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Companhia das Letras
DO QUE É FEITO O PENSAMENTO
Steven Pinker



1.Palavras e mundos


No dia 11 de setembro de 2001, às 8h46, um avião seqüestrado chocou-se com a torre norte do World Trade Center em Nova York. Às 9h03, um segundo avião chocou-se com a torre sul. O inferno de chamas resultante fez com que os prédios desmoronassem, a torre sul depois de queimar por uma hora e dois minutos, a torre norte 23 minutos após o primeiro desabamento. Os ataques foram planejados por Osama bin Laden, líder da organização terrorista Al-Qaeda, que queria intimidar os Estados Unidos e forçá-los a pôr fim à sua presença militar na Arábia Saudita e ao apoio a Israel, e unir os muçulmanos nos preparativos para a retomada do califado.
O 11 de setembro, como os acontecimentos daquele dia são hoje chamados, destaca-se como o fato político e intelectual mais significativo do século XXI até agora. Deflagrou debates sobre uma grande variedade de temas: qual a melhor maneira de homenagear os mortos e revitalizar a lower Manhattan; se os ataques estão enraizados num fundamentalismo islâmico antigo ou numa agitação revolucionária moderna; o papel dos Estados Unidos no cenário mundial antes dos ataques e em resposta a eles; como equilibrar da melhor maneira possível a proteção contra o terrorismo e o respeito às liberdades civis.
Mas eu gostaria de explorar um debate menos conhecido desencadeado pelo11 de setembro. Exatamente quantos events [fatos] aconteceram em Nova York naquela manhã de setembro?
Pode-se argumentar que a resposta é um. Os ataques contra os prédios faziam parte de um único plano concebido na cabeça de um homem a serviço de uma agenda só. Eles se desenrolaram com um espaço de alguns minutos e alguns metros entre si, tendo como alvo partes de um complexo que tinha um único nome, um único design e um único dono. E deflagraram uma cadeia única de acontecimentos militares e políticos após sua ocorrência.
Ou é possível argumentar que a resposta é dois. A torre norte e a torre sul eram conjuntos distintos de vidro e aço separados por uma extensão de espaço, foram atingidas em momentos diferentes e deixaram de existir em momentos diferentes. O vídeo amador que mostrou o segundo avião se aproximando da torre sul enquanto a torre norte desprendia nuvens de fumaça torna a dualidade inequívoca: naqueles momentos aterrorizantes, um fato estava congelado no passado, e o outro agigantava-se no futuro. Um outro episódio naquele dia - um motim de passageiros que derrubou um terceiro avião seqüestrado antes que ele atingisse seu alvo em Washington - apresenta à imaginação a possibilidade de que uma ou outra torre pudesse ter sido poupada. Em cada um desses mundos possíveis um fato distinto aconteceu, portanto, em nosso mundo real, pode-se argumentar, deve haver um par de eventos, com a mesma certeza que um mais um é igual a dois.
A gravidade do 11 de setembro parece tornar toda essa discussão frívola, chegando à insolência. É uma questão de mera "semântica", como dizemos, com sua implicação de procurar pêlo em ovo, de discutir o número de anjos que podem dançar na cabeça de um alfinete. Mas este livro é sobre semântica, e eu não pediria sua atenção se não achasse que a relação da língua com nossos mundos interior e exterior é uma questão que tem fascínio intelectual e importância no mundo real.
Embora "importância" freqüentemente seja uma coisa difícil de quantificar, nesse caso posso dar um valor exato a ela: 3,5 bilhões de dólares. Esse foi o montante em disputa numa série de julgamentos para determinar o pagamento de seguro a Larry Silverstein, o arrendatário do terreno do World Trade Center. Silverstein tinha apólices de seguro que estipulavam um reembolso máximo para cada "evento" destrutivo. Se o 11 de setembro se constituísse de um único fato, ele receberia 3,5 bilhões de dólares. Se se constituísse de dois fatos, ele receberia 7 bilhões de dólares. Nos julgamentos, os advogados disputaram o sentido aplicável do termo event. Os advogados do arrendatário o definiram em termos físicos (dois desabamentos); os das seguradoras o definiram em termos mentais (uma trama). A semântica não tem nada de "mera"!
Nem o tema é intelectualmente insignificante. O debate sobre a cardinalidade do 11 de setembro não é sobre os fatos, ou seja, os eventos físicos e as ações humanas que aconteceram naquele dia. É verdade que essas coisas também poderiam ter sido questionadas: segundo várias teorias da conspiração, os prédios foram atingidos por mísseis americanos, ou demolidos por uma implosão controlada, numa trama concebida por neoconservadores norte-americanos, espiões israelenses ou uma quadrilha de psiquiatras. Mas, tirando os esquisitos de plantão, a maioria das pessoas concorda com os fatos. Onde elas divergem é na interpretação desses fatos: como o torvelinho da matéria no espaço deve ser concebido pela mente humana. Como veremos, as categorias dessa disputa permeiam os significados das palavras em nossa língua, porque permeiam a forma como representamos a realidade em nossa cabeça.
A semântica trata da relação das palavras com os pensamentos, mas também da relação das palavras com outras questões humanas. A semântica trata da relação das palavras com a realidade - o modo como os falantes se comprometem com uma compreensão comum da verdade, e o modo como seus pensamentos são ancorados em coisas e situações no mundo. Trata da relação das palavras com uma comunidade - como uma palavra nova, que surge num ato de criação por parte de um único falante, passa a evocar a mesma idéia no resto da população, de forma que as pessoas se entendam umas às outras quando a usam. Trata da relação das palavras com as emoções: o modo como as palavras não só indicam coisas, mas estão saturadas de sentimentos, que dotam as palavras de uma idéia de magia, tabu e pecado. E trata das palavras e das relações sociais - como as pessoas usam a linguagem não só para transferir idéias de cabeça para cabeça, mas para negociar o tipo de relacionamento que querem manter com seu parceiro de conversa.
Uma característica da mente que encontraremos várias vezes nestas páginas é que mesmo nossos conceitos mais abstratos são compreendidos em termos decenários concretos. Isso se aplica com força total ao tema que é objeto do próprio livro. Neste capítulo introdutório farei uma prévia de alguns dos tópicos do livro com vinhetas de jornais e da internet que só podem ser entendidas pela lente da semântica. Elas vêm de cada um dos mundos que se conectam às nossas palavras - os mundos do pensamento, da realidade, da comunidade, das emoções e das relações sociais.


PALAVRAS E PENSAMENTOS

Tomemos o pomo da discórdia do debate semântico mais caro do mundo, a discussão de 3,5 bilhões de dólares sobre o significado de "event". O que, exatamente, é um evento, um fato? Um evento é um período de tempo, e o tempo, segundo os físicos, é uma variável contínua - um fluxo cósmico inexorável, no mundo de Newton, ou uma quarta dimensão no hiperespaço contínuo, no de Einstein. Mas a mente humana esculpe esse tecido em pedaços independentes a que chamamos events. Onde a mente coloca as incisões? Às vezes, como ressaltaram os advogados do arrendatário do World Trade Center, o corte engloba a mudança de estado de um objeto, como o desabamento de um prédio. E às vezes, como ressaltaram os advogados das seguradoras, ele engloba o objetivo de um agente humano, como uma trama sendo executada. Na maioria das vezes, os círculos coincidem: um agente pretende fazer com que um objeto mude, a intenção do agente e o destino do objeto são acompanhados numa única linha temporal, e o momento da mudança marca a consumação da intenção.
O conteúdo conceitual por trás da linguagem em disputa é, por si só, como uma língua (idéia que ampliarei nos capítulos 2 e 3). Representa uma realidade análoga por unidades digitais, do tamanho de palavras (como "event"), e as combina em organizações com uma estrutura sintática, em vez de misturá-las como trapos dentro de um saco. É essencial para nossa compreensão do 11 de setembro, por exemplo, não apenas que Bin Laden tenha agido para prejudicar os Estados Unidos, e que o World Trade Center tenha sido destruído mais ou menos naquela época, mas que foi o ato de Bin Laden que causou a destruição. É a ligação causal entre a intenção de um homem específico e a mudança em um objeto específico que distingue a compreensão mais disseminada do 11 de setembro das teorias da conspiração. Lingüistas chamam o conjunto de conceitos e os esquemas que os combinam de "semântica conceitual". A semântica conceitual - a linguagem do pensamento - tem de ser diferente da linguagem em si, senão não teríamos para onde ir quando discutíssemos o que nossas palavras significam.
O fato de que interpretações rivais de um mesmo episódio possam desencadear um processo judicial extravagante evidencia que a natureza da realidade não dita a forma como a realidade é representada na cabeça das pessoas. A linguagem do pensamento nos permite enquadrar uma situação de maneiras diferentes e incompatíveis entre si. O desenrolar da história da manhã de 11 de setembro em Nova York pode ser pensado como um fato ou dois fatos, dependendo de como o descrevemos mentalmente para nós mesmos, o que por sua vez depende de no que escolhemos nos concentrar e o que escolhemos ignorar. E a capacidade de enquadrar um fato de formas auto-excludentes não é só motivo para ir aos tribunais, mas também é a fonte da riqueza da vida intelectual humana. Como veremos, ela proporciona o material para a criatividade científica e literária, para o humor e os trocadilhos, e para os dramas da vida social. E arma o cenário para inúmeras arenas de disputa humana. As pesquisas com células-tronco destroem uma bola de células ou um ser humano incipiente? A incursão militar norte-americana no Iraque é um caso de invasão de um país ou de libertação de um país? O aborto consiste em encerrar uma gravidez ou em matar uma criança? Impostos altos são uma forma de redistribuir a renda ou de confiscar receita? A medicina socializada é um programa para proteger a saúde dos cidadãos ou para expandir o poder do governo? Em todos esses debates, duas formas de enquadrar um fato são colocadas uma contra a outra, e os contendores lutam para mostrar que seu enquadramento é o mais adequado (critério que exploraremos no capítulo 5). Na última década, lingüistas proeminentes vêm orientando os democratas norte-americanos sobre como o Partido Republicano conseguiu, mais do que eles, fazer esse enquadramento nas últimas eleições, e sobre como eles podem retomar o controle da semântica do debate político, reenquadrando, por exemplo, taxes [impostos] como membership fees [anuidades/mensalidades] e activist judges [juízes ativistas] como freedom judges [juízes pela liberdade].
O debate sobre a cardinalidade do 11 de setembro ressalta um outro fato curioso sobre a linguagem do pensamento. Quando reflete sobre como contar os eventos daquele dia, pede que os trate como objetos que podem ser contabilizados, como uma pilha de fichas de pôquer. O debate sobre se houve um fato ou dois em Nova York naquele dia é como uma discussão sobre se há um item ou dois num caixa rápido de supermercado, como um par de tabletes de manteiga tirados de uma caixa de quatro, ou um par de toranjas vendidas a duas por um dólar. A semelhança na ambigüidade entre contabilizar objetos e contabilizar fatos é uma das muitas maneiras pelas quais o espaço e o tempo são tratados de modo equivalente na mente humana, bem antes de Einstein descrevê-los como equivalentes na realidade.
Como veremos no capítulo 4, a mente classifica a matéria em coisas individuais (como a sausage [uma lingüiça]) e em matéria contínua (como meat [carne]), e do mesmo jeito classifica o tempo em fatos individuais (como to cross the street [atravessar a rua]) e em atividades contínuas (como to stroll [passear]). Tanto com o espaço como com o tempo, o mesmo zoom mental que nos permite contar objetos ou eventos também nos permite ver ainda mais de perto do que cada um é feito. No espaço, podemos nos concentrar na composição material de um objeto (como quando dizemos I got sausage all over my shirt [Tenho lingüiça na minha blusa inteira]); no tempo, podemos nos concentrar numa atividade que compõe um evento (como quando dizemos She was crossing the street [Ela estava atravessando a rua]). Esse zoom cognitivo também permite que nos afastemos no espaço e vejamos uma coleção de objetos como um conjunto (como na diferença entre a pebble [um seixo] e gravel [cascalho]), e que nos afastemos no tempo e vejamos uma coleção de eventos como uma iteração (como na diferença entre hit the nail [bater num prego] e pound the nail [martelar um prego]). E no tempo, assim como no espaço, mentalmente colocamos uma entidade num certo local e então a movimentamos: podemos move a meeting from 3:00 to 4:00 [transferir uma reunião das 15h para as 16h] da mesma maneira como podemos move a car [mover um carro] do começo até o fim de um quarteirão. Por falar em fim, até algumas das minúcias de nossa geometria mental se transportam do espaço para o tempo. O end of a string [a ponta/o fim de um cordão] é tecnicamente um ponto, mas podemos dizer Herb cut off the end off the string [Herb cortou fora a ponta/o fim do cordão], mostrando que o fim pode ser interpretado incluindo um penduricalho de matéria adjacente a ele. O mesmo acontece com o tempo: o end of a lecture [fim de uma palestra] é tecnicamente um instante, mas podemos dizer I'm going to give the end of my lecture now [Vou fazer agora o fim/a conclusão de minha palestra], interpretando o encerramento de um evento incluindo um pequeno período de tempo adjacente a ele.
Como veremos, a língua está repleta de metáforas implícitas como FATOS SÃO OBJETOS e TEMPO É ESPAÇO. O espaço, na verdade, revela-se um veículo conceitual não apenas para o tempo, mas para vários tipos de estados e circunstâncias. Assim como uma reunião pode move from 3:00 to 4:00 [mudar das 15h para as 16h], um semáforo pode go from green to red [ir/passar do verde para o vermelho], uma pessoa pode go from flipping burgers to running a corporation [ir/passar de balconista de lanchonete a diretor de empresa], e a economia pode go from bad to worse [ir de mal a pior]. A metáfora está tão disseminada na língua que é difícil encontrar expressões para idéias abstratas que não sejam metafóricas. O que a concretude da linguagem diz sobre o pensamento humano? Ela implica que mesmo nossos conceitos mais etéreos são representados na mente como pedaços de matéria que mudamos de lugar num palco mental? Ela indica que afirmações rivais sobre o mundo nunca podem ser verdadeiras ou falsas, mas apenas metáforas excludentes entre si que enquadram a situação de modos diferentes? Essas são as obsessões do capítulo 5.
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