único prédio naquele fim de rua. Vou mandar uma viatura pegar o senhor em casa, está chovendo e o acesso ao local é cansativo sem carro.
- E como ele chegou lá?
- Pois é... Ninguém sabe.


Antes mesmo de o carro iniciar a subida, Espinosa identificou a ladeira. No seu registro arcaico não se chamava rua Marechal Mascarenhas de Moraes, mas ladeira do Otto. Não que fosse esse o nome original da rua, mas, na lembrança dos seus treze anos, ele e seus amigos só se referiam à rua como a ladeira do Otto. Nunca viram nenhuma placa com esse nome nem conheciam nenhum morador da rua chamado Otto, como tampouco Otto era uma homenagem do pequeno grupo de pré-adolescentes a algum ídolo juvenil. Por um motivo desconhecido, um dia algum deles se referiu à ladeira como sendo ladeira do Otto e assim ela passou a ser chamada para sempre. Passados trinta anos, ali estava ele sem a sua bicicleta inglesa, o mais incrível presente que o pai lhe dera, misturando sentimentos tão contrários como a lembrança da intensa emoção que precedia a descida de bicicleta e a tristeza de ver o homem sem uma perna, morto com um tiro no peito, caído na rua. A mesma geografia e histórias tão distintas.
A rua é na verdade uma ladeira em esse, muito íngreme, na encosta rochosa do morro São João, em Copacabana, toda ela pavimentada com paralelepípedos; nos seus quatrocentos metros de extensão apresenta duas curvas que exigem perícia tanto do motorista como do pedestre. A ladeira tem início na rua Tonelero e termina num pequeno largo de onde, tempos antes, era possível descortinar grande parte de Copacabana e o mar. Essa vista foi bloqueada por um prédio construído na face externa da ladeira, o que reduziu o cul-de-sac a um retorno sombrio e sem graça. A metade do largo circular que dá para o morro é limitada por um paredão natural, de pedra, quase todo coberto pela vegetação da encosta. Acompanhando esse paredão, foi construída em tempos remotos uma escadaria de cimento que tem início no cul-de-sac e que acompanha a curva do morro e desaparece em meio às árvores da encosta. O acesso à escadaria, um pequeno pórtico talhado na pedra, foi fechado com um robusto portão de madeira. A outra metade do pequeno largo, outrora voltada para o mar, é toda ela limitada por um muro alto de alvenaria e os cinco pavimentos do prédio. Há ainda um portão de ferro, bem maior do que o primeiro, dando para os fundos de um terreno que acompanha o declive do morro até a rua Tonelero, distante duzentos metros morro abaixo, e que pertence a um educandário religioso. O retorno é de uso quase exclusivo dos moradores da rua.
O corpo estava num ponto do retorno em que a calçada forma uma reentrância junto à pedra. O saco plástico estendido sobre o corpo não era suficiente para cobrir a canela magra e o único pé, de cujo dedão pendia uma sandália havaiana gasta no calcanhar. As duas muletas haviam sido colocadas sobre o plástico para fazer peso.
O prédio mais próximo, grande e inadequado ao local, ficava a poucos metros de onde estava o corpo. As construções vizinhas eram mansões luxuosas que haviam resistido à escalada imobiliária. O garagista e o porteiro do prédio já haviam respondido às perguntas do policial da PM que atendera ao chamado. O garagista que encontrara o corpo esperava impaciente e curioso que aquele outro policial sem farda, que chegara em outro carro e que parecia mais importante que os anteriores, o chamasse. Mas no momento o homem estava mais interessado nos paralelepípedos, no meio-fio, em pequenas coisas que catava do chão e guardava em um saco plástico. Em seguida, o homem examinou os bolsos do morto, chegando a procurar alguma coisa por debaixo da camisa e por dentro da bermuda. Finalmente, pegou as muletas e examinou-as com o mesmo cuidado com que examinara a roupa. Se estava procurando alguma coisa, não encontrou. O homem já estava naquela busca havia quase uma hora quando chegou um carro, o mesmo que o deixara lá em cima, e dele saltaram dois homens também à paisana e com guarda-chuvas, que foram imediatamente cumprimentar o primeiro. Somente então olharam na direção dele, garagista, e foram ao seu encontro. O homem que antes catava coisas no chão falou:
- Bom-dia. Sou o delegado Espinosa, da 12a DP. Estes são o inspetor Ramiro e o detetive Welber. Como é o seu nome?
- Severino.
- Foi você que encontrou o corpo?
- Foi, sim senhor.
- Que hora era?
- Ainda estava escuro. Devia ser antes das cinco.
- E o que você foi fazer lá fora, no escuro e com chuva?
- Eu sou porteiro noturno e também garagista. Lavo e manobro os carros. Quando a garagem está cheia eu tenho que tirar um ou dois carros e colocar lá fora, para poder arrumar os outros de acordo com a hora de saída. Foi quando eu tirei o primeiro carro e fui deixar lá fora que o farol iluminou o corpo caído no chão. Achei logo que estava morto. Com aquela chuva, se fosse bebedeira, ele tinha acordado.
- E você foi verificar se ele estava morto mesmo?
- Deixei o farol do carro aceso e fui a pé. A chuva tinha espalhado o sangue, mas dava pra ver o buraco no meio do peito. Voltei e telefonei pra polícia.
- Não tocou no corpo?
- Não senhor.
- Enquanto você estava lavando os carros, não ouviu barulho de tiro ou barulho de carro manobrando na rua?
- Chovia muito, tinha trovoada, e eu não saí da garagem até a hora de manobrar os carros.
- Tinha mais alguém com você na garagem?
- Não senhor.
- Você conhecia o morto?
- Já tinha visto ele, mas não sei quem é. Reconheci por causa da perna...
- Sabe o que ele fazia aqui em cima?
- Acho que o pessoal do clube dá um prato de comida pra ele no fim do dia.
- Que clube?
- O clube Horizonte. Fica logo ali, depois daquele prédio, perto da curva.
- Quer dizer que todo dia ele subia essa ladeira com uma perna só? Até com chuva?
Estavam conversando na porta da garagem do prédio, e Severino a todo momento olhava para dentro ao mesmo tempo que torcia nas mãos o pano com que enxugava os carros.
- Você está preocupado com alguma coisa? - perguntou Espinosa.
- Não senhor. É que pode chegar algum morador querendo sair de carro.
- Está bem, Severino, obrigado pela sua ajuda. O detetive Welber vai anotar seu nome e telefone, para o caso de precisarmos falar com você novamente. Se você se lembrar de mais alguma coisa, aqui está o meu cartão, pode telefonar a qualquer hora.
A chuva tinha dado uma trégua e os três voltaram para junto do corpo. Espinosa fez um gesto amplo, apontando para o retorno:
- Vasculhei toda essa área, cada paralelepípedo, e não encontrei nenhuma cápsula - disse.
- O assassino pode ter usado um revólver, e não uma pistola.
- Ou então ele recolheu a cápsula deflagrada... O que não combina com o pessoal do tráfico, eles pouco se importam com esses detalhes; além do mais, raramente dão só um tiro. Daqui a pouco os moradores vão começar a sair para o trabalho, aproveitem para perguntar se eles viram ou ouviram alguma coisa, e voltem mais tarde para falar com os que ficaram em casa. Procurem os insones e os notívagos.
O carro da PM que atendera ao chamado do porteiro continuava estacionado junto ao meio-fio, as luzes do teto piscando, na frente do carro da 12a DP. Se algum outro carro viesse fazer o retorno, seu motorista teria dificuldade para manobrar na rua estreita, já que o cul-de-sac estava bloqueado com a fita amarela da polícia. Espinosa sabia que o corpo não seria removido antes do meio-dia, e que a perícia não teria muita coisa a fazer no local - a chuva que caíra forte durante toda a noite lavara a cena do crime.
Vejo vocês na delegacia. Fiquem com o carro. Quero voltar a pé.
[...]

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