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Companhia das Letras
LEILA DINIZ
Joaquim Ferreira dos Santos



1.


Nasce uma estrela carioca e ela está em sua primeira exibição pública, aos três anos de idade - na santa inocência de quem desconhece que a cena décadas mais tarde abriria sua biografa -, sapateando em cima do banco do bonde no trajeto entre Copacabana e o Tabuleiro da Baiana. Era o Carnaval de 1948, e a família Roque Diniz estava toda a caráter, fantasiada com os disparates apropriados ao momo da cidade. O pai, Newton Diniz, militante comunista que acabara de sair da prisão do general-presidente Eurico Gaspar Dutra, empunhava um pandeiro. Ao mesmo tempo que saudava a liberdade, ele dava o ritmo para que a filha caçula, Leila Roque Diniz, evoluísse com graça no primeiro show público de que a família tem lembrança no currículo da futura atriz.
O bonde 13 tinha saído do bar Vinte, em Ipanema, atravessado toda a Visconde de Pirajá e apanhado no ponto da Francisco Sá o bloco dos Roque Diniz, moradores na Bulhões de Carvalho. O bonde era um baile de Carnaval sobre rodas. Na traseira, onde não havia bancos, vinham os batuqueiros, quase todos negões parrudos fantasiados de mulher ou de bebê chorão. Eli Roque Diniz, a irmã mais velha, adorava o trajeto longo do bonde. Ele em seguida passaria pela Nossa Senhora de Copacabana, entraria no túnel do Leme, pegaria a Marquês de Abrantes, cruzaria o Catete e chegaria ao Tabuleiro da Baiana, no largo da Carioca, tudo isso sob a maior batucada. Levava-se cerca de meia hora, tempo suficiente para ver pela janela, sentir nos ouvidos e perceber pelos arrepios na pele que estavam todos no paraíso da graça carioca. O Rio da Zona Sul, vestido de capital federal, sem explosão imobiliária, é charme puro na ante-sala dos anos dourados. A população carioca aproximava-se de, incríveis!, 2 milhões de pessoas.
O país vive seu pós-guerra com o estilo chocho de Dutra. Ele fechara os cassinos havia dois anos, mas pôs no ar uma Constituição nova. Não chegava a ser uma democracia, mas não era a ditadura de Vargas sob o Estado Novo.
Depois de dois anos em atividade, o Partido Comunista voltara a ser clandestino em 1947.
Dercy Gonçalves mata de rir nas revistas da praça Tiradentes com Tem gato na tuba.
Nas chanchadas da Atlântida, Oscarito é rei com E o mundo se diverte.
Respirava-se melhor.
Na Zona Sul, a classe média ainda não disputava espaço com vizinhos favelados e fanava sem tensões pelas ruas. O Rio deixava de lado seu desenho imperial, fechado em torno do Centro, e começava a descobrir sua vocação praieira.
No Carnaval que no momento se está pulando, borrifando-se lança-perfume para todo lado, os maiores sucessos são "É com esse que eu vou", de Pedro Caetano, "Falta um zero no meu ordenado", de Ary Barroso e Benedito Lacerda, "A mulata é a tal", de João de Barro e Antonio Almeida - mais a marchinha que a pequena heroína canta em cima do banco do bonde, segundo a delicada memória de sua irmã mais velha.
A socióloga Eli, conhecida como Baby, também sambista em cima do banco, cantarolando o samba gravado por Aracy de Almeida, conta:

Eu me lembro que a Leila estava muito feliz com aquela bagunça, linda, cantando o "Não me diga adeus". Ela era bem pequena e nesse Carnaval estava fantasiada de baiana. Eu me lembro dela com um jeito assim de Carmen Miranda. Não que ela estivesse imitando. Era aquela coisa com as mãos, assim, dançando. Sei que juntou gente em volta e tudo se passou como se fosse um espetáculo, papai com o pandeiro, a gente cantando e a Leila dançando. Foi uma cena marcante, a primeira que eu me lembro da Leila numa encenação artística.

Nasce uma estrela que vinte anos depois voltaria a se vestir como a mesma Carmen Miranda, brincaria de revirar as mãos e adotaria o teatro rebolado como uma das facetas mais típicas de sua revolucionária exposição pública de alegria. Fazia muito barulho no bonde. Caso contrário daria para ouvir um bando de anjos que levantam as asas na grande escadaria da vida e, reproduzindo a cena clássica das revistas musicais, todos juntos gritam o "oba" de praxe.
Respeitável público, o espetáculo começava.


Leila Roque Diniz nasceu no dia 25 de março de 1945 em Icaraí, Niterói. O pai, bancário, era flho de um maranhense pobre, que chegou a oficial de Marinha no Rio, com Carlota, filha de um dono de quitanda no largo do Machado. A mãe de Leila, Ernestina, nascida no Espírito Santo, tinha umaorigem social um pouco melhor. Filha do meio entre sete irmãos, trabalhava como professora de educação física. Newton conheceu Ernestina ao ser transferido para uma agência do Banco do Brasil em Vitória. Precipitaram-se nas preliminares da exaltação romântica. Em poucos meses de namoro, em 1938, para escândalo da sociedade capixaba, ela já punha barriga do primeiro flho, Elio. Para fugir das pressões morais, mudaram de cenário. Em 1939, transferido para uma agência do Rio e morando de favor na casa dos pais, no subúrbio de Cavalcanti, Newton vê nascer o segundo filho, a menina Eli.
Leila seria a terceira. Nasceu num lar já praticamente desfeito pelo desgaste da vida conjugal, pelo fato de Ernestina não trabalhar mais como professora e também não se conformar com os serviços de dona-de-casa. Newton, por sua vez, entrara naquela fase de não ter hora para chegar. Fim de caso clássico. Foi uma gravidez marcada por esses sentimentos contraditórios. De um lado, Ernestina carregava a esperança de uma nova vida que nascia; de outro, vivia a constatação, quase certeza, de que logo seria abandonada pelo marido. Não deu outra. Após o nascimento de Leila, a mãe entrou em depressão. Passou a se alimentar mal, dormir pouco, misturar a inevitável mamadeira de estresse e ansiedade. Acabou contraindo uma grave doença para a época, estigmatizada pela sociedade que não sabia direito como enfrentá-la. Ficou tuberculosa. Desgraça pouca é bobagem, e ela veio toda de uma vez. Ao mesmo tempo que Newton confirmava a separação, Ernestina seguia para um sanatório em Correias para cuidar da doença.
A família deu um tempo.
Leila estava com sete meses, e o patriarca Diniz mandou-a para a casa dos avós no subúrbio de Cavalcanti. A menina ganhava, com poucos meses de vida, sua segunda mãe. Haveria outras. Muitas. Elio, com seis anos, e Eli, com cinco, foram internados no colégio Batista, na Tijuca, onde permaneceram durante seis meses sem receber a visita de ninguém. Newton Diniz, por sua vez, concedeu-se o asilo numa pensão do Catete. Ficou cada um para o seu lado, como se a reavaliar conscientemente a relação familiar, mas era só precariedade mesmo. Grana curta. Os filhos mais velhos, trancados no internato, não tinham noção do que acontecera para, de repente, estarem separados de pai e mãe.
"Não se dava muita explicação às crianças. Meu pai, sendo do Partido Comunista, tinha aquela formação ainda muito dura", diz Eli. "Não tinha apego às coisas materiais e isso se projetava no plano pessoal num certo ascetismo que sufocava os sentimentos. A emoção não tinha razão de ser na visão dele. O que contava eram as idéias. Era muito racionalista." Seu Diniz chegou a ser um líder bancário importante no Banco do Brasil, capaz de discursos empolgantes, e foi por causa de um desses que ganhou o interesse de Ernestina.
Estava no Partido Comunista desde o início da década de 40. Em 1945, quando Leila nasceu e o mundo era ventilado pelos ares democráticos soprados com o fm da guerra, o pc havia sido liberado para concorrer às eleições. Em 1947, voltou-se atrás. Diniz foi preso por dois meses - pego dentro de um ônibus, debaixo de muita pancada -, bem como centenas de outros comunistas.
Suas crenças ideológicas ajudaram a balançar o berço da criação dos flhos. Eli lembra de ter ido a uma festa em Campo Grande, no estado do Rio, para homenagear o grande líder Luís Carlos Prestes, num dos momentos iniciais do governo Dutra, em que o partido estava na legalidade. "O Prestes pra mim era um mito, meu pai falava muito dele em casa e quando ele entrou na festa foi um delírio, com todas aquelas bandeiras acenando com o símbolo da Rússia, a foice e o martelo, e a multidão gritando 'Prestes, Prestes'", diz. Leila, apenas uma criança de colo, foi junto. Já era chamada na intimidade, graças ao apelo comunista na família, de Leiluska. Lembraria mais tarde de ter dormido sob a mesa de
reuniões de bancários.
Na estante do quarto dos filhos, seu Diniz colocou de presente uma coleção do Romance do povo, editada pelo partido.
Dos pais clássicos, os filhos lembram para sempre de ex-pressões como: "Tanta criança lá fora passando fome" (para criticar quando alguém deixa comida no prato) ou: "Alguém aqui é sócio da Light" (para reclamar que a luz de algum cômodo vazio está acesa). Os filhos do comunista Diniz lembrariam para sempre de frases-discursos do pai:

- Tira-se do homem a liberdade, tira-se dele a vida.
- Dizem que violentas são as águas dos rios; mais violentas são as margens.
- A sociedade burguesa não está com nada.

Na escola, eles tinham autorização para sair da sala quando a matéria era religião. Se perguntados sobre que credo professavam, respondiam: "Israelitas" ou "Protestantes", ou, quando mais seguros, "Nada". Na casa dos Diniz, nunca se disse que Deus criou qualquer coisa. Leila chegou a contar que se sentia "diferente" por não participar dos mesmos rituais dos amiguinhos. Religião ali era o velho e clássico "ópio do povo" dos manuais marxistas. De jeito nenhum se vivia numa típica família classe-média de Copacabana.
Eli relata:

Papai mostrava muito orgulho em se dizer materialista. O que contava eram as idéias. Totalmente racionalista. Na nossa casa, passava-se o Natal como um dia qualquer. Tudo era irrelevante para ele. O importante era a liberdade do povo, a luta contra a exploração, essas coisas. Os valores invertiam-se. Falar de Deus era pecado, mas de sexo não. Eu sentia que algumas mães não gostavam muito que a gente freqüentasse a casa delas.

O capítulo seguinte da saga da família Diniz ocorreria quando Leila estava se aproximando dos dois anos. Newton passa a morar com a professora Isaura da Costa Neves em Copacabana, na rua Bulhões de Carvalho, e convoca para o mesmo quarto-e-sala todos os filhos, que nesse momento já estavam reunidos na casa dos avós maternos em Cavalcanti. Não perca a contagem. Era a terceira mãe de Leila. Quase uma a cada ano de vida.
Isaura apaixonara-se por Diniz ao vê-lo discursando numa manifestação do Partido Comunista. Cinco anos mais velha, sabendo-o com três filhos e ainda não desquitado da mulher - mesmo informada de todo esse típico perfil do "homem-roubada", Isaura topou resolver o problema. Era mais um quesito no sentimento de se achar "diferente" que atingia as crianças não católicas e não apegadas aos brinquedos. Viveriam num lar em que o homem e a mulher não eram casados oficialmente. Isso em 1948 era estigma violento.
Imediatamente surgiram os primeiros frutos da aposta: em 1949 nascia Regina, e em 52, Lígia. Agora eram cinco crianças, e o casal mudou para um apartamento um pouco maior, meia dúzia de quarteirões adiante, na rua Anita Garibaldi, 80, no aconchegante Bairro Peixoto, um quase-subúrbio dentro da confusão que já começava a se instaurar em Copacabana.
As crianças desciam a rua em grupo e, adultas, ainda carregariam lembranças das casas bonitas com jardins da Figueiredo Magalhães, alguns com tartarugas expostas. Paravam horas para olhar os formigueiros na esquina com a Nossa Senhora de Copacabana. Quando chegavam na areia, já estavam com a manhã ganha. Leila aprendeu a nadar muito cedo, na praia, e a vida inteira faria daquele hábito uma das suas cenas mais familiares e identificadoras. Em Todas as mulheres do mundo, seu filme mais importante, entra em cena no meio das ondas. Em Madona de cedro está nadando em alto-mar.
Nada também em Fome de amor.
Na praia da infância, os irmãos Diniz gostavam de ficar boiando em cima daquelas câmaras-de-ar de pneus.
Diante da televisão, Leila viajava vendo o Teatrinho Trol, sucesso da TV Tupi. Diniz escalava degraus na hierarquia funcional do banco e, sem exageros, oferecia mais confortos à família. As crianças tinham bicicleta. Ele, um carro.
Foi pelos dez anos que Leila começou a escrever um diário, hábito que jamais largaria e que não tinha nenhum outro exemplo próximo na família. Parecia ser uma maneira particular de se entender. Ela dizia ver na silhueta do morro atrás de casa a figura de um urso sentado, que passou a chamar de Cherri. No diário, Leila usava Cherri como um interlocutor com quem desabafava seus sentimentos e a quem relatava as histórias cotidianas.
A imaginação começava a voar. Lígia, a caçula, lembra de morrer de rir ao ser ninada, e logo dormir feliz, por uma canção que Leila inventava e dizia mais ou menos assim:

Estava na janela
Fazendo pipi na panela
Quando chegou Clarabela
E eu disse assim pra ela
Clarabela, Clarabela
Tome esse caldinho
Tome, está quentinho
A tola tomou como uma rola
Num gole só
Nem esperou dizer três
Chorei de tanto rir
Ri de tanto chorar
Pois Clarabela tomou
Todo o xixi que eu fIz.

Ao fundo, no entanto, as relações familiares revelavam-se escandalosamente complicadas.
A professora Isaura, de gênio autoritário, explosiva, sempre aos gritos, distinguia as crianças com doações diferentes de carinho. Lígia e Regina, filhas dela, recebiam um tratamento especial. Aos outros, era dado menos. Elio, quando tinha catorze anos, comeu uma banana da cota de Regina. Depois de ser admoestado por Isaura, com direito a violência física e a um duelo de vassouras na cozinha, saiu de casa. Na mesma época, Eli, atormentada por vários problemas com Isaura, queixas de rejeição, também cai fora e segue o irmão. Vão morar com a mãe verdadeira, Ernestina, que, vista nas primeiras cenas entrando desenganada no sanatório para curar a tuberculose, agora reaparece na história, num apartamento em Santa Teresa. Ernestina ficou três anos esquecida pela família no sanatório de Correias. Cura-se da tuberculose, mas mostra-se bastante abalada emocionalmente. Ao contrário do ex-marido, comunista, vê Jesus em todos os cantos. Reza o dia inteiro, acende velas, usa véus e torna-se uma beata convicta, profundamente agradecida a Deus pelo milagre da cura.
Leila não podia reclamar das atenções da madrasta - mas havia um agravante que nem Nelson Rodrigues seria capaz de imaginar. Ela foi criada como se de fato fosse filha de
Isaura, já que era um bebê de sete meses quando Ernestina se internou. Tinha direito à sua cota de banana e a todos os carinhos. Foi dito a Leila que a mãe dela era Isaura. Os irmãos mais velhos receberam a recomendação de calar, e assim se fez. Leila viveu a ignorância da real maternidade até os dez anos, quando soube da verdade, contada por uma tia.
Pior.
Num determinado momento, Ernestina, que tinha se declarado incapaz por ser doente e assim abrira mão da guarda dos filhos, pediu permissão judicial para vê-los uma vez
por mês. De fato, ficara com a saúde prejudicada e instável emocionalmente. Era Jesus de um lado e uma folclórica hipocondria do outro. Fervia as maçãs que comia. Água, só depois
de filtrada por três filtros. Nada disso a impediu, no entanto, de ser aprovada num concurso para funcionária do Ministério da Fazenda. Conseguida a autorização para ver os filhos, lá ia seu Diniz com Leila, Elio e Eli reencontrar Ernestina, depois de anos sem se verem. Os encontros eram num banco do Passeio Público, no Centro do Rio. Com um detalhe. Elio e Eli sabiam que estavam falando com a mãe. Leila, uns nove anos, julgava-se apenas uma observadora da história alheia.
Eli conta:

Havia uma interdição para que a gente não revelasse nada a ela. Não se pronunciava o nome da nossa mãe. Não havia retrato dela em casa. Sabíamos que isso causava a cara feia da Isaura e que meu pai acatava as caras feias. A Leila foi criada nessa ilusão de ser filha dela, um teatro do qual nós participamos com medo de perder nosso pai e todo o amparo que aquela estrutura familiar nos dava.

Os encontros no banco do Passeio não passaram de meia dúzia. A própria Ernestina, talvez pelo artificialismo da coisa, desistiu deles.
Aos dez anos, a descoberta de mais uma mãe, agora a verdadeira, deixava Leila com a impressionante marca de quatro mães. A notícia, no início da adolescência, a deixou desorientada. Quer dizer que aquela mulher com quem se encontrara tempos antes no Passeio, e que agora novamente sumira, era a sua verdadeira mãe? Quer dizer que, mesmo trabalhando num Ministério, ela se declarava sem condições de saúde para ficar com os filhos? Quer dizer que Isaura mentira aquele tempo todo? Leila já andava com a pulga atrás da orelha. O clima da casa da Anita Garibaldi era de algum segredo reprimido. Um apê inteiro de não-ditos. Uma tensão infernal. No meio de brigas noturnas com a irascível Isaura, seu Diniz quebrava pratos na parede.
Décadas mais tarde, Elio faria uma ligação da trajetória artística de Leila, uma mulher libertária, com a infância sob o jugo de Isaura:
"O clima que ela instaurava era de muita opressão, e isso talvez tenha provocado na Leila uma necessidade de ser muito livre e nunca mais se deixar aprisionar por quem quer que fosse."
Os dois irmãos, Elio e Eli, que largaram o barco, encontravam o pai no trabalho ou em restaurantes, mas foram proibidos de voltar em casa - e deixaram as irmãs que lá ficaram
sem nenhuma notícia do que tinha acontecido com eles.
Por um lado, havia todos esses destroços.
Uma madrasta destrambelhada.
Um pai ligeiramente omisso.
Mentiras.
Uma bomba pronta para explodir o tempo todo no fundo do corredor.
Um dia Isaura reclamava com Regina que ela precisava estudar, numa balbúrdia histérica que se agravou quando Diniz, enlouquecido pela confusão, começou a bater a cabeça na parede. Isaura foi fazê-lo parar com a cena, colocou a própria cabeça na frente e levou uma cabeçada que lhe quebrou o nariz.
Por outro, nas horas boas, contabilizava-se um rescaldo razoável.
Seu Diniz era um homem informado, que lia e fazia pequenas pregações, com base nos acontecimentos do dia, sobre a necessidade de enfrentar as tais injustiças sociais e lutar pela
liberdade.
Isaura manifestava uma sexualidade extraordinariamente bem resolvida. Não falava de sexo com as crianças, mas tocava no corpo do marido com naturalidade na presença delas, e os dois se apalpavam e beijavam com uma sinceridade pré-pedagógica.
Lígia, que quarenta anos depois trabalharia com terapias artísticas e corporais, diz:

A minha mãe passava para a gente que ela tinha uma boa vida sexual, era bem comida. Nunca disse: "Sexo é bom", mas a cara era de uma mulher satisfeita. Pegava de brincadeira no peru do meu pai, fazia cosquinhas na barriga dele. O corpo dançava, não era uma mulher reprimida como a gente conhecia, aquele tipo que casa, tem os filhos e depois libera o marido para arrumar uma amante. Era uma família visceral e isso fez bem ao futuro de todas nós.

Leila, que anos mais tarde levaria ao país inteiro a sabedoria de usar o corpo como fonte de prazer e como manifesto de libertação feminina, pode ter sido grata à sinalização de
Isaura. De resto, saiu mesmo foi ao pai. Newton Diniz era o gente boa, agradável, sociável, sempre alegre e de bem com todo mundo. Muitas vezes de uma tolerância excessiva, o que o fazia engolir sapos demasiados, reprimir as emoções - e ir armazenando uma carga de frustração que, um dia, era inevitável, explodiria. Leila aprendeu com ele a arte da convivência e a contemporizar. Diante das confusões sobre suas mães, ficou arrasada com a mentira e em alguns momentos, para provocar, chamou a mãe adotiva apenas de Isaura. Nunca se soube direito como a ambigüidade em que foi jogada conduziu seu futuro. Percebeu, porém, que, ao contrário dos irmãos, abandonados pela própria mãe e depois pela mãe adotiva, ela teve um acúmulo de mães. Nunca foi a mais protegida e cercada de favores. Mas fez as contas - e absolveu Isaura.
"Mãe é quem cria, limpa o cocô", disse mais tarde.
Aos quinze anos, com o tumulto daqueles fatos radicalizado pelos hormônios da adolescência, Leila foi morar com Ernestina, em Santa Teresa, onde Eli e Elio estavam. A busca da mãe primeira não deu certo. "Ela é muito chata, reza o dia inteiro", concluiu - e voltou para Copacabana. Ficaria mais um pouco e tentaria outra vez a sorte com Ernestina, com o mesmo insucesso. Houve uma temporada na casa da tia Lucy, em Vila Isabel, e de Sonia, em Niterói. Marina, mãe de uma amiga, também lhe deu abrigo, num apartamento perto da Miguel Lemos, e era chamada de mãe Marina por Leila - que, graças a sua simpatia e alegria, morou ou passou noites seguidas na casa de muitas outras amigas do bairro. Não pararia mais a procura de um porto seguro. Foram muitas mães, não rejeitou nenhuma. Pelo contrário, passava a impressão de que quanto mais mães melhor.
Nas vésperas de um Dia das Mães, no final da década de 50, ela fez as contas:
"Caramba, vou ter que dar uns dez presentes!"

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