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Companhia das Letras
50 CONTOS E 3 NOVELAS
Sérgio Sant'Anna



No último minuto


CANAL 5 - É uma rebatida de defesa deles. A bola vem alta e cai para o Breno, nosso médio apoiador. Ele mata no peito, põe no chão e aí perde o domínio da pelota. Mas ninguém vai se lembrar disso: que a primeira falha foi do Breno. A bola fica, então, para o meia-armador deles, o Luiz Henrique. É o momento do desespero, o último minuto. Nós estamos jogando pelo empate e eles precisam da vitória. O placar é um a um. O Luiz Henrique lança a bola para a esquerda, num passe longo em profundidade. É um desses lançamentos de araque, na afobação de fim de jogo, só pra ver o que acontece. A bola vai com força demais, lá para o lado esquerdo. Mas o ponta deles acredita na jogada e bate o nosso lateral direito na corrida. Com a velocidade da bola, ela deve sair pela linha de fundo, longe do gol. Mas o ponta deles, o Canhotinho, é raçudo e vem na corrida, dando tudo o que pode. O nosso zagueiro direito ficou muito pra trás e o Canhotinho vem na maior correria. É nessa hora que eu grito para o Lula: "Vai nele, vai nele". Mas grito não se escuta na arquibancada nem na TV. E o Lula é o zagueiro central da seleção e, entre mim e ele, eles preferem me queimar. "Vai nele, vai nele", eu estou gritando, por precaução. Porque ninguém pode acreditar numa jogada dessas. E o Lula vai só pra garantir a saída da bola. Ele não entra duro no lance, não entra com fé. O Canhotinho chega já totalmente sem pernas, no fim daquele pique, mas ainda bate na bola de canhota, exatamente sobre a linha de fundo. E cai lá em cima dos fotógrafos.
É um chute rasteiro, um centro chocho, e eu grito: "Deixa". Eu fechei o ângulo direitinho e caio na bola. Eu sinto a bola nos meus braços e no peito. E sei que a torcida vai gritar e aplaudir, desabafando o nervosismo, naquele último ataque do jogo. Eu tenho a bola segura com firmeza contra o peito e, de repente, sinto aquele vazio no corpo. Eu estou agarrando o ar. A bola escapando e penetrando bem de mansinho no gol. A bola não chega nem a alcançar a rede; ela fica paradinha ali, depois da linha fatal. E eu pulo desesperadamente nela, puxando a bola lá de dentro. Mas é tarde demais, todo mundo já viu que foi gol. O estádio explode e é como se minha cabeça estourasse. Eu vejo e ouço aquilo tudo: o time deles se abraçando, a zoeira da multidão, os foguetes e o nosso time que parte pra cima do juiz, numa tentativa inútil de anular o gol. Eu ouço e vejo aquilo, mas é como se tudo estivesse muito longe de mim, sem nenhuma relação comigo.


EM CÂMERA LENTA - O ponta-esquerda deles, o Canhotinho, está tão longe da bola que parece impossível que consiga alcançá-la. O Tião, nosso zagueiro direito, até parou depois que foi batido na corrida. Ele fica olhando lá de longe, com as mãos nas cadeiras. E o Canhotinho corre. O passe foi tão longo que mesmo em videoteipe, já sabendo do jogo, a gente custa a se convencer que ele chegará a tempo de tocar na bola. Então me vem, agora, essa sensação absurda de que ainda pode acontecer tudo diferente, eu corrigir minha falha. Me dá vontade de gritar mais forte com o Lula ou sair eu mesmo do gol, qualquer coisa assim. Mas o Lula demora uma enormidade pra ir no Canhotinho. E, quando vai, é todo frouxo e displicente. E sai aquele chute fraquinho, inteiramente sem ângulo. A bola passa num espaço diminuto, entre o pé do Lula e a linha de fundo. E eu caio nela corretamente, como manda o figurino, o corpo todo protegendo a bola. A bola que vem de mansinho, em câmera lenta. Essa eu não deixo passar, eu não posso deixar passar.
Eu agarrei a bola, ela está segura nos meus braços e no meu peito. Nós vamos ser campeões. Eles param o teipe só pra mostrar isso: como eu estou tranqüilo com a bola. Nesse instante, nós ainda somos os campeões do Brasil. Mas eles põem o teipe de novo pra rodar, ainda mais lentamente do que antes. E a bola, como se tivesse força própria, escorrega num pequeno vão entre o meu peito e o braço. E rola devagarinho, chorando, pra dentro do gol. Aí eu dou aquele salto ridículo e puxo a bola outra vez. O comentarista diz que eu fui catar as penas do frango.


CANAL 3 - São vinte e dois minutos do primeiro tempo. Minha mulher senta ao meu lado e diz pra eu desligar a televisão e me esquecer daquilo tudo, "Amanhã é outro dia", ela diz. Amanhã é outro dia, eu penso. Eu vou sair na rua e ver meu retrato em todos os jornais dependurados nas bancas: eu me preparando pra defender aquele chute; eu com a bola nas mãos; eu com a bola perdida e já entrando no gol. Eu, o culpado da derrota. Eu, frangueiro, se não falarem o pior: que eu estava vendido.
Aos vinte e seis minutos, nós inauguramos o marcador. Nós estamos jogando pelo empate e ainda fazemos o primeiro gol. Eu estou praticando boas defesas e garantindo o placar da primeira etapa. Se a gente ganha o campeonato, posso até ir para a seleção. Porque goleiro é também questão de sorte, de estar em evidência. Você entra na onda, sai sempre nos jornais e acaba na seleção. Do contrário, pode agarrar até tijolada que eles não te convocam.
Terminou o primeiro tempo. Na minha entrevista com o locutor volante, eu digo que se Deus quiser nós garantiremos o um a zero e que se depender só de mim já estamos de faixa. Depois eu desço as escadas do vestiário, sob os aplausos da torcida. Eu aceno discretamente para os torcedores, que gritam um pouco cedo: "É campeão, é campeão".
Quando vai começar o segundo tempo, minha mulher aperta minha mão e fica me olhando assim meio de lado. Eu digo pra ela ir dormir. Não quero a piedade de ninguém. Então ela sai em silêncio da sala. Logo depois é a hora do pênalti. O Mateus dribla um e entra na área. O Lula vem e aterra ele por trás. Ninguém vai discutir esse pênalti, que foi claro mesmo. Isso é pior pra mim, porque lá no clube eles não terão nenhuma queixa contra o juiz e sobra tudo pro meu lado, a onda inteira.
Em pênalti, a gente escolhe o canto e agarra se tiver sorte. Eu pulo para o canto direito e o Jair chuta também no canto direito, mas com força demais e rasteiro e rente à trave. Um a um. São três minutos do período final e eu vou ter de fechar o gol por quarenta e dois minutos. O time deles, precisando da vitória, vai partir todo pra cima da gente. E nós com aquela tática suicida, recuando pra garantir o empate.
E eu fico lá, debaixo dos paus, por quarenta e um minutos. Eu estou pegando tudo e há aquela bola que eu agarro nos pés do Jair e aquela outra que eu espalmo pra córner, chutada pelo Canhotinho no ângulo. Mas disso tudo eles não vão se lembrar. Teria sido melhor pra mim que eu engolisse logo uma daquelas bolas difíceis. Eles comentariam que era indefensável. Mas eu estou defendendo tudo, numa das melhores atuações de minha carreira. Mas eles não vão nem querer saber. Se aquela última bola não entrasse, eles diriam que eu era o melhor goleiro do Brasil. Mas a bola entrou e eles dirão que eu sou frangueiro.
O tempo passando, minuto por minuto. Eu ouço aquele barulho todo da torcida e é incrível como a alegria pode se transformar em tristeza tão de repente. Eu penso, também, como a vida se decide às vezes num centímetro de espaço ou numa fração de segundo. E me volta aquela loucura, a sensação de poder modificar um destino já cumprido, fazer tudo diferente. Ir naquela bola de outro jeito, espalmá-la para córner, mesmo sem necessidade. Aquilo é bola pra agarrar firme, mas se eu ponho pra escanteio ninguém vai reclamar depois que a gente for campeão. Eles dirão que é nervosismo de final de campeonato, justificável até num grande goleiro. Jogar aquela bola pra escanteio.
O meia-armador deles, o Luiz Henrique, pega aquela sobra do Breno, aquele presente, e lança em profundidade para a ponta esquerda. Ele lança a bola pra ninguém. O Canhotinho é que vai de raçudo e teimoso. Naquela correria maluca dele. O lateral nosso ficou lá atrás, com a mão nas cadeiras. Ele não pensou nem em fazer uma falta. O Canhotinho corre tanto que parece que vai cair. Eu grito para o Lula: "Vai nele, vai nele". Ele vai, mas o centro partiu e passa entre o seu corpo e a linha de fundo. É um chute fraco e sem ângulo, mas eu vou espalmar a bola de qualquer jeito pra córner. Seguro morreu de velho. Mas eu caí na bola e me deitei sobre ela, em vez de jogá-la pra córner. Eu estou com a bola segura nos braços e no peito. Ela escorrega pra dentro do gol.


EM CÂMERA LENTA - O Canhotinho batendo de esquerda na bola, todo torto e já sem equilíbrio, para depois virar uma cambalhota no meio dos fotógrafos. A bola passando rente à linha de fundo. Eu caio, em câmera lenta, até com um certo estilo. Fazendo pose para os fotógrafos, como eles dizem nos jornais.
Teipe parado: Eu estou com a bola segura e escondida nos braços e sob o corpo.
Teipe rodando lentamente: A gente percebe, a princípio, apenas que a bola se deformou: ela parece um ovo, com a ponta aparecendo entre os meus braços. É como se a bola inchasse e por isso fosse se despregando do meu corpo e escorrendo mansamente pela grama. Até parar, caprichosamente, um pouco depois da linha fatal.


POR DETRÁS DO GOL - No meio daquele inferno todo, eu me viro pra trás e estou de cabeça baixa diante dos fotógrafos e cinegrafistas. Eu tenho vontade que o mundo desapareça ao meu redor. O mundo não desaparece. Eu cubro o rosto com as mãos e é assim que aquela câmera me focaliza. Eu cubro o rosto com as mãos aqui sentado diante do televisor, que me mostra cobrindo o rosto com as mãos lá dentro do gramado.


CANAL 8 - Eles abriram os microfones e a gente escuta nitidamente os gritos da nossa torcida: "É campeão, é campeão". Um grito que ecoará durante a noite inteira na cidade. Só que é a torcida adversária que irá comemorar. "É campeão, é campeão", o grito apenas mudando de um lado para o outro das arquibancadas. Um grito que se escuta até agora, aqui da sala, chegando da rua em meio aos foguetes. Chegando dos pontos mais diversos da cidade.
É uma rebatida da defesa deles, depois de um ataque inútil nosso. Mas ninguém responsabilizará os atacantes por não terem marcado mais gols. Eles responsabilizarão o goleiro.
É uma rebatida da defesa deles. A bola vem alta e cai com o Breno, que mata ela no peito e põe no terreno. Mas ele perde o controle do balão, que pára nos pés do Luiz Henrique. É o último minuto, a última oportunidade deles. O passe é executado imediatamente e sem muita consciência. Apenas uma esticada, forte demais, para a ponta esquerda. O Canhotinho bate o Tião na corrida e penetra velozmente no nosso campo, buscando aquela bola perdida. O Canhotinho vem numa carreira tal que, ao bater com o pé esquerdo na bola, em cima da linha, voa sobre os fotógrafos.
Eu gritei para o Lula: "Vai nele, vai nele". O Lula foi atrasado e meu grito não foi ouvido por mais ninguém. Eles nunca saberão que eu tentei.
A bola vem rasteira e fraca. É uma defesa que já pratiquei muitas vezes, todo goleiro já praticou. A gente cai, por reflexo, sobre a bola e protege ela no peito e nos braços e abaixa a cabeça. Porque pode aparecer algum atacante adversário, chutando tudo pela frente. É uma bola fácil. Eu tenho certeza que ela está segura, quando, na verdade, já escapou de minhas mãos e cruzou a linha de gol.


EM CÂMERA LENTA - Os movimentos do Canhotinho são descoordenados, naquela corrida lenta. Ele quase tropeça nas próprias pernas e já perdeu o equilíbrio quando bate o pé esquerdo na bola. O Lula quase fechou o ângulo de chute, mas deixou aquele pedacinho de terreno, entre ele e a linha de fundo. É por onde a bola passa. Aquela bola que vem rasteira, tão fraca e macia que parece, em câmera lenta, nunca chegar às minhas mãos. Aquela bola que finalmente chega e some sob o meu corpo. E que depois, como se por um capricho próprio, escapa de mim e vai mansamente para dentro da meta.
Eles voltam a câmera uma porção de vezes. Aquela bola que sai de dentro do gol e volta aos meus braços e daí ao Canhotinho e dele de volta ao Luiz Henrique. Aquela bola que sai de novo dos pés do Luiz Henrique e rola para a ponta esquerda e até a linha de fundo, onde o Canhotinho bate nela todo torto e de esquerda e daí aos meus braços e depois pra dentro do gol.
Eles repassam uma porção de vezes a jogada. É um gol importante, gol de conquista de campeonato. Como se tivesse sido marcado dezenas de vezes. Como se fosse repetir-se para sempre, igual a um pesadelo.
É uma rebatida da defesa deles. A bola vem alta e cai para o Breno, nosso médio apoiador. Ele mata ela no peito, põe no terreno e aí perde o domínio da bola. Ela sobra, então, para o meia-armador deles, o Luiz Henrique. O Luiz Henrique, no desespero, estende um passe forte e longo para a ponta esquerda. O Canhotinho acredita na jogada e parte na corrida...

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