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Companhia das Letras
HOMEM EM QUEDA
Don DeLillo



1.


Não era mais uma rua e sim um mundo, um tempo e um espaço de cinzas caindo e quase noite. Ele caminhava rumo ao norte por entre escombros e lama e havia gente correndo com uma toalha no rosto ou com o paletó cobrindo a cabeça. Levavam lenços apertados contra a boca. Levavam sapatos nas mãos, uma mulher com um sapato em cada mão passou por ele correndo. Corriam e caíam, alguns confusos e desajeitados, escombros despencando ao redor, e havia gente se abrigando embaixo dos carros.
O estrondo continuava no ar, o estrondo devastador da queda. O mundo era assim agora. Fumaça e cinzas se espalhavam pelas ruas e viravam as esquinas, surgiam de repente nas esquinas, marés sísmicas de fumaça, com papel de escritório em vôo rasante, folhas padronizadas de bordas cortantes, deslizando, em disparada, coisas sobrenaturais na escuridão matinal.
Ele estava de terno e levava uma pasta. Tinha vidro no cabelo e no rosto, glóbulos marmorizados de sangue e luz. Passou por uma placa de Breakfast Special, e lá vinham eles correndo, policiais e seguranças correndo, as mãos na culatra para manter as armas firmes.
Lá dentro as coisas estavam distantes e imóveis, lá onde
ele devia estar. Era assim por toda parte a seu redor, um carro meio submerso em escombros, janelas despedaçadas e ruídos saindo delas, vozes radiofônicas arranhando os destroços. Ele via pessoas correndo com água escorrendo delas, roupas e corpos encharcados por sprinklers. Havia sapatos abandonados
na rua, bolsas e laptops, um homem sentado na calçada tossindo sangue. Copos de papel desciam a rua quicando, uma visão estranha.
O mundo era isto também, vultos em janelas a trezentos metros de altura, caindo no espaço vazio, e o fedor de combustível pegando fogo, e o grito constante das sirenes no ar. O barulho estava em todos os lugares para onde eles corriam, sons estratificados a se acumularem a seu redor, e ele ao mesmo tempo se afastava e mergulhava no barulho.
Então apareceu uma outra coisa, fora de tudo isso, sem fazer parte disso, no alto. Ele a viu descendo. Uma camisa descia da fumaça lá em cima, uma camisa subia e planava na luz escassa e depois voltava a cair, em direção ao rio.
Eles corriam e então paravam, alguns, e ficavam a oscilar, tentando respirar o ar escaldante, e aqui e ali exclamações de espanto, xingamentos e gritos perdidos, e a nuvem de papéis no ar, contratos, currículos passando, fragmentos intactos de transações comerciais voando no vento.
Ele continuava a caminhar. Uns tinham parado de correr e outros se enfiavam nas transversais. Alguns andavam para trás, olhando para o centro de tudo, todas aquelas vidas estrebuchando lá, e coisas continuavam a despencar, objetos chamuscados deixando rastros de fogo.
Viu duas mulheres soluçando enquanto seguiam em marcha a ré, olhando para o que estava atrás dele, as duas de short de corrida, os rostos desabando.
Viu membros do grupo de tai chi do parque ali perto, parados com as mãos estendidas mais ou menos na altura do tórax, cotovelos dobrados, como se tudo aquilo, inclusive eles próprios, pudesse ser colocado num estado de suspensão.
Alguém saiu correndo de uma lanchonete e tentou lhe entregar uma garrafa de água. Era uma mulher com uma máscara antipoeira e um boné na cabeça, e ela recolheu a garrafa estendida e retirou a tampa e depois a colocou à sua frente de novo. Ele largou a pasta para pegá-la, vagamente se dando conta de que não estava usando o braço esquerdo, que fora obrigado a largar a pasta para poder pegar a garrafa. Três caminhonetes da polícia entraram na rua e seguiram a toda a velocidade em direção ao centro, sirenes ligadas. Ele fechou os olhos e bebeu, sentindo a água entrar em seu corpo e levar o pó e a fuligem junto com ela. A mulher olhava para ele. Disse algo que ele não ouviu e ele lhe devolveu a garrafa e pegou a pasta. Sentia um ressaibo de sangue após o gole prolongado de água.
Recomeçou a caminhada. Havia um carrinho de supermercado em pé e vazio. Atrás do carrinho vinha uma mulher, voltada para ele, com fita adesiva da polícia enrolada na cabeça e no rosto, a fita amarela de perigo usada para delimitar a cena de um crime. Os olhos dela eram faixas brancas finas na máscara de um amarelo vivo e ela agarrava com força a barra do carrinho e olhava para a fumaça, imóvel.
Depois de algum tempo ele ouviu o ruído da segunda queda. Atravessou a Canal Street e começou a ver as coisas por um ângulo, de algum modo, diferente. As coisas não pareciam ter a densidade normal, a rua de paralelepípedos, os edifícios de ferro fundido. Algo fundamental estava faltando naquelas coisas a seu redor. Elas estavam inacabadas, seja lá o que isso for. Não estavam sendo vistas, seja lá o que isso for, as vitrines, as plataformas de carregamento, as paredes pichadas. Talvez as coisas sejam assim quando não há ninguém para vê-las.
Ouviu o ruído da segunda queda, ou sentiu-o no ar trêmulo, a torre norte desabando, o som suave de vozes abismadas ao longe. Era ele caindo, a torre norte.
O céu ali estava mais claro e ele podia respirar com mais facilidade. Havia outros atrás dele, milhares, mais ao longe, uma massa compacta, gente emergindo da fumaça. Ele continuou andando até ser obrigado a parar. Veio de repente a percepção de que era impossível continuar andando.
Tentou dizer a si próprio que estava vivo, mas a idéia era obscura demais para ser apreendida. Não havia táxis, quase não havia nenhum trânsito, e então apareceu um furgão velho, Serviços de Eletricidade, Long Island City, e o furgão parou ao lado dele e o motorista pôs a cabeça na janela do passageiro e examinou o que viu, um homem emplumado de cinzas, matéria pulverizada, e lhe perguntou aonde ele queria ir. Foi só quando entrou no furgão e fechou a porta que compreendeu para onde estava indo desde o começo.

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