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Companhia das Letrinhas
BARATA!
Reinaldo Moraes



1

PARATY

Pegue uma barata, daquelas que vivem no esgoto e aparecem quando você menos espera para espiar a sua vida. Pegue um pai de tamanho mediano, uma boa mãe conservada em cremes hidratantes, saladas e caminhadas. Pegue também um irmão mais velho, um pouco chato às vezes, mas que sabe ser muito legal quando quer, o que nem sempre acontece. Ponha todo mundo de férias na mesma cidade do litoral brasileiro. Adicione uma simpática menina - eu!
E pronto, a história acaba de começar.
A cidade litorânea é Paraty, antiga de mais de três séculos, mas, graças ao turismo, tão bem conservada quanto a mamãe. Eu e minha família jantamos num restaurante de peixe, lula, caranguejo, camarão e... adivinha:
"BARATA!"
Foi o que várias pessoas exclamaram ao ver a bichinha. Mais magra que gorda, nem grande nem pequena. Parecia uma baratinha muito especial, eu nem sabia dizer direito por quê. Uma barata elegante desfilando sem pressa entre as mesas onde outras pessoas comiam. Acho que ela tinha jantado e estava indo embora.
O garçom, que vinha na direção contrária com uma bandeja cheia de copos e garrafas, viu a barata e partiu para o ataque. Percebi que a bichinha ainda não tinha reparado no garçom. Foi a minha vez de gritar:
"Cuidado!"
O garçom pensou que era com ele e parou, com o pé já erguido no ar, prestes a descer sobre a barata. Alertada pelo meu grito, a barata chispou dali antes que o pé do garçom caísse pesado no chão. Em seguida, ele correu atrás dela, sapateando feito um dançarino maluco. Foi engraçado, principalmente porque os copos e garrafas bimbalhavam na bandeja que ele segurava, ameaçando cair no chão.
Àquela altura eu já torcia com todas as minhas forças pela barata:
"Corre!", berrei.
"Cala a boca, sua anta!", replicou meu irmão, morrendo de vergonha da irmã que torcia por baratas.
Em volta, algumas pessoas riram, enquanto a barata fugiu porta afora, perseguida pelas patadas do garçom. Eu aplaudi entusiasmada. E o restaurante caiu na gargalhada. Meu irmão atirou um pedaço de pão em mim. E já ia atirar outro quando a mamãe interveio:
"Luan! Pode parar!"
O Lu me olhava feio. Mas nem liguei. Eu estava feliz com a fuga da barata. Seu único crime tinha sido dar o ar da graça bem na hora em que as pessoas estavam comendo. Vai ver estava com fome, a coitada, e sem dinheiro para jantar naquele restaurante bacana.

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