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Companhia das Letras
JANELA INDISCRETA
Cornell Woolrich



Eu não sabia seus nomes. Nunca ouvira suas vozes. Estritamente falando, não os conhecia nem de vista, pois seus rostos eram pequenos demais para adquirirem feições identificáveis àquela distância. No entanto, eu podia construir um cronograma de suas idas e vindas, de seus hábitos e atividades cotidianas. Eram os moradores das janelas à minha volta.
Claro, acho que era um pouco parecido com bisbilhotice, poderia até ser confundido com a concentração febril de um voyeur. Isso não era culpa minha, não era essa a questão. A questão era que, justamente naquela ocasião, meus movimentos estavam severamente limitados. Eu podia ir da janela para a cama, e ir da cama para a janela, mais nada. A janela, uma bay window, era a melhor atração do meu quarto, quando fazia calor. Não tinha uma tela protetora, assim eu precisava ficar ali sentado com a luz apagada, senão todos os insetos da vizinhança cairiam em cima de mim. Eu não conseguia dormir, porque estava acostumado a fazer muito exercício. Nunca adquiri o hábito de ler livros para afastar o tédio, por isso eu também não podia recorrer a esse expediente. Bem, o que eu ia fazer? Ficar ali sentado com os olhos bem fechados?
Só para citar alguns deles, ao acaso, bem na minha frente, nas janelas quadradas, havia um casal de jovens agitados, criançolas, ainda na adolescência, e recém-casados. Para eles, ficar em casa de noite era a morte. Estavam sempre tão apressados para sair, para ir sei lá aonde, que nunca se lembravam de apagar a luz. Não acho que isso tenha falhado nem uma vez durante todo o tempo que fiquei observando. Mas também nunca esqueciam completamente. Mais tarde, eu aprenderia a chamar isso de ação retardada, como vocês vão ver. Ele sempre voltava numa pressa louca, depois de uns cinco minutos, na certa vinha lá do meio da rua, e passava correndo pelos quartos, desligando os interruptores. Em seguida tropeçava e caía em cima de alguma coisa no escuro, antes de sair. Aqueles dois me faziam dar boas risadas por dentro.
No apartamento de baixo, as janelas já ficavam um pouco reduzidas por causa da perspectiva. Havia nesse prédio outra pessoa que também saía toda noite. Alguma coisa ali me deixava um pouco triste. Era uma mulher que morava com o filho, uma jovem viúva, imagino. Eu via a mulher pôr a criança para dormir, depois ela se debruçava sobre a criança e a beijava de um jeito melancólico. Diminuía a luz e ficava ali sentada, pintando os olhos e a boca. Em seguida saía de casa. Nunca voltava antes que a noite já tivesse quase terminado. Certa vez, eu ainda estava acordado, olhei e ela estava lá, sentada, imóvel, com a cabeça enterrada nos braços. Alguma coisa ali me deixava um pouco triste.


O terceiro apartamento para baixo não oferecia nenhuma visão interna, as janelas eram simples fendas, como aquelas ameias medievais, por causa do meu ângulo de visão. Isso nos leva para o prédio da ponta. Ali, voltava de novo a visão frontal, até o fundo, pois o prédio ficava em ângulo reto em relação ao resto, inclusive em relação ao meu, fechando o vão interno para onde davam as janelas dos fundos de todos aqueles prédios. Por uma das laterais da minha janela, eu conseguia enxergar lá dentro, tão livremente quanto se vê o interior de uma casa de bonecas, sem a parede de trás, e tudo tão pequeno quanto.
Era um prédio de apartamentos. Ao contrário do resto, ele foi construído originalmente assim, não foi dividido depois em apartamentos. Era dois andares mais alto do que os outros prédios e tinha saídas de emergência pelos fundos, para dar uma impressão de distinção. Mas era velho, obviamente não dava um grande lucro. Estava sendo reformado. Em vez de esvaziar o prédio inteiro durante a obra, estavam reformando um andar de cada vez, a fim de perder o menor número possível de aluguéis. Entre os seis apartamentos de fundo que ele deixava à mostra, o mais alto já tinha ficado pronto, mas não havia sido alugado. Estavam agora trabalhando no quinto andar, perturbando o sossego de todo mundo, em cima e embaixo da parte interna do prédio, com seus martelos e serras.
Eu tinha pena do casal do apartamento de baixo. Ficava imaginando como é que podiam agüentar, com toda aquela baderna em cima de suas cabeças. Para piorar ainda mais, a esposa sofria de alguma doença crônica; eu podia perceber isso, mesmo a distância, pela maneira apática como ela se movimentava lá dentro, sempre de roupão, sem trocar de roupa. Às vezes eu a via sentada perto da janela, segurando a cabeça. Eu me perguntava por que ele não chamava um médico para examinar a mulher, mas talvez não pudessem pagar. O homem parecia estar desempregado. Muitas vezes a luz do quarto deles ficava acesa até tarde por trás da persiana, como se ela não estivesse passando bem e o marido ficasse sentado ao seu lado. Numa noite, em especial, ele deve ter tido de ficar acordado junto da mulher a noite inteira, a luz ficou acesa até amanhecer. Não que eu tenha ficado olhando durante todo esse tempo. Mas a luz ainda estava acesa às três da madrugada, quando eu, enfim, me transferi da cadeira para a cama, para ver se eu mesmo conseguia dormir um pouco. E quando entendi que não conseguia dormir, e me arrastei de volta para a cadeira já ao raiar do dia, a luz estava espreitando palidamente por trás da persiana de cor castanha. Alguns minutos depois, com o primeiro alvor da manhã, a luz de repente diminuiu nas bordas da persiana, e logo em seguida, não aquela, mas a persiana de um dos outros quartos - pois todas estavam igualmente abaixadas - subiu e eu vi o homem ali parado, olhando para fora.
Ele tinha um cigarro na mão. Eu não podia ver o cigarro, mas podia adivinhar que era isso pelos pequenos solavancos nervosos e bruscos com que ele movia a mão até a boca, e pela névoa que eu via subir em volta da sua cabeça. Preocupado com a mulher, eu achei. Não o culpei por isso. Qualquer marido ficaria preocupado. Ela devia ter acabado de pegar no sono, depois de uma noite inteira de sofrimento. E então, mais ou menos uma hora depois, no máximo, ia começar de novo a barulhada de serrotes na madeira e a batida dos baldes em cima deles.
Bem, não era da minha conta, eu dizia para mim mesmo, mas na verdade era melhor que ele fosse embora dali. Se eu tivesse uma esposa doente nas minhas mãos...
Ele estava um pouco debruçado para fora, talvez uns três centímetros para além da janela; observava cuidadosamente os fundos de todos os prédios que davam para o vão quadrado que se estendia à sua frente. Mesmo a distância, dá para ver quando uma pessoa está olhando fixamente. Há alguma coisa na maneira como deixa a cabeça. E no entanto a sua observação não se fixava em nenhum ponto determinado, era um vagaroso movimento de varredura que percorreu primeiro o prédio em frente ao meu. Quando chegou ao fim dele, eu sabia que ia passar para o meu lado e fazer a volta por ali. Antes que isso acontecesse, recuei vários metros para dentro do meu quarto, a fim de deixar que o seu olhar passasse sem o risco de me ver. Eu não queria que ele pensasse que eu estava ali parado xeretando a vida dele. Ainda havia, no quarto, um resto suficiente da sombra azul noturna para evitar que eu chamasse a sua atenção.
Quando voltei para a minha posição original, um ou dois minutos depois, ele tinha ido embora. Havia levantado mais duas persianas. A do quarto de dormir continuava abaixada. Eu me perguntei vagamente por que ele lançara aquele curioso olhar abrangente, semicircular, dirigido a todas as janelas à sua volta. Numa hora como aquela, não havia ninguém em nenhuma delas. Não tinha importância, é claro. Era só um pequeno capricho, não combinava com o fato de ele estar preocupado ou abalado com a saúde da esposa. Quando a gente está preocupado ou abalado, há uma inquietação interior, a gente olha de um jeito vago e não presta atenção em nada em especial. Quando alguém olha para as janelas à sua volta, num grande arco, isso denota uma preocupação exterior, um interesse externo. As pessoas não são iguais umas às outras. Chamar essa discrepância de frívola é exagerar a sua importância. Só alguém como eu, ansioso, num vácuo de ociosidade completa, poderia notar tudo isso.
O apartamento continuou sem vida depois disso, até onde se podia avaliar por suas janelas. Ou o homem tinha ido embora ou também fora dormir. Três persianas continuaram na altura normal, aquela que encobria o quarto permanecia abaixada. Sam, o meu empregado diarista, chegou pouco depois, com os meus ovos e o jornal matutino, e com isso matei o tempo durante uma parte da manhã. Parei de pensar nas janelas dos outros e de olhar para elas.
O sol bateu enviesado num dos lados do quadrado oco durante a manhã inteira, depois virou para o outro lado, à tarde. Em seguida, começou a deslizar para baixo e a abandonar os dois lados por igual, e anoiteceu de novo - mais um dia se foi.
As luzes começaram a se acender em redor da área interna quadrangular. Aqui e ali, como uma caixa de ressonância, paredes refletiam sons, fragmentos de um programa de rádio muito alto. Quando a gente prestava bastante atenção, conseguia ouvir no meio do barulho um ruído de pratos, leve e distante. A cadeia de pequenos hábitos que compunham a vida deles começava a se desenrolar. Todos estavam presos nesses hábitos mais estreitamente do que a mais apertada camisa-de-força que um carcereiro poderia imaginar, embora todos se julgassem livres. Os dois jovens frenéticos davam suas fugas noturnas em busca de espaços amplos, esqueciam as luzes acesas, o rapaz voltava afobado aos trambolhões, apagava as luzes com um toque dos dedos e depois o apartamento deles ficava escuro até o fim da madrugada. A mulher punha o filho para dormir, inclinava-se tristonha por cima do berço, em seguida sentava-se num desespero pesado para pintar a boca de vermelho.
No apartamento do quarto andar, num ângulo reto com a comprida "rua" interna, as três persianas continuavam levantadas e a quarta persiana permanecera baixada até o fim, durante o dia inteiro. Eu não tinha me dado conta disso porque não prestara atenção especial nas janelas, nem havia pensado no assunto, até aquele momento. Meus olhos podiam pousar às vezes naquelas janelas durante o dia, mas meus pensamentos andavam longe. Foi só quando uma luz se acendeu de repente atrás de uma das persianas levantadas no cômodo da ponta, que era a cozinha deles, que me dei conta de que as persianas tinham ficado intactas durante todo o dia. Isso também trouxe à minha cabeça um outro pensamento, que não estava nela até então: eu não vira a mulher durante o dia inteiro. Não tinha visto nenhum sinal de vida dentro daquelas janelas, até aquele momento.
[...]

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